Vinte Linhas 385

«Lábio cortado» de Rui Almeida

Sabe-se (Erich Fromm) que o homem é o único animal para quem a própria existência é um problema do qual não pode fugir e que só ele pode solucionar pois só ele pode aborrecer-se, ficar descontente e sentir-se expulso do Paraíso. Este livro de Rui Almeida venceu o Prémio Manuel Alegre 2008 da Câmara Municipal de Águeda e reflecte sobre essa circunstância: «O homem que se olha ao espelho sabe / que vai morrer. Não sabe quando ou como / mas reconhece a finitude da vida / – da sua vida, de cada vida.»

Poeta jovem (n. 1972, Lisboa) Rui Almeida sabe que o corte («É o lábio cortado que molha o ventre») pode ser lido em sentidos vários – desde um corte real provocado pela escaramuça de um quotidiano de luta e hostilidade ao corte figurado entre duas maneiras de fazer poesia. De um lado a canção; do outro a reflexão. Sem esquecer a filosofia à volta do poema enquanto objecto: «À pequena raiz do poema / chega a memória como um centro / Algo mais do que o ruído metódico das sílabas / e desaba paulatinamente na mão / que molda a frase, pousada na caligrafia.»

Num primeiro livro o poeta fala sempre de si: «Esta coisa de estar parado a assistir a nada / consciente da cor de cada objecto à minha frente / enquanto a visibilidade se fecha dentro de um candeeiro». Um poema regista a violência como banalidade («Quando o mundo nos entra com violência / para dentro do peito soluçamos») mas outro poema já advoga o encontro e o amor: «Tudo será dito sem memória nem futuro / Sujeito à solidão das vagas / Porque só as pessoas se amam».

(Editora: Livro do Dia, Capa: Inês Ramos)

Nikadas

Laranjadas ácidas, corrosivas, venenosas. Se és um daqueles que ainda não sabe que a política de verdade foi uma estratégia inventada em Belém para afastar os socialistas corruptos (que andaram a encher-se com envelopes castanhos, 3 mil euros em cada um, à pala do Freeport) e proteger as pessoas decentes como o Dr. Dias Loureiro, prestigiado ex-conselheiro de Estado por escolha pessoal do Presidente (e consta haver 3 doentes nessas condições de ignorância em Portugal, dois deles por transmissão secundária), entra por tua conta e risco. Pode ser desconfortável, até causar um curto-circuito neuronal.

Ranhoso

João Pereira Coutinho é um dos mais histéricos representantes da direita ranhosa. Leia-se:

Traições

Tempos houve em que os intelectuais eram verdadeiros contra-poderes. Hoje, e depois da ‘traição’ de que falava Julien Benda, os intelectuais servem apenas para enfeitar os poderes. Basta olhar para o caso Miguel Vale de Almeida. Nos últimos anos, Vale de Almeida foi um crítico feroz do PS e da mediocridade dos seus deputados.

Agora, Vale de Almeida é candidato a deputado pelo partido que publicamente execrava. Como explicar a metamorfose? Alguns líricos garantem que o PS é tão pluralista que até convida quem violentamente o critica. Outros, mais cínicos, afirmam que é sempre bom ter um conhecido activista gay para contentar a esquerda e as minorias que tradicionalmente votam Bloco. Pessoalmente, é-me indiferente: na sua edificante amnésia, Vale de Almeida é sobretudo o exemplo do intelectual doméstico que o poder usa e abusa como adorno.

Não sei como irá evoluir a carreira deste publicista, mas sei que nele se encontra uma concepção decadente, mesmo antidemocrática, da cidadania. A sua cobardia não lhe permite assumir o cinismo bronco que exalta salivando. E acaba por ficar ainda mais transparente: Pessoalmente, é-me indiferente. Acredito.

Esta ideia, típica da direita ranhosa e da esquerda imbecil, de que não se pode pensar, só obedecer aos partidos outrora frequentados e aos seus actuais controleiros, causou reacções odiosas à corajosa decisão de Miguel Vale de Almeida. É ler o fel dos tiranetes e dos psicopatas, sempre prontos a castigar os que escolhem a liberdade.

A oposição é tão miserável que se criou uma situação inédita em Portugal: ser-se politicamente incorrecto, ser-se inovador, ser-se vanguardista equivale a apoiar o PS nas Legislativas para que se mantenha, prolongue, repita a actual liderança de Sócrates. Isto é, a continuidade é agora a única fonte de progresso por ausência de qualquer alternativa. É incrível, é verdadeiro e acabrunhante. E a situação só não se torna perigosa porque o PS é um sólido bastião do bom-senso político e do Estado de direito.

Portugal, como qualquer democracia, precisa de uma oposição ética e intelectualmente condigna com as suas responsabilidades governativas. Mas para tal tem de conseguir afastar os ranhosos e os imbecis. E isso parece cada vez mais improvável.

Vinte Linhas 384

«Chave de ignição» de Ruy Ventura

«Chave de ignição» (Editora Labirinto) é o mais recente livro de Ruy Ventura (n. 1973) e organiza-se entre dois pólos – Natureza e Cultura.

O ponto de partida é a Natureza: «O cabelo recolhe a temperatura / da terra. Dissolve tudo / neste caminho virado a poente. / a mão segura as asas. / tenta encontrar o sono, a respiração – da montanha – e uma gota de água. / em silêncio, tenta encontrar uma gota de água / para dissolver este sal / que vai queimando a carne – e essa memória.»

A viagem faz-se num mapa de citações literárias: José Régio, C. Ronald, Maria Gabriela Llansol, Fiama Hasse Pais Brandão e um texto do evangelho de São Lucas. Se juntarmos as palavras de Fernando Guimarães e Pedro Sena-Lino na contracapa, o prólogo de Gonçalo M. Tavares e o óleo da capa de Nuno de Matos Duarte, temos a provável chave de ignição para viajar neste livro.

Trata-se de uma viagem entre a Morte («sem voz, sem terra, sem sombra – estes ossos e / estes músculos limitam-se a fotografar / um tráfego de sombras e revelá-lo entre os poros / enegrecendo a pele, tornando roxas as unhas, encanecendo o cabelo, / eliminando-se assim as poucas palavras / que permitiriam atravessar a fronteira») e o Amor: «desenho no poema os recantos / dessa casa que habitamos / abro a porta quando menos espero / entro com a sede de quem viu nessa noite / o fogo devorando o sol e a alma / morro e ressuscito / como quem visita um santuário.»

Entre a Morte e o Amor, a viagem da Vida: «a árvore estabelece o eixo e o caminho».

Carolas da RTP, vamos lá marcar uma reunião e resolver este problema

A série Mad Men estreou ontem, sexta, na RTP 2. Há uns meses falei nela. Duas vezes.

Pois bem, há um problema grave na RTP e eu, magnânimo, estou disposto a reunir-me com os carolas. Alguém que tenha poder para dar um murro na mesa, um pontapé na cadeira, uma cabeçada na porta. Porque temos de resolver o problema. A série Mad Men é das melhores coisinhas que 3,7 mil milhões de anos de evolução criaram neste planeta. Apela a homens e mulheres por igual, conhecedores do meio ou ignorantes, cultos ou a caminho. É uma série que merece o horário nobre, seja lá o que for que isso ainda queira dizer. É prazer que não se quer mais largar, que dá que falar, que chama anunciantes, que dá dinheiro a ganhar a quem gastou dinheiro a comprar. E que fizeram os carolas da RTP? Estrearam-na no canal 2 na pior altura do ano. Na altura do refugo, das séries requentadas, dos enlatados fora de prazo, o mês de Julho. E nem sequer repetem durante a semana, quem não viu um episódio não o volta a ver. Mais valia que estreasse directamente na RTP Memória, sempre teria alguma dignidade. Que se passa? Quem é esta gente? Que cigarrinhos para rir, marados, andam a fumar? Estamos perante o equivalente a usar o space shutlle para viagens entre Lisboa e Almada. Se o Obama sabe disto deixa de nos falar. É a decisão mais estúpida na televisão portuguesa desde a interrupção do Pato com Laranja em 1983.

Marquem a reunião e eu prometo ajudar-vos a dar valor ao que trazem do estrangeiro, mas tem de ser à tarde. Nós, os autênticos mad men, raramente conseguimos ligar sujeitos à sua falta de predicados antes do meio-dia.

Flutuações do vácuo (o vácuo de quem estou a falar és tu, Pacheco)

Vou continuar a partir da Palmira: vazio absoluto. Ora, o vazio, mesmo se absoluto, não equivale ao nada. E é inegável que o Ponto Contraponto será alguma coisa. Mas o quê? Vácuo, a única realidade conforme ao conteúdo. Dois factos concorrem para a evidência: (i) a Física ensina existirem flutuações do vácuo, em que do nada surgem manifestações de energia; (ii) o autor é o mais entusiasta defensor da mais vácua liderança no PSD desde que há PSD ou memória das suas lideranças (até o Menezes conseguia ter superior densidade mental). Assim se desvenda a enigmática transmissão semanal de 15 a 20 minutos de inanidade quântica.

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Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

 

 

“Como sua cliente, só tenho a dizer-lhe que você é mas é uma puta de uma advogada”, vocifera, agressiva, a mulher irada na direcção de C. “Sim”, intrometo-me. “As palavras que usou são, efectivamente, correctas. A ordem é que não”, explico. “Ela é, na realidade, a advogada de uma puta”, finalizo.

Sermão da Campanha

Louçã disse que a crise consiste na existência do PS e PSD, responsáveis pelo situacionismo porque incapazes de governar. Disse que estes dois partidos são iguais nisso de não conhecerem o País. Disse que Sócrates agravou as condições da crise, aumentando o desemprego por ter reduzido o investimento público. Disse que o PS pratica um poder tentacular, dando como exemplo o contrato com a Mota-Engil para o terminal de Alcântara, o qual terá sido feito por influência de Jorge Coelho, e referindo uma cláusula relativa a fenómenos meteorológicos como prova de sua imoralidade, corrupção ou ilicitude. Disse que o PS ofendeu muitos eleitores socialistas quando atacou a escola pública, os trabalhadores e os funcionários públicos, tornando-se num partido irrecuperável. Disse que o PS ofereceu 70 milhões de euros à Mota-Engil só por causa da influência de Jorge Coelho. Disse que Portugal deve sair da Nato para acabar com a sua participação em assassinatos de inocentes. Disse que o Tratado de Lisboa é mau para a Europa. Disse três vezes que Sócrates disse estar contente consigo próprio. Disse que não se deve comprar armamento para as Forças Armadas. Disse que a política não se faz com negociações. Disse que António Costa quer a pobreza da cidade. Disse que o contrato com a Mota-Engil é parasitagem dos dinheiros públicos com a cumplicidade de António Costa. Disse que Jorge Coelho é igual a Dias Loureiro, Oliveira Costa e João Rendeiro. Disse que está preparado para ser primeiro-ministro, e que vê essa possibilidade crescer a cada acto eleitoral.

Louçã é o genuíno herdeiro de Cunhal, exibindo a mesma alucinação messiânica. Como Cunhal, não tem quem lhe possa suceder. Carvalhas provou isso espectacularmente. Porque os líderes que respiram fanatismo não se substituem, apodrecem ou tombam. Os serventuários apenas conseguem imitar, com resultados pífios, quando não trágicos. Mas Louçã é mais guloso do que Cunhal, o qual estava satisfeito com o impasse da Guerra Fria, com o adiamento da revolução sine die. Bastava-lhe assistir às paradas militares, contemplar os exércitos a desfilar com cartazes e palavras de ordem. Para Louçã é outro campeonato, o vento está de feição para a demagogia Pop, altamente sofisticada, que o BE aprendeu a fazer cada vez melhor. Ele vai tentar acabar com o capitalismo a partir de Portugal ou encher o papo a tentá-lo. Daí a sintonia com Alegre, outro messias da nova esquerda anti-Sócrates, o qual não descansa enquanto não percorrer o País vendo as estradas cheias de povo agitando bandeirinhas à sua passagem e agradecendo, humilde, o pleno emprego garantido pelo Estado.

Vinte Linhas 382

«As palavras poupadas» de Maria Judite de Carvalho

Alguém no dia 17 de Maio de 1963 comprou este livro e escreveu a tinta azul «de 1962» ao lado das palavras impressas «Prémio Camilo Castelo Branco». Folheio devagar as suas páginas e recordo com emoção o dia (já lá vão uns anitos) em que fiz parte o júri do 1º Prémio Nacional de Crónica instituído pela Associação Portuguesa de Escritores e patrocinada pela Câmara Municipal de Beja. Os outros elementos do júri eram a escritora Maria Regina Louro e o Dr. Cortez (do Instituto do Livro) e o prémio foi entregue me Beja na Biblioteca Pública local.

É um belo livro ainda hoje, passados tantos anos, conforme já na altura Óscar Lopes, Álvaro Salema, João Gaspar Simões e José Palla e Carmo tinham afirmado.

Um exemplo: «Aos amigos… Mas a que amigos? Fora sempre um doente e as crianças e os jovens não gostam de doentes. Pelo menos durante muito tempo. Cansam-se, irritam-se. E são extremamente cruéis. Por isso os detestava a todos. A todos.»

Lembrei-me também da Ana Teresa Pereira, escritora hoje de nome firmado mas que há vinte anos eu ajudei com a minha teimosia a descobrir no prémio Caminho Policial. Claro que não se sabia «quem» era mas foi o texto que me prendeu a atenção. Bati-me por ele e houve mais bolos secos e licores do que o habitual até que por fim lá surgiu o consenso.

As minhas intuições não me costumam deixar ficar mal. Ana Teresa Pereira pertence a uma geração diferente mas a verdade é que são dois casos aos quais estou ligado: num deles outorguei um prémio de consagração, noutro ajudei a descobrir um talento guardado numa gaveta de uma casa num Rua do Funchal.

Regrettable, luck is like life: it only lasts so long…

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O futuro do cinema está nisto: jogos digitais. Cada vez mais complexos, envolventes e artísticos. Não? Sim. Os filmes dos Lumière também nos parecem toscos, mas ao tempo já estavam cheios de promessas. E as palhaçadas que corriam nas nickelodeon não permitiam adivinhar o que se faria na Europa e Hollywood pouquíssimos anos depois. Começar com coboiadas não envergonha ninguém, como os franceses explicaram aos americanos nos anos 50.

Jamais

A direita* lançou um blogue colectivo para fazer campanha: Jamais. Reúne uma juliana de figuras do meio blogosférico, até lá está o Pacheco, e o primeiro texto podia ser o último. Porque aposto que ninguém será mais claro do que João Gonçalves, o qual revela só haver uma entidade que os liga: Sócrates. O projecto deste blogue começa e acaba em Sócrates, não tem mais nada no saco para vender.

Eles estão ali sem saberem quem devem defender, ou o quê, ou porquê, ou para quê. Eles estão ali apenas e só para falarem de Sócrates, do Governo, do PS e de uma legislatura histórica por méritos próprios e desafios extraordinários. No fundo, todos eles invejam o que foi alcançado, mesmo aquilo com o que não concordam, ou que não têm coragem de apoiar, sequer aceitar, publicamente. No fundo, eles adorariam que o chefe da direita em Portugal fosse Sócrates, e que no PS estivesse o abalozinho Manela a envergonhar o partido. Como o destino é madrasto, só lhes resta a coligação negativa. Até o PCP e BE seriam melhores do que Sócrates, dizem. E PCP e BE fazem coro: até a Manela e o Portas seriam preferíveis ao PS. Eis uma das maiores tragédias nacionais: a oposição ética e intelectualmente paupérrima que temos de suportar. É nosso dever castigá-la, sempre.

* Apoiante do PSD

Vinte Linhas 381

Os trambolhos do Centro Comercial

A incrível sucessão de comportamentos insólitos, absurdos e estúpidos para com duas jornalistas da «Gazeta das Caldas» num centro comercial da cidade termal, veio recordar-me uma cena parecida que me aconteceu em Santarém. Tratava-se de uma reportagem do jornal «O Mirante» sobre o facto de as pessoas nem sempre lerem os conteúdos dos rótulos das embalagens dos produtos alimentares e do perigo real que constituem os organismos geneticamente modificados. Estava eu com o meu camarada Fernando Vacas a falar com os clientes santarenos de um supermercado (ou centro comercial – já não recordo bem) enquanto estes guardavam o conteúdo dos sacos na bagageira do automóvel quando um «segurança» nos disse, algo alterado e nervoso, que «tinha ordens superiores» para nos afastar dali. Ao que respondemos que nada tínhamos com isso. Éramos pessoas livres a falar com pessoas livres no parque de estacionamento de uma superfície comercial. A sua «ordem» não nos dizia respeito. Foi a correr chamar um polícia de trânsito que, honra lhe seja feita, lhe virou as costas ostensivamente.

Outra coisa não merecia (merece) a estupidez assim elevada à quarta casa (arrogância, prepotência, delírio, alucinação).

O meu episódio aconteceu em 1998 à porta de um supermercado (ou centro comercial, não me lembro bem) em Santarém. Este episódio infeliz com as jornalistas da «Gazeta das Caldas» veio avivar uma memória já com onze anos. A vida dá muita volta mas só para os outros; para os trambolhos está sempre tudo na mesma. Os de Santarém que atacaram «O Mirante» voltaram a renascer nos que atacaram a «Gazeta das Caldas».

Re-Intermitência

 

 

 

 

“Sim, amor, recordo-me perfeitamente do dia do nosso casamento. Foi o mais feliz da minha vida. E foi, mais do que isso, aquele em que estava mais sóbrio e senhor de mim. Nunca estive tão certo do que tinha de fazer”, revelo, confissão sussurrada, a C. “Estava centrado, com a mente equilibrada, estranhamente sã, como há muito não estava. Sabia perfeitamente, e racionalmente, aquilo que queria”, acrescento, lembrança imparável. “E nem sequer aquele elefante voador que, durante alguns segundos, passou sobre nós, me distraiu da magia daquele momento”, finalizo, romantismo e ternura, entre beijos de paixão.

Vinte Linhas 380

Polícia Municipal – as patrulhas do vazio

Acabo de dar um pequeno passeio pelo Miradouro de São Pedro de Alcântara, seguramente um dos mais belos do Mundo. Nem Edimburgo, que tem um parecido, tem um panorama assim – com castelo, rio e cidade. Nem Bolonha, Veneza, Paris, Madrid, Bruxelas, Amesterdão, Londres ou Roterdão, cidades que recordo de imediato, se podem orgulhar de ter um miradouro assim. Duas turistas espanholas, expressivas e faladoras, salpicam os filhos com pingos de água da fonte enquanto a brisa de Lisboa ajuda à festa.

De repente surgem dois guardas da Polícia Municipal que formam a dois (parece o filme «A Quadrilha Selvagem» de Samuel Peckimpah) e avançam para o lado mais escuro do miradouro, o espaço onde não está a esplanada. Dito de outra maneira: os dois homens avançam para o esplendor do vazio. Eles patrulham uma ausência, um buraco escuro, uma não-coisa.

António Costa anunciou a sua candidatura à Câmara neste lugar. Com o café fechado e as cadeiras empilhadas e guardadas a cadeado, prova cabal e perfeita da incompetência da Câmara de Lisboa. Exigir 2.500 euros de renda num espaço onde isso é impossível de obter a vender cafés e pastéis de nata, só pode ser delírio, maldade ou incompetência. Aqueles dois homens a patrulharem o vazio nesta noite de domingo arrepiam-me. Vivo aqui desde Dezembro de 1976 e já sou mais do Bairro Alto do que da minha terra. Muitas vezes assobio a marcha «O Bairro Alto / Fidalgo e fanfarrão». Aqueles dois homens no vazio causado pela estupidez de alguém na Câmara dizem-me que em qualquer país civilizado um miradouro destes teria a sua esplanada sempre cheia de turistas.

Filho de gente pobre

Como os anos passam e trazem-nos à memória o tempo passado. Fez ontem dia 18-07-2009, 49 anos que iniciei a minha carreira como trabalhador numa fábrica de móveis. Fiz a 4.ª classe, antes oito dias. Era filho de uma família humilde com cinco filhos, àquela data, hoje tenho mais nove irmãos, sou o segundo filho mais velho e naquela altura o que nos esperava era tentar fazer a 4.ª classe porque o nosso destino estava traçado. Tanto valia ser inteligente, se fosse filho de gente pobre, sabia que tinha as fábricas de móveis à minha espera e ganhava 10 tostões por dia. Dinheiro esse que somado ao do pai e de uma irmã que era criada de servir num senhor Doutor em Santo Tirso, ajudava a minorar o equilíbrio quinzenal; nessa altura recebia-se à quinzena. Era um aluno média alta, mas como referi atrás as condições económicas não davam mais esperanças. Naquele tempo não havia liceus nas proximidades a não ser S. Tirso ou Guimarães. Hoje tudo é perto, antes era uma eternidade para lá chegar. A primeira vez que vi o mar foi num passeio da catequese, de borla, porque não tinha dinheiro para esse fim.

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Direitopatia

É uma doença do foro neuro-ético. Os neuréticos sofrem de alucinações políticas selectivas. Acreditam que Sócrates andou aos envelopes por causa do Freeport. Ia para hotéis, esplanadas e tascos sacar o caroço aos bifes. Picavam uns petiscos, bebiam umas bejecas, palitavam as favolas, coçavam os colhões, arrotavam, peidavam-se, riam alarvemente e passavam pequenos envelopes castanhos debaixo da mesa para que não ficassem salpicados pelo molho dos caracóis. Foi assim que Sócrates conseguiu comprar o tal apartamento aos mafiosos, embora com desconto mafioso, como a TVI, o Sol e o Zé Manel nos andaram a explicar ao longo de 9 meses. Ao mesmo tempo, os neuréticos não encontram nada de errado nos sucessivos negócios ruinosos onde o BPN se meteu, negócios que envolvem a fina-flor do PSD e subsistemas de poder onde o partido tem a sua base sociológica de apoio. Dizer que se está perante uma colossal máquina de lavagem de dinheiro, e que algum desse dinheiro pode estar relacionado com negócios de armas a uma escala internacional, e que esse banco era protegido por aqueles que sempre se insurgiram contra os limites impostos pelo Estado à sua actividade ou que a tudo assistiam caladinhos sabendo da tripa-forra, eis algo que não faz qualquer sentido adentro do quadro clínico da direitopatia.

Prognóstico muito reservado.

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

 

 

“Vem comigo para minha casa”, sussurro, depois de alguns minutos de sedução, a uma loira espampanante. “Vou mostrar-te o que é um homem de verdade”, acrescento, confiante. “Tinha ou não tinha razão”, pergunto-lhe, satisfeito, horas depois. E desligo, com o comando, o leitor de DVD através do qual, juntos, assistimos a mais uma sequela do “Rocky”.