Arco de pedra

Ao terceiro arco de pedra o teu olhar

É um volume nas estantes da livraria

Livro por abrir a tua idade é um lugar

A convocar um clarim que te anuncia

Aos trinta e sete anos a idade só existe

Para quem vive de costas para os dias

O teu tempo não é um relógio triste

A marcar uma sucessão de nostalgias

O tempo é o teu olhar, o teu sorriso

Que dá títulos a livros numa estante

O tempo é o teu perfil, belo e preciso

Definido pelo teu olhar de viajante

Viagens sem sair do mesmo espaço

Livraria que é também para navegar

Ao fim do dia não mostras o cansaço

Cada livro recebe a luz do teu olhar

Omertà

Marcelo Rebelo de Sousa é a figura mais prestigiada, e mais popular, do PSD. Agora que Cavaco exibe uma mediocridade política aviltante no último lugar onde o deveria fazer, confirmando a lógica que enformou tudo o que de pior teve o cavaquismo, é em Marcelo que reside a réstia de elevação, e sentido do bem comum, à direita. Por isso é popular, por transmitir a percepção de conservar valores mais altos do que os meramente relativos à luta partidária e ambições de poder. E por isso é presidenciável, promete ser capaz de unir os portugueses, ser imparcial por imperativo pátrio. O que diz, portanto, é de extrema importância para a compreensão da actualidade política.

Acontece que a sua tribuna semanal, As Escolhas de Marcelo, é um invariável tempo de antena dos interesses do PSD e de quem ele achar por bem favorecer. Nada de errado, são essas as regras do jogo, mas esquecer que Marcelo é cabrão prejudica a pleno entendimento das suas mensagens. Nesta última edição, abateu-se sobre os 17 minutos de paleio o esmagador silêncio quanto ao caso BPN e entrada na festa de mais um ministro de Cavaco, Arlindo de Carvalho. Como é óbvio, não interessa para nada, sem outras informações, a questão policial e legal, donde o Arlindo pode até sair imaculado. Mas, como óbvio é, há interesse político no facto, posto que se relaciona com o impacto que tal notícia pode ter na opinião pública em período eleitoral. Se o Freeeport tivesse este tipo de passarões arrolados, e não a arraia-miúda que tem aparecido, Marcelo não perderia a oportunidade para envenenar a audiência com o savoir faire (leia-se, com a chico-espertice projectada em Sócrates) que o mantém na ribalta da política-espectáculo desde finais dos anos 70. Ter imposto que o assunto não fosse sequer mencionado, dá conta de uma autocensura desabridamente sugestiva quanto aos melindres que a matéria causa em Belém e na Lapa.

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Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

 

 

Na empresa, importante reunião. Problema lançado, rostos cruzados, ideias perdidas. “Solução é comigo mesmo”, exulto. “Aqui vai. Espero que seja aquilo de que estavam à espera”, acrescento. E, em menos de um minuto, liberto, num movimento que se estende por largos, quase intermináveis, segundos, um enorme soluço.

Um livro por semana 127

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«Álbum de caricaturas» de Rafael Bordalo Pinheiro

Rafael Bordalo Pinheiro começou a fazer caricaturas no Calcanhar de Aquiles. Seguiu-se A Berlinda, O Binóculo, A Lanterna mágica, a Ilustración de Madrid, a Ilustración Española y Americana e a Illustrated London News. Este seu álbum intitulado «Frases e anexins da língua portuguesa» tem um prefácio de Júlio César Machado, escrito em 1876 no preciso tempo em que Bordalo estava no Brasil: «Correu um dia o boato de que ele era fraco em desenho e, não se fazendo nunca reparo disso a outros que nem desenho nem talento tinham, fizeram-no pagar amargamente a ele o que tinha em talento pelo que pudesse faltar-lhe um pouco em desenho. A insistência e obstinação desses boatos deriva quase sempre da vontade de inventar pretexto para rebaixar os créditos e abalar a estimação em que um homem de aptidão principia a ser tido. A inveja é talvez o único sentimento engenhoso dos portugueses: frouxos de imaginação para tudo mais, são, nesse ramos da sagacidade humana, vivos, espertos e intrépidos.» E conclui: «O caso é que o homem passava por ser aí muito querido e ninguém tratou de o auxiliar quando veio a ocasião disso. Fazem-se conselheiros, fazem-se deputados, fazem-se desta comissão e daquela e da outra, fazem-se medalhas mas não se fazem Rafaéis Bordalos».

(Editora Frenesi, Paginação e grafismo: Paulo da Costa Domingos e Telma Rodrigues)

Vinte Linhas 379

Ladrões de bicicletas ou O mais velho atleta dum pelotão triste

Encontrei por acaso na Ericeira a banhos o doutor Artur Lopes, médico e grande apaixonado do ciclismo – foi presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo. Falámos logo de Joaquim Agostinho e deste poema que vem também a propósito da Volta à França em bicicleta:

«O mais velho atleta dum pelotão triste

Escapa para além dos limites do poema

Um olhar profundo que teima e que resiste

Ladrões de bicicletas eram os do cinema

Como num filme ao contrário se revela

Na mesa vinte e quatro vezes por segundo

Espaço no armário para a camisola amarela

Que já não podes vestir neste outro mundo

E nas pistas do céu da nossa Estremadura

Há-de haver corridas muito bem organizadas

Para venceres com um sorriso de amargura

Longe do país, longe dos cães e das estradas»

Portugueses muito pequeninos

Na sexta-feira, Miguel Abrantes assinalou a ausência de qualquer notícia, na edição digital do Público desse dia, relativa à apresentação do Laboratório Ibérico de Nanotecnologia. No entanto, existem lá 4 matérias acerca do acontecimento, com as seguintes horas registadas: 08h52, 12h02, 12h06 e 23h58. Ora, também não me lembro de ver alguma delas destacadas na coluna central, a qual esteve entregue à polémica sanguinolenta, às ameaças da FENPROF e, principalmente, a uma notícia da concorrência, Sol, onde se antecipava que era desta que Sócrates e quadrilha iriam ser apanhados a roubar à beira-rio. Vamos excluir a última notícia, lançada à meia-noite, e ficam 3 que foram enfiadas no armazém ao longo do dia, não mereceram estar na montra. Também nenhuma chamada se fez na barra superior para o P&R, nem se elaborou um Dossier. Tendo em conta que nesse dia se reuniram, e no território nacional, o Presidente da República Portuguesa, o Rei de Espanha e os chefes dos Governos peninsulares, talvez algo importante se estivesse a passar. Mas não para o nova política editorial inventada pelo Zé Manel: o jornalismo de auto-referência.

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Gazeta 190

ESTRADA DE MACADAME

CXC – «As cavacas do Gato Preto estão na minha vida há mais de 50 anos»

Desde o tempo da «estrada de macadame» que me habituei a ver o meu avô ou a minha avó de Santa Catarina a chegarem das Caldas com um embrulho de cavacas do Gato Preto. Se o calor as fazia duras derramava-se um cálice de vinho abafado ou, em alternativa, do vinho comum. Quando fiz os exames da terceira e da quarta classe na Escola Primária ali ao pé do Parque em Abril e em Julho de 1961, tive um fato do Chiado como prenda mas as cavacas do Gato Preto nem foram prenda porque já estavam destinadas ao aluno que «ficou bem», ainda antes de o exame começar. No dia do Pai de 2009 fui às Caldas, passei pela Livraria 107 e pelo Gato Preto, passei pela redacção da Gazeta e fui almoçar com o meu pai às Cruzes. O dia estava correr bem. Falei com os meus três filhos e ao fim da tarde a ASAE estragou-me o dia. Parei na Associação Cultural e Recreativa de São Salvador e Espinheira para tomar um café e vi as pessoas muito tristes. Tinha sido a ASAE que os tinha multado por não terem livro de reclamações. Repare-se que nem sequer puseram a hipótese de dar 8 dias ou 15 para eles procurarem arranjar um livro de reclamações. Foi logo multa para cima do pessoal. Ora a ASAE, que é uma coisa assim como os fogos florestais (queima tudo à sua volta) nem sequer considerou que aquele café pertence a uma associação (fundada em 1-5-1974) que ajuda os idosos e as crianças numa povoação que tem 180 habitantes. Além do mais, tratando-se de um associação cultural e recreativa, está sempre presente um elemento da direcção da colectividade o que faz com que qualquer possível problema seja resolvido in loco e em pouco tempo. A minha revolta foi tal que de imediato escrevi um texto que coloquei na Internet (www.aspirinab.com) e as Câmaras Municipais da Azambuja e do Cadaval souberam do caso e ajudaram a direcção da colectividade a pagar a multa.

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Vinte Linhas 378

Um livro de pedra no Museu de Odrinhas

Por um acaso feliz fui visitar uma destas tardes o Museu de Odrinhas – algures entre Sintra e a Ericeira. Comprei uma «T Shirt» com um dragão para o meu neto Tomás (que adora histórias com dragões e monstros) e tive direito a uma visita guiada por uma jovem licenciada em história de arte mas, para além da justeza, precisão e rigor dos seus elementos históricos, maravilhou-me o facto de as pedras do Museu falarem quase como as páginas de um livro. Um livro de pedra, páginas pesadas pelo peso do tempo.

Porque as pedras de facto falam, tanto nos desenhos como nas inscrições. Nobres e cidadãos, pessoas importantes do Império Romano, são hoje quase anónimas memórias nas pedras de um Museu. Um jovem de quem muito se esperava morreu aos 33 anos e a pedra regista a espantosa dimensão da dor da sua mãe. Ao lado um vaso funerário de pedra serviu no século XIX para um ferreiro de uma aldeia vizinha mergulhar na água da têmpera as enxadas e os podões, as forquilhas e os sachos que saíam vermelhos da fornalha mantida acesa pelo fole. Cruzes e sinais, restos de entradas de villas, de jardins, pedras tumulares e outras pedras que a erosão do tempo quase apagou – no Museu de Odrinhas um livro de pedra espera o viajante para lhe explicar que a posteridade é vagarosa. Tal como a vida é breve. E o amor é escasso.

Ao lado uma bem conservada capela dá acesso a um velho cemitério com as mais variadas cruzes. Prefiro olhar para o cemitério como uma longa adversativa, uma vírgula na alegria diária de quem não pensa no amanhã. Uma visita ao Museu de Odrinhas ajuda a perceber melhor a gramática do tempo – porque toda a posteridade é relativa.

Verdadinha – Número ínfimo

MLF – […] Não há medidas pás pequenas e médias empresas!

AL – As linhas de crédito, que foram sendo avançadas, considera que não são positivas?…

MFL – Não, não acho. Não acho que sejam positivas, não acho que sejam positivas. Por uma simples razão, de que, linhas de crédito, normalmente, como foram apresentadas, em primeiro lugar, conduz a que as empresas se endividem mais do cóque já estão. E quando passasse a crise, elas estariam mais endividadas do que estavam anteriormente. Em segundo lugar, porque se nós falarmos com as empresas, nós vemos que há um número ínfimo de empresas que têm acesso a essas linhas de crédito. Porque uma coisa é o anúncio que se faz da abertura das linhas de crédito. Outra coisa é, na prática, quais são as empresas que têm acesso a essas linhas de crédito. E a grande maioria delas, as condições que é necessário reunir para ter acesso a essas linhas de crédito, a maioria das empresas não as reúne. E portanto, não têm acesso a elas. Portanto, estou em desacordo, total, contra isso. […]

A Manela fala com empresas com os poderes sobrenaturais com que outros falam com cães, anjos, árvores ou fogareiros. E o efeito é igual, ela ouve vozes que lhe respondem. Essas vozes dizem-lhe que o crédito está a dar cabo da economia, a criar uma legião de endividados. Acabe-se com o crédito, acabam-se logo os vícios. Essas vozes também lhe dizem que, 4 mil milhões de euros para 30 mil PME’s depois, ainda não passámos de um número ínfimo. Dúvidas ou duvidas? Basta pensar em quantas pequenas e médias empresas há no Mundo que não reúnem as condições para serem apoiadas pelo Estado português e suas diabólicas linhas de crédito. As falências que Sócrates está já a causar nos outros países, por causa destas políticas que temos de rasgar e romper quanto antes, são uma catástrofe global.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

Um livro por semana 128

as-mulheres-de-henry-james-carlos-ceu-e-silva

«As mulheres de Henry James» de Carlos Céu e Silva

Daisy Miller é uma das personagens mais famosas da obra de Henry James (1843-1916) mas este livro envolve diálogos imaginados não só com esta mas também com outras figuras: Catherine, Mary Bartram, Eugénia, Nona Vincent, Isabel e a preceptora de Henry James. As conversas entre o autor e Henry James giram à volta das mulheres («Uma mulher feliz não é estimulante») e da escrita («As histórias são mais importantes que a vida») mas desaguam no Mundo: «A Humanidade não pára, renova-se a cada suspiro, a cada perda, a cada partida. O que adoece e morre são as pessoas, não a Humanidade».

Noutras conversa Henry James defronta as suas personagens em diálogo:

Catherine: «No meu tempo não éramos nós que sofríamos demais. Eram os senhores, homens pomposos, que fumavam charutos e bebiam xerez mas faltava-lhe sempre alguma coisa. Uma companhia feminina inteligente, por exemplo».

Henry James: «Não concordo consigo. O que um homem procurava numa mulher não era propriamente a inteligência».

Catherine: «Por isso é que nunca me concedeu tais virtudes, iria ficar mal visto. O senhor e todos os homens que, como o senhor, estão habituados ao exercício do poder e à superioridade». (Fica uma ideia da aventura que é ler este livro escrito por um psicólogo sobre um autor que inundou de psicologia os seus romances).

(Editora: Coisas de Ler, Capa: Pedro Salvador Mendes)

Couraças

Quando Vital Moreira pediu ao PSD uma qualquer declaração acerca do caso BPN, realçando que as figuras mais importantes no escândalo estavam intimamente ligadas ao sistema de poder social-democrata, foi de uma ousadia histórica. Tanto que dividiu logo o PS. Uns porque acharam mal por princípio, outros porque recearam que acabasse mal nas urnas ou na imprensa. E alguns socialistas, na dificuldade de lidar com o grito iconoclasta, até vestiram a camisola do adversário: passaram a repetir a mentira de que Vital tinha associado o PSD à roubalheira. Ora, foi ao contrário: o que Vital exprimiu foi a sua indignação pela demora na associação do PSD ao caso através de uma qualquer — qualquer! — tomada de posição política. Porque apenas repetir que é um caso de polícia, e que se tem de esperar que a Justiça actue, é o grau zero da responsabilização obrigatória. Façamos um teste básico: alguém imagina Sá Carneiro fechado num silêncio cobarde perante situação igual?

O BPN e a SLN foram úteis para o PSD e para Cavaco Silva, tanto em doações para campanhas como para as mais variadas operações financeiras privadas de inúmeros dirigentes e militantes do partido. Pergunta: se fosse um traficante de droga a fazer doações para a eleição de políticos ou a dar-lhes dinheiro a ganhar, mesmo que em negócios legítimos, não se pediriam as mais exaustivas explicações aos envolvidos? Não haveria ocasião para algum tipo de arrependimento, quiçá reparação? Pois o que se fez no BPN é bem pior do que um traficante poderia ter feito. Dos marginais esperam-se ilegalidades, e por isso há maior protecção contra os seus actos. Mas das figuras gradas do PSD espera-se uma actividade impoluta e exemplar. Representam a Cidade, tal como eles são os primeiros a lembrar quando exigem respeitinho e reclamam inocência. O mais provável é que a investigação policial não entre nesta dimensão da questão, mas tanto os actuais dirigentes do partido, como o actual Presidente da República, estão enterrados num verdadeiro pântano onde o seu silêncio, que abrange um longo passado, significa que qualquer resquício de ética privada e dignidade pública — quanto a esta tão, simultaneamente, complexa e clara vergonha — aí se afundou e não volta mais. Vital, para orgulho de qualquer cidadão digno desse estatuto, assumiu o dever de não ser cúmplice da hipocrisia esquizóide de tradição bem portuguesa. E as feras saltaram-lhe em cima, trôpegas de medo e raiva.

Entretanto, o mais rigoroso diagnóstico da profundidade e implicações do caso BPN, até à data, só chegou há poucos dias.

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Coisas muita boas das coisas muita más

Aumento do custo do petróleo leva a soluções energéticas alternativas

Crise económica leva ao aumento da poupança

Menos dinheiro a circular leva a reduzir gastos supérfluos

Mais desemprego leva a mais aprendizagem

Pandemia de gripe leva a aumento da higiene

Desvarios de Cavaco levam a derrota nas próximas eleições presidenciais

Demagogia e populismo do Bloco levam ao fim da ilusão gerada no PSR

Anacronismo do PCP leva a futuro risonho na organização de festas e manifestações com transporte garantido

Vacuidade do CDS leva a exibições cómicas dos seus representantes

Existência do PSD leva à transmissão pública de frases e expressões de Manuela Ferreira Leite

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

 

“Eu bem te disse que iria receber-te, quando voltasses, de braços abertos”, diz-me M., uma amiga de muitos anos. “Sim, eu sei”, respondo. “Mas tenho para mim, talvez esteja enganado, que os braços ficam acima, e não abaixo, das ancas”, finalizo. 

Verdadinha – Gente normal

MFL – […] Eu acredito, efectivamente, como toda a gente normal acredita, é que aquilo que é preciso é de mudar de políticas. Porque, evidentemente, se a política se mantém a ser a mesma, os resultados só podem ser os mesmos. […]

A Manela está do lado da gente normal. A gente normal é gente como ela, que pensa como ela. A senhora representa a normalidade das gentes normais. E lembra-nos disso sempre que opina acerca dos assuntos, tanto os normais como, especialmente, os anormais. Por exemplo, é muito provável que ela pense que o Eng. Sócrates não faz parte da gente normal. Por causa das suas políticas anormais. As quais ela vai mudar, em nome da normalidade. O candidato que escolheu para a Câmara de Lisboa também dizia haver algo de anormal em Sócrates, lá nos idos de 2005. Talvez por isso tenha sido escolhido pela Manela para dirigir Lisboa em direcção à normalidade abalada pelo actual presidente, amigo do outro anormal. Estas coisas são normais, está bem de ver. É a normal afinidade entre normais.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.