Quando Vital Moreira pediu ao PSD uma qualquer declaração acerca do caso BPN, realçando que as figuras mais importantes no escândalo estavam intimamente ligadas ao sistema de poder social-democrata, foi de uma ousadia histórica. Tanto que dividiu logo o PS. Uns porque acharam mal por princípio, outros porque recearam que acabasse mal nas urnas ou na imprensa. E alguns socialistas, na dificuldade de lidar com o grito iconoclasta, até vestiram a camisola do adversário: passaram a repetir a mentira de que Vital tinha associado o PSD à roubalheira. Ora, foi ao contrário: o que Vital exprimiu foi a sua indignação pela demora na associação do PSD ao caso através de uma qualquer — qualquer! — tomada de posição política. Porque apenas repetir que é um caso de polícia, e que se tem de esperar que a Justiça actue, é o grau zero da responsabilização obrigatória. Façamos um teste básico: alguém imagina Sá Carneiro fechado num silêncio cobarde perante situação igual?
O BPN e a SLN foram úteis para o PSD e para Cavaco Silva, tanto em doações para campanhas como para as mais variadas operações financeiras privadas de inúmeros dirigentes e militantes do partido. Pergunta: se fosse um traficante de droga a fazer doações para a eleição de políticos ou a dar-lhes dinheiro a ganhar, mesmo que em negócios legítimos, não se pediriam as mais exaustivas explicações aos envolvidos? Não haveria ocasião para algum tipo de arrependimento, quiçá reparação? Pois o que se fez no BPN é bem pior do que um traficante poderia ter feito. Dos marginais esperam-se ilegalidades, e por isso há maior protecção contra os seus actos. Mas das figuras gradas do PSD espera-se uma actividade impoluta e exemplar. Representam a Cidade, tal como eles são os primeiros a lembrar quando exigem respeitinho e reclamam inocência. O mais provável é que a investigação policial não entre nesta dimensão da questão, mas tanto os actuais dirigentes do partido, como o actual Presidente da República, estão enterrados num verdadeiro pântano onde o seu silêncio, que abrange um longo passado, significa que qualquer resquício de ética privada e dignidade pública — quanto a esta tão, simultaneamente, complexa e clara vergonha — aí se afundou e não volta mais. Vital, para orgulho de qualquer cidadão digno desse estatuto, assumiu o dever de não ser cúmplice da hipocrisia esquizóide de tradição bem portuguesa. E as feras saltaram-lhe em cima, trôpegas de medo e raiva.
Entretanto, o mais rigoroso diagnóstico da profundidade e implicações do caso BPN, até à data, só chegou há poucos dias.
Continuar a lerCouraças →