Vinte Linhas 378

Um livro de pedra no Museu de Odrinhas

Por um acaso feliz fui visitar uma destas tardes o Museu de Odrinhas – algures entre Sintra e a Ericeira. Comprei uma «T Shirt» com um dragão para o meu neto Tomás (que adora histórias com dragões e monstros) e tive direito a uma visita guiada por uma jovem licenciada em história de arte mas, para além da justeza, precisão e rigor dos seus elementos históricos, maravilhou-me o facto de as pedras do Museu falarem quase como as páginas de um livro. Um livro de pedra, páginas pesadas pelo peso do tempo.

Porque as pedras de facto falam, tanto nos desenhos como nas inscrições. Nobres e cidadãos, pessoas importantes do Império Romano, são hoje quase anónimas memórias nas pedras de um Museu. Um jovem de quem muito se esperava morreu aos 33 anos e a pedra regista a espantosa dimensão da dor da sua mãe. Ao lado um vaso funerário de pedra serviu no século XIX para um ferreiro de uma aldeia vizinha mergulhar na água da têmpera as enxadas e os podões, as forquilhas e os sachos que saíam vermelhos da fornalha mantida acesa pelo fole. Cruzes e sinais, restos de entradas de villas, de jardins, pedras tumulares e outras pedras que a erosão do tempo quase apagou – no Museu de Odrinhas um livro de pedra espera o viajante para lhe explicar que a posteridade é vagarosa. Tal como a vida é breve. E o amor é escasso.

Ao lado uma bem conservada capela dá acesso a um velho cemitério com as mais variadas cruzes. Prefiro olhar para o cemitério como uma longa adversativa, uma vírgula na alegria diária de quem não pensa no amanhã. Uma visita ao Museu de Odrinhas ajuda a perceber melhor a gramática do tempo – porque toda a posteridade é relativa.

3 thoughts on “Vinte Linhas 378”

  1. Há quatro anos que não vou a Odrinhas, mas é um daqueles locais que muito me fascina. Certa vez, para uma reportagem, tive a oportunidade de mergulhar na biblioteca local e de descobrir coisas maravilhosas sobre umas ruínas que sempre me fascinaram: as da Ermida de São Romão do Lourel. Curiosamente, a única urna funerária completa que existe em Odrinhas veio justamente da citada ermida.

  2. Não Claudia nem era nem podia ser porque aquilo foi no tempo dos Romanos na Peninsula Ibérica mas já depois da morte de Jesus Cristo. Mas 33 anos é uma idade especial não há dúvida.

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