Vinte Linhas 344

«Luz indecisa» de José Mário Silva

Camilo Castelo Branco escreveu um dia («Narcóticos») que «a poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». Neste seu segundo livro de poemas, José Mário Silva (n.1972, Paris) viaja também entre a saudade e a esperança. A luz indecisa do título do livro é a memória; seja dos rituais infantis («Jogávamos / à bola com pinhas, usávamos / cuspo para limpar o pó dos sapatos / ortopédicos, esfolávamos joelhos») seja das habitações: «As casas que habitámos ainda nos habitam». Quando não é memória, é nostalgia: «Aos 14 anos, o futuro era um território confuso / um país estrangeiro; não sabíamos como lá chegar».

Para José Mário Silva a recordação nunca é apenas o «eu» fechado em si mesmo; incorpora o «outro». Pode ser um jogador de futebol como Maradona («um relâmpago azul atravessava, em ziguezague o longínquo relvado do estádio Azteca») ou um artista gráfico como Olímpio Ferreira: «Mesmo olhada de frente, a ausência / continua a ser cruel, o silêncio uma/ ignomínia. / Descemos à rua, bebemos / café, fingimos seguir em frente.» Ou ainda outro país: «Os corpos encostados à parede / talvez recordem paisagens brancas / um Inverno ucraniano com árvores / perdidas na neve».

Quanto ao futuro pode ser um olhar («Os teus olhos são os meus – é o que toda a gente diz») ou uma formiga: «A minha filha acompanha a subida / heróica da formiga pela parede / branca, vira-se para mim, sorri.» Mais ao fundo do livro a luz do poema ilumina a cidade: «É um pequeno milagre esta claridade / Os telhados acendem-se como fornalhas / permanece vermelha uma parte do céu».

(Editora: Oceanos, Design: Rogério Petinga, Capa: António Rosado)

O moinho na cidade

A casa tem quatro velas

Não é casa, é moinho

No som de quatro janelas

Vem tua voz de mansinho

No vento que apregoa

No castanho dos telhados

Uma canção de Lisboa

Com sons não esperados

Na luz que chega à vidraça

Onde escrevo estas linhas

Dou o teu nome à praça

Onde as almas vão sozinhas

Praça das Flores talvez

Talvez Praça da Alegria

Onde o dia vale um mês

Onde a hora vale um dia

Quando tu estás presente

Na paisagem da cidade

A vida fica diferente

Nasce uma nova verdade

A casa tem quatro velas

Não é casa, é moinho

À noite a luz das estrelas

Vem indicar um caminho

Jornalistas by Nik

Eu acho que os jornalistas que andam a molhar a sopa no “caso Freeport” e a armar manigâncias contra determinados políticos deveriam também ser submetidos ao mesmo “inevitável escrutínio” (expressão de Vasco Pulido Valente, há dias, no Púbico) a que o PM tem vindo a ser sujeito. Ou há moralidade ou comem todos, diz o povo.

O “quarto poder”, justamente porque é um poder, e cada vez mais reconhecido como tal, não se pode furtar à devassa a que se julga no direito de submeter os governantes. Os leitores e telespectadores esperam e julgam ter no jornalista um intermediário, uma espécie de representante ou procurador, através do qual as perguntas dos cidadãos ao poder político são respondidas. O jornalista não pode nem deve, pelo seu comportamento como profissional, quebrar essa relação de confiança que há entre ele e o público anónimo. Ninguém em seu perfeito juízo confia a função de seu intermediário, procurador ou representante ao primeiro imbecil que aparecer. Ninguém, devidamente informado, quer comprar um carro em segunda mão a um burlão.

Assim, deveríamos ter direito a conhecer mais sobre a classe jornalística — sobretudo sobre os directores de informação e outros tenores da imprensa, rádio e televisão — do que aquilo que geralmente conhecemos, que é zero, ou perto disso.

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Balada da Fábula Urbis

Na antiga marcenaria

Numa das sete colinas

Há um lugar de poesia

Numa casa sem esquinas

No gaveto de duas ruas

Sobreloja, boas vistas

Uma hora vale por duas

No roteiro dos turistas

Um piano e uma guitarra

Personagens num estrado

A música alcança a barra

Do Tejo que passa ao lado

Na passagem das figuras

As coisas mais importantes

São as rodas das viaturas

E os livros nestas estantes

Para quem já perdeu a fé

Ou apanhou grande susto

Senta-se e bebe um café

Ajuda o comércio justo

Nas janelas de Lisboa

Entre vozes de vizinhas

Na roupa a secar à toa

Há gatos e cuequinhas

Já passou um amarelo

A caminho dos Prazeres

Na direcção do Castelo

Ouvi risos de mulheres

Vozes puras, de cristal

Miradouro da alegria

São sonhos de Portugal

Na porta da Livraria

Crespologia

A crespologia é uma ciência originária dos primeiros meses de 2009, resultando da urgência epistemológica em estudar o jornalista Mário Crespo. As questões fundamentais desta área de conhecimento, que já nasceu velha, são duas:

1) Crespo é tão imbecil como aparenta?

2) E aquilo de que padece será peçonha que se pega pela televisão?

Analisemos o seu último espasmo escrito, Os bons e os maus. Abre com uma tripla comparação — caso Freeport com acidente de Entre-os-Rios; jornalistas com supostos responsáveis pela tragédia; processos com acusações. E conclui o parágrafo atribuindo ao Governo a responsabilidade pelas equivalências dementes que nasceram algures a meio das suas orelhas. Quer isto dizer que, para além de ofender todas as vítimas da queda da ponte ao utilizar a sua memória numa comparação lunática, se assume como um inimputável que não terá respeito por nada nem por ninguém na sua sanha persecutória e odienta.

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Vinte Linhas 343

«Tribunais Políticos» entre 1926 e 1974

Os processos dos chamados «crimes políticos e sociais» e os ditos «crimes contra a segurança do Estado» que foram julgados em Portugal entre 1926 e 1974 pelos Tribunais Militares e pelos Tribunais Plenários, são o ponto de partida para este trabalho de Irene Pimentel, João Madeira, Luís Farinha e Maria Inácia Rezola com a coordenação de Fernando Rosas.

São 3975 réus julgados entre 1933 e 1945 e 3888 réus julgados entre 1945 e 1974, 61 por cento dos quais são oriundos do mundo operário (indústria, transportes, agricultura) emparceirando numa espécie de frente popular com aqueles sectores que eram a base do republicanismo radical (pequenos industriais, comerciantes e proprietários) e os empregados dos serviços das cidades – caixeiros, funcionários públicos e empregados de escritório.

Os advogados de defesa destes réus são em número notável e algo inesperado: 320 no período inicial de 1926 a 1945 e 386 a partir dessa data até 1974. Os juízes entre 1945 e 1974 são ao todo 81 e a justiça democrática saída do «25 de Abril» foi muito lenta e generosa para com eles. Várias das mais sinistras figuras dos Tribunais Plenários terminaram gloriosamente as suas carreiras nas cadeiras prestigiadas do Supremo Tribunal de Justiça. E nunca pediram desculpa às suas vítimas.

Esta edição com 663 páginas do Círculo de Leitores e da Temas e Debates integra no seu final uma lista tão completa quanto possível dos réus julgados nos tribunais do Estado Novo. Alguns dos processos foram distribuídos às diversas comarcas do país e o seu rasto perdeu-se no escuro dos arquivos.

Vinte Linhas 06

Uma manhã no Chiado

Todas as manhãs o Chiado é uma romaria. Será uma maneira de dizer. Às dez da manhã em ponto uma pequena multidão já não cabe no adro da igreja. O mesmo é dizer não cabe na confluência da Rua do Carmo com a Rua Nova do Almada. Segundos depois das dez, o sacristão vem abrir a porta da igreja. O mesmo é dizer o jovem segurança vem abrir de par em par as portas do templo do consumo. Como que impelidos por uma mola, frenéticos, ansiosos, todos se dirigem apressados para os seus destinos como se o Mundo dependesse dos seus gestos nervosos e tensos. Cada um tem o seu objectivo. Uns procuram as lojas de roupa (lembram os paramentos), outros procuram os cafés (lembram as galhetas da água e do vinho), outros ainda procuram a loja das sandes (lembram as partículas de pão ázimo antes da consagração). No templo do consumo até o ruído dos travestis com as suas piadas soltas de mesa para mesa («Tá calada oh preta! És uma parva!») lembra o soar das malhas do jogo do chinquilho nos minutos parados antes da missa das onze nos domingos de manhã. E há aquele escritor pouco conhecido que ergue o jornal «Público» como quem segura um hissope ou uma caldeira de água benta e se dirige à FNAC para rezar sozinho tal como nos tempos da minha infância algumas senhoras da minha terra acompanhavam à distância a missa da paróquia nas suas capelas particulares sentadas nas suas cadeiras forradas de veludo vermelho. Todas as manhãs o Chiado é uma romaria. Será uma maneira de dizer. Mas não vejo passar ninguém com a saca vermelha das esmolas para as almas do purgatório. Talvez porque o purgatório é eu estar aqui entre esta multidão frenética e ansiosa.

Helena Matos em softcore

Helena Matos comentou a entrevista a Sócrates recorrendo ao estilo softcore: sabemos que alguém está a foder alguém, mas não se apresentam imagens explícitas. O que permite dizer que era tudo a brincar, que a pila nem sequer tocou no pipi*, caso o espectáculo dê para o torto. Por isso abre o texto com uma paralipse, recurso típico dos ataques ad hominem e subterfúgio preferido das insinuações cobardes:

Não quero saber da mãe, do primo, do tio e de quem mais seja das relações do cidadão José Sócrates.

Não? Certezinha? Então porquê começar por sugerir ao leitor que Sócrates não está sozinho na suposta marosca, antes é todo o clã que actua em conjunto? O texto mantém a insídia inicial, ou aumenta-a, fazendo variações à volta dos casos que a imprensa tem publicado, investigado e explorado. A imprensa e as autoridades, vamos também lembrar. O que faz de Sócrates o político mais exposto, mais estudado e mais transparente de que há memória; até os notários portugueses andaram a virar gavetas e tapetes ao contrário à procura de um metro quadrado falcatruado para o entalar. Tal como o processo de licenciamento do Freeport é o acto governativo mais explicitado na comunicação social em toda a História de Portugal, e já lá moram perto de 9 séculos. No entanto, apesar de qualquer pulha ter chafurdado como bem lhe apeteceu na torrente de informações tornada pública, Sócrates continua objectiva e factualmente imaculado no plano legal. O mesmo já não se pode dizer de parte da elite cavaquista; mas, shiiiiiuu, disso é que não convém falar ― a liberdade de imprensa não foi inventada para chatear o actual Presidente da República e sua filiação partidária, como o Zé Manel e o Pacheco poderão esclarecer se houver dúvidas.

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Postais pedidos

A nossa amiga Sinhã pediu para se dar atenção às rodilheres. E depois de meditar profundamente na questão, o que tenho a dizer é o seguinte: rodilheres, pela vossa saúde!

O nosso amigo Carlos Santos pediu para se dar atenção à tortura. Ele ficou torturado com o assunto e também aqui estamos perante um problema de saúde; tanto física como mental.

Macaronésia é nossa

macaronesia

E também de Espanha e Cabo Verde, talvez Marrocos, mesmo Senegal. É um arranjo geográfico que nos está a chamar. Precisamos de juntar biólogos, engenheiros, pescadores, empresários e anti-imbecis. Isto para começar. Para começar a descobrir o que fazer a tanto mar e aos biótipos exclusivos. Há que bater à porta da universidade e trazer recursos intelectuais para este território que poderia ligar Portugal e Espanha num regresso ao poder atlântico, e que ligaria Europa e África numa comunidade de criação de riqueza.

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Discursos do 25 de Abril

O paupérrimo e falacioso discurso do Presidente da República confirmou o pior dos cenários: está em campanha pelo PSD. É a primeira vez que se assiste a tal na democracia portuguesa, ter o Chefe de Estado a interferir institucionalmente na política partidária em período eleitoral, as consequências são imprevisíveis. Para uma arguta análise da situação, escutar Marina Costa Lobo ao realçar a necessidade da bipolarização para salvar o PSD da catástrofe. Cavaco teria entrado nesta aventura por causa do crescimento dos eleitorados à esquerda do PS, o qual esvaziou o PSD.

Paulo Rangel fez uma peixeirada verrinosa. Estava ali para obter um tempo de antena, não para celebrar fosse o que fosse para além dos seus interesses partidários. Conspurcou o espírito da sessão. É por causa deste tipo de políticos que a política profissional se tornou num espectáculo insuportável. No cavaquismo teria ido muito longe, muito longe.

Jaime Gama escreveu um belo e sapiente discurso, que leu com alma. Que pena Cavaco não falar aquela língua, nada tendo percebido.

Com os índios

Meu amigo

Do antes guardo a memória do menino assustado, num banco da já extinta Esquadra do Campo Grande , esperando que o fossem buscar por ter cometido o hediondo crime de jogar à bola na via pública (logo eu que sempre fui um pé de chumbo). O constante desfilar dos namorados, a caminho do mesmo banco, acompanhados de um diligente cívico, por se beijarem em público. O ingresso tão precoce no mundo do trabalho. O British Bar onde não entrava uma senhora. O exílio num país claustrofóbico que era o meu.

Do dia lembro-me de, antes de ter subido a rampa da RTP, me ter sido perguntado se estava com os índios ou com os cowboys. Respondi:-Naturalmente com os índios!

Do pós, assaltam-me as memórias. Um mau poema, que felizmente já não sei onde pára, exaltando a liberdade, introduzido à socapa no berço da minha primeira filha, recentemente nascida. O vórtice da discussão política tendo D. Pedro IV como patrono. As pulhices, as traições, as esperanças, o ano de 1981, os que ficaram pelo caminho. O palmilhar dos caminhos da Universidade coisa até aí impensável para uma pessoa oriunda do meu estrato social.

Pouso o olhar nas minhas filhas e orgulho-me do que vejo. Desvio-o para as minhas netas e acredito que é possível. Da mesa cá do fundo, sob o olhar tutelar do José Cardoso Pires e de um relógio que subverte o tempo, caro Val, recordo a minha geração, a tua, a que virá. Mas uma coisa te asseguro se me fizeres a mesma pergunta que me fizeram, faz hoje trinta e cinco anos, respondo-te: – Naturalmente com os índios!

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Oferta do nosso amigo jafonso, celebrando o 25 de Abril.

Vinte Linhas 342

O sal da minha terra era daqui que vinha

Não havendo frigoríficos nas casas particulares as pessoas da minha terra (Santa Catarina) conservavam a carne na salgadeira. Mas o sal não servia apenas para conservar a carne; acabava por lhe vir a dar um sabor muito especial e que hoje será quase impossível repetir.

A colocação durante largos meses de uma peça de carne de porco num espaço em que o sal a cobria por cima, por baixo e pelos dois lados, fazia com que essa mesma carne adquirisse um sabor diferente.

Por isso era uma festa quando um miúdo ouvia a sua mãe dizer: «Hoje pus carne ao lume!». Porque nesse tempo de não haver nem electricidade nem bilhas de gás nem sequer fogões a petróleo, o calor da cozedura era dado por um lume de lenha. E não interessava muito se à água se juntava hortaliça, cabeças de nabo, batatas ou arroz. O que já se sabia antecipadamente era QUE TUDO O QUE ENTRAVA NA PANELA VIRIA A BENEFICIAR DO MAGNÍFICO TEMPERO DESSE BOCADO DE CARNE SAÍDO DA SALGADEIRA E LAVADO EM ÁGUA FRESCA TIRADA DO CÂNTARO. Depois de pronto o prato bastava a boa vontade e o engenho de quem desfiava (com uma faca das nossas ou com uma navalha porque somos uma terra de navalheiros) todos os bocadinhos da carne.

Era uma sopa que servia de sopa e de segundo prato. Qual bife, qual carapuça! Melhor do que uma sopa com carne da salgadeira só outra sopa com carne da salgadeira…

Nós, europeus. Vós, parvónios.

Vital Moreira e Paulo Rangel foram à SIC mostrar que pertencem a universos paralelos. Vital é sério, Rangel é bufão. Vital é rigoroso, Rangel é sofístico. Vital é pedagógico, Rangel é ilusionista. Vital representa a cultura académica, Rangel representa a subcultura parlamentar. Vital é a civilização, Rangel é a decadência.

Tem-se tentado passar a imagem de que Paulo Rangel é um bom tribuno; e que, nos seus melhores dias, até consegue fazer frente a Sócrates. Assim se vê o grau da miséria a que o PSD chegou: basta que um bufarinheiro consiga sobreviver aos debates parlamentares para ser elevado à condição de herói.

Os travecas da TVI

Sempre que vi o serviço deformativo da TVI, às sextas, fui tomado pelo mesmo sentimento: compaixão. Porque o que se exibe é uma tocante fragilidade. Hoje esteve lá o apocalíptico Medina Carreira. E repetiu que o Mundo vai acabar por causa deste Governo, se é que não acabou já e alguém esqueceu-se de nos avisar. A Manela quis terminar com alguma esperança, um plano, uma promessa de libertação para as massas escravizadas. Medina não tinha nada na manga, pois o PS e o PSD eram iguais, explicou, apenas associações de criminosos organizadas para assaltar o orçamento de Estado. Ficaram assim um bocadinho. Até que se calaram. Ela disse que isto estava muito mau, para se despedir. Ele ainda conseguiu dizer que estava péssimo, com entusiasmo.

O aparato policial, justiceiro, insurgente, com que se faz o marketing do JN6 simula uma força igual ou maior à do Governo, do PS e de todas as tenebrosas entidades que conspiram para nos esmagar com os seus diabólicos poderes. É a TVI a chefiar a resistência ao fascismo, não têm medo de nada nem de ninguém. Só que desde a circense apresentadora até ao albergue espanhol daquela redacção, o que fica depois das canhestras manipulações é apenas completa desorientação política e ética. Uma inquestionável realidade os consola: Sócrates existe, portanto a vida ainda tem algum sentido. Sócrates é uma paixão, e todas as paixões são obsessivas, claro. Então, não o largam, pedem a sua atenção, desejam o seu amor. E lá sobem ao palco, vestidos com trajes muito fantasiosos, para cantar espalhafatosamente I Will Survive.

Os travecas da TVI, afinal, o que querem é um pouco de ternura. Como todos nós.