Vinte Linhas 342

O sal da minha terra era daqui que vinha

Não havendo frigoríficos nas casas particulares as pessoas da minha terra (Santa Catarina) conservavam a carne na salgadeira. Mas o sal não servia apenas para conservar a carne; acabava por lhe vir a dar um sabor muito especial e que hoje será quase impossível repetir.

A colocação durante largos meses de uma peça de carne de porco num espaço em que o sal a cobria por cima, por baixo e pelos dois lados, fazia com que essa mesma carne adquirisse um sabor diferente.

Por isso era uma festa quando um miúdo ouvia a sua mãe dizer: «Hoje pus carne ao lume!». Porque nesse tempo de não haver nem electricidade nem bilhas de gás nem sequer fogões a petróleo, o calor da cozedura era dado por um lume de lenha. E não interessava muito se à água se juntava hortaliça, cabeças de nabo, batatas ou arroz. O que já se sabia antecipadamente era QUE TUDO O QUE ENTRAVA NA PANELA VIRIA A BENEFICIAR DO MAGNÍFICO TEMPERO DESSE BOCADO DE CARNE SAÍDO DA SALGADEIRA E LAVADO EM ÁGUA FRESCA TIRADA DO CÂNTARO. Depois de pronto o prato bastava a boa vontade e o engenho de quem desfiava (com uma faca das nossas ou com uma navalha porque somos uma terra de navalheiros) todos os bocadinhos da carne.

Era uma sopa que servia de sopa e de segundo prato. Qual bife, qual carapuça! Melhor do que uma sopa com carne da salgadeira só outra sopa com carne da salgadeira…

19 thoughts on “Vinte Linhas 342”

  1. O tempero deste blogue está cada vez melhor :-)

    Obrigada por me trazer à memória estes sabores que recordo das férias passadas na casa dos meus avós. Para além do sabor da carne da salgadeira, o seu texto lembrou-me um outro: o sabor inigualável dos pepinos usados na salada depois de mergulhados, por uns minutos apenas, na água das próprias salinas. Era de tal forma especial, que as crianças os comiam à dentada como se de guloseimas se tratassem.

  2. E também se recordam das bostas de vaca esparramadas nas portas dos fornos para não entrar frio? Doces tempos…
    Lembram-se do fumo da lareira que não sai no Inverno e do pigarro da velha? Ai, doces tempos…

  3. No meu caso (Santa Catarina) que fica a alguns quilómetros para o lado de Alcobaça esse sabor de frescura vem da memória dos pepinos e dos tomates trazidos num balde meio de água, da nossa água de um ribeiro caminho de São Martinho. Nenhum frigorífico me dá essa frescura…

  4. Que saudades do Padre que ia à pesca e nunca pecava e das retretes cheias de merda atá cá em cima e as moscas varejeiras a cheirarem os cus a surgirem pelos buracos das tábuas de madeira. Doce tempos…

  5. Ó Cláudia, com recordações como as que referiu, ficam explicados os traumas que revela nos seus comentários. A sua infância foi passada nalguma caverna, não?

    Que saudades do tempo em que tinha pachorra para responder a comentários deste género, só para ter o prazer de a mandar ir dar banho ao cão.

  6. LOL. Não, Guidinha, eu li tudo nos livros! Mas o JCF é do tempo do Viriato e a Guidinha também. Aliás, em tempos idos, naqueles doces tempos, havia uma Guidinha Barbuda. Eu não gostava de lhe dar beijos porque picava.

  7. “Eu não gostava de lhe dar beijos porque picava.”
    Não gostava, mas aposto que lhe calhou mais que uma vez…

    Outra coisa, guidinha não, parece aqueles que chamam Pinto de Sousa ao Sócrates só para o ofender ainda mais :))

  8. Boa, Cláudia, dá-lhes no toutiço aos saudosistas.

    Essa da bosta de vaca a calafetar a porta do forno onde se cozia o pão vi eu muitas vezes. Mas olha que o pão ficava bom.

  9. Ó Cláudia tu não eras assim… O que é que te deu??? Não páras de deitar fel cá para fora. Já há tanta maldade no Mundo para quê fazer ainda mais???

  10. Nik, no S. João aqui no Porto, bebes um tintol comigo.

    jcf, eu gosto muito de ti e sou a 1ª a querer-te aqui, mas costumo ser má com as pessoas de quem gosto. Sempre fiz tudo ao contrário!

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