Vinte Linhas 06

Uma manhã no Chiado

Todas as manhãs o Chiado é uma romaria. Será uma maneira de dizer. Às dez da manhã em ponto uma pequena multidão já não cabe no adro da igreja. O mesmo é dizer não cabe na confluência da Rua do Carmo com a Rua Nova do Almada. Segundos depois das dez, o sacristão vem abrir a porta da igreja. O mesmo é dizer o jovem segurança vem abrir de par em par as portas do templo do consumo. Como que impelidos por uma mola, frenéticos, ansiosos, todos se dirigem apressados para os seus destinos como se o Mundo dependesse dos seus gestos nervosos e tensos. Cada um tem o seu objectivo. Uns procuram as lojas de roupa (lembram os paramentos), outros procuram os cafés (lembram as galhetas da água e do vinho), outros ainda procuram a loja das sandes (lembram as partículas de pão ázimo antes da consagração). No templo do consumo até o ruído dos travestis com as suas piadas soltas de mesa para mesa («Tá calada oh preta! És uma parva!») lembra o soar das malhas do jogo do chinquilho nos minutos parados antes da missa das onze nos domingos de manhã. E há aquele escritor pouco conhecido que ergue o jornal «Público» como quem segura um hissope ou uma caldeira de água benta e se dirige à FNAC para rezar sozinho tal como nos tempos da minha infância algumas senhoras da minha terra acompanhavam à distância a missa da paróquia nas suas capelas particulares sentadas nas suas cadeiras forradas de veludo vermelho. Todas as manhãs o Chiado é uma romaria. Será uma maneira de dizer. Mas não vejo passar ninguém com a saca vermelha das esmolas para as almas do purgatório. Talvez porque o purgatório é eu estar aqui entre esta multidão frenética e ansiosa.

10 thoughts on “Vinte Linhas 06”

  1. Quando estava a ler pensei que V. fosse o que erguia o jornal «Público», mas quando continuei a ler, não me pareceu. Que estava V. a fazer, afinal, além de número a penar?

  2. Cara Leonor, o que a levou a não lhe parecer que fosse o autor do texto?
    Por mim, penso que faz todo o sentido, ao fim e ao cabo ele também sabe que está sózinho, como as tais senhoras, e é este o seu purgatório, porque ao contrário delas, tem consciência da sua verdadeira solidão, no meio de toda aquela multidão.
    O purgatório é ter consciência…

  3. jv, sozinho e mal acompanhado…
    (Não gosto de reticências, mas fiquei sem saber se havia de terminar a frase com ponto final ou ponto de interrogação.)

  4. Claro que não era eu a erguer esse jornal. Nunca fui leitor do «Publico» e explica-se porquê – utilizaram uma carta anónima para tentar atacar a Associação Portuguesa de Escritores. Além de anónima estava mal escrita – eu recebi uma quase igual à do Óscar Lopes e do Fausto Lopo de Carvalho. O Mário Ventura fez queixa contra desconhecidos mas não deu nada. (Obrigado Luis Eme pela presença e pelas palavras)

  5. Supondo um ponto de interrogação.
    Penso que só, o acompanhamento é o factor mais determinante para a consciência do seu absurdo (purgatório).

  6. JCFRANCISCO eu não disse que era, só disse que fazia sentido que fosse.
    Cara Leonor, de algum sítio deve ser. Mas para mim a explicação é suficiente.

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