O jugular é um blogue matriarcal. Para nossa sorte. As questões da igualdade de género, direitos das minorias, violência doméstica ― exemplos maiores de uma cidadania feminina, ou no feminino ― são tratadas com frequência, denodo e genuíno interesse. Noutros blogues políticos de topo não se encontra agenda culturalmente tão relevante, muito menos um elenco de qualidade similar para as mesmas questões. O que nos deixa num cenário blogosférico desolador, pois a congénita estupidez da rapaziada que reúne maiores audiências, seja à direita ou à esquerda, não faz avançar estas urgentes causas sociais, preferindo gastar munição na chicana, na infantilidade e nos delírios narcísicos. Ou pior. É, as mulheres fazem muita falta -> na política, lugar ainda demasiado adverso para um cérebro de mulher, posto que espaço de poder ainda estruturado e preenchido pela tipologia conflitual do masculino. E se o belicismo não chegasse para justificar o afastamento, nalguns casos repulsa, as mulheres também sabem que a política está cheia de clones daquele marmanjo que tuitou em nome do Pedro Duarte. Há nos partidos e no debate político um cheiro a balneário que tresanda, até na esquerda mais à esquerda se tropeça em túbaros falantes. Heróicas são as que se expõem e lutam pela elevação da humanidade nesta arena, pois.
Arquivo mensal: Março 2009
Dixit
Farmacopeia chinesa
Confúcio Costa bateu à porta e pediu para entrar. Queria passar aqui uma temporada. A seu favor trazia o magnífico apelido e uma carta de recomendação especial de corrida. Aliás, mais três cartas. Pelo menos.
Tal como o meu primo — co-fundador e presidente honorário desta agremiação terapêutica — tão bem estabeleceu para toda a eternidade e mais 30 minutos, isto do HTML pede muita descontracção e um coração bem maior do que a Internet. E também dá jeito estar medicado com aquilo que Pessoa definiu como o individualismo fraternitário.
Confúcio virá por tempo indefinido, fazer não se sabe bem o quê nem para quê, e apenas porque lhe deu na real gana. Ou seja, está perfeitamente adaptado ao ambiente.
O Dia Nacional dos Centros Históricos no Porto
Ou como a burocracia mata um dia de lazer
Desde a semana passada que eu aguardava este dia: o dia de ter, para mim, todo o centro histórico de borla. Então não era o que estava escrito nos cartazes? Entradas gratuitas na Sé, na Igreja de S. Francisco, no Palácio da Bolsa; bebidas e petiscos a 1 euro nas mais diversas tascas da Ribeira. Querem melhor? Haveria um balão quente largado nos Aliados e um cruzeiro grátis no Douro. Eu não pedia tanto! Contentar-me-ia com o Palácio da Bolsa, que nunca tive a ocasião de visitar, e as bebidas e petiscos a 1 euro.
Convidei uma amiga de fora: Anda daí, vamo-nos divertir. Lá veio ela, com a tralha toda, quero ver a Sé! Antes de entrarmos na Sé, comemos umas pataniscas espinhosas com sabor a Porto Antigo. Tentei um desconto por causa das espinhas. Mandaram-me bugiar.
Entrámos na Sé. Momento solene, silêncio mórbido, respirações retidas, tosses rebeldes. Virei-me para a minha amiga: Já está tudo visto. Vamos embora. Persistente, não, vamos ao claustro, quero ver. Íamos a entrar e a recepcionista: Ei! Os bilhetes? Detive-me, estarrecida, e a minha amiga replicou: Então hoje não é o Dia Nacional dos Centros Históricos? É preciso pagar? A matrona antipática, numa falsa e fingida compaixão, expôs o trâmite misterioso, subjacente a toda esta organização mafio-turística: Têm que ir ao posto de turismo dos Aliados levantar os vouchers. Voucher, no meu imaginário verbal, remete incontornavelmente para vache e comecei a apreciar a recepcionista pelo seu lado bovino.
Armada em chica-esperta, discursei: O Porto tem três postos de turismo, portanto, se temos de ir para a Ribeira, vamos ao posto da Ribeira.
Descemos as ruas pedregulhosas, tortuosas; umas cheiravam a esgoto; outras, a urina. Avistámos o Palácio da Bolsa e entrámos no posto de turismo da Ribeira: Vouchers? Aqui não. Só nos Aliados. Têm que ir aos Aliados. Neste ponto dramático da situação, sobressaltou-me o lado caprino das recepcionistas. E a minha imaginação verbal corrompe o adjectivo caprino remetendo-o para a lamúria romântica Capri, c’est fini!
O meu dia nacional dos centros históricos acabou em tremoços e finos na Ribeira, tripas à moda do Porto no Ora Viva, uns chás marroquinos do caraças, umas inalações fantasmagóricas com sabor a cereja e umas músicas rock and roll, com Undercover Dj’s no Mercedes. Discuti com a minha amiga por ela me sair a literatura anglo-saxónica toda e berrei-lhe um J’emmerde les anglais et les américains!
Acordei hoje de manhã, perguntando-me o que teria feito de histórico ontem à noite.
A factura de Conceição
Quando nasceste caiu todo o peso da Terra
Sobre os ombros já tão cansados da tua mãe
Venceu a vida sobre a morte em pé de guerra
Que tinha levado o teu pai para outro Além
Não pudeste sentir a força dos seus braços
Quando regressava a casa ao fim dos dias
Nem ele sorriu dos teus primeiros passos
Ou emendou as tímidas palavras que dizias
Agora tu devolves à tua mãe essa ternura
De há cinquenta anos mas em duplicado
É quase como quem paga hoje uma factura
Cujo vencimento nunca foi ultrapassado
Uma factura feita das lágrimas e dos sinais
Uma soma de muitos cuidados e de paixões
Corres por ela nos corredores dos Hospitais
Se pudesses eras tu que fazias as transfusões
Pedro Sales, larga o vinho*
Anteontem, Pedro Sales escarrapachou a sua leitura do episódio da vaia a Sócrates no CCB. Acontecimento que ele não presenciou, mas do qual recolheu testemunho de seis amigos que lhe terão ligado a fazer queixinhas. Isso bastou-lhe para concluir que Sócrates foi o responsável pelo atraso. E daí parte para as suas pertinentes ilações: que Sócrates não se importou nada com a demora, que a administração do CCB se rege pela ideia que Sales faz da monarquia, que os espectadores foram tratados como figurantes do Primeiro-Ministro, que os espectadores foram tratados como escravos coloniais e que Sócrates ainda conseguiu cometer uma indelicadeza diplomática ao ter explicado o acontecimento.
Eis um rol de estapafúrdicas ofensas que atingem o Primeiro-Ministro, o CCB e as vítimas da escravatura colonial. Isto porque um evento público se atrasou 30 minutos, por razões absolutamente excepcionais, no País onde ninguém chega a horas a lado algum. E ainda termina declarando que há na explicação do caso, onde se refere a obrigação protocolar de esperar pelo Primeiro-Ministro de Cabo Verde, todo um programa. Quê? Mas qual programa?… Enfim, se dizes que há um programa, Sales, fala-nos dele, conta o que sabes, partilha com os teus concidadãos essas relevantes informações. Ou estarás com medo da PIDE? Não? É mais cagufa do Pina Manique?
Entretanto, fui lá fazer uma pergunta. Não obtive resposta do visado, mas apareceu um paladino. Tentei responder a este amigo, tendo enviado um comentário que foi apagado. Ora, tudo nice com a cena, camarada. É sobejamente conhecida a apetência da esquerda imbecil para a pulsão censória, e até estávamos em noite de apagão. Mas vir dizer que este comentário — Sérgio Pinto, desde quando é que perguntar a idade é despropositado e insultuoso?!… Larga o vinho. — equivale a uma insinuação de alcoolismo para terceiros, logo sendo um insulto gratuito de especial gravidade, logo tendo ultrapassado os limites da decência em caixas de comentários, logo merecendo ser apagado sem sequer se dar explicação pública ou privada, reforça-me a interrogação: Pedro Sales, que idade tens?
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* Não sei se és alcoólico, nem quero saber, mas sei que estás embriagado de moralismo e hipocrisia. O que tu deves sofrer no 25 de Abril, essa data onde se celebra o fim dos tiranetes e seus minúsculos poderes.
Vinte Linhas 334
A irresistível vocação da Revista Visão para a conjuntivite
Esta semana a Revista Visão entra a matar na sua coluna «Radar – figuras» com fotos e comentários sobre quem ganhou cor e quem a perdeu na semana. Transcrevo a prosa: «Lucílio Baptista protagonizou o erro de arbitragem do ano no Estádio do Algarve. Mas foi só ele? E a sucessão de outros erros (contra o Rio Ave e o Belenenses) que permitiu a chegada de Sporting e Benfica à final?» Primeiro erro crasso: o Sporting chegou à final da Taça da Liga porque venceu o F.C. Porto por 4-1 e não porque beneficiasse de um erro do árbitro do jogo Rio Ave-Sporting. Segundo erro crasso: quando o Sporting jogou com o Rio Ave já tinha assegurado o primeiro lugar na sua série pois tinha vencido os outros dois adversários (Marítimo e Paços de Ferreira) obtendo assim seis pontos, pecúlio mais que suficiente para ser o vencedor da sua série onde todos tinham perdido com todos e (deste modo) tanto lhe fazia somar nove como sete pontos. Para o caso era igual.
Esta conjuntivite (olhos vermelhos e infectados) já eu conheço há muitos anos e lá continua a fazer carreira na nossa comunicação social. Comecei a colaborar em A Bola em 1979, passei pelo Record em 1986 e estive no Sporting de 1988 a 2006. Fui o organizador do livro «O Desporto na Poesia Portuguesa» em 1989, sou um dos co-autores de «Glória e Vida de Três Gigantes» de 1995 e conheço o meio. Não falo ao acaso.
Esta tentativa canhestra e mal amanhada de tentar branquear um erro terrível que inverteu um resultado de um jogo decisivo, numa altura em que o adversário do Sporting não conseguia alterar o curso dos acontecimentos, vem provar que hoje como ontem eles andam por aí. Não há pingos para esta conjuntivite; os olhos continuam vermelhos.
A blogosfera pula e avança

O nosso amigo João André voltou às lides. E já é doutor. Por extenso.
O nosso amigo Henrique Fialho abandona. Mas de uma forma que permite pensar ter ido de férias. Que tanta falta fazem aos que criam.
A Sábado lançou-se em versão digital. Lamentavelmente, sem ultrapassar uma atroz banalidade no conceito e conteúdos. O mais interessante acaba por estar na experiência de emulação dos blogues. José Mário Silva e Luis Rainha, figuras que foram desta casa, dinamizam o Blogue de Esquerda, ao lado da Ana Leonardo (que tentámos convencer a entrar no Aspirina, antes de ter aberto o seu Meditação na Pastelaria) e do Vasco M. Barreto. No Blogue de Direita, João Miranda, João Vacas, João Gonçalves e o nosso amigo Rui Castro são os artistas. Portanto, e dos dois lados, o elenco reúne bloggers prestigiados. Garantia de textos de qualidade, maturidade analítica e potencial polémico. Todavia, talvez a maior vantagem desta secção seja a captação de novos públicos para a blogosfera entre os leitores da revista. Há um desvirtuamento da independência dos autores quando servem uma marca, qualquer — e ainda pior se for um órgão de comunicação social — pelo que o espaço poderá ser frio demais para a comunidade. Também aponto como mau critério (são gostos, claro) a disparidade entre as pilas e os pipis, 7 a 1, uma correlação funesta. Seja como for, as maiores felicidades para todos.
Balanço final do Portugal-Suécia, antes de começar
Speculu
Valente
De leitura benfazeja a crónica de Vasco Pulido Valente, hoje. Só verdades, como recomenda Anibal aos seus paquidermes. E lanço a ideia de um abaixo-assinado para que o homem escreva apenas sobre o PSD. Pelo menos, até o PSD arranjar alguém com algo, qualquer coisa, que valha a pena ouvir. Aí, mas só aí, poderia descansar ou divagar.
Anéis de Saturno
1 minuto antes das 21h, ontem, cruzei-me com César das Neves (se me estás a ler, eu era aquele tipo com cara de mau, tão ou mais matulão do que tu, que passou em direcção ao jardim, ias em direcção da papelaria ou por aí). Somos vizinhos. 1 minuto depois das 21h — isto é, 1 minuto depois de Mário Crespo ter anunciado compungido que Portugal estava a caminho da falência — voltei a encontrar o César. Desta vez falou-me. Disse-me que dentro de poucos anos, por causa deste Governo, não ia haver dinheiro para nada nem para ninguém. Depois apareceu o João Ferreira do Amaral, mas como não puseram legendas fiquei sem perceber corno. Seguiram-se imagens do Medina Carreira, de perfil, mais a Ferreira Leite, mais malta em manifestações. Muita. Gráficos com as contas do Medina, que provavam com números o que diziam as autoridades. Voltou o César. Disse que isto de Portugal falir teria como consequência o fim da União Europeia. Numa outra parte, a seguir ao segmento onde Sócrates aparecia a confirmar que ia mesmo fazer investimentos públicos, eis a prova, César foi ainda mais intenso. Declarou que a política de Sócrates era criminosa, e nesse entusiasmo saltou-lhe o braço esquerdo para a frente com o dedo indicador espetado, ao mesmo tempo que, num movimento interrompido, quase levantou da cadeira as generosas carnes adjacentes ao fim das costas. Tive a certeza de que a vontade dele era avançar em direcção à câmara e entrar por ela adentro na esperança de apanhar um, alguém. A peça terminou com o aviso de um jornalista: para que em 2013 ainda seja possível salvar o pouco que nos resta, temos de tratar do assunto já nestas eleições, ou será tarde demais.
Quando acabou esta coisa que em tudo, até nos códigos de montagem, seguiu as regras de construção de um tempo de antena, Mário Crespo fez a transição para uma notícia sobre Obama. O seu rosto estava agastado, e disse que íamos para um assunto bem diferente; repetindo que era mesmo bem diferente, na esperança de que todos entendessem que estávamos a sair da choldra em direcção à civilização. E eu gostei disso, porque temos de gostar de um jornalista, ou de uma estação TV, que se julga com a missão de derrubar o Governo. Não é que seja ético ou faça sentido, mas é engraçado. Do que não gostei foi de recordar as sábias palavras do meu vizinho. De repente, percebia tudo, tudinho. Sócrates ia levar o País à falência com o fito de acabar com a União Europeia, e assim pôr no desemprego Barroso e acólitos, estava na cara. Mas, para um mariola como eu, ainda era pouco, porque é sabido que Sócrates não se contenta só com o espaço europeu, vide política comercial. Assim, estava cada vez mais claro que a falência de Portugal ia arruinar o Planeta, talvez também a Lua. E foi então que desceu sobre mim a mais ignominiosa das ameaças: era desta que teríamos de pôr no prego os anéis de Saturno.
Balada da Rua de Baixo
Rua de Baixo, meu mundo
Onde eu regresso cansado
Quando o olhar é profundo
Já andou por todo o lado
São casas sem ninguém
De famílias desligadas
Não se ouve a voz da mãe
Na névoa das madrugadas
Meu berço e minha escola
Minha casa e minha igreja
O amor não pede esmola
Nas esquinas da inveja
Minha paisagem saudosa
Povoada por destroços
Duma sede mais gasosa
Que a água destes poços
Filarmónica formada
Manhã cheia de brancura
Há festa não tarda nada
Na rua desta amargura
Sete ondas repetidas
São sete beijos do mar
Na areia das nossas vidas
Já só podemos cantar
Pode-se cantar um fado
Feito só de melodia
Um homem fica calado
Ao ver a fotografia
Minha rua inicial
A vida, anos primeiros
Onde passou triunfal
A paixão dos baleeiros
Coelhinhas, design thinking e chocolates
Então, e a Sarah Couto, hã?!… Pois é. Também não fazes puto ideia de quem seja a Sarah Couto, né? Eu nunca vi a Sarah Couto mais magra (juro, e ela que não leve mal a confissão). Mas tenho a certeza certezinha de pertencermos à mesma geração, tenha ela a idade que tiver. Ou eu.
E tu, também fazes parte desta geração que não se envergonha de ser (e querer ser) hoje mais corajosa, mais inteligente, mais criativa, mais amorosa e mais livre do que foi ontem? Aposto que sim.
Um livro por semana 113

«Deserto de todas as chuvas» de Sidónio Bettencourt
O ponto de partida deste livro é o lugar da infância («ouço-te desse lugar longe que não habito») o espaço ao qual é difícil voltar: «a custo se regressa ao berço, à escola, à casa, à velha igreja». Porque a infância não é hoje o paraíso perdido mas sim «a nostalgia da casa desabitada e a família dividida». A memória fica repartida entre a monotonia da paisagem («lá vão, a carroça, a bilha do leite, o cão, a missa, o vapor, tudo aceite») e as figuras que a povoam: «carregaste sacos, garrafas, cimento e gás / trouxeste e levaste embrulhos e a carne do talho para todos os doutores / rachaste a lenha do forno e cozeste o pão que o diabo amassou / riste de tudo e viveste entre quarto paredes despidas duma casa de cal e sol / partiste sem os braços quentes duma mulher».
Este retrato do «menino Jaime» é uma fórmula subtil para o poeta introduzir o tema do amor e dos seus desencontros: «não sei se te encontrarás algum dia e se me vires não digas palavra / saberei dizer-te no olhar o que me escondeste dos olhos e da voz calada sentirás o poema da partida». Quando o ponto de partida é a infância o da chegada é o regresso a esse lugar: «nunca tive outra pátria, outro rio, outra casa, outra rua, nunca tive outra terra, outro mar, outra mãe, outra mulher, nunca tive outra coisa qualquer».
Pelo meio fica a respiração entre o deserto («o porto é o deserto / a gente / a fome / a gritaria») e a festa possível: «enquanto houver uma farda branca de clarinete, um pacote de amendoins, uma lâmpada entre dois mastros de bandeira e esta saudade imensa, o tio João Alves pode cortar o cabelo para a festa».
(Editora: Salamandra, Capa: Marta Figueiredo, Desenhos: Emanuel Garcia, Prefácio: Eduardo Bettencourt Pinto, Nota da contracapa: Carlos Melo Santos, Apoio: Câmara Municipal das Lajes do Pico e Direcção Regional da Cultura)
Miau
E o Zé Manel ainda não tuitou sobre isso?
Repito o que já disse antes: se a maioria dos portugueses soubesse efectivamente como são feitas as “notícias”, não comprava um jornal, não via um noticiário, a não ser como entretenimento, ou como obra de ficção.
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Haja alguém amigo do Pacheco que seja amigo do Pacheco e lhe diga, como amigo, Ó Pacheco, se sabes efectivamente como são feitas as notícias, dá notícia, Pacheco. Anda Pacheco, força Pacheco, toca lá essa guitarra.
Afonsinas
O nosso amigo jafonso teve a amabilidade de nos enviar um bilhete onde dá conta das suas mais recentes peripécias.
Amigo Valupi duas palavras, embora atrasadas, sobre o teu post. Regressei ontem de Fátima onde fui em excursão organizada pelo centro dos reformados rezar por alguns frequentadores aí da farmácia. A D.Rosa confidenciou-me em voz baixa, já que estava acompanhada pela neta Cátia Vanessa, que para além do Magalhães ser o assassino da leitura entre os jovens, segundo o companheiro Barreto, ele seria também o principal responsável pela proliferação da diabetes, da incontinência urinária e das doenças da próstata. Vou tentar conferir nos sítios do costume do P.P.P. (1) e do I.D.O. (2), porque se é verdade eles já o sabem com toda a certeza.
Passando a um registo menos sério devo dizer que o facto a que te referes não é dos mais felizes. Todavia também devo considerar que a reacção dos mesmos está na linha do habitual. O que é que esperavas? O episódio do Provedor de Justiça, as reacções de prima dona do “beto” Alegre, as elocubrações tácticas dos irmãos do costume, na tentativa de posicionar um candidato que, segundo eles se oponha ao Sr. Silva, vão conseguir a reeleição do pior Presidente da República após o 25 de Abril e logo o que em condições de normal sanidade mental da esquerda seria possível derrotar. Penso que para além das inevitáveis dificuldades pelas quais a crise nos vai obrigar a passar, ela demonstra também a incapacidade congénita de nos agregarmos em torno de um objectivo comum.
Quanto ao resto, depois de almoço, vou tomar café ao sítio do costume e deixar ao Silva do B.B. umas pagelas com a inscrição “Em Fátima rezei por ti” dedicadas a alguns frequentadores aqui da farmácia, desde que devidamente identificados. Sabes que a caminho de Lisboa, talvez já iluminado pela oração, tive a sensação que o cavaquismo nunca existiu.
1) Patético Pacheco Pereira
2) Inenarrável Daniel Oliveira
Vinte Linhas 331
O vómito algarvio ou segundo caso «very light»
Corria o ano de 1996 quando na Final da Taça de Portugal no Jamor um «very light» atirado de uma claque benfiquista atravessou o relvado e atingiu o peito do sócio sportinguista Rui Mendes destruindo-lhe a traqueia e provocando a sua morte imediata. Treze anos depois no Estádio do Algarve, na Final da Taça da Liga, foi o árbitro setubalense que atirou um «very light» ao peito do jogador Pedro Silva assinalando uma grande penalidade inexistente e expulsando o mesmo jogador. Como o adversário do Sporting não conseguiu o golo, o árbitro «chegou-se à frente» e resolveu a questão. No primeiro caso a FPF foi condenada a pagar uma indemnização pelo Tribunal de Oeiras e o autor material do disparo do «very light» foi preso e condenado mas depressa fugiu de uma prisão de alta segurança. No segundo caso o árbitro não vai ser castigado e o clube vencedor festejou a vitória como se a mesma fosse legítima. Não estranha num clube que celebrou o centenário no ano em que fez 96 anos e ostenta na camisola o símbolo de 31 campeonatos quando são apenas 28 uma vez que as Ligas de 1935 a 1938 foram torneios privados, particulares e onde os clubes entravam por convite; ao contrário do Campeonato de Portugal, único torneio de futebol em Portugal que atribuiu o título de campeão nacional entre 1921 e 1938. Na verdade foi a camisola do jogador Di Maria do Benfica a agitar-se (a papoila saltitante) que marcou a grande penalidade. Tal como o falso centenário em 2004, tal como os três campeonatos fantasma de um torneio que se realizava nos domingos livres entre as eliminatórias do Campeonato de Portugal. Este segundo caso «very light» é um vómito mais sobre este tão pobre futebol português.
Cineterapia

The Dark Knight_Christopher Nolan
Dizer que este filme foi o melhor de 2008 é curto. Foi também o melhor de 2007 e de 2009. Ah, dane-se, é o melhor filme que o século XXI já viu. Porque é uma análise matemática, um ensaio político e uma reflexão ética, tudo incluído no preço do bilhete. E porque é a obra de um virtuoso, um criador de clássicos, de perfeições. Trata do problema que enchia anfiteatros nas cidades gregas, 2500 anos atrás: que é o Homem? Eles não sabiam, sortudos. E quem não sabe, pergunta. Nasceu a filosofia, nasceram esses chatos do caralho que zumbem aos ouvidos dos sonâmbulos. Tão perigosos que a polis os persegue, quer castigar, envenenar. Mas são eles que vigiam e protegem a pergunta, sempre ameaçada pelos que não querem abandonar a ilusão que lhes calhou à toa ou pelos que receiam perder-se caso se encontre a resposta.
Grandes verdades são reveladas neste filme, mausoléu do génio de Heath Ledger. Seguem a sapiencial tradição de esconder o tesouro mais valioso no local mais próximo e visível. Por exemplo, que quando se joga ao dilema do prisioneiro são os loucos aqueles que têm razão; isto é, aqueles que escolhem confiar no outro. Por exemplo, que há heróis que temos de perseguir e afugentar, pois ainda não estamos preparados para eles. Por exemplo, que sometimes the truth isn’t good enough, sometimes people deserve more, sometimes people deserve to have their faith rewarded. Por exemplo.
O que é o Homem? É aquele ser que faz filmes.