Depois de ter escrito a biografia do rei D. Manuel I, o historiador João Paulo Oliveira e Costa acaba de fazer um livro em tudo diferente. Chama-se O império dos pardais é uma edição Círculo de Leitores e faz do Rossio o palco privilegiado para as personagens se misturarem, se envolverem e se defrontarem. Este Rossio que ainda hoje continua a fervilhar de gente das mais desvairadas caras, raças, cores, credos e nomes.
Hoje, como no tempo do romance, os pardais continuam a aproveitar os bocadinhos de pão que sobejam da luta entre as gaivotas e os pombos. No romance as potências da Europa são a França, o Império Alemão e a Inglaterra. Como hoje, afinal.
Para além das descrições vivíssimas da zona portuária do Tejo, para além da importância decisiva da Irmandade de Moura, o grupo dos amigos do então duque de Beja, para além das peripécias dos serviços de espionagem e de contra-informação, a mim fascinou-me em particular a morte de um marinheiro, «mestre» Felício, em Beja. O rei D. Manuel I visita-o no leito de morte para garantir que está ali por gratidão e respeito para lhe agradecer as viagens de exploração pelo oceano que não foram registadas pelos cronistas nem tiveram direito a diário de bordo.
Na história continua a haver tempos nebulosos e personagens difíceis que nunca vão sair dos subterrâneos do esquecimento. São pessoas que deram tudo por uma causa mas não foi conveniente divulgar os seus nomes, os seus trabalhos e os seus dias.
Este livro deixa-me reconciliado com uma certa ideia de Portugal. E não falta um estrangeiro (um dinamarquês) para nos dizer lucidamente aquilo que nós não somos capazes de descobrir. Até nesse pormenor este é um livro profundamente português.







