É o melhor conselho da quadra. Uma festa. Entrar em 2008 a perdoar.
Arquivo mensal: Dezembro 2007
Pero te vas a arrepentir
Encontrar paralelismos entre Benazir Bhutto e Sergio Gómez não é para qualquer um. Aposto que sou o único, dos 6 mil milhões de cérebros humanos em aparente actividade, a alcançar tal feito. E é altamente provável que venha a ser, em simultâneo, o primeiro e o último. Mas acontece terem sido os dois assassinados em Dezembro. E acontece terem vivido os dois do espectáculo e das multidões, ela na política e ele na música. E aconteceu-lhes terem sido avisados de que podiam ser assassinados se fossem a certos locais, locais esses onde eles foram. É só aqui que a coisa se torna interessante, separando-se as águas para deixar passar a inteligência a caminho da verdade prometida. A reacção normal é lamentar a morte destas pessoas, cuja inocência se institui no contraste com o crime de que foram vítimas, deixando as emoções estragarem a oportunidade de aprender. Mas de reacções normais, e de emoções, está a violência cheia. Para os assassinos, houve uma sequência normal de decisões que concretizaram a intenção de os destruir. Para os que estejam interessados em diminuir ou anular os crimes (sempre pouca gente, muito pouca), é necessário desenvolver reacções anormais. Uma delas consiste em olhar para o lado. Desviar os olhos dos efeitos, da hipnose. E constatar: Sergio foi apenas um de 2.500 episódios anuais de execuções ligadas ao narcotráfico, no México; a chegada de Benazir ao Paquistão já tinha dado azo a um ataque bombista onde morreram mais de 140 pessoas, não havendo qualquer forma de evitar outro eventual, e por todos antecipado, massacre.
Eles sabiam ao que iam. E foram. E se num caso só se perdeu um estúpido, no outro uma estúpida fez perder muitos, e muito. A estupidez é a causa primeira de todas as violências.
Leituras para 2008

Em 2008 quero que todos os portugueses, maiores de 12 anos (a idade da razão, como é do conhecimento geral), adquiram este livro supra anunciado e o enviem para o político que consideram mais competente. Nos casos em que o político favorito seja o Cristiano Ronaldo, o Ricardo Araújo Pereira ou algum participante nos Morangos Com Açúcar (e contando a partir da primeira série), não se inquietem. Peçam ao papá o nome do político que ele mais detesta e mandem à confiança. À mamã não vale a pena perguntar porque ela não percebe nada de política, nem quer perceber, e ainda fica irritada com o assunto. Cuidado: se o papá indicar Pinto da Costa ou Luís Filipe Vieira, repitam a operação as vezes necessárias até se cansar e mudar de resposta.
Livros de economia não são de digestão fácil para um português. O português típico pensa com a barriga, só alinha em filosofias da ginginha (a fruta da época) ou anda preocupado com o que se passa no seu romance de cabeceira. Assim, não irá ler este livro. Mas dava-nos um jeitaço do caralho que os nossos políticos e empresários o lessem. Porque aumentaria a probabilidade de ficarem mais inteligentes ou, nalguns casos, quase inteligentes. A tese é relativa ao funcionamento dos mercados e às teorias económicas que sempre ambicionaram explicá-los nos fundamentos e desenvolvimentos. Os autores dizem o óbvio para quem pertence ao século XXI, que nenhuma teoria se aguenta nas canetas que a criaram. A realidade é, invariavelmente, mais complexa e imprevisível do que as suas reduções abstractas. Coisa tramada para quem depende do acerto das previsões para acumular riqueza ou não a perder. Que falha, uma e outra vez? A natureza humana. O comportamento dos indivíduos supera as capacidades analíticas dos modelos de lógica mecânica. É necessária uma outra matemática, já não da quantidade, do resultado, mas da qualidade, da tendência.
E pensemos — o que é a economia? É a sobrevivência. Vem antes do sexo, continua depois dele e aumenta as possibilidades da sua ocorrência, para o próprio e para a prole. A economia é tudo o que se relaciona com a obtenção de comida, abrigo, roupa, saúde, educação, segurança, transportes, divertimento. Ou seja, tudo o que molda o sentido da vida, pois claro. Claro. E claro que uma nova visão da economia se relaciona com uma nova visão antropológica, um olhar mais apurado do que seja o humano nisso de o descobrir vário, errante e súbito. Quando a própria ciência económica, que tem vivido agarrada à matemática como um macaquinho às costas da mãe, aceita a incerteza como operador, há lições que se podem transportar para as relações pessoais. Podemos deixar de ver os outros mecanicamente, como temos feito na neurose comum, e aceitá-los imprevisíveis. Tal como nós nos sabemos, nem que seja sonhados. Como nós nos queremos, mesmo que ainda não o saibamos ou já o tenhamos esquecido.
Sim, é isso. A economia é o governo da casa.
O Requiem da Ginjinha
Perdemos a ginjinha do Rossio
E as bolas-de-berlim ao sol de Agosto.
Os pés hão-de deixar de fazer mosto
E o medronho de dar combate ao frio.
A varina, coitada, está sem pio.
A fruta unificada não tem gosto.
O jornal das castanhas foi deposto,
Mas Portugal ganhou o desafio.
Não temos quem nos ponha em risco a vida.
E se nos pesa muito qualquer carga,
Basta alijá-la logo na subida.
Já ninguém usa lança nem adarga,
Os burros são espécie protegida,
E a escola de Medrões tem banda larga.
O Estado a que isto chegou
Jorge Luís Borges escreveu um dia que os argentinos não têm a noção de Estado. Não só porque nunca leram Hegel, mas também porque a própria ideia de Estado é, para eles, uma completa abstracção. Para os argentinos roubar dinheiro ao Estado não é um crime.
Neste fim de ano, conjugam-se duas situações (uma pública, outra privada) para eu ter cada vez mais repugnância pelo Estado português, o Estado a que isto chegou. Pública é a ofensiva da ASAE contra um ponto de referência nas minhas deambulações lisboetas, em que desde 1966 pratico o ‘desporto líquido’ – como diz o Baptista-Bastos. Fecharam a Ginjinha do Rossio e fico à espera do próximo. Será o Eduardino na Rua das Portas de Santa Antão? Será o Pirata nos Restauradores? Será o British Bar no Cais do Sodré? Ninguém sabe.
Mas eu sei que a minha repugnância perante esta ofensiva de macaquear o politicamente correcto de Bruxelas me dá cada vez mais angústias no meu quotidiano lisboeta. A história privada é uma multa de 50 € que fui obrigado a pagar porque em 2004 não paguei 324 € por conta das minhas receitas desse ano. Não paguei porque sabia que ia receber, como recebi de facto 373 € no final. A máquina é tão monstruosa que não há nada a fazer. É pagar e calar. Se não pagar essa multa, podem penhorar-me a casa que eu demorei 25 anos a pagar em prestações.
Sinto-me cada vez mais argentino no sentido em que do Estado não espero nada de bom. A ASAE e as Finanças são os pontos negativos de uma realidade que me repugna também porque nada posso fazer contra ela. Agora Luís Filipe Menezes vem dizer que quer acabar com o Estado até 2009. Vamos a ver, vamos a ver. Há sempre uma esperança. Nem tudo é negro no Estado a que isto chegou.
Garoto sem disciplina
O nosso amigo Rui Vasco Neto brindou-nos com um garboso texto a embrulhar uma justíssima reflexão. Oportunidade para um itálico que nos honra. A sua escrita tem aqui um lugar de abundância, humor e atenção ao que mais importa.
Garoto sem disciplina é um sério candidato ao disparate. Não se lhes pode dar corda a mais nem corda a menos, o velho princípio do sabonete, se apertamos de menos ele cai, se apertamos de mais ele salta-nos da mão. É por isso que a educação é uma tarefa tão complicada, contrariando a sabedoria popular que diz que tudo se cria, de uma maneira ou de outra.
Herdeiros das Capelas Imperfeitas
Somos de pura raça lusitana,
Herdeiros de um incerto Viriato,
De um bastardo que foi prior do Crato,
Dos que foram além da Taprobana.
Vendemos lã para comprarmos “lana”,
(“Caprina”, que é negócio mais barato.)
E já produz mais fumo o nosso mato
Do que oxigénio a nossa mata emana.
Povo de heróis, de artistas e de santos,
(Líamos assim… sábios, outros tantos…),
Em seus brandos costumes ledo e manso.
Mas ter como morada este país,
E mesmo assim viver sempre feliz,
– Oh! meus amigos, só de santo ou tanso.
Assassinos do Sócrates Atacam a Eito (ASAE)

Ler o que o povo escreve nos jornais é redentor. Salva-nos de eventuais ilusões relativas ao poder da racionalidade. No Público de hoje, alguém escolheu para as Cartas ao Director uma que ataca a acção da ASAE repetindo clichés paranóicos, e que termina assim:
Na Serra de Monchique uma brigada da ASAE sentou-se à mesa de um pequeno comerciante local, bebeu do seu medronho caseiro e depois multou-o. Dias depois o homem suicidou-se.
Que gente é esta?
As reacções à actividade da ASAE são a anedótica ilustração do nível de civismo e literacia da País. Os que temem ficar privados desta ou daquela iguaria tradicional são os mesmos que passaram décadas a lamentarem-se por não haver qualquer espécie de regulação do comércio alimentar. Todavia, perante a imbecilidade dos protestos, conclui-se que estavam era satisfeitos com as frequentes intoxicações alimentares, tranquilos com a ingestão das mais desvairadas substâncias cancerígenas, serenos face à possibilidade de serem cúmplices de ilegalidades lesivas do Estado, da saúde pública e dos direitos dos consumidores. Enfim, estavam de pança cheia com o regabofe.
Ver publicistas de nomeada a alinharem nisto é a chouriça no cimo do cozido. Ou melhor, é o caldo onde se coze a irresponsabilidade política. Porque não se deveria ter de justificar, fosse a quem fosse, a actividade da ASAE. Eles chegam com 30 anos de atraso. O que importa discutir são os critérios da regulação, pois sim, mas só após a primeira fase de controlo, no fim de um biénio de exigente fiscalização. Então, deixando a própria entidade reflectir sobre os seus erros e excessos, haveria condições para se respeitar os interesses da comunidade, desde os produtores aos consumidores, passando pelos comerciantes. Se os cidadãos quiserem, não faltam institutos jurídicos e organizações capazes de regular e aperfeiçoar a conduta do Estado.
Quem tem medo da política?
O melhor blogue do mundo é apenas um dos 18 melhores em Portugal
O concurso Melhor Blog Português de 2007 merece a nossa atenção. Ao Fernando acelerou-lhe a veia ditirâmbica, esta causando no Daniel uma bizarra troca de identidades (chamar Yazalde a um Purovic), e a mim suscita-me uma declaração de voto: o melhor blogue do mundo é o Abrupto. À opinião já com mais de 1 ano, acrescento uma evidência: caso o Abrupto acabasse, a blogosfera portuguesa não ficaria a mesma. Quais são os outros blogues a poder reclamar tal efeito?
A maior parte das opiniões negativas que JPP desperta são inanes ou enjoativas imbecilidades, espasmos miméticos e primários. O inevitável prémio da sua popularidade. Uma salutar excepção veio do Paulo Querido, esfregando números nas barbas do Pacheco. Eu também me irrito com a sua inépcia em ser oposição, pois nele há (há?…) condições para alimentar a inteligência da direita-centro-esquerda, a tal zona onde se ganha o Parlamento. Mas o historiador ainda não percebeu a filosofia socrática, tendo apostado no cavalo errado da denúncia da suposta malignidade mui maligna do suposto engenheiro. Também não é claro que tenha ideias para vender ao público com visão, coisa bem diferente de ser escrevinhador na Visão* ou no Público. Adiante, pois nada disto compromete o apreço — na verdade, pasmada admiração — pelo constante trabalho de criação de comunidade que no Abrupto se faz; e como em mais nenhum lugar se vê sequer parecido. Basta referir que a participação dos leitores recebe o cuidado editorial de JPP, tanto para textos como para fotografias, naquilo que é gratuito serviço público. E basta lembrar a sua regular teorização, de cariz sociológica, do estado da blogosfera portuguesa. Como o homem é uma das maiores figuras do circo opinativo, o Abrupto foi, e continua a ser, uma das mais notáveis bandeiras deste nosso meio. Registe-se, igualmente, a alegria com que explora as funcionalidades tecnológicas e conceptuais dos blogues, respeitando-se a audiência no cuidado posto na animação e renovação dos conteúdos. O gosto pela ciência, e suas aplicações quotidianas e lúdicas, o sentimento de paixão pelo mistério cósmico, explicam mais das suas opções do que a dimensão ideológica. Por fim, a perseverança. Num meio dado a tanta efemeridade, tanto ataque narcísico que aniquila ou multiplica blogues, é de aplaudir a manutenção da entidade, e respectiva identidade, Abrupto.
É, pois, grotesco ver o Abrupto em 18º lugar na categoria Melhores Blogs Portugueses em 2007. E é absolutamente lunática a 10ª posição na categoria Política & Sociedade, atrás do Aspirina B (!!). Que quer isso dizer? Que todos os concursos são exercícios de resultado irrelevante. Num sistema por voto popular, há sempre uns maluquinhos que desequilibram a amostra em favor das suas preferências, repetindo votos e arregimentando votantes. E num sistema com júri, é a lotaria das idiossincrasias reunidas a tomar decisões arbitrárias. No caso deste concurso, os dois sistemas foram utilizados. Tudo explicado.
Espero, porém, que a iniciativa perdure. Pois permite descobertas. E o talento nunca é demais. Como o Abrupto prova à saciedade.
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* Como avisa o Fernando, JPP escreve na Sábado. Pormenor que não consegue molestar o meu notável trocadilho.
Justiça cega
O rapazinho chorava. O agente da PSP que estava de serviço àquela escola de Rabo de Peixe perguntou-lhe a razão do choro, e ele respondeu: “Minha mãe não teve dinheiro para comprar velas.”
Uns anos antes, o pai fora acusado de maus tratos à mulher e aos filhos. Entretanto, deixara de beber e arranjara emprego. Mas foi então que, numa certa noite, alguns polícias foram buscá-lo a casa para cumprir a pena de prisão finalmente decidida pelo tribunal. Quando ele já não representava nenhum perigo para a sociedade nem para a família, e se tornara indispensável para garantir o sustento desta.
A mãe não tivera dinheiro para pagar a conta da electricidade, que lhe foi cortada. Nem o teve para comprar velas à luz das quais o filho pudesse fazer os trabalhos de casa. E ele estava com medo de que a professora se zangasse.
A justiça é cega. Mas, às vezes, seria melhor que abrisse os olhos.
Terceiro retrato de Paula F.
Teu corpo é uma paisagem protegida
Que não se lê num livro ou na Escola
A origem do prazer e a fonte da vida
Situa-se entre as calças e a camisola
Olho e vejo as dunas, vento e areia
Condições de humidade e pressão
No teu corpo é sempre maré-cheia
As ondas trazem espuma e paixão
Mostravas os quadros de uma sala
Mas a obra passou-me despercebida
E noutra proporção e noutra escala
Mais valiosa do que a Arte é a Vida
O poema procura mas não alcança
Desenhar sentimentos em confusão
Sais pelo jardim em passo de dança
E eu fico nos corredores da solidão
Nós tamén
Francisco José Viegas diz: «Às vezes sou galego». Isto na Origem das Espécies.
Acompanhar com Vinho do Porto
Leia «Qual crise?» no sempre visitável Da Literatura.
Outro poema de Emanuel Félix
FIVE O’CLOCK TEAR
Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos parados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p’ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora
Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la
E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito
E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos
E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio do silêncio
colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes
Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada
Emanuel Félix
Tu és daqueles que desejam feliz Natal ou bom Natal?
Será José Manuel Fernandes o mais imbecil director de jornal em Portugal e boa parte do Mundo?
sincelo em avaria
Será Menezes o mais imbecil dos portugueses?
Sincelo 2
Sincelo
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Arranje uma temperatura francamente negativa, cinco graus é o ideal. Junte-lhe nevoeiro, preferentemente denso. Convide uma leve aragem, o suficiente para a humidade se mover. Misture bem e atire pela janela. Vá dormir. Quando acordar, ele estará pronto. O sincelo. Pronuncie «sincêlo», não vá ele estragar-se. Pegue na máquina fotográfica e ponha no seu blogue. Isto esteve hoje à vista em Amsterdão.
