Leituras para 2008

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Em 2008 quero que todos os portugueses, maiores de 12 anos (a idade da razão, como é do conhecimento geral), adquiram este livro supra anunciado e o enviem para o político que consideram mais competente. Nos casos em que o político favorito seja o Cristiano Ronaldo, o Ricardo Araújo Pereira ou algum participante nos Morangos Com Açúcar (e contando a partir da primeira série), não se inquietem. Peçam ao papá o nome do político que ele mais detesta e mandem à confiança. À mamã não vale a pena perguntar porque ela não percebe nada de política, nem quer perceber, e ainda fica irritada com o assunto. Cuidado: se o papá indicar Pinto da Costa ou Luís Filipe Vieira, repitam a operação as vezes necessárias até se cansar e mudar de resposta.

Livros de economia não são de digestão fácil para um português. O português típico pensa com a barriga, só alinha em filosofias da ginginha (a fruta da época) ou anda preocupado com o que se passa no seu romance de cabeceira. Assim, não irá ler este livro. Mas dava-nos um jeitaço do caralho que os nossos políticos e empresários o lessem. Porque aumentaria a probabilidade de ficarem mais inteligentes ou, nalguns casos, quase inteligentes. A tese é relativa ao funcionamento dos mercados e às teorias económicas que sempre ambicionaram explicá-los nos fundamentos e desenvolvimentos. Os autores dizem o óbvio para quem pertence ao século XXI, que nenhuma teoria se aguenta nas canetas que a criaram. A realidade é, invariavelmente, mais complexa e imprevisível do que as suas reduções abstractas. Coisa tramada para quem depende do acerto das previsões para acumular riqueza ou não a perder. Que falha, uma e outra vez? A natureza humana. O comportamento dos indivíduos supera as capacidades analíticas dos modelos de lógica mecânica. É necessária uma outra matemática, já não da quantidade, do resultado, mas da qualidade, da tendência.

E pensemos — o que é a economia? É a sobrevivência. Vem antes do sexo, continua depois dele e aumenta as possibilidades da sua ocorrência, para o próprio e para a prole. A economia é tudo o que se relaciona com a obtenção de comida, abrigo, roupa, saúde, educação, segurança, transportes, divertimento. Ou seja, tudo o que molda o sentido da vida, pois claro. Claro. E claro que uma nova visão da economia se relaciona com uma nova visão antropológica, um olhar mais apurado do que seja o humano nisso de o descobrir vário, errante e súbito. Quando a própria ciência económica, que tem vivido agarrada à matemática como um macaquinho às costas da mãe, aceita a incerteza como operador, há lições que se podem transportar para as relações pessoais. Podemos deixar de ver os outros mecanicamente, como temos feito na neurose comum, e aceitá-los imprevisíveis. Tal como nós nos sabemos, nem que seja sonhados. Como nós nos queremos, mesmo que ainda não o saibamos ou já o tenhamos esquecido.

Sim, é isso. A economia é o governo da casa.

10 thoughts on “Leituras para 2008”

  1. queres, primeiro, irritar as mamans (desculpa o n, mas sem ele, nem til, soaria abrasivo) portuguesas. mostras grande optimismo nisso de haver portugueses tipicos com livros de cabeceira. e esqueceste-te da soraia chaves e da merche romero, como politicas preferidas.
    quanto ‘a economia vai ficando mais ou menos na mesma. tanto faz o que a malta leia, ou saiba: tudo comec,a no centro, no estado, e o centro “precisa” de pessoas “de confianc,a”. como geralmente o tempo util da vida de cada escolhido nao da’ para fazer carreira politica E carreira profissional, o resultado e’ previsivel. no salto ‘a vara quem esta’ a ver de fora nunca sabe muito bem qual e’ a altura da fasquia, mas atenta bem nesta e nunca na vara flexivel.

  2. Valupi
    A ecónoma cá de casa é minha mulher, que nunca leu um livro de economia nem de donas de casa, não faz rendas nem bordados e o mais pelo estilo. Acredito que tenhas razão em tudo quanto dizes, mas não me parece que o livro acabe com um final tipo duelo ao pôr-so-sol ou Rio Bravo. Sem sangue, nada feito. Ou pelo menos golos.
    (Não poderias tê-lo resumido? Nesses casos, saber como o enredo termina não retira a expectativa.)

  3. susana, não posso discordar mais. Primeiro, o que eu tento evitar é a irritação das mamãs, daí o aviso para nem sequer serem incomodadas. Depois, todos os portugueses típicos têm livros na cabeceira e passam a vida em restaurantes. Os dois fenómenos justificam-se entre si de modos ainda enigmáticos para a ciência. Finalmente, e absolutamente, discordo do que dizes da leitura pela malta. Vou ousar corrigir-te a frase: “tanto faz o que |alguma| malta leia, ou saiba”.

    Há muitas modalidades à disposição, o salto à vara é apenas uma delas.
    __

    Daniel, constato que os deuses gostam de ti. Daí reinar a felicidade na tua casa. Quanto ao livro, começa com um duelo. Precisamente. Vai na volta, já o leste e estás a mangar comigo. Mas, cá por causa das dúvidas, sempre te digo: já está reduzido, o livro. É ler o título. Depois, se não fores daqueles que se ficam pelas versões reduzidas, podes começar pelo prefácio. É sempre bom caminho para se entrar num livro, um bom prefácio. E assim por diante. Chegas ao fim e ainda podes oferecer o que restar para embrulhar castanhas. Nada se perde, caro Daniel. Pelo menos, enquanto houver castanhas no fogaréu. E sal. Não esquecer o sal da Terra.

  4. Caro Valupi, mas isso de conhecimento imperfeito é o que eu tenho nestes assuntos. Embora, por estranho que pareça, tenha pertencido à Comissão de Assuntos Económicos e Financeiros da Assembleia Regional. Sozinho em representação do PS, que o outro que lá devia estar, e com quem eu já trabalhara na Junta Regional (o nosso “governo provisório”), pedia um atestado ao pai, médico, e nunca punha lá os pés. Mas não me safei mal, penso eu.

  5. Não duvido, Daniel. Só te faço notar que o livro em causa apela a um perfeito conhecimento do conhecimento imperfeito. A terem razão, os autores, temos todos a ganhar em aprimorarmos essas valiosas imperfeições.

  6. Bom texto Valupi, e irei comprar o livro – há algum humor anglófono que não dispenso, de vez em quando. Não diabolizemos a matemática mas as mentes estreitas que se agarram a paradigmas ultrapassados. A matemática é como a música, bela.

    Bem, mas eu já agora quero: taxas de juro a descer para os três por cento, inflacção reduzida a um salzinho, e mais emprego´ com criatividade e felicidade. É dificil? Vai contra todas as teorias económicas? (todas, duvido, há sempre um maluco simpático por aí)

    Estou-me nas tintas! Se não conseguem rua, porque não são competenttes. Com tt.

    PS sobre o Cadilhe, prudentemente eu tinha deixado um ssmj,

  7. Ora , nenhuma ciência humana é exacta , felizmente. Significa apenas que não somos números e que nenhuma teoria de dominação da humanidade terá sucesso. Neste fim de século , quase , quase que conseguiram , através da manipulação psicológica fazendo-nos crer que necessitamos de milhares de coisas inúteis, através da publicidade. Mas ainda restam uns poucos que sabem que não é assim. Comer , dormir , fxxx, dançar, ler e pronto. Desde que aprendamos a fazer isto bem…o prazer de viver está praticamente assegurado. Agricultura de manhã , música à tarde e à noite seja o que os deuses quiserem , não me parece mal.
    Os putos das rastas sabem perfeitamente isso.
    E adoram agricultura , e terra, e animais e germes , e os tais dos tambores primitivos, e tudo o que é considerado arcaico. Ainda que não desprezem um bom pc e água quente . Mas não precisam de BMs, nem de cagança . Uma bicicleta, roupa confortável e um charro chegam para viajar.
    Viva a juventude , aquela que faz o seu papel de se opor às gerações anteriores e nos dá novas perspectivas de vida , corrigindo os excessos e tonterias dos papás.

  8. Ah, aos poucos os economistas vão admitindo que economia é apenas um ramo da Termodinâmica. Vou procurar o livro.
    mfm,
    economia é uma ciência exacta, a realidade é que é incerta.

  9. mfm, tem toda a razão o tonibler. As teorias querem-se exactas, divinas. O que faz mal a muita gente que se esquece da realidade.
    __

    tonibler, certíssimo: termodinâmica. Nem menos, embora mais.

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