A crise só te faz é bem

Em relação ao entendimento das problemáticas económicas, há três grupos possíveis, e não mais do que três. O primeiro é o dos que não pescam nada do assunto. Aqui se encontram os analfabetos, analfabrutos, iletrados, ignorantes, preguiçosos, confusos, disfuncionais, neuróticos, empregados públicos, velhinhos marotos, aparvalhados, bêbados, clientes da Caixa Geral de Depósitos por opção e sócios do Benfica com as quotas em dia. O segundo é o dos que entendem alguma coisa do assunto. Aqui se encontram licenciados, jornalistas, políticos, trafulhas, ciganos, traficantes, mafiosos, indivíduos com um tio no Corpo Diplomático, vendedores de relógios chineses, empresários que fogem aos impostos, patos-bravos, participantes regulares no Fórum da TSF, taxistas e médicos. O terceiro é o dos que sabem tanto que sabem nada saber. Aqui se encontram eruditos, académicos, anacoretas e alguns pastores do triângulo Covilhã, Nelas e Celorico da Beira.


Eu, já que perguntas, pertenço a dois grupos: primeiro e terceiro. Os extremos tocam-se, em ambos os grupos se reconhece que a economia deve mais ao mistério do que aos ministérios. No primeiro grupo, as temáticas económicas e financeiras são demasiado complicadas, técnicas, graves. Ninguém faz ideia donde vem o dinheiro, porque sobem os juros, para quê a atenção hiperactiva e obsessiva ao que acontece horariamente nas bolsas. Muitos, mas muitos, não conseguem sequer explicar o processo através do qual se gera um salário. Simetricamente, no grupo onde se sabe tudo há igual abandono das explicações definitivas, pois é óbvio que a economia resulta de opções teóricas que tentam abarcar acontecimentos políticos, sociais, psicológicos, tecnológicos e ambientais. Não temos de possuir QI superior ao do melro para ver como é impossível a qualquer teoria a antecipação sem falhas de tantas e imprevistas variáveis.

Onde se fala com abundância é no segundo grupo. Há opiniões para todos os gostos, factos para todos os desgostos. Cada um exibe sem vergonha a capacidade de resumir qualquer crise em dois ou três silogismos. E têm autores para citar, às centenas; nunca houve crise no mercado da explicação de crises passadas, denúncia de crises presentes e profecia das crises futuras. Estas pessoas estão assustadas, como é inevitável. Conhecendo com detalhe o que está mal, têm facilidade em imaginar o que pode ficar pior. Em pânico, procuram aliviar-se dizendo-nos que também devemos ficar assustados. É que se eles conseguirem contaminar os outros à sua volta com o seu pavor, deixarão de se sentir tão mal. Passam a poder dizer que, ainda assim, estão menos desorientados do que os pobres coitados abaixo, os do primeiro grupo. E isso trará consolo, pois o mal dos outros sabe-nos quase sempre a mel. Acalma-nos.

A economia é a continuação, num plano de maior complexidade, das interacções das forças físicas, químicas e biológicas, recordo o básico só para ancorar o que segue. Plantas e animais também são agentes económicos, também têm de trabalhar para viver; e sabem-no melhor do que nós, por impulso genético. O Sol, a água, o instinto de sobrevivência e a reprodução explicam a origem de tudo o que acontece na vida natural quanto a causas e objectivos genéricos. A Humanidade apenas acrescenta a procura de sentido como mais um factor na equação. Pois bem: se tudo se altera no Universo, sendo esse movimento teleologicamente criativo, por que razão deveria a economia permanecer imutável?

Esta crise americano-global está a ser comparada com todas as outras, com as piores que se registaram. Nessa lógica, e atravessando a retórica do medo, o que se constata, então, é uma necessária adaptação do sistema. Mais uma, de tantas outras passadas e futuras. Para quem está no segundo grupo, as perturbações psicológicas são tremendas, pois sentem impotência igual à de quem tente suster as águas de um rio com as suas mãos. Mas para quem estiver no primeiro grupo, o melhor é imitar os no terceiro. Estes, já estão a olhar para onde vão parar as águas e a calcular o caudal. A economia não vai desaparecer, a menos que os seres humanos desapareçam. Qualquer grande crise, ensina a História, é um período de maior oportunidade para enriquecer.

Alguns economistas encontram correspondência entre períodos de recessão e um conjunto de benefícios para as populações e indivíduos. Eles vão desde o aumento da sobrevivência, extensão do período de vida, ganhos em saúde, até às melhores relações comunitárias e familiares, melhor educação e melhorias ambientais. Não são exageros, antes realidades já constatáveis em Portugal. Por exemplo, a redução dos acidentes e mortes na estrada tem relação directa com a redução do tráfego automóvel por causa do aumento dos combustíveis e redução nos orçamentos. Elementar, meu caro. Mas há mais: Portugal tem tudo a ganhar com um abanão radical na secular imbecilidade colectiva para com as disciplinas económicas e financeiras. Pura e simplesmente, os nossos pais, avós e bisavós não souberam criar riqueza em Portugal. Esse é um dos mais trágicos legados do salazarismo, pois está directamente relacionado com a aversão colectiva ao conhecimento, à investigação e à reflexão. Este anti-intelectualismo endémico, por sua vez, esboroa as possibilidades realizadoras da cidadania e da democracia.

Não temas, a crise não passa de uma palavra. Tens outras à disposição, tantas.

20 thoughts on “A crise só te faz é bem”

  1. és danadinho Valupi, mas és delicioso mesmo quando me destroças! Mas amanhã atiço o fogo que agora ainda tenho o Sol a flashar dentro de mim e um pêlo na garganta. Falas do salazarismo e talvez não te lembres que esse período pode ser reduzido a um único axioma: fazer da estabilidade do Escudo a religião do Estado (com o sufoco inerente). Hoje vou dormir como um texugo, com aspirina e tudo.

  2. “It’s financial socialism, and it’s un-American” – assim comentou ontem o senador Republicano do Kentucky, Jim Bunning, a tentativa do governo Bush de salvar Wall Street à custa do contribuinte. Que podia ele dizer sem trair os seus sacrossantos princípios liberais? Primeiro, arquivou a coisa como “socialismo”, lavando daí mui liberalmente as mãos do capitalismo – sempre saudável, equilibrado e eficaz. Depois, declarou-se contra a decisão de Bush, sabendo perfeitamente que a maioria dos dois partidos a vai apoiar, pois ninguém quer perder as eleições que se avizinham.

    “Socialismo financeiro” em tempos de débâcle capitalista. Também cá tivemos recentemente desse artigo, flagrantemente ilustrado pela mobilização do socialista presidente da Caixa, Santos Ferreira, para salvar o BCP, com todo o apoio do liberal Ulrich e do anarco-liberal Berardo. E com a benção do socialista governador Constâncio, que fechou os olhos à merda toda durante anos.

    Dá vontade de dizer, sem a hipocrisia do Jim Bunning: – Foda-se, pró caralho, vão fazer pouco da cona da mãe, seus filhos da puta de vigaristas e parasitas duma figa, o Tesouro não quer saber se os vossos bancos de merda vão à falência, é bem feito, o Zé Pagante não vai dar nem um chavo para vos salvar o cu. Andor, cabrões, tudo prá falência que se faz tarde! Haja verdade e dignidade!

    Eu não sei em que grupo estou, mas é esta a a minha visão das coisas.

  3. Eu, que não fico em casa e sou do Sporting, só sei que há falências ( ou semi-falências… sei lá!) de Bancos, Cªs de Seguros, Cªs Aéreas… também há deslocalizações de fábricas e rebuçados perigosos à venda em Portugal, que Vale Azevedo deve 416 mil euros de renda em Londres, que há um vídeo que mostra Sarah Palin em oração contra Satanás e «todo o tipo de feitiçaria» na igreja pentecostal de Wassila e que Marques Mendes escreveu um livro onde defende que o debate político é muito pobre.

    Assim, bem informada e sem debate me vou prá caminha, que se faz tarde!

  4. Valupix, pensei, pensei e pensei, e concluí:

    não barafusto e que assim

    se cumpra o teu voto

    e que faça bem a muitos, porque ao contrário do que pensas eu não estou sobretudo preocupado comigo, eu não vivo para mim, sou um mero veículo relacional, estou preocupado antes sim com uma geração abaixo da minha, agrilhoada

  5. Valupi,

    tenho muitas dúvidas, aliás quase a certeza, que pessoas com alto sentido de identidade como é o caso dos pastores de Celorico da Beira quisessem em tempo algum pertencer a um grupo onde pontificam os restantes referenciados (Valupi Incluído). ;-)

  6. O post está de facto excelente, mas o comentário do Nik também me encheu as medidas (não desfazendo no resto da malta, eu próprio incluído).
    A economia não vai desaparecer, mas cada vez mais acredito que se o dinheiro saísse de cena e voltássemos a trocar galinhas por rolhas de cortiça ou assim deixávamos de ter tanta chatice.
    É uma utopia tão boa como a da globalização…

  7. o dinheiro agora é digital meu tubazão, houvesse vontade para isso e chegava e sobrava para tod@s, o problema é que não há derivado ao facto de ser um instrumento de poder, e os poderosos terem um problema de poder onde querem sempre ser mais poderosos que os outros…

    eu disse que não barafustava em cima e tenho que ser comedido, se não ainda fico cumedido, mas mesmo no caso Alves Reis, que reli há pouco, pensas que fez algum mal aquela injecção duplicada de Vascos da Gama? Qual quê, só fez bem, a economia nacional e ultramarina (reporte-se o termo ao contexto) absorvia tudo que nem ginjas. O que lixou a cena foi o Artur Virgílio ter querido tomar conta do BdP mediante a compra maciça de acções para legalizar a coisa e ficar descansado e f*deu porque o gajo da CUF, o Alfredo da Silva, que não queria outro poderoso a fazer-lhe sombra conluiou-se com O Século para arrasar, com o embuste de que seriam capitais alemães que estariam na origem da coisa.

    No próprio julgamento o Artur Virgílio mostrou três notas iguais, mostrando que além da emissão clandestina dele havia duas emissões do BdP, uma ‘surda’ e outra legal.

    Estava-se na ressaca da Grande Guerra onde a puta mor de Windsor nos cobrou os empréstimos do esforço, com juros, depois de nos ter obrigado a participar pedindo o apresamento da frota comercial alemã que estava no Tejo. é claro qeu os alemães não pagaram as reparações, e o esterlino recuperou o padrão-ouro à custa das reservas de Portugal (prata e ouro).

    Em 1928 the Portuguese Diamond, aliás o Braganza, aparece à venda em Londres. Ainda hoje a história está ocultada e branqueada, secret.

    Valupi: eu não disse nada rapaz, foi só um desabafo!

  8. e já agora a ferrugenta devia ser bem investigada que não entregou a declaração de património no prazo devido,

    imagino sim, as muito sérias e ressequidas com filhos em Londres

    só que els cobrem-se todos uns aos outros, a bem do metargumento da estabilidade das instituições, foi á conta desse que me fizeram um despedimento inconstitucional, a industria do fogo cobrou-se, e gato que salta sem rede lixa uma das vidas

  9. Não é o dinheiro que me irrita, é mesmo a cena do poder e de quanto ele destrambelha os cidadãos abastados que, incompreensivelmente, não se tornam invisíveis numa ilha qualquer do Pacífico e optam por guerrear com as notas.
    Isso seria muito mais difícil se a sua moeda forte fossem missangas para trocarem por ilhas como a de Manhattan ou assim.
    O maior problema é que essa bizarra tendência para utilizar o dinheiro como arma de arremesso ou simples pretexto para se ser um motor hostil alimentado pela ganância disseminou-se entre a população dos níveis mais baixos da cadeia alimentar.
    E eu irrita-me ver os pelintras odiarem-se uns aos outros por menos de 30 dinheiros, palhaços pobres armados em macaquinhos de imitação.
    A coisa resumida vejo-a assim. Mas gostava de ser rico só com dinheiro virtual para poder confundir-me com o alvo areal e não ter que aturar estas crises de merda que podem arranjar-me sarilhos com o senhorio (caso ele não siga o exemplo do irmão lehman antes que me falhe a próxima prestação).
    Um poço de incoerências, pois sou.

  10. camarada tubazão sabes o que te digo? só se devia deixar chegar ao poder, seja político ou financeiro, gajos com bom pau, porque são os únicos leais, honestos, humanos, nem imaginam as sacanagens que os outros podem fazer porque lhes mete nojo pensar nisso

    infelizmente os gajos que chegam acima são uns torcidos de pau pequeno, se é que funcemina, e o mal desta época civilizacional está nisso

  11. Porque depois do caos e destruição ficam os esqueletos e até estes podem ser bem bonitos.

    http://www.darkroastedblend.com/2008/05/shipwrecks-sea-disasters.html

    PS: À pouco tempo ouvi da boca de alguém ligado a uma companhia aérea, que quando há uma desgraça alguém fica rico a vender lenços de papel.

    PS2: Não me perguntem porque é que misturei barcos com aviões, não faço a mais pequena ideia. Já porque é que os misturei com a crise económica, sei perfeitamente.

  12. Z, a estabilidade não é toda igual.
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    Nik, estamos contigo nesse colorido desabafo. De resto, isto do Estado ajudar a banca privada não da concretização da social-democracia.
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    Animal, fazes muito bem.
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    nanda, e fizeste muito bem.
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    Ibn, concordo. Por isso tive a prudência de esclarecer serem só alguns pastores, não todos.
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    malandro, toma lá outro.
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    shark, és um gajo vom bom gosto, o que não é novidade. E é trazeres a galinha, de preferência já assada, que tenho aqui umas rolhas a mais.
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    Joao, o caos e a destruição são apenas fases da organização e criatividade. História mais antiga não pode haver.

  13. O Artigo muito bom, mesmo, o comentário nikense idem aspas e eu apenas acresecntaria:

    VOLTA VASCO GONÇALVES, FINALMENTE ESTÁ TUDO ESCLARECIDO QUANTO À TUA VISÃO DE ESTADISTA QUANDO, EM BOA HORA (E NÃO SOB A PRESSÃO DA CRISE) NACIONALIZASTE A BANCA E OS SEGUROS!

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