As ocupações do espírito

Gildo está divorciado de Clara. Mas os dias de anos continuam sagrados. Vê-se isso nas melhores famílias. Ei-los, pois, que abancam, num restaurante lisboeta, com o filho único, Diogo. Com este jantar, vai o capítulo 9 de Deus chega no próximo avião.

*

Fomos festejar os anos da Clara a um restaurante da Graça, que fica sobranceiro a um mercado, e de que me escapa sempre o nome. Mantemos o costume do jantar em família neste dia, talvez porque nenhum de nós – nem a Clara, nem o Diogo, nem eu – se acomodou ainda à actual situação. É o aniversariante que oferece, e isso proíbe-nos, é da praxe, de olhar a preços. Eu nunca soube bem quanto ganha presentemente a doutora Clara Sorreito, mas, por cálculos de um colega dela, e meu amigo, andará já entre as três e as quatro vezes o meu salário. Não me queixo, e ela sabe-o bem. Não preciso do cabriolet dela, só odeio a menção «topo de gama» com que mo apresentou. Dispenso a casa na Lapa, que conservou, e até sinceramente me alegra que o Diogo adore viver lá. Tenho o meu carrinho, muito utilitário e que trato como um irmão, e as minhas duas assoalhadas são o meu castelo. E sinto que, quando, como agora, ostensivamente, não olho a preços, crio no mundo um pouco mais de justiça.

Divagámos – durante as entradas, e a propósito da actual namorada do Diogo, que vai cursar Direito – sobre a pouca preparação com que os alunos saem presentemente da faculdade. Divagaram mais eles. O salmão fumado veio um pouco para o seco, mas o alvarinho, escolha impecável do meu moço, compunha bem. «E como vai ela de resto, a Mónica?», quis eu saber. Tinha-a vislumbrado no carro dele, pareceu-me miúda fixe. «Estuda.» Este meu filho sempre foi poupado de conversa. «Já tiveste pior», tentei chatear. A Clara deu um apoio: «A Feliciana, por exemplo.» Rimos os três. A garota de Oeiras mostrara queda para tudo – dança, corrida, skate, yoga, algum alpinismo –, mas em ocupações do espírito ficava pelo raso. Não era em nada «o nosso tipo», mas o rapaz tivera por ela um fraco que enternecia.

A avestruz veio sublime. As minhas papilas não alinharam com o Bairrada eleito do meu filho, mas o produtor provou-se honesto e eu um bebedor indulgente. O Diogo falou-nos do curso no IST. Fê-lo circunstanciadamente, não porque nem eu nem a mãe andássemos a par, mas porque, percebi-o, não é todos os dias que tem os dois interlocutores juntos. Simplesmente, eu parecia senti-lo cansado, distante. Tenho a certeza de que a Clara se apercebeu do mesmo. E não era essa imagem, nitidamente, a que o Diogo queria deixar-nos. Foi com um entusiasmo sem preparação que nos disse: «Que tal o vinho?» «Óptimo», fez a mãe saber, como se agora mesmo acordando. «Que castas são estas, Diogo, exactamente?» O produto não me aliciava, mas o meu interesse não era estudado. O Diogo estava de novo no seu melhor. E assistimos, deleitados, orgulhosos, a mais uma lição do enólogo que, sem sabê-lo, andámos criando.

À sobremesa meti eu assunto. «Ontem passou-se uma…» Não me movia a busca da sensação, e sim a urgência de partilhar o que me enchia a mente. «Conta lá.» A voz não soava à Clara nada opressa, como tantas vezes, e havia mesmo uma descontracção. É para isso que se come fora, diria o meu pai, que sempre precisava de motivos para tudo. Narrei-lhes, com algum pormenor, o caso do romance de um dia antes. A minha noite em claro com O bom, o malvado e quem fica de fora, o uísque matinal do Cícero, o escorregadio da reunião de edição. «Mas de que é que trata?» «Trata o quê?» «O romance.» Tinha o Diogo razão. Disse o básico. Expus ambientes, algumas personagens importantes, a época em que decorre, imprecisa, mas estranhamente palpável, alguma peripécia, a caminhada para o desenlace, a atmosfera de inelutável catástrofe. Vinte minutos, meia hora, o meu público sorveu-me as palavras, e eu nem uma sombra, nem um pobre reflexo, lhes transmitia do que a leitura me oferecera. «Se vissem a linguagem, aquele modo de narrar… Só lendo.» Vieram os cafés.

«E o autor, conheces?» Mais uma vez o Diogo. «É segredo.» Rimos. Eles sabiam que eu apenas retardava a informação. A minha confiança na discrição deles é ilimitada. «Não, a sério, não tem interesse. É um desconhecido.» «Mas há-de ter um nome», e na voz do Diogo não havia a certeza de ter a minha confiança. «Ouçam e esqueçam», disse eu. «Por outra, não esqueçam. Porque este vai ser, se não é já, um grande escritor deste século. E terá, julgo eu que terá, bastantes anos para ir provando isso.» Dei-me então conta de que a idade do senhor me era de todo desconhecida, e que só a poder de imaginação eu o fizera um jovem. Fiz sinal à menina para mais um café. Eu sou o único a bisar. «Chama-se Maurício Peres. A idade não sei.» Era como se fosse urgente desculpar-me. «Até pode nem ser novo», disse a Clara, mas percebia-se que para ela tanto fazia. A minha ‘ex’ é  capaz de saber mais de literatura que o meu patrão, mas raros livros a vi levar ao fim. «Tens de saber.» Tão premente era o tom do Diogo, que não entendi logo. «A idade do fulano.» Não iria custar-me saber, nem demoraria talvez. «Está bem, quando souber digo.»

Pedi à menina, que andava perto, dois conhaques, o da Clara mais bem servido. «Um também, se faz favor.» Olhámo-nos. Era a primeira vez que o Diogo bebia assim.

A maravilha do cesto

Chamo desvario a tal
Servia toda, acho mal
Olmo, hera, diva casta
Halo doce, rima vasta
Ela chama vida, rosto
A acha vil, ar de mosto
Olha-me, vasa torcida
Vê amor, atas colhida

Ah, vadias, mole troça
Talha vida, só remoça,
Chamo revolta sadia
Dava malho, cortesia
Mesa, cilha, trovoada
Olho, Sé, mitra cavada
Tasco melhora vadia
Lá choves toda, Maria

Haste malvada, rocio
Tacha-me, valsa do rio
Caralho teso, má vida
Volta (ah!) a ser comida
Vá, sai, matreco, dá-lho
Dá, avia, torces malho
Hecto-amora validas
E o talho marca vidas

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Olhar o Monte (Viagem)

Vejo o monte quando olho para ti.

Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas.

Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

Vejo o monte quando olho para ti.

Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.

Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.

Vejo o monte quando olho para ti.

Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

Vejo o monte quando olho para ti.

Não se pode ter tudo

Para prevenir distúrbios psíquicos, que aqui e ali parecem desenhar-se, aqui vai, vá lá, novo capítulo de Deus chega no próximo avião. Seja pelos meus pecados. Recorde-se que o revisor Gildo acabava de ler, numa noite em branco, um inédito de romance espectacular. O que temos, aqui, é a reunião semanal da editora. Com o inimigo à coca.

*

«Temos que beber a isso», quase gritou o dr. Cícero Pompeu. Quis lembrar-lhe que ainda só eram nove e meia, mas preferi um patrão tocado a um ofendido nos brios. Bebi também o meu uísque – «Um fundinho, só um fundinho, senhor doutor» –, com a firme tenção de correr dali a tomar uma bica restauradora.

Afirmar que o editor se espantou era dizer de mais. Pareceu-lhe, até, natural que, possuindo o seu fundo os autores mais notórios do país, viesse o melhor da produção nacional, pelos seus pezinhos, ter-lhe à mão. A literatura nunca foi o forte dele, mas sempre ali esteve um exímio comerciante. «Então você acha…», e logo o sorriso lhe estragava a frase. «Mas está bem. Vai ficar tudo, para já, entre a gente os dois.»

Não sei se fui muito esperto quando decidi informar o doutor à parte, de antemão. Achei necessário que, se o pulha do meu colega houvesse de dar um ar de graça no encontro, o essencial estivesse já posto em seguro. O risco que corria era, todavia, o de excitar em demasia o dr. Cícero, sem grande tempo de refazer-se, antes que os outros aparecessem. Eu pusera, pois, uma mínima emoção no tom, como quem anunciasse não um tesouro do céu, mas a hipótese técnica de ter-se ganho a lotaria. Errei o cálculo. Ou então foi o doutor que ouviu nos meus modos o que eu tanto me forçava a dissimular. Já verifiquei que o actor não é o forte em mim.

Concluo é isto: se não foi o precário controlo do patrão a alertar os meus colegas, podem tê-lo sido os matinais eflúvios do álcool. «Do caso do Maurício Peres trata-se depois», disse o dr. Cícero, como quem não quer a coisa. Era um deslize, e teria ficado por ali, não fosse a pituitária do Luciano. «Então o senhor Hermenegildo ainda não leu?» Víbora. E que finura! Nem eu nem o dr. Cícero tínhamos diversão pronta. «Surgiu algum problema?». E o Luciano olhava-nos com intenção, um por um, em redor. Senti que Cícero, bebido ou sóbrio, nunca me perdoaria que deixasse para ele a castanha. «Problema? Não. Bem pelo contrário», meti, sabendo quanto importa estabelecer depressa a confusão. «Simplesmente, o autor pode ainda sugerir alterações.» Nem o Luciano nem a Irene nem a Matilde da contabilidade sabiam bem que fazer com essa minha observação. Tivera eu contacto com o escritor, e avisara-me ele de acções iminentes? Queria eu apenas sublinhar o óbvio, já que sempre um autor pode pretender retocar o texto? A questão morreria ali, não fosse uma muito infeliz curiosidade da minha fiel Micas. «Mas é para publicar, ou não?» A esta não podia, por mais que quisesse, escapar o Cícero. «Mas evidentemente.» E esquecido das conveniências: «Vai passar, até, à frente de tudo.»

Metade disto chegava para pôr despertas ao Luciano todas as antenas. «Conte lá, doutor», atirou, e havia naquele tom descontraído um insolente ruído de fundo. «Aqui o Gildo explica. Se quiser», suspirou o patrão. Tive que querer. «Ora bem», e obtive, com a pausa, uns segundos para alisar duas ideias. «Vamos lá ver. O que está encaminhado para a Feira do Livro, avança, é evidente. Mas a campanha de Verão ainda permite ajustamentos. Sei que o senhor doutor – e, se não me exprimir bem, o senhor doutor corrige-me – pensava lançar um autor novo, estreante, evidentemente com hipóteses. Ora este pareceu-lhe», e premi no verbo, «pareceu-lhe uma escolha a considerar.» Dei-me conta de que relativizava em demasia. «É uma escolha, estou em crer que com certas chances.» E calei-me. Cada palavra é, nestas ocasiões, um alçapão.

O dr. Cícero olhou em volta: «Está esclarecido?» E não tornou claro se falava do assunto ou do Malta. Mas o tom era de questão arrumada. E este patrão, valha-nos isso, tem uma dureza serrana, mas terminante.

Postal do Intendente

De «Lisbon Blues», colectânea de José Luís Tavares, este poema.

Isto aqui é o paraíso —
fazer uma mija contra a sebe,
sem que a bófia nos interpele,
embora o frio nos morda a pele
e mil dele eu te deva.

Alguém chamaria a isto vida.
Diógenes teria encontrado aqui
o seu homem. Goethe o proto-tipo.
Ovídio não lamentaria o seu exílio
— alta estima tenho por ele
embora não perceba o latinório.

Amigos na folia, vejo cão
e perdigão. Mas uns bacanos
armados em al capone
semeiam deliciosa confusão.
Quando todos aguardavam o encore
abalaram de roldão.

Na contramão, cismando, ainda
lhes perguntei se de onde vinham
a manhã se bordava a fogo,
mas apenas a pólvora dos impropérios
e um arroto de aguardente velha deixaram
por essa pretérita manhã do burgo.

Se o inimigo nos trama

«Preciso de mais um capítulo. Como um adolescente precisa de um telemóvel. Ou como os telemóveis – as empresas que os produzem, bem visto – precisam dos adolescentes.» Isto escreveu-o Confúcio, o inestimável, o vivo, o nosso. Quem tem coração para deixar a aguar um púbere assim?

Eu sei. Não há-de chegar, para tanto insofrimento. Mas é tudo o que se tem, este capítulo, mais um, de Deus chega no próximo avião. Arrancará a ‘acção’ aqui, finalmente?

*

Passa já das quatro e meia. Lá fora, o vento ganhou em fúria com o vir da madrugada, a chuva não deu descanso. Quase vazia está, na mesa-de-cabeceira, a garrafa de Reguengos. Começo a sentir um buraco no estômago, mas impossível erguer-me e confeccionar qualquer coisa. Não sei quando irei dormir, se vou dormir sequer. Isto que está a passar-se é único, e já não me importo com que cara possa aparecer, daqui a horas, na Água Líquida.

Era já bem meia-noite, quando me afundei no número cinco dos originais. Achava-me sem sono, e antes com uma energia que, em momentos de outra premência, acontece falecer-me. Fizera observações à margem nos manuscritos, anotara no bloco sugestões de feitura. Os quatro enredos não me tinham aquentado nem deixado de fazê-lo, mas já vira pior. Como sempre faço com este trabalho, li trechos com maior detenção, a outros deixei-os para eventual oportunidade.

E, de repente, isto. Um texto que, à primeira linha, rompeu como uma sinfonia, e veio depois ganhando este ritmo sereno mas subjugante, desenvolvendo aqui uma vivacidade, ali um alargar de visões, além um espadanar de conceitos. Venho-lhe degustando, uma e uma, as expressões, entrando pelos parágrafos como quem se arroja a uma nova onda, crescentemente desperto, a cada momento mais sobressaltado.

O nome do autor, Maurício Peres, nada me diz. O título, O bom, o malvado e quem fica de fora, não se me fez mais eloquente. E, todavia, impossível agora deter-me. Vou pouco para além de meio, e já me toma uma dolência, uma nostalgia, por saber que esta narração estonteante há-de ter um remate. Tento retardar a leitura, procuro se possível inverter a marcha, revivendo situações e abstraindo da sequência entretanto conhecida, para que o conjunto não se exaura. Pergunto-me quem escreveu este desmedido assombro, que mente concebeu tamanho primor. E sinto que passei estes largos anos aguardando só esta exacta dádiva, e desesperando de tê-la um dia nas mãos. Agora aqui descansa, concreta, sobre os meus joelhos, a escrita mais luminosa que supor se possa, um brinquedo de argúcia e gentileza, de ingenuidade e atrevimento, uma bela tonalidade clássica cortada aqui e além por discretas gírias, tudo servindo uma história louca, sim decerto louca, mas plausível, genuína. Que sorte esta, a da minha editora, vir parar-lhe um livro assim.

Que terá passado pela cabeça ao Luciano Malta quando leu isto? Vejo que, esparsamente, lhe corrigiu uma acentuação (estava «impúdico», estava «os pelos», estava «páro»), eliminou, pois claro, os ponto e vírgulas em discurso directo, uniformizou aspas e itálicos. Não se valeu, vê-se, do corrector ortográfico. De outro modo, não se percebe por que tivesse feito emendas no papel. Eu tenho ali a disquete, posso ir confirmar. Enfim, o Luciano fez a sua parte, e fê-la bem. Mas terá ele reparado no material que se lhe oferecia? Reconheceu ele, ali sobre o tampo da secretária, este romance assombroso? E, se o viu, tê-lo-á dito, chamado a atenção de alguém? Nem uma nem outra coisa parecem prováveis. Este texto já lhe passou pelas mãos há algum tempo – exacto, vejo aqui na capa uma data, vai para quinze dias – e, caso houvesse alarme, já me teria chegado, e a mim antes de a muito outro. Está visto, o Luciano não leu. Quer dizer, leu e não reparou. Nada de anormal nele. Nunca o ouvi comentar a qualidade de um livro. No máximo faz menção de alguma brejeirice.

E antes assim. Se alguém tiver de avisar o mundo, que seja eu. Vou fazê-lo com cuidado, tratar o assunto a sós com o dr. Cícero. Já é desse modo que procedo em casos excepcionais, e desta vez proporei que nem se aluda ao caso na reunião. O Luciano é imprevisível em demasia para se arriscar tanto. Teria sempre a reacção que mais me prejudicasse. Com os seus imperturbáveis ares de sábio, desfaria no apreço, «Também nem tanto…», ou chamaria a si a descoberta, «Isso já eu tinha percebido», e comporia com charme o resto da intervenção.

Por outro lado, e agora que nisto penso, silenciar totalmente a questão não é aventurar menos. Se o safardanas tiver entrevisto desta maravilha um décimo que seja, pode bem lançar-me um laço, perguntar inocentíssimo se o Hermenegildo por acaso trabalhou também o manuscrito de certo Maurício Peres – «O senhor até já telefonou a saber» – e, se sim, o que é que achou. São incontáveis as formas de um inimigo nos tramar.

para TTi

O nosso amigo Z enviou-me imagens produzidas por desejo e matemática. Segundo a explicação a acompanhar as imagens, trata-se de uma sucessão de frames de curvas parametrizadas em 3D, em convolução, afinadas para fazer lembrar vôos de pássaros. O processo foi numa parte dirigido, noutra corrigido pelas surpresas do resultado.
Cada pássaro é um segmento de uma curva parametrizada em 3D da forma {x=at, y=bt^3, z=ct^2}, sendo este o núcleo gráfico do tema.
 
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Primícias 4

Com este trabalho, encerra Jorge Carvalheira o que chama «contributo para a história da nossa civilização».

*

Era assim. Mas já dois séculos antes, mal tinha o Gama achado o caminho das Índias, houve entre nós outro monarca excelente e piedoso, que lá fora estipendiou os melhores mestres do moderno pensamento, para ilustração das escolas do reino, um deles, escocês, o viria a crismar de rei dos muitos nomes. Quem não tem ciência paga por ela, já uma vez ficou dito por ser verdade, como se vê tão antiga como a própria ignorância. A Salamanca foi ele requestar Clenardo de Lovaina, um homem de saber e modestos costumes, para educar os príncipes seus filhos. Ora já seu pai, para calamento e satisfação do fanatismo, ao mesmo tempo em que abria as portas do império, logo lhe amputava as pernas, ao expulsar do país os hebreus, donos dos cabedais e do saber que a empresa sumamente exigia. De modo igual, o piedoso rei dos muitos nomes, enquanto chamava os homens que às escolas trariam saber e civilização, logo mandou vir de Roma o jesuíta, que sem demora faria do reino coisa sua. Ademais, por lhe parecer isso tão pouco, logo aos mesmos renomados mestres cortava as pernas e o pescoço, requisitando ao papa a Santa Inquisição, que sem demora os meteria a tratos, por hereges. Entenda quem puder, e antes que tarde seja ouçamos a Clenardo, ele nos contará o que viu e deixou dito.

Chega do mar escravaria e ouro, e pimenta às quintaladas, por isso vive Portugal à grande e à francesa, qualquer trabalho útil se tem como vergonha. Jazem os campos de pousio a monte, que todos se vão ao cheiro da canela, às margens do rio de Meca, e muito melhor não estariam as artes mecânicas, se os ruivos europeus não viessem cá dentro exercitá-las. Os naturais desdenham servir-se das mãos, e tudo é feito por escravos e mouros cativos, esses que o próprio Deus despreza, ele é a preta da Mina que vai ao mercado, é a preta da Mina que lava a roupa, é a preta da Mina que varre a casa, é a preta da Mina que vai pela infusa de água, é a preta da Mina que faz os despejos à hora conveniente, e é ainda a preta da Mina a parir os filhos escravos com que havemos de lucrar no mercado, como se fizéssemos criação de pombos. Todos somos fidalgos, ou para lá caminhamos, por isso nos acompanha sempre, rua abaixo ou rua acima, a mesma comitiva, adiante os dois criados batedores, e um terceiro que nos leva o chapéu, e um quarto o capote, não vá ele chover, um quinto segura as rédeas da cavalgadura, um sexto vai ao estribo, a cuidar-nos da seda dos sapatos, um sétimo traz a escova, com que nos limpa do fato as poeiradas da rua imunda, um oitavo nos estenderá o pente em sendo necessário, e ao nono caberá enxugar com uma fralda o suor da cavalgadura, vindo ela a ser desmontada. Com tudo isto sofre a mantença da casa, onde a custo se acha que comer, mormente quando chega o domingo, dia em que ninguém apanha rabanetes na praça.

Aqui chegado, deu Gabriel com a ouvinte rendida ao fio cristalino da sua erudição. Não venho com estas coisas a dar-lhe lições de história, apressou-se a dizer, por certo dispensará as minhas, se as teve melhores. Porém, vastos demais são os tempos e muito longa a forma de os decifrar e dizer, para vidas tão curtas como as nossas, cada um há-de saber da sua.

Geneviève agitou-se no banco, no íntimo a sentir-se culpada, da ligeireza com que falara da revolução das flores. Quis saber por que dava Gabriel ouvidos a palavras de estrangeiros, em vez de usar vozes de portugueses, se da portuguesa história se tratava. Gabriel deixou o reparo no ar, urgia concluir.

O que pretendo mostrar-lhe, por isso de tão longe parto, de onde tudo começou, é que a aventura da Índia foi para os portugueses uma tormenta muito maior que a nau, como se ouve dizer, foi maldição que o país ficou, desde então, condenado a remir. Como se, ao vencerem o mar, tivessem os marinheiros desafiado uma lei qualquer do universo, ou um regulamento caprichoso da vida. Alguns no reino o perceberam, alguns em vão se lhe opuseram, com tão poucos homens e mais diminutos recursos, muitos ainda hoje não entendem como tudo foi possível. E o espanto maior, para quem nos conheça bem, é que toda a empresa se iniciou no mais perfeito conhecimento e no maior rigor da técnica. Os portugueses construíram as naus mais avançadas desse tempo, conheceram os ventos e correntes do mar como ninguém, elaboraram cartas, artes de marear e roteiros de viagem que eram a cobiça dos mestres europeus. Venceram as lendas antigas do mar tenebroso e alcançaram a Índia, e submeteram as deslumbrantes terras orientais à força de canhões, e feriram de morte culturas requintadas, e apoderaram-se das rotas do comércio com uma ferocidade selvagem, e trouxeram à Europa os ouros da Mina e do Monomotapa, e os escravos de Ajudá, e as canelas do Ceilão, e as pimentas do Malabar, e as porcelanas da China, e as sedas do Japão, e os cavalos da Pérsia, e os algodões de Cambaia, e a noz-moscada das Molucas, e os rubis, as pérolas, as lacas, e até um rinoceronte que emboscaram no sertão de Bengala e vão oferecer ao papa. Já se arredondam em Roma bocas de estupefacção, sabes tu lá, minha filha, diz-se que vai chegar aí o supino fulgor do exotismo. Porém o mor espanto não vamos nós poder vê-lo, e é o que haveria de mostrar-se nos grandes olhos da béstia couraçada, por se ver assim à frente dum leão, ainda por cima papa. É que já se vai afundando, à vista de Génova, a caravela que o transporta, tarde se arrependem os náufragos de tanta gala perdida, e mais que todos repesa está a fera, para tão pouco não merecia a pena ter dado a volta a metade do mundo, de estômago revoltado. Um dia há-de ela entrar no palácio de S. Pedro, mas pela simples porta do cavalo, já inofensiva e amparada em cabrestantes, a barriga inchada de palhas amassadas e os velados olhos mordidos dos caranguejos.

Parecia a vida uma festa.

Jean-Jacques Lequeu, 1757-1826

f1

Desconfio que a celebração dos 250 anos do nascimento de Lequeu seja feito único em todo o Mundo. É uma suspeita nascida unicamente da minha imaginação; e, se estiver enganado, rogo para que me deixem ficar nessa ilusão. A quem não conheça, recomendo uma Cocanha antes de se entrar no armazém do artista. O seu portefólio está repleto de preciosidades, algumas que até se parecem com arquitectura.

A vulva em exibição, das várias desenhadas por Lequeu, cativou-me por duas razões. Primeira, por ser um olhar obsceno que está destituído de moralidade. O que o torna numa abstracção somatizada donde desaparece qualquer intenção. O que se mostra vale pelo que se vê, não pelo que provoca como visão. Segunda, pelo traço com que se desenham os pêlos púbicos, criando uma textura irreal e contrastante. Arco vegetal ataviando a lapa de mármore.

29 euros

Lerei eu alguma vez Rio das Flores, o recente romance de Miguel Sousa Tavares? Quem saberá dizê-lo? Também eu nunca digo nunca. Mas a vontade de me meter ao livro é, devo confessá-lo, basto reduzida.

Acabo de ler o comentário que do romance faz hoje, no Público, Vasco Pulido Valente. O conhecido cronista é um notável historiador (entre outras coisas, do período que Tavares romanceia) e a noção que fica é que se trata dum passável romance de aeroporto.

Mas eu já tinha sido alertado para o José Mário Silva, que, no blogue «A Invenção de Morel» (clique aqui à direita), reproduz uma sua crítica na revista Time Out. Também o Zé Mário é devastador.

Escrevi um dia, em Crónica Jornalística. Século XX (do Círculo de Leitores, 2004), que «em Vasco Pulido Valente, em Miguel Sousa Tavares, em Eduardo Prado Coelho, em António Mega Ferreira, em Manuel António Pina, em Mário de Carvalho» estava, na realidade, a fina-flor da nossa prosa actual. A ordem não era arbitrária de todo. Se é certo faltar ao cronista Tavares a consistente qualidade da escrita de Mega, de Pina e de Carvalho, também é verdade que assinou algumas crónicas brilhantes.

Hoje sei que o cronista Tavares permitiu a existência do romancista Tavares, e lhe deu carta branca para a banalidade e a frouxidão. Ele venderá os 100.000 já impressos, e mais, muitos mais. Mas o grande prosador de Sul e de David Crockett terá entrado, definitivamente, na prateleira light.

O alerta para a crítica do Zé Mário foi-me dado pelo ficcionista Eduardo Pitta, no blogue «Da Literatura» (clique aqui à direita). Aí escreve Pitta que sentiu ficarem-lhe no bolso mais 29 euros. Sei que, para Pitta, isso equivale a um «melão com presunto» no alto do Hotel Tivoli. Eu, que não sou mundano, hei-de trocá-los por dois livrinhos que – assim o destino não seja avaro – me saberão a néctar dos deuses.

A factura

Vejo uma vespa ao olhar a tua cintura
Da grande janela do café, pastelaria
Cansado já de esperar, estou à procura
De ouvir de novo tua voz em harmonia

Com os sons desta cidade debruçada
Sobre o Tejo tão povoado de navios
Com restos da neblina da madrugada
Já infiltrados nas palavras e nos fios

Vejo uma vespa ao olhar a tua cintura
Há uma leveza de ave nos teus passos
Que eu procuro desenhar nesta factura
Entre a luz dos olhos e os teus braços

Testemunho do encontro nesta mesa
A factura permanece na minha mão
Escrevo nela este poema de surpresa
Para provar que a ternura tem razão

lógicas femininas

As mulheres com quem falo gostam muito de homens, adoram-nos. Tanto que não podem passar sem eles, quanto mais não seja como tema essencial das suas conversas. Invariavelmente, têm um desejo de arrasar. Enfim, de dar cabo deles. Não há aqui qualquer incongruência: faz tudo parte da sustentabilidade das relações. Não me comes viva, como-te morto. Mera questão ecológica.

Um homem feliz

Contra o prometido, ainda não é aqui que o motor de Deus chega no próximo avião engrena. Um pouco mais de paciência, pois, gente leitora. O que não torna desprezáveis as informações ainda assim fornecidas.

Para quem possa ignorá-lo: Moreanes é uma tranquila aldeia entre Mértola e Mina de São Domingos. Tinha, à época em que escrevi isto, um restaurante que valia bem vários détours. Se calhar, ainda lá está. A Foz do Lizandro, essa, é no Oeste, não longe da Ericeira.

Numa caixa abaixo, Valupi escreveu: «Deus chega no próximo avião? Continuemos à espera, pois. E rezemos (mas a quem?…) para que o avião não caia.» Interessado até aos gorgomilos, também eu acenderei uma velinha.

*

Acabo de levar a casa a Noémia. Pôs-se uma noite de chuva, nada que o esplendoroso fim-de-semana pudesse anunciar. Ainda tentou aliciar-me para um serão, mas só aceitei os ovos com presunto e a taça de clarete. Foi óptimo estarmos os dois na Foz do Lizandro, lendo àquele sol já de Primavera, vadiando pelas dunas, e mais tarde horas a fio na cozinha aprontando um prato inédito. Mas ela compreendeu a minha pressa, a minha indisponibilidade. É que preciso de passar ainda os olhos por uma resma de originais, e amanhã às dez quero sentir-me fresco para a reunião semanal. Com o dr. Dominguinhos reuníamos quinta à tarde, resvalando o encontro o mais das vezes para o jantar na marisqueira. O filho é mais tipo norte-americano.

Trago quase sempre manuscritos para casa. Ponho os almofadões na cabeceira da cama, e assim fico horas regalado. Do corpo, porque o espírito, não raro, sofre atrozmente. Leio mais romances num ano do que um leitor compulsivo em cinco deles. E, diferentemente desse leitor, não posso escolher. Para mais, não leio apenas. Tento entrar nos textos, tomar-lhes a espessura e o cheiro, para melhor aquilatar-lhes o conseguimento, revitalizá-los onde for praticável, fortalecê-los onde o admitirem. E faço-o à mão. Só no escritório é que, depois, pego da disquete, ou do cd, e construo os meus best-sellers.

Estes dois diazitos com a Noémia fazem-me bem. São o meu oxigénio. Partimos sempre sem outro programa senão o de esquecer Lisboa. Com a vantagem de se ficar por perto. Quando estava com a Clara, era uma aventura meter-nos até Moreanes. Não havia as belas estradas de hoje, e o regresso dos algarvios, ao domingo à tarde, ainda mais nos estragava as contas. Hoje raramente lá vou, e só uma vez ou outra com o Diogo. Ele aprecia o ambiente alentejano, tem lá amigos nos montes à volta, organiza farras até altas horas, é um regalo vê-lo, e mais para quem, como eu, gostaria de ter sido assim. E, quando não vai comigo, leva a namorada do momento, leva o computador, leva a mãe. Não nasceu lá, e dá-se melhor no Alentejo do que eu.

Com a Clara, nem eu nem ela esquecíamos, ao fim-de-semana, o trabalho. Tínhamos em comum a obsessão da minúcia: ela no direito, eu no jornal. Era onde melhor os dois nos encontrávamos, era, tenho de ser sincero, o único ponto em que reagíamos bem. Aprendi, nas suas matérias jurídicas, a força da pormenorização, a valia das distinções, o préstimo duma global coerência. Confio em que também ela tenha ganho comigo, talvez na estruturação de um raciocínio, no colorido das sonoridades, na exactidão de um vocábulo. Os nossos fins-de-semana, fossem na Lapa ou na casinha alentejana, eram «de trabalho», por muita descontracção que isso nos garantisse. Quanto ao resto, o nosso casamento só tinha um arrimo: a existência do Diogo. E, mesmo aí, estive sempre longe de empenhar-me quanto devia. Porque é que não fui mais vezes com ele a treinos, ao cinema, a devassar mundo, mesmo a preguiçar numa praia, ainda hoje não sei. Quando me descobri pai, já o meu filho não precisava de mim.

A Noémia atravessou-se-me no caminho. Foi quando, meio conformado meio fatalista, eu começava a habituar-me à solidão. Era um processo a que eu assistia com curiosidade, e que o aparecimento dela perturbou o seu tanto. Não poucas vezes me ouvi pensar: «Se isto também der bota, tenho-me ainda a mim mesmo.» Mas foi-me boa, essa experiência do despovoado. Lembra-me aquilo que afirmam quantos se acercaram da morte e regressaram. Um por um dizem ter perdido qualquer medo. Também para mim a Noémia, ou quem a ela se siga, será apenas uma alternativa, aceite com muita alegria, mas com igual desprendimento. Estranho seria se ela nada disso notasse, por informe que essa noção lhe chegue. Para alguma coisa lhe haveria de servir essa larga prática com homens, de que ela se gaba mais do que a minha vaidade aprecia.

Mas talvez por tudo isso o contacto com ela me é tão relaxante, e nada nele se assemelhe a um pânico perante falhas ou suposição delas. É isso. Ao mesmo tempo que bendigo os céus que ma deram, estou pronto a entregá-la inteira quando eles o requererem. Eu devia considerar-me um homem feliz. Se calhar sou, e não sei.

Guitarra

(O José do Carmo Francisco pediu a guitarra. Aqui vai ela. O Fado da Meia-Noite existia mesmo, e a minha Mãe aprendeu a tocá-lo numa guitarra feita pelo meu avô. Não consigo encontrar ninguém actualmente que conheça essa melodia. Ter-se-á perdido, infelizmente.)

– Interessa é encher a barriga. – Disse António com um nó na garganta.
Elvira pareceu querer sossegar nele a compaixão pressentida.
– Daqui a dias, não me há-de faltar trabalho a ceifar, se Deus quiser, e a respigar, que sempre trago uns braçadinhos de trigo para casa.
Depois de os ceifeiros porem em descanso as foices e o corpo, às vezes já noite alta se era de lua cheia, ela ficaria ainda colhendo as espigas esquecidas, mais abundantes nas searas segadas por mãos habituadas à caridade, no cumprimento de uma recomendação bíblica que talvez ninguém conhecesse mas que era cumprida como um mandamento divino.
A felicidade de contemplar o rosto de Helena, mais bela à luz somítica da lamparina do que decerto D. Amélia no esplendor do seu palácio, minguava com a visão daquela ceia de couves. Pobre era ele também, mas sempre tinha qualquer coisa mais forte, embora apenas para encher o estômago, já que o que poderia fazer a vontade às gulodices da boca não se punha na mesa dos pobres. Lá vinham, na roda do ano, três ou quatro dos seus dias que mereciam a celebração dos sentidos, com direito a carne, vinho, massa sovada ou malassadas. Mas, para isso, era preciso que Jesus nascesse ou ressuscitasse, e que fingissem todos que eram ricos, como os mascarados do Carnaval fingiam ser reis ou demónios sem deixarem de ter os pés duros como sola e sem passarem de uns pobres diabos. E, se havia a folia do Entrudo e a relativa abundância de alguma outra festa em honra de Deus ou da Virgem, todo o resto do ano era Quaresma.
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O gene auto-destrutivo

Um comentário no Público.pt, esta tarde. O pretexto é o apuramento de Portugal para o Europeu.

Realmente nao percebo esta mentalidade nacional, velhos do Restelo ingratos!!! Sempre que se avança um passo no nosso país aparece um medíocre tuga, xico esperto, a envenenar-nos para darmos dois passos para trás. Algures na nossa historia pusemos um gene auto-destrutivo que aparece sempre quando as coisas estão finalmente com uma luz ao fim do túnel. Tenham vergonha, todos nós somos culpados, somos um pais multicultural e fazemos piadinhas absurdas dos nossos irmãos, e depois quando vamos para fora queremos ser bem tratados? Ignorantes!!! Qual é a lógica de ser assim? Qual é a lógica de constantemente nos sabotarmos a nós próprios por pura vaidade e orgulho ácido?

Bruno Sá Marques, Londres

[destaque meu]

Escritor falhado?

Uma multidão audível, e já ameaçadora, à porta do Aspirina obriga-me a entregar mais este capítulo de Deus chega no próximo avião. Mas eu, prometo, resistirei.

*

Às vezes desejaria ser um desses espíritos rasos, para quem o mundo é uma paisagem de enlevos, sem fronteiras nem conexões, de enlevos trazidos pelo vento, pelo vento arrumados, e isso um dia, e outro, e mais outro. Porque é que, pergunto-me, fui eu feito de perspicácia, porque trespasso eu os dizeres alheios, que vantagens me supôs a vida ao carregar-me com a imparável percepção de um gesto, de uma hesitação, de um silêncio? Quanto mais leio acerca dos sobredotados, mais evidente se me faz que injustiça há neste excesso de penetração, neste estontecedor discernimento. Tento não ver, proíbo-me de raciocinar, esforço-me por mirar só as superfícies, só o que de contingente, de volátil, apresentam as coisas e as pessoas. Por vezes, penso que consegui. E tenho instantes de paz, sinto-me o anjo cego, o boi na paisagem. Dura instantes. E logo acordo, ébrio de lucidez, outra vez desgraçado.

Faculdades excepcionais poupam muito, é certo. Não preciso de ler um manuscrito completo, nem um capítulo, às vezes nem já o primeiro parágrafo inteiro, para saber, de ciência feita, o que aquilo vale, que investimento meu se justifica, que hipóteses existem de o autor alinhar com propostas. Mas exactamente esta pasmosa capacidade cria as fricções que depois se vêem. Eu não estou sempre disposto a engonhar a cena, a subtrair a choques o incomensurável ego dos romancistas. E, sei bem, é isto que não se me perdoa. O eu não poder, e não querer, camuflar a rápida apreensão que tenho do conseguimento alheio. «Você nunca dá chances a ninguém», rosna-me o Luciano. É a pura verdade. E pior seria – mas isso não o adivinha ele – se eu não fizesse o arrasante esforço de acompanhar, aqui e além, o miúdo passo dos meus semelhantes.

Mas se possível ainda mais doloroso é este contacto tão directo, que é o meu, com o íntimo dos autores. Vê-se a milhas que passaram meses afeiçoando um psicodrama ou um ajuste de contas. Ou os dois, já que o ajuste se faz às vezes com o agreste passado que lhes calhou. Não são os mais legíveis, não são seguramente os mais recreativos. Além disso, e sou o primeiro a compreendê-lo, este exercício de honestidade e de exposição deixa-os susceptíveis em extremo, quase intratáveis. Vejo então como missão minha protegê-los contra si próprios. Nem sempre com êxito.

E é assim que – exemplo ao acaso – ando, há bem quatro anos, nas mãos de uma loura escrevente, que eu venho estilisticamente medicando, e é senhora de um psiquismo vertiginoso. «Você aponte o que quiser, o problema é seu», lançou-me uma tarde destas a Úrsula Magno. Uma voz sonora e bem timbrada que, pobre de mim, tanto mexe comigo. «Mas não se muda nada, senhor. Cada palavra, ouviu, cada palavra sai-me muito daqui.» E estrafegava o peito, com uma auto-imagem de todo invejável. Em termos velados mas audíveis, ameaçara há tempos, ela também, ir bater a outras portas. Não foi o que fez agora. «Para mais, e o sôr Gildo sabe isso muito bem, a crítica tem apreciado os meus livros.» Quando outros argumentos falham, ou a vontade de produzi-los, é fatal o dizer dos críticos. Neste caso, nem era muito verdade. Tirando a desaforada Natália Rosas, do Mundo, já poucos recenseiam, e ninguém com entusiasmo, as novelas anuais da pseudónima Úrsula. Mas, exactamente, eu não quero, nem sequer com as minhas reservas, animar um jogo perverso. Não são os júbilos ou os desprazeres da crítica o que salva um livro ou lhe rouba as qualidades. Mesmo as obras que eu tornei apresentáveis não foram sempre descobertas, e, se descobertas, ponderadas o suficiente. Respeito a crítica, sei a espiga que é ler certas produções, mas não aceito chantagens. Simplesmente, a Úrsula não me era interlocutora, como nunca me serão interlocutores esse mediático Rafael Sirais, ou a premiadíssima Antónia Fontouro, ou o misterioso, e por isso, tão requerido Olavo Junqueira, os pilares da casa. «Mas, ó Gildo», atira-me o dr. Cícero, «você não acha mesmo um piadão a eles?» Eu não consigo dissimular quão módico alvoroço me infundem. E o dr. Cícero não recupera da desolação.

Mas não há crise, evidentemente. Já aprendi a usar de brandura com os semideuses, e chego ao ponto de cometer a maior das abominações: dar-lhes o benefício da dúvida. Não mo apreciam, isso também eu o vejo, como não apreciariam se não se lhes endireitasse aqui um acento, além um género gramatical. Eles querem ter a certeza de que são lidos. Mesmo por alguém desprezível como eu.

A esperteza, isto foi-me contado, já deu a um ou outro para a sugestão, gratuita, mas sucesso seguro à mesa do café, de eu ser o que se esperava: um escritor falhado, ciumento, mau perdedor. Revolta-me a aleivosia, porque nunca poderei provar que se enganam, que nem uma fibra em mim lhes cobiça os descomandos, ou sequer as proezas. Dou por mim, é certo, a divagar, a entrever situações, ou ditos, ou peripécias, que dariam um conto, um romance, mas não saberia como descrevê-los, nem a urgência de tal me acode. Gosto de ver as coisas já meio feitas, quando outros as começaram, e por isso, sim também por isso, tenho tanta satisfação no que ainda deixam para mim. Amo esse discreto acréscimo à façanha alheia. Gosto de amanhar, de mondar, de evidenciar o bom e disfarçar o imperfeito, diverte-me pôr no papel o que o outro queria dizer, e diria, se tivesse feito um esforço, se fosse mais capaz. Mas sei que por nada do mundo – nem sequer para dar uma valente resposta à mesquinhez – eu pegaria da caneta e me poria a forjar uma história. Fiz um filho. Plantei algumas árvores. Um livro, não há hipótese.

Ainda Elvira

(Como eu gosto desta minha personagem Elvira, deixo aqui um pouco mais do seu retrato. É de ter em atenção que a história se passa na viragem para o século XX. Foi sempre uma mulher com má fama na boca do povo. António era um rapaz muito querido, tocador de guitarra, já sem pai, de uma família que se julgava da melhor cepa. Provocou um terramoto em casa quando disse que queria casar com Helena, a filha, cega, de Elvira. Este é um excerto da sua primeira visita a casa delas.)

Bateu à porta com a inquietação como fronteira entre o receio e a esperança. Não se importou que os últimos olhares curiosos à luz dos restos do crepúsculo se dirigissem para si, estranhando a visita, ou talvez não, porque muita gente já teria com certeza ouvido e contado tão improvável amor.
Foi recebido com pouca surpresa, bem menos do que imaginara. Helena mexeu-se na cadeira, inquieta, enquanto ele caminhava em direcção à cozinha, mal iluminada pela luz minúscula da lamparina, que tinha a torcida, acabada de acender, reduzida ao mínimo. Para a cega eram iguais os dias e as noites, e a mãe sabia também os cantos da casa palmo a palmo sem precisar de luz ou de olhos abertos, pelo que poupava no petróleo o mais que podia. Distraíra-se, no entanto, ao recebê-lo com tão vaga claridade e, por isso, pediu desculpa e deu um pouco mais na torcida.
– Ainda está praticamente de dia. – Disse António, apenas para mostrar que nada havia a ser desculpado. Porque a verdade era que a penumbra lá de fora pouco tinha já de semelhante com a luz do dia. E a lamparina nada acrescentara ainda às sombras da noite que chegava, a não ser o pequeno clarão amarelado que iluminava pouco mais do que a si mesmo.
Estava resolvida a dificuldade de começar a conversa. Cumprimentou Helena com um simples “olá”, a que ela correspondeu, envergonhada, dizendo “olá, António”. Seguiu-se um silêncio que seria tanto mais embaraçoso quanto mais se prolongasse. Estranhava que Elvira não lhe perguntasse o que vinha fazer. Com certeza já sabia…
No prato de Helena havia duas batatas cortadas ao meio, no de Elvira nenhuma.
– Quando dei por mim, só tinha quatro batatinhas em casa. A gente amanha-se assim mesmo. – Deu sinal a António para que não fizesse comentários, e convidou por delicadeza: – És servido?
Aquela mulher era muito diferente do seu retrato falado.

Poesia de todo o Mundo na Rua da Rosa

Soube por acaso que abriu uma livraria só de poesia na Rua da Rosa nº 145 em Lisboa. Além de livraria, o espaço também inclui um bar. Lá fui hoje beber uma taça de vinho branco à saúde de livraria e do bar, incluindo nos votos o Miguel Martins, poeta e contista, recém-chegado de Cabo Verde, autor dum livro com o curioso título de «Cirrose».

Para vos dar uma ideia da variedade dos livros desta jovem livraria, aí vão alguns nomes: José Blanc de Portugal, António José Forte, Carlos Queirós, Emanuel Félix, Jorge de Sena, António Ramos Rosa, Alexandre O’Neill, David Mourão Ferreira, Francisco Bugalho, Bocage, Al Berto e Carlos de Oliveira. Dos estrangeiros, Drummond de Andrade, Adélia Prado, Agostinho Neto e Ho Chi Minh com os seus célebres poemas de prisão. E muitas antologias: poesia argentina, poesia soviética, poesia brasileira, um nunca mais acabar. O horário é das 15 às 23 horas de segunda a sábado.

Um aspecto curioso é que eles procuram ter não só as novidades mas também clássicos, como (por exemplo) a colecção «Poetas de Hoje» da Portugália e o «Círculo de Poesia» da Moraes. Pessoalmente foi emocionante descobrir um livro meu de 1982 ainda à procura de leitor ao lado de um livro da minha filha, que desapareceu horas depois.

Não queria deixar de vos dar conta desta descoberta. Sei que nunca foi tão fácil publicar livros, mas também nunca foi tão difícil colocá-los no leitor. Comprar muitos livros não quer dizer ler muito. Mas é bonito ver esta teimosia. Agora que os dias do frio estão a chegar, nada como um livro de poemas para se conjugar com uma bebida destilada ou fermentada capaz de aquecer o coração. A poesia também é uma educação sentimental.

When I’m sixty-two

O editor Manuel Alberto Valente, da ASA, fez anos e contou-o assim no blogue do Francisco José Viegas, «A Origem das Espécies», clicável aqui ao lado. Ao homem, os parabéns. Ao poeta, os ouvidos do mundo.

Soneto para os amigos no dia dos meus 62 anos.

Se aqui cheguei foi graças a vocês
Que me tiraram as pedras do caminho
E me deram resposta aos múltiplos porquês
Onde o medo sorrateiro faz o ninho

E por isso aqui estou passados os sessenta
Pejado de tabaco e de vinho tinto
A olhar tranquilo o banco onde se senta
Esse juiz supremo a que não minto

Fui jovem e sonhei, errei, caí
Mas sempre soube que o rumo que escolhi
Só podia ser livre e verdadeiro

Não sei se consegui mas estou seguro
Que tentei construir o meu futuro
Pra que nele coubesse o mundo inteiro

O filho mais desejado

O quarto capítulo de Deus chega no próximo avião é o que vai aqui. De resto, não há pão para malucos.

*

Era isso mesmo. Eu estava a precisar de falar com o Diogo. «Preciso de falar contigo», disse-me ele ao telemóvel ontem à noite. Combinámos ir jantar hoje. Voltei, há momentos, de pô-lo em casa.

O Diogo nasceu quando eu e a Clara ainda andávamos no primeiro enlevo. Queríamos aquele filho, por mais que os meus pais, e a mãe dela, nos chamassem à razão. A Clara tinha dezanove anos, eu vinte e um (passará pela ideia ao Diogo que tem, hoje, a idade que eu tinha quando o fiz?), estávamos ambos desempregados, a viver por quartos, mas loucos de mútua fome. O meu filho foi a criança mais desejada que o mundo viu.

Levei-o ao Snob. Há tempos que lhe andava prometendo um sítio chique. Adoro, ele também, restaurantes de bairro, onde se serve uma comida honesta e dentro dos orçamentos. O meu não é largo, e por isso mantenho com agrado o hábito de condividirmos a despesa, e sei lá se o puto não se safa com mais dinheiro de bolso que eu. Mas hoje, ali, insisti em pagar eu sozinho. Parecia-me justo. Este filho é o maior tesouro que a vida me deu.

«Tens visto a mãe?» Não há um só encontro em que não mo pergunte. «Telefonei-lhe há dias.» É a resposta que ele já sabe, e nunca percebi se o deixa tranquilo, se desconfiado. «Como vai o trabalho dela?», quis eu saber. «Se lhe falas, deve dizer-te.» Tinha razão. Mas era para mim importante ouvi-lo da boca dele. A Clara é uma advogada de renome, e eu sei que o Diogo tem nisso orgulho. Simplesmente, vivendo com a mãe, deve sentir como experimenta ela a fama, e a canseira que a fama traz. Além do mais, andará bem informado do meu pouco contacto com ela. Quando me pergunta «Tens visto a mãe?», o que quer ouvir não é um memorando de falas e encontros, mas a minha confissão da importância que ainda nos damos, ela e eu. Não, não deve ser fácil para ele ver-se onde o pusemos. E por muito feliz me poderei ter, se ele ainda não percebeu que aquilo que, no fundo, me interessa é descobrir se, na vida dela, há já, ou não, algum outro. É rasteiro, eu sei. E esta ansiedade, esta chã indiscrição, contaminam aquilo que mais puro eu desejaria manter: a relação com o meu filho. Queria poder aguentar-lhe o olhar, e só ter a mostrar, no meu, uma perfeita candura, de quem ainda não acreditou nessa rara oferta de alguém me chamar pai. Enfim, e Deus o queira, se calhar só complico.

Falámos – falamos sempre – como dois amigos. Não confidentes, mas melhor do que isso ainda. As nossas conversas são a mais serena das desordens, e nem um nem outro parecemos desejá-las diferentes. Ele fala com a mesma dedicação da electrónica ou das namoradas, eu distraio-o com os meus autores e com planos de férias. São famosos entre nós os meus planos de férias. Já dei a volta ao Mundo em projectos, e posso com a mesma convicção expor-lhe o indispensável jornadeio a Katmandu, como enunciar a urgência de se demandarem as Ilhas Virgens. Eu não sei onde sejam as Ilhas Virgens, mas arrisco supor que o Diogo faria hoje as malas para irmos lá.

Outras vezes, toma-nos a nostalgia. Somos dois náufragos, com algum exagero. «Sinto-me, às vezes, tão velho», diz ele. Sim, filho, na tua idade também eu me sentia. «Ainda não fiz nada que se veja», insiste, magoado. Aqui, não posso dizer-lhe a verdade. Que, por muito que se viva, e se produza, não mais ela nos larga, essa convicção de nunca fazermos coisa que mereça mencionada. Mas o Diogo tem direito à ilusão, a de um dia vir a dizer que sim, que algo valeu a pena. E portanto calo-me. Ou lembro-lhe alguns méritos entretanto bem demonstrados. Ou pergunto-lhe se é assim tão indispensável fazer na vida coisas. «Mas nunca te apeteceu voltar atrás?». Quando ele me pergunta isso, sinto-me mais aliviado. Em vez de dar a resposta que ele pretenderia, a do pânico que dia após dia nos vai capturando, entrego-me ao pouco comprometedor exercício de construir cenários, de forjar-me uma outra biografia. Assim não se educa um filho, eu sei. Mas falta saber se alguma vez obteve ele de mim senão isso, o mínimo dos mínimos: alguma atenção, um tudo-nada de segurança, o pãozinho. E, depois, eu posso invejar-lhe a juventude, mas com ela eu perderia outra vez este aconchego que é o ter vivido, o saber cada vez melhor onde estou, do que sou capaz, o que é legítimo esperar, o que, por isso, ainda vale um esforço. Ele é novo. Mas ser novo é uma grande tristeza. Isso também já ele o descobriu.

Enquanto aguardávamos a sobremesa, contei-lhe o essencial do ambiente que se vem formando na Água Líquida. Nunca me alarguei, diante dele, em pormenores. Ele conhece as pessoas, das vezes em que vai apanhar-me no carro ao trabalho. Engraça com a Micas (e quem não engraçaria?), e eu sei, porque vejo, que entre ele e o Luciano há um nítido à-vontade, em que não desejo interferir, que direito teria eu aliás. Fui, portanto, sucinto no que relatei. Pouco comentou, e quase só isto: «Acho que tu provocas sempre invejas». Ia dizer-lhe que era, palavra por palavra, a apreciação da Noémia, mas teria de explicar-lhe quem é a Noémia, e ainda não me parece o momento. Quis, sim, ouvi-lo mais sobre esse misterioso tema da inveja que me reservam, forneci mesmo exemplos provocadores. Mas o meu filho não é parvo. Teve a noção de que expressara já o definitivo.

O vinho foi o evento da noite, escolha que é, sempre, do Diogo, e eu perguntei, meio a brincar meio sincero, de que me servia um filho se não percebesse de vinhos. Riu, e só entendeu do meu dito o que mais o elogiava.

Sobre o assunto de que tanto necessitava falar-me, e que ali nos tinha trazido, nem uma palavra.