O filho mais desejado

O quarto capítulo de Deus chega no próximo avião é o que vai aqui. De resto, não há pão para malucos.

*

Era isso mesmo. Eu estava a precisar de falar com o Diogo. «Preciso de falar contigo», disse-me ele ao telemóvel ontem à noite. Combinámos ir jantar hoje. Voltei, há momentos, de pô-lo em casa.

O Diogo nasceu quando eu e a Clara ainda andávamos no primeiro enlevo. Queríamos aquele filho, por mais que os meus pais, e a mãe dela, nos chamassem à razão. A Clara tinha dezanove anos, eu vinte e um (passará pela ideia ao Diogo que tem, hoje, a idade que eu tinha quando o fiz?), estávamos ambos desempregados, a viver por quartos, mas loucos de mútua fome. O meu filho foi a criança mais desejada que o mundo viu.

Levei-o ao Snob. Há tempos que lhe andava prometendo um sítio chique. Adoro, ele também, restaurantes de bairro, onde se serve uma comida honesta e dentro dos orçamentos. O meu não é largo, e por isso mantenho com agrado o hábito de condividirmos a despesa, e sei lá se o puto não se safa com mais dinheiro de bolso que eu. Mas hoje, ali, insisti em pagar eu sozinho. Parecia-me justo. Este filho é o maior tesouro que a vida me deu.

«Tens visto a mãe?» Não há um só encontro em que não mo pergunte. «Telefonei-lhe há dias.» É a resposta que ele já sabe, e nunca percebi se o deixa tranquilo, se desconfiado. «Como vai o trabalho dela?», quis eu saber. «Se lhe falas, deve dizer-te.» Tinha razão. Mas era para mim importante ouvi-lo da boca dele. A Clara é uma advogada de renome, e eu sei que o Diogo tem nisso orgulho. Simplesmente, vivendo com a mãe, deve sentir como experimenta ela a fama, e a canseira que a fama traz. Além do mais, andará bem informado do meu pouco contacto com ela. Quando me pergunta «Tens visto a mãe?», o que quer ouvir não é um memorando de falas e encontros, mas a minha confissão da importância que ainda nos damos, ela e eu. Não, não deve ser fácil para ele ver-se onde o pusemos. E por muito feliz me poderei ter, se ele ainda não percebeu que aquilo que, no fundo, me interessa é descobrir se, na vida dela, há já, ou não, algum outro. É rasteiro, eu sei. E esta ansiedade, esta chã indiscrição, contaminam aquilo que mais puro eu desejaria manter: a relação com o meu filho. Queria poder aguentar-lhe o olhar, e só ter a mostrar, no meu, uma perfeita candura, de quem ainda não acreditou nessa rara oferta de alguém me chamar pai. Enfim, e Deus o queira, se calhar só complico.

Falámos – falamos sempre – como dois amigos. Não confidentes, mas melhor do que isso ainda. As nossas conversas são a mais serena das desordens, e nem um nem outro parecemos desejá-las diferentes. Ele fala com a mesma dedicação da electrónica ou das namoradas, eu distraio-o com os meus autores e com planos de férias. São famosos entre nós os meus planos de férias. Já dei a volta ao Mundo em projectos, e posso com a mesma convicção expor-lhe o indispensável jornadeio a Katmandu, como enunciar a urgência de se demandarem as Ilhas Virgens. Eu não sei onde sejam as Ilhas Virgens, mas arrisco supor que o Diogo faria hoje as malas para irmos lá.

Outras vezes, toma-nos a nostalgia. Somos dois náufragos, com algum exagero. «Sinto-me, às vezes, tão velho», diz ele. Sim, filho, na tua idade também eu me sentia. «Ainda não fiz nada que se veja», insiste, magoado. Aqui, não posso dizer-lhe a verdade. Que, por muito que se viva, e se produza, não mais ela nos larga, essa convicção de nunca fazermos coisa que mereça mencionada. Mas o Diogo tem direito à ilusão, a de um dia vir a dizer que sim, que algo valeu a pena. E portanto calo-me. Ou lembro-lhe alguns méritos entretanto bem demonstrados. Ou pergunto-lhe se é assim tão indispensável fazer na vida coisas. «Mas nunca te apeteceu voltar atrás?». Quando ele me pergunta isso, sinto-me mais aliviado. Em vez de dar a resposta que ele pretenderia, a do pânico que dia após dia nos vai capturando, entrego-me ao pouco comprometedor exercício de construir cenários, de forjar-me uma outra biografia. Assim não se educa um filho, eu sei. Mas falta saber se alguma vez obteve ele de mim senão isso, o mínimo dos mínimos: alguma atenção, um tudo-nada de segurança, o pãozinho. E, depois, eu posso invejar-lhe a juventude, mas com ela eu perderia outra vez este aconchego que é o ter vivido, o saber cada vez melhor onde estou, do que sou capaz, o que é legítimo esperar, o que, por isso, ainda vale um esforço. Ele é novo. Mas ser novo é uma grande tristeza. Isso também já ele o descobriu.

Enquanto aguardávamos a sobremesa, contei-lhe o essencial do ambiente que se vem formando na Água Líquida. Nunca me alarguei, diante dele, em pormenores. Ele conhece as pessoas, das vezes em que vai apanhar-me no carro ao trabalho. Engraça com a Micas (e quem não engraçaria?), e eu sei, porque vejo, que entre ele e o Luciano há um nítido à-vontade, em que não desejo interferir, que direito teria eu aliás. Fui, portanto, sucinto no que relatei. Pouco comentou, e quase só isto: «Acho que tu provocas sempre invejas». Ia dizer-lhe que era, palavra por palavra, a apreciação da Noémia, mas teria de explicar-lhe quem é a Noémia, e ainda não me parece o momento. Quis, sim, ouvi-lo mais sobre esse misterioso tema da inveja que me reservam, forneci mesmo exemplos provocadores. Mas o meu filho não é parvo. Teve a noção de que expressara já o definitivo.

O vinho foi o evento da noite, escolha que é, sempre, do Diogo, e eu perguntei, meio a brincar meio sincero, de que me servia um filho se não percebesse de vinhos. Riu, e só entendeu do meu dito o que mais o elogiava.

Sobre o assunto de que tanto necessitava falar-me, e que ali nos tinha trazido, nem uma palavra.

15 thoughts on “O filho mais desejado”

  1. fernando, já sei que depois vêm aí as bocas, que aparecem os colegas de blog com aplausos e não sei quê. mas que hei-de eu fazer? perdoa-me não te poupar, mas gostei muito. estou a gostar muito, presa, quero o resto.

  2. Informo que li o texto numa simultaneidade auditiva, fortuita, com “Menina da Lua” de Maria Rita. Isso influenciou o sentimento. Também reconheço que o tema é fácil. A relação entre pai e filho. Mas por ser fácil, fica mais difícil. Agora, o que permanece indelevelmente objectivo é esse súbito estado de carência que a susana refere acima: e o resto? É que, para nós, já chegou o momento de saber quem é a Noémia.

  3. Ah, a tentação, saborosa e maléfica, e uma coisa porque outra, de gerir a fome alheia.

    Se eu cair adicto a isso, estão lixados.

    Préparez vos psychiatres.

  4. Isto se calhar não tem muito a ver mas o nome da editora «Águia Líquida» não só não tem muita lógica (toda a água – ou quase toda – é líquida) mas soa a Relógio de Água. Ora se o romance tem verosimilhança e ligação ao real então o nome da editora deveria ter outra solução. Penso eu de que.

  5. jcfrancisco, tem graça dizer isso. porque, precisamente, ao fazer essa mesma constatação, achei muita piada à redundância aparente, que é afinal uma subtileza química: a água não é sempre líquida.

    lembrou-me foi o nome dum lugar, assim designado porque era uma antiga fábrica de tal coisa, e que eu acho lindíssimo: ar líquido.

  6. Ò Fernando, eu estou na lista dos malucos? É que, se estou, não te peço para continuares, já que e esses não dás pão. Se o teu juízo me é favorável, então continua.
    (Quanto ao JCF, verde mais verde não há do que este meu querido amigo. Vejam lá como ele, sem querer, escreveu o que lhe apetecia que fosse verdade: “Águia Líquida”.)

  7. A verdade pode, por vezes, custar muito a dizer. Mas a mentira é, também ela, aqui e ali, fonte de dor. E nada me iria doer mais, neste momento, do que dizer-lhe, caro Fernando, que não quero – exijo seria demasiado? – receber, neste mesmo espaço, a continuação de uma senda que já me viciou. E é por isso que o não digo.

    Grande abraço. Até lá – ao próximo capítulo.

  8. Por instantes, julguei que houvesse uma editora «Águia Líquida». Sim, Daniel, há gralhas preciosas.

    Pois satisfarei as perplexidades. A editora em questão não existe. Não há, por aí, a mínima ligação ao real. A vontade de picante do Zé do Carmo ficará ògando, aguando. Nem mais.

    Mas a firma tinha que ter um nome. E ele surgiu da fusão de «Assírio Líquida» (que, à época em que comecei a redigir a coisa, existia, ali ao Bairro Alto) e de (de facto) «Relógio de Água». A redundância está bem assinalada, e bem resolvida, pela Susana.

    Eu conhecia ambas a editoras, a Assírio melhor do que a Relógio (ainda hoje assim é), mas uma e outra suficientemente mal. De resto, esse décor editorial, que vai manter-se, não tem fundamental importância na história. A editora – verão – é simples pretexto. O motor da acção está alhures.

    Quanto à Noémia, Valupi, ela irá ganhando consistência. Na terceira, última e longínqua parte, será até a narradora.

    Não prometo, sádico Confúcio, que não haja, pela primeira vez num romance meu, uma morte. Doce ou cruel, não faço, de momento, a mínima ideia.

    Mas até lá…

  9. Assim, pé ante pé, «step by step» como dizia com muita graça o Raúl de Carvalho, o Fernando Venâncio vai fazendo o folhetim do século XXI. Apetece dizer Alô Alô Ernesto Rodrigues, eles voltaram. Eu por exemplo anda todo satisfeito porque descobri um conto do Vitorino Nemésio num Almanaque Diário de Notícias de 1960 no qual um certo cavaleiro (Mateus Queimado) passeia pela Ilha Terceira montando o cavalo «Casquilho», nome bonito para um cavalo vaidoso. Já coloquei as questões devidas ao Urbano Bettencourt e ao Álamo Oliveira (ver se este conto saiu numa colectânea, e tal…) mas anda contente porque assim não preciso de tomar anti-depressivos. Afinal somos todos filhos do folhetim e do almanaque, somos do tempo em que não havia televisão nem Interntet nem telemóveis…

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