As ocupações do espírito

Gildo está divorciado de Clara. Mas os dias de anos continuam sagrados. Vê-se isso nas melhores famílias. Ei-los, pois, que abancam, num restaurante lisboeta, com o filho único, Diogo. Com este jantar, vai o capítulo 9 de Deus chega no próximo avião.

*

Fomos festejar os anos da Clara a um restaurante da Graça, que fica sobranceiro a um mercado, e de que me escapa sempre o nome. Mantemos o costume do jantar em família neste dia, talvez porque nenhum de nós – nem a Clara, nem o Diogo, nem eu – se acomodou ainda à actual situação. É o aniversariante que oferece, e isso proíbe-nos, é da praxe, de olhar a preços. Eu nunca soube bem quanto ganha presentemente a doutora Clara Sorreito, mas, por cálculos de um colega dela, e meu amigo, andará já entre as três e as quatro vezes o meu salário. Não me queixo, e ela sabe-o bem. Não preciso do cabriolet dela, só odeio a menção «topo de gama» com que mo apresentou. Dispenso a casa na Lapa, que conservou, e até sinceramente me alegra que o Diogo adore viver lá. Tenho o meu carrinho, muito utilitário e que trato como um irmão, e as minhas duas assoalhadas são o meu castelo. E sinto que, quando, como agora, ostensivamente, não olho a preços, crio no mundo um pouco mais de justiça.

Divagámos – durante as entradas, e a propósito da actual namorada do Diogo, que vai cursar Direito – sobre a pouca preparação com que os alunos saem presentemente da faculdade. Divagaram mais eles. O salmão fumado veio um pouco para o seco, mas o alvarinho, escolha impecável do meu moço, compunha bem. «E como vai ela de resto, a Mónica?», quis eu saber. Tinha-a vislumbrado no carro dele, pareceu-me miúda fixe. «Estuda.» Este meu filho sempre foi poupado de conversa. «Já tiveste pior», tentei chatear. A Clara deu um apoio: «A Feliciana, por exemplo.» Rimos os três. A garota de Oeiras mostrara queda para tudo – dança, corrida, skate, yoga, algum alpinismo –, mas em ocupações do espírito ficava pelo raso. Não era em nada «o nosso tipo», mas o rapaz tivera por ela um fraco que enternecia.

A avestruz veio sublime. As minhas papilas não alinharam com o Bairrada eleito do meu filho, mas o produtor provou-se honesto e eu um bebedor indulgente. O Diogo falou-nos do curso no IST. Fê-lo circunstanciadamente, não porque nem eu nem a mãe andássemos a par, mas porque, percebi-o, não é todos os dias que tem os dois interlocutores juntos. Simplesmente, eu parecia senti-lo cansado, distante. Tenho a certeza de que a Clara se apercebeu do mesmo. E não era essa imagem, nitidamente, a que o Diogo queria deixar-nos. Foi com um entusiasmo sem preparação que nos disse: «Que tal o vinho?» «Óptimo», fez a mãe saber, como se agora mesmo acordando. «Que castas são estas, Diogo, exactamente?» O produto não me aliciava, mas o meu interesse não era estudado. O Diogo estava de novo no seu melhor. E assistimos, deleitados, orgulhosos, a mais uma lição do enólogo que, sem sabê-lo, andámos criando.

À sobremesa meti eu assunto. «Ontem passou-se uma…» Não me movia a busca da sensação, e sim a urgência de partilhar o que me enchia a mente. «Conta lá.» A voz não soava à Clara nada opressa, como tantas vezes, e havia mesmo uma descontracção. É para isso que se come fora, diria o meu pai, que sempre precisava de motivos para tudo. Narrei-lhes, com algum pormenor, o caso do romance de um dia antes. A minha noite em claro com O bom, o malvado e quem fica de fora, o uísque matinal do Cícero, o escorregadio da reunião de edição. «Mas de que é que trata?» «Trata o quê?» «O romance.» Tinha o Diogo razão. Disse o básico. Expus ambientes, algumas personagens importantes, a época em que decorre, imprecisa, mas estranhamente palpável, alguma peripécia, a caminhada para o desenlace, a atmosfera de inelutável catástrofe. Vinte minutos, meia hora, o meu público sorveu-me as palavras, e eu nem uma sombra, nem um pobre reflexo, lhes transmitia do que a leitura me oferecera. «Se vissem a linguagem, aquele modo de narrar… Só lendo.» Vieram os cafés.

«E o autor, conheces?» Mais uma vez o Diogo. «É segredo.» Rimos. Eles sabiam que eu apenas retardava a informação. A minha confiança na discrição deles é ilimitada. «Não, a sério, não tem interesse. É um desconhecido.» «Mas há-de ter um nome», e na voz do Diogo não havia a certeza de ter a minha confiança. «Ouçam e esqueçam», disse eu. «Por outra, não esqueçam. Porque este vai ser, se não é já, um grande escritor deste século. E terá, julgo eu que terá, bastantes anos para ir provando isso.» Dei-me então conta de que a idade do senhor me era de todo desconhecida, e que só a poder de imaginação eu o fizera um jovem. Fiz sinal à menina para mais um café. Eu sou o único a bisar. «Chama-se Maurício Peres. A idade não sei.» Era como se fosse urgente desculpar-me. «Até pode nem ser novo», disse a Clara, mas percebia-se que para ela tanto fazia. A minha ‘ex’ é  capaz de saber mais de literatura que o meu patrão, mas raros livros a vi levar ao fim. «Tens de saber.» Tão premente era o tom do Diogo, que não entendi logo. «A idade do fulano.» Não iria custar-me saber, nem demoraria talvez. «Está bem, quando souber digo.»

Pedi à menina, que andava perto, dois conhaques, o da Clara mais bem servido. «Um também, se faz favor.» Olhámo-nos. Era a primeira vez que o Diogo bebia assim.

4 thoughts on “As ocupações do espírito”

  1. hum, isto está apaixonante. agora um mistério, que deixa suspeitas – mas não vou revelá-las! a coisa adensa-se. é bom que vás pegando no que do romance ainda não está escrito, fernando. tu vê lá.

  2. benâncio,

    Temos que educar o rapaz, carago! A bairrada já deu o que tinha a dar de novidade ao palato. Bota-lhe um honesto João Portugal Ramos, qualquer um da sua trilogia de quatro, talvez o sirah, que tem os seus quinze degruas e o puto já não se atrevia a subir aos conhaques. Ou leva-o à tapada do chaves, que é de truz. E o gildo que não seja sovina com as emoções, na descição, que as almas são para abrir aos de casa. Pronto.
    As palavras continuam a ser alçapões, mas que queres?
    Maldito feitio.

  3. Neste momento, somos como a Clara e o Diogo; nem uma sombra, nem um pobre reflexo sabemos do que a leitura ofereceu ao Gildo. De substantivo, quero dizer. E, ao nono capítulo, creio que estamos perante um policial.

    Vou até expressar-me melhor: o protagonista é um detective, quer ele o saiba ou não.

  4. Valupi,
    Sim, algo de policial, algo de (ui ui!) thriller psicológico, se há-de desenvolver daqui. Pelo menos, se o fulano que escreve tiver mão firme.

    Mas avisa-se: o Gildo é só protagonista desta primeira parte. E o protagonista da segunda pode ter alguma vocação mais para detective. Não por mérito próprio, de resto. Os desenvolvimentos caem-lhe, salvo seja, no regaço. E isso em Constância!

    Cousa horrible de ver-se, garanto-te.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.