Um homem feliz

Contra o prometido, ainda não é aqui que o motor de Deus chega no próximo avião engrena. Um pouco mais de paciência, pois, gente leitora. O que não torna desprezáveis as informações ainda assim fornecidas.

Para quem possa ignorá-lo: Moreanes é uma tranquila aldeia entre Mértola e Mina de São Domingos. Tinha, à época em que escrevi isto, um restaurante que valia bem vários détours. Se calhar, ainda lá está. A Foz do Lizandro, essa, é no Oeste, não longe da Ericeira.

Numa caixa abaixo, Valupi escreveu: «Deus chega no próximo avião? Continuemos à espera, pois. E rezemos (mas a quem?…) para que o avião não caia.» Interessado até aos gorgomilos, também eu acenderei uma velinha.

*

Acabo de levar a casa a Noémia. Pôs-se uma noite de chuva, nada que o esplendoroso fim-de-semana pudesse anunciar. Ainda tentou aliciar-me para um serão, mas só aceitei os ovos com presunto e a taça de clarete. Foi óptimo estarmos os dois na Foz do Lizandro, lendo àquele sol já de Primavera, vadiando pelas dunas, e mais tarde horas a fio na cozinha aprontando um prato inédito. Mas ela compreendeu a minha pressa, a minha indisponibilidade. É que preciso de passar ainda os olhos por uma resma de originais, e amanhã às dez quero sentir-me fresco para a reunião semanal. Com o dr. Dominguinhos reuníamos quinta à tarde, resvalando o encontro o mais das vezes para o jantar na marisqueira. O filho é mais tipo norte-americano.

Trago quase sempre manuscritos para casa. Ponho os almofadões na cabeceira da cama, e assim fico horas regalado. Do corpo, porque o espírito, não raro, sofre atrozmente. Leio mais romances num ano do que um leitor compulsivo em cinco deles. E, diferentemente desse leitor, não posso escolher. Para mais, não leio apenas. Tento entrar nos textos, tomar-lhes a espessura e o cheiro, para melhor aquilatar-lhes o conseguimento, revitalizá-los onde for praticável, fortalecê-los onde o admitirem. E faço-o à mão. Só no escritório é que, depois, pego da disquete, ou do cd, e construo os meus best-sellers.

Estes dois diazitos com a Noémia fazem-me bem. São o meu oxigénio. Partimos sempre sem outro programa senão o de esquecer Lisboa. Com a vantagem de se ficar por perto. Quando estava com a Clara, era uma aventura meter-nos até Moreanes. Não havia as belas estradas de hoje, e o regresso dos algarvios, ao domingo à tarde, ainda mais nos estragava as contas. Hoje raramente lá vou, e só uma vez ou outra com o Diogo. Ele aprecia o ambiente alentejano, tem lá amigos nos montes à volta, organiza farras até altas horas, é um regalo vê-lo, e mais para quem, como eu, gostaria de ter sido assim. E, quando não vai comigo, leva a namorada do momento, leva o computador, leva a mãe. Não nasceu lá, e dá-se melhor no Alentejo do que eu.

Com a Clara, nem eu nem ela esquecíamos, ao fim-de-semana, o trabalho. Tínhamos em comum a obsessão da minúcia: ela no direito, eu no jornal. Era onde melhor os dois nos encontrávamos, era, tenho de ser sincero, o único ponto em que reagíamos bem. Aprendi, nas suas matérias jurídicas, a força da pormenorização, a valia das distinções, o préstimo duma global coerência. Confio em que também ela tenha ganho comigo, talvez na estruturação de um raciocínio, no colorido das sonoridades, na exactidão de um vocábulo. Os nossos fins-de-semana, fossem na Lapa ou na casinha alentejana, eram «de trabalho», por muita descontracção que isso nos garantisse. Quanto ao resto, o nosso casamento só tinha um arrimo: a existência do Diogo. E, mesmo aí, estive sempre longe de empenhar-me quanto devia. Porque é que não fui mais vezes com ele a treinos, ao cinema, a devassar mundo, mesmo a preguiçar numa praia, ainda hoje não sei. Quando me descobri pai, já o meu filho não precisava de mim.

A Noémia atravessou-se-me no caminho. Foi quando, meio conformado meio fatalista, eu começava a habituar-me à solidão. Era um processo a que eu assistia com curiosidade, e que o aparecimento dela perturbou o seu tanto. Não poucas vezes me ouvi pensar: «Se isto também der bota, tenho-me ainda a mim mesmo.» Mas foi-me boa, essa experiência do despovoado. Lembra-me aquilo que afirmam quantos se acercaram da morte e regressaram. Um por um dizem ter perdido qualquer medo. Também para mim a Noémia, ou quem a ela se siga, será apenas uma alternativa, aceite com muita alegria, mas com igual desprendimento. Estranho seria se ela nada disso notasse, por informe que essa noção lhe chegue. Para alguma coisa lhe haveria de servir essa larga prática com homens, de que ela se gaba mais do que a minha vaidade aprecia.

Mas talvez por tudo isso o contacto com ela me é tão relaxante, e nada nele se assemelhe a um pânico perante falhas ou suposição delas. É isso. Ao mesmo tempo que bendigo os céus que ma deram, estou pronto a entregá-la inteira quando eles o requererem. Eu devia considerar-me um homem feliz. Se calhar sou, e não sei.

6 thoughts on “Um homem feliz”

  1. Pois é, Susana, isto é como na discussão pública no final de um debate. O difícil é a primeira intervenção…
    Só um reparo a fazer: eu prefriria ler isto num livro de papel. Não encontro mais nenhum defeito.

  2. Há um outro problema, nascido desta generosidade do Fernando – e a qual nos honra. É que, até agora, o Gildo tem-nos dado a ver a distância a que se encontra de tudo e de todos. Porquê? Para quê? Até os deuses que não viajam de avião querem saber.

  3. Valupi,

    Provavelmente, nem a distância «de tudo e de todos» bastará ao Gildo diante das provações que lhe estão reservadas.

    Fique entre nós: escrevi ontem o primeiro capítulo da segunda parte. Falta muito, ainda. Mas já um nadinha menos.

  4. Poderia dizer-lhe, caro amigo, que esta sua obra é, em meu entender, fascinante. Mas não sou, perdoe-me, adepto de eufemismos.
    Preciso, por isso, de mais um capítulo. Como um adolescente precisa de um telemóvel. Ou como os telemóveis – as empresas que os produzem, bem visto – precisam dos adolescentes. E não. Não sou, também, adepto de hipérboles.

    Um abraço para si, Gildo. E não se esqueça de entregar também um, bem apertado, ao meu bom amigo Fernando Venâncio.

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