Não se pode ter tudo

Para prevenir distúrbios psíquicos, que aqui e ali parecem desenhar-se, aqui vai, vá lá, novo capítulo de Deus chega no próximo avião. Seja pelos meus pecados. Recorde-se que o revisor Gildo acabava de ler, numa noite em branco, um inédito de romance espectacular. O que temos, aqui, é a reunião semanal da editora. Com o inimigo à coca.

*

«Temos que beber a isso», quase gritou o dr. Cícero Pompeu. Quis lembrar-lhe que ainda só eram nove e meia, mas preferi um patrão tocado a um ofendido nos brios. Bebi também o meu uísque – «Um fundinho, só um fundinho, senhor doutor» –, com a firme tenção de correr dali a tomar uma bica restauradora.

Afirmar que o editor se espantou era dizer de mais. Pareceu-lhe, até, natural que, possuindo o seu fundo os autores mais notórios do país, viesse o melhor da produção nacional, pelos seus pezinhos, ter-lhe à mão. A literatura nunca foi o forte dele, mas sempre ali esteve um exímio comerciante. «Então você acha…», e logo o sorriso lhe estragava a frase. «Mas está bem. Vai ficar tudo, para já, entre a gente os dois.»

Não sei se fui muito esperto quando decidi informar o doutor à parte, de antemão. Achei necessário que, se o pulha do meu colega houvesse de dar um ar de graça no encontro, o essencial estivesse já posto em seguro. O risco que corria era, todavia, o de excitar em demasia o dr. Cícero, sem grande tempo de refazer-se, antes que os outros aparecessem. Eu pusera, pois, uma mínima emoção no tom, como quem anunciasse não um tesouro do céu, mas a hipótese técnica de ter-se ganho a lotaria. Errei o cálculo. Ou então foi o doutor que ouviu nos meus modos o que eu tanto me forçava a dissimular. Já verifiquei que o actor não é o forte em mim.

Concluo é isto: se não foi o precário controlo do patrão a alertar os meus colegas, podem tê-lo sido os matinais eflúvios do álcool. «Do caso do Maurício Peres trata-se depois», disse o dr. Cícero, como quem não quer a coisa. Era um deslize, e teria ficado por ali, não fosse a pituitária do Luciano. «Então o senhor Hermenegildo ainda não leu?» Víbora. E que finura! Nem eu nem o dr. Cícero tínhamos diversão pronta. «Surgiu algum problema?». E o Luciano olhava-nos com intenção, um por um, em redor. Senti que Cícero, bebido ou sóbrio, nunca me perdoaria que deixasse para ele a castanha. «Problema? Não. Bem pelo contrário», meti, sabendo quanto importa estabelecer depressa a confusão. «Simplesmente, o autor pode ainda sugerir alterações.» Nem o Luciano nem a Irene nem a Matilde da contabilidade sabiam bem que fazer com essa minha observação. Tivera eu contacto com o escritor, e avisara-me ele de acções iminentes? Queria eu apenas sublinhar o óbvio, já que sempre um autor pode pretender retocar o texto? A questão morreria ali, não fosse uma muito infeliz curiosidade da minha fiel Micas. «Mas é para publicar, ou não?» A esta não podia, por mais que quisesse, escapar o Cícero. «Mas evidentemente.» E esquecido das conveniências: «Vai passar, até, à frente de tudo.»

Metade disto chegava para pôr despertas ao Luciano todas as antenas. «Conte lá, doutor», atirou, e havia naquele tom descontraído um insolente ruído de fundo. «Aqui o Gildo explica. Se quiser», suspirou o patrão. Tive que querer. «Ora bem», e obtive, com a pausa, uns segundos para alisar duas ideias. «Vamos lá ver. O que está encaminhado para a Feira do Livro, avança, é evidente. Mas a campanha de Verão ainda permite ajustamentos. Sei que o senhor doutor – e, se não me exprimir bem, o senhor doutor corrige-me – pensava lançar um autor novo, estreante, evidentemente com hipóteses. Ora este pareceu-lhe», e premi no verbo, «pareceu-lhe uma escolha a considerar.» Dei-me conta de que relativizava em demasia. «É uma escolha, estou em crer que com certas chances.» E calei-me. Cada palavra é, nestas ocasiões, um alçapão.

O dr. Cícero olhou em volta: «Está esclarecido?» E não tornou claro se falava do assunto ou do Malta. Mas o tom era de questão arrumada. E este patrão, valha-nos isso, tem uma dureza serrana, mas terminante.

15 thoughts on “Não se pode ter tudo”

  1. Fui à Faculdade comprar a Revista Philosophica para a minha filha mais nova e dei de caras com o Ernesto Rodrigues. Achou graça à minha frase «Alô Alô Ernesto! Eles estão de volta! Os folhetins!» Estou a gostar muito e a verdade é que com as novas tecnologias a base mantém-se – os romances fazem-se com pessoas dentro, com sentimentos, com literatura. O resto é treta.

  2. Bic, Bic
    Bic laranja
    Bic cristal
    Duas escritas à vossa escolha
    Bic laranja da escrita fina
    Bic cristal da escrita normal
    Bic laranja
    Bic cristal
    Duas escritas à vossa escolha
    Bic, Bic

    Fernando, a que horas chega o próximo passageiro do teu avião?
    (ofereço-te as duas canetas para que não pares)

  3. E será que vamos conseguir ler excertos desse inédito de romance espectacular?… Perguntar não ofende e pedir não custa. De resto, o caminho é cada vez mais o da hiperficção meta-romanceada.

  4. benâncio,

    Está do caraças mas recuso-me a comentar. Cada palavra é, nestas ocasiões, um alçapão.

    jmc,
    bem visto, essa do folhetim.

  5. Calvino como cenário, sim, não na voz. E Borges, primo, Borges. Afinal, Deus está algures nas alturas, mas a caminho. De certeza que vai chegar com um manuscrito a carecer de muito trabalho de mão humana para ficar legível, mesmo uma besta célere.

  6. JP,
    Tens a vista arguta dum leitor de eleição. Mas, se algum dia me vires em tiques demasiado «meta», avisa.

    Zé do Carmo,
    O Ernesto Rodrigues é, de facto, o nosso grande especialista em folhetim. O problema deste meu (nosso) é que, mais dia menos dia, vai embatucar, in medias res, à espera de haver mais. Eu não quero ver os índices da Bolsa de Lisboa nesse dia.

    Sininho,
    Eu não paro. O folhetinesco happening é que irá encalhar. Mas desvanece-me a oferta das canetas.

    Valupi,
    Perguntas-me se algum dia o leitor terá acesso ao romance que o Gildo acaba de ler. Respondo assim: não é da economia desta ficção que isso suceda. Tudo o que eu inventasse por aí desmereceria do próprio contexto. Se nisto descortinares vaidade, viste bem.

    Primos,
    Calvino? Claro. Borges? Sempre. Mas o Primo Levi de «Carbono» não anda longe daqui (mesmo que só como ‘ar do tempo’, visto tê-lo eu conhecido já depois de escrito o que estão lendo).

    Basco,
    Está do caraças? E não ‘comentas’? Que melhor comentário podia um gajo sonhar?

    Cláudia,
    Lamento informar-te, mas a prosa é, quanto investiguei, mesmo minha.

  7. Parece-me evidente, pela qualidade que se nos depara, que o tal romance espectacular de que o Gildo fala não é outro senão este mesmo. O que o Fernando, num acto de pura bondade, nos entrega de mão – e arte – beijada.

    Junto-me à turba, à espera. Mais é a palavra que me ocorre. Fascínio é outra. Mas prefiro ficar-me por duas: por favor.

    Grande abraço.

  8. Cláudia,
    Filha, vale-te o corrector ortográfico.

    João Pedro,
    Eu sei. Esta fórmula de divulgação dá uma ilusão de simultaneidade de escrita. Mas – estarás esquecido – já contei que o romance é antigo (interrompi-o para escrever «El-Rei no Porto», e ficou interrompido) e que estou, passados anos, a reatar a escrita da segunda parte. Claro que escrevo tudo de seguida. É a única maneira de garantir uma coerência. E ‘ajustes de carpintaria’ serão inevitáveis.

    Isto nunca nasceu para folhetim. Embora, concedo, se preste.

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