Se o inimigo nos trama

«Preciso de mais um capítulo. Como um adolescente precisa de um telemóvel. Ou como os telemóveis – as empresas que os produzem, bem visto – precisam dos adolescentes.» Isto escreveu-o Confúcio, o inestimável, o vivo, o nosso. Quem tem coração para deixar a aguar um púbere assim?

Eu sei. Não há-de chegar, para tanto insofrimento. Mas é tudo o que se tem, este capítulo, mais um, de Deus chega no próximo avião. Arrancará a ‘acção’ aqui, finalmente?

*

Passa já das quatro e meia. Lá fora, o vento ganhou em fúria com o vir da madrugada, a chuva não deu descanso. Quase vazia está, na mesa-de-cabeceira, a garrafa de Reguengos. Começo a sentir um buraco no estômago, mas impossível erguer-me e confeccionar qualquer coisa. Não sei quando irei dormir, se vou dormir sequer. Isto que está a passar-se é único, e já não me importo com que cara possa aparecer, daqui a horas, na Água Líquida.

Era já bem meia-noite, quando me afundei no número cinco dos originais. Achava-me sem sono, e antes com uma energia que, em momentos de outra premência, acontece falecer-me. Fizera observações à margem nos manuscritos, anotara no bloco sugestões de feitura. Os quatro enredos não me tinham aquentado nem deixado de fazê-lo, mas já vira pior. Como sempre faço com este trabalho, li trechos com maior detenção, a outros deixei-os para eventual oportunidade.

E, de repente, isto. Um texto que, à primeira linha, rompeu como uma sinfonia, e veio depois ganhando este ritmo sereno mas subjugante, desenvolvendo aqui uma vivacidade, ali um alargar de visões, além um espadanar de conceitos. Venho-lhe degustando, uma e uma, as expressões, entrando pelos parágrafos como quem se arroja a uma nova onda, crescentemente desperto, a cada momento mais sobressaltado.

O nome do autor, Maurício Peres, nada me diz. O título, O bom, o malvado e quem fica de fora, não se me fez mais eloquente. E, todavia, impossível agora deter-me. Vou pouco para além de meio, e já me toma uma dolência, uma nostalgia, por saber que esta narração estonteante há-de ter um remate. Tento retardar a leitura, procuro se possível inverter a marcha, revivendo situações e abstraindo da sequência entretanto conhecida, para que o conjunto não se exaura. Pergunto-me quem escreveu este desmedido assombro, que mente concebeu tamanho primor. E sinto que passei estes largos anos aguardando só esta exacta dádiva, e desesperando de tê-la um dia nas mãos. Agora aqui descansa, concreta, sobre os meus joelhos, a escrita mais luminosa que supor se possa, um brinquedo de argúcia e gentileza, de ingenuidade e atrevimento, uma bela tonalidade clássica cortada aqui e além por discretas gírias, tudo servindo uma história louca, sim decerto louca, mas plausível, genuína. Que sorte esta, a da minha editora, vir parar-lhe um livro assim.

Que terá passado pela cabeça ao Luciano Malta quando leu isto? Vejo que, esparsamente, lhe corrigiu uma acentuação (estava «impúdico», estava «os pelos», estava «páro»), eliminou, pois claro, os ponto e vírgulas em discurso directo, uniformizou aspas e itálicos. Não se valeu, vê-se, do corrector ortográfico. De outro modo, não se percebe por que tivesse feito emendas no papel. Eu tenho ali a disquete, posso ir confirmar. Enfim, o Luciano fez a sua parte, e fê-la bem. Mas terá ele reparado no material que se lhe oferecia? Reconheceu ele, ali sobre o tampo da secretária, este romance assombroso? E, se o viu, tê-lo-á dito, chamado a atenção de alguém? Nem uma nem outra coisa parecem prováveis. Este texto já lhe passou pelas mãos há algum tempo – exacto, vejo aqui na capa uma data, vai para quinze dias – e, caso houvesse alarme, já me teria chegado, e a mim antes de a muito outro. Está visto, o Luciano não leu. Quer dizer, leu e não reparou. Nada de anormal nele. Nunca o ouvi comentar a qualidade de um livro. No máximo faz menção de alguma brejeirice.

E antes assim. Se alguém tiver de avisar o mundo, que seja eu. Vou fazê-lo com cuidado, tratar o assunto a sós com o dr. Cícero. Já é desse modo que procedo em casos excepcionais, e desta vez proporei que nem se aluda ao caso na reunião. O Luciano é imprevisível em demasia para se arriscar tanto. Teria sempre a reacção que mais me prejudicasse. Com os seus imperturbáveis ares de sábio, desfaria no apreço, «Também nem tanto…», ou chamaria a si a descoberta, «Isso já eu tinha percebido», e comporia com charme o resto da intervenção.

Por outro lado, e agora que nisto penso, silenciar totalmente a questão não é aventurar menos. Se o safardanas tiver entrevisto desta maravilha um décimo que seja, pode bem lançar-me um laço, perguntar inocentíssimo se o Hermenegildo por acaso trabalhou também o manuscrito de certo Maurício Peres – «O senhor até já telefonou a saber» – e, se sim, o que é que achou. São incontáveis as formas de um inimigo nos tramar.

6 thoughts on “Se o inimigo nos trama”

  1. A tua pergunta está armadilhada, Fernando. Pois o nosso Gildo não pára quieto, agindo e reagindo com prontidão e segurança, venha quem vier. É acção o que temos testemunhado, e da boa. De uma supra-consciência.

    Também aproveito para aplaudir a frase final de cada capítulo. Promessas que tornam urgente o salto para o próximo.

  2. A frase final, amigo valupi, é a certeza de que o Fernando não vai deixar de nos brindar com a delícia do que vem a seguir. Se assim não fosse, não teria, certamente, a ousadia de nos deixar – a nós, vítimas das palavras – com tanta vontade de mais. E, também, de mais ainda.

    Abraço aos três: Valupi, Venâncio e Gildo. E já agora, se respeitosamente mo permite, um beijo à Susana.

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