Rogeiros, Tavares, Sousas e demais espécimenes da fauna especialista em opiniões de especialista: tchau!
Arquivo mensal: Agosto 2007
Por favor, leia-me
A crise dos jornais pagos é assunto encantador. Ninguém, no Mundo, tem uma solução que dê provas de ser capaz de estancar a sangria e todos antecipam a catástrofe; pelo que é com gosto que se constata uma iniciativa portuguesa inteligente, esta.
Agora, como responderão o Expresso e o Sol? Talvez se ofereçam para nos entregar o jornal em casa e ainda nos levem o pequeno-almoço.
Poema das sete viúvas de Moura

Na rua das sete viúvas
Travessa do Fala Só
À noite tiram as luvas
E vão jogar dominó
Depois de lavar a loiça
Fica um pano a tapar
Um barulho que se oiça
O encontro é o lugar
Das sete viúvas na rua
Sete viúvas no espaço
A luz é dada pela Lua
O encontro é o abraço
Na rua de sombras tortas
À noite pára o trabalho
Depois fecham as portas
E dividem um baralho
São sete falta um parceiro
Para formar duas mesas
Ninguém joga a dinheiro
Nem espera por surpresas
Na rua de sombras tortas
Por causa da geometria
As memórias quase mortas
Procuram a luz do dia
Rua das sete mulheres
Onde me deixo ficar
Num arquivo de saberes
Na vertical do lugar
Rua dos sete sentidos
Em busca da direcção
Tantos amores perdidos
No espaço do coração
Rua das sete virtudes
Dentro de cada casa
Água fria em almudes
Calor de fogo na brasa
Rua das sete canções
Cantadas muito baixinho
Por quem faz dos serões
Maneira de ser vizinho
Rua das sete senhoras
Nesta rua de um só lado
O relógio não tem horas
Todo o tempo é passado
Rua dos sete caminhos
Onde nasce uma moral
Todos dormimos sozinhos
Mesmo em cama de casal
José do Carmo Francisco
Não se lembraram a tempo
Um gangue de jornalistas
O Público brinda-nos com uma extensão vocabular que primeiro se entranha, e depois se estranha: gangue. Porquê? Que aconteceu a quadrilha, a bando, a súcia, a corja, a grupo, a malta? Para onde foram os gatunos, os patifes, os malandros, os biltres e os vadios de Portugal? Malta que assaltava carrinhas de valores vai ser julgada em Gaia — não será mil vezes preferível à opção espúria do original? Este, que de original tem o mau gosto, veio da LUSA.
E assim temos como um gangue de jornalistas se juntou para roubar a Língua. Com esta diferença face aos malandros de Gaia: sabem-se impunes.
Perplexidades de deus
Tinha jurado a mim mesmo que o não iria maçar com a tal opiniãozinha. Por uma questão de pudor. Mas quando larguei a obra, entrou-me na cidadela uma suspeita, por alguma porta da traição.
Deixou-me num desalento. Com a compostura da forma, com a pertinência do tema, com a estrutura bizarra, com o hibridismo do género, com o título duvidoso. Senti-me um aprendiz de feiticeiro. De modo que agarrei no manuscrito e fui meter-lho na mão.
Para meu conforto só restava uma certeza. A de que ao sétimo dia Deus não dormira a sesta, como dizem. Antes se foi à fala com o diabo, a ver se estava em ordem o correr dos rios, a fúria das ventanias. A ver se batiam certas as dunas e as marés, a tirar alguma pinga do telhado. E a perguntar que nome dar àquilo.Jorge Carvalheira
Soap opera
Com estes três juntos, Nessun Dorma
pueril
As copas dos choupos estacaram a escutar o fim do dia. Acima do rubor no horizonte ha’ nuvens. Duas vogam em sentidos opostos, misterios do vento, viração. Uma e’ compacta, robusta. A outra fragil, longilinea. Ambas de chumbo e de cobre.
Mudam, torcem-se, no caminho. O encontro na retina de quem olha. Entram uma na outra, desfazem-se. Transformam-se e prosseguem, desdobradas, para nascente. Decompostas, seguem as rosas na frente, arrastando o peso plumbeo sem esforço. Vão leves.
susana
A humilhação
All’alba vincerò!
Il principe ignoto
Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o Principessa,
nella tua fredda stanza
guardi le stelle
che tremano d’amore e di speranza…
Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò,
quando la luce splenderà!
Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
che ti fa mia.
Voci di donne
Il nome suo nessun saprà…
E noi dovrem, ahimè, morir, morir!
Il principe ignoto
Dilegua, o notte! Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle! All’alba vincerò!
Vincerò! Vincerò!
Puccini, Turandot, Nessun Dorma, Plácido Domingo e as manhãs vitoriosas. Para ir acordando ao longo do dia, e dos dias.
Benesse dos deuses
Posto de conversa com Jorge Carvalheira, descobriu Daniel de Sá, num recuncho da sua manjedoira, este manuscrito. Não sendo todos os nossos leitores destros furões (mas alguns são-no), puxámos o valioso texto para aqui. Eis:
SenhorHesta verdade he puvriqua e bem sabida que asy como a sargento que sube de segundo a prymeiro loguo lhe outhorga Deos que elle aja intelligencia de prymeiro, asy a nosos ministros da noso Senhor intendimento de ministro, pollo quall cada acto de mandar podeloham fazer muim bem feito; e mais he sabido que o Regno do Allgarve era asy dito, como se lee em o titolo de nosso glorioso rey – Dom Manuell, per graça de Deos Rey de Portugall e dos Allgarves daquem e dalem maar em Africa senhor de Guinee e da conquista e navegaçam, commercio de Ethiopia, Arabia, Persya e da India; pollo que se vee que o ministro Manuell Pinho tem muyta rezam em mandar que o Algarve seja Allgarve, mas quamto a querer tambem mandar o Regno pera ese tempo em tall nam quero cuidar, e esto contra todallas e quaesquer openiõoes que o governo do doutor Santanna Lopes nam ouve tempo de fazer sandices senão de dizelas, e este governo já vae avendo tempo de dizelas e de fazelas.
Moda campaniça
Nas terras do Alentejo
É tudo tão asseado
As casa e os corações
Sempre tudo anda lavado
Popular – Baixo Alentejo
Nesta tarde de nevoeiro
Onde o olhar se espreguiça
Vem do lado do Barreiro
O som de uma campaniça
Vem do lado do Barreiro
Passa por cima do Tejo
Mas o som chega inteiro
Como no Baixo Alentejo
Oiço o coro já se arrasta
No fundo da minha rua
Mas o coro não me basta
Quero ouvir a voz que é tua
Eu faço de cada poema
As cordas de uma viola
E escondo-me no cinema
Sempre que falto à escola
Julgo ver o teu olhar
Na linha do horizonte
Silhueta a atravessar
A estrada para o monte
São casa, são corações
Onde quero ser habitante
Procuro nestas canções
Chegar ainda mais adiante
Quero ouvir-te em directo
Sem recurso ao diferido
Quero um poema concreto
O título está estabelecido
O título está no teu nome
Os versos são os teus dedos
Os meus olhos têm fome
Do doce dos teus segredos
José do Carmo Francisco
Simon Le Bon
Porque o futebol e’ uma cultura de massas (ganha-se muita), Moutinho nao vai do estadio para a sucata. Nada se perde e tudo se transforma: sera’ desmontado e vendido ‘a peça.
Isto nao contextualiza o titulo, bem sei. Precisava, contudo, de assinalar a bondade do rapaz. E’ optimo – sobretudo de costas.
susana
O ironista

Detenhamo-nos um instante nessa quinta-feira, 2 de Junho de 1994. São nove e meia da manhã. Eduardo Prado Coelho barra concentrado o seu croissant, de olhos distraídos no Libê, quando se apercebe do ronronar do fax. Aquilo acontece mais vezes, editores e outros amigos não o deixam meia hora ínscio da imprensa nacional.
Eduardo aguarda pois, e só consumido o folhado se dirige, em passo rotineiro, para a fonte dos escândalos. «Isto é comigo», pensa sempre. Ali, era. Eduardo enterra-se no sofá e percorre o texto. Cresce nele uma doce hilaridade, qualquer coisa lhe diz: «Agora caladinho, porque só os tontos que me detestam se hão-de divertir com isto, e eu sou aqui o último a rir, depois de ter sido o primeiro.» Ora, por incrível que pareça, Eduardo desprezou este momento de graça.
Foi publicado no JL em 1995
e republicado em Maquinações e bons sentimentos em 2002
Leia, abaixo, «O ironista» completo
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EPC na Blogosfera
Epifania
A frase primitiva é benesse dos deuses, há-de ser verdade, se o disse um francês. Aparece à hora mais acidental, e fica a iluminar o que obscuro andava, a ruminar saída na treva original. Umas vezes é primeira. Porém outras a última será, mas sempre definitiva e terminal.
Depois é dar as outras ao papel, que saem em torrente, antes que um vento as leve. É roçá-las nos lábios, devagar, para arredondar arestas. É impor uma cadência, sondar uma harmonia, tentear-lhes o ritmo, forçar um andamento. A língua do leitor há-de lambê-las com volúpia, e essa não é contorcionista, nem gosta de fazer saltos mortais.
Dizem que tudo parte dum bafejo dos deuses, e eu não sei como se avêm os ateus. Mas já me fui deixando de ateísmos.
Jorge Carvalheira
Adeus, Eduardo

Ontem li, no Público, a crónica dele. Tinha graça, mas já não a força de antanho. Vi-o em Maio, na Fnac do Chiado. Ao despedir-me, abracei-o. Era a primeira vez na vida, eu sentia que era também a última.
Neste lugar, que é um bocadinho meu, fica a recordação do homem que disse de mim coisas que não lembram ao diabo, mas acrescentando que, se o V. agora entrasse por aquela porta, teria o maior prazer em recebê-lo.
Agora foi ele quem entrou por essa porta, mais que todas, tremenda. Que ela o conduza ao mais tranquilo e verde dos espaços.
