A cidade sem monumentos

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Sempre dormi descansado sabendo não estar o meu sono rodeado de monumentos. Sim, porque os monumentos são um peso. Não estou a referir-me a esse peso, leitor, mas também não o subestimo, descanse.

Sempre tinha ouvido dizer que Amsterdão era ‘uma cidade sem monumentos’. Acreditei e assenti. Com efeito, chega-se a Bruxelas e sente-se um gajo pequeno. Chega-se a Paris e sente-se esmagado. A Londres e olha-se à volta onde-é-que-eu-fiquei. E mesmo Lisboa… Bom.

Pois acabou-se a tranquilidade. Li ontem no friso publicitário dum eléctrico que a minha cidade conta 7650 monumentos. Levou algum tempo a perceber o que lia, depois procurei algures uma vírgula (as décimas ou centésimas seriam o mais criativo), mas não. Eu tinha visto bem.

Amanhã volto ao centro, onde trabalho (alguém falou em férias?), e vou procurar. Sou capaz de dar por lá com algum monumento, escondido nesse espaço urbano que, até hoje, eu sempre pensara construído «à escala humana». Vou-me sentir pequeno, isso é de prever. Se de mim sobrar alguma coisa pensante, direi o que se conseguir. Se não, já sabem.

Paraísos perdidos

ao José Rentes de Carvalho

Nesta casa já se dançou a pavana, num tempo em que as damas da família sabiam dissimular o queixo delicado atrás de leques andaluzes, à sombra frondosa das nogueiras. Havia um piano vertical na sala das visitas. E entre a leitura dos folhetins recortados d’O Século, e a bruma evanescente de paisagens campestres a amanhecer no cavalete das aguarelas, por certo alguém, à tarde, punha a rodar na vitrola de corda uma ária do Caruso, uns acordes de zarzuela, enquanto duas donzelas ensaiavam coreografias de salão, entre javas e habaneras. Cheirava a terra a chuva de Setembro e os galos cantavam no ar de vidro de Janeiro, assim terá sido há muitos anos, antes de o mundo dar sinais de começar a morrer.
Quem primeiro morreu foi o patriarca que construiu a casa, ou a mandou fazer assim tão regular e adequada. Havia nela um tão exacto casamento entre função e forma, que por trás se lhe adivinha grande paixão e muita sabedoria. Depois foram as damas que partiram, e consigo levaram o piano, o Caruso e os anelos adocicados, para terras menos agrestes e remotas do que estes fins do mundo.

Jorge Carvalheira

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Fernando Venâncio no «Retrato de Portugal»

Ainda não foi publicado mas eu tive acesso antecipado ao livro Retrato de Portugal. Com o subtítulo de «Factos e Documentos», editado pelo Círculo de Leitores e coordenado por António Reis, este volume de 350 páginas será editado em português e em inglês, sendo apoiado pelo Instituto Camões e pela Presidência (portuguesa) do Conselho da União Europeia.

Os capítulos são: O Estado, a sociedade, o território, a língua portuguesa, a comunicação social, a sociedade do conhecimento e da informação, o desporto, o ambiente, a economia, a educação, o património cultural, a literatura, a arquitectura, as artes visuais, as artes do espectáculo, o cinema, o design e a moda. Basta uma rápida olhadela pelos nomes dos colaboradores e colaboradoras (uma delas é a inefável Maria de Lurdes Rodrigues) para se perceber que é o olhar totalmente «pê yes» que formula este retrato de Portugal.

Mas a mim em particular interessou-me o capítulo respeitante à Literatura, assinado por Fernando Pinto do Amaral. Lá aparece Fernando Venâncio «encaixotado» entre Catarina Fonseca e Miguel Esteves Cardoso. A primeira tem uma «fértil imaginação romanesca» e o seguindo tem um «humor corrosivo». Quanto a Fernando Venâncio cabe-lhe o espaço catalogador de «inspiração subtilmente queirosiana». Motivo de orgulho para o «aspirinab» penso eu. Por isso aqui divulgo esta notícia. Porque as notícias não devem ficar fechadas nas gavetas das secretárias. E se os blogs são os descendentes das tertúlias aqui fica matéria para animada conversa de tertúlia.

José do Carmo Francisco

Paulo Bragança

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Chamar-lhe pura é pecar mas por defeito
A tua voz é (ela mesma) a nossa origem
Há um país, uma nação dentro do peito
Estar a ouvir é estar à beira da vertigem

Há uma luz que se prolonga na extensão
Há uma viagem a fazer dentro da voz
Ouvir-te é ser o destino de uma oração
A ligar de novo quem se julgava a sós

Chamar-lhe pura é pecar mas por defeito
A tua voz é a que sabe juntar água e terra
Cantas e és o rio que fugiu já do seu leito
À procura de novos campos para a guerra

Quando tu cantas não há águas paradas
Na terra fértil da humidade, teu terreno
E há uma guerra, batalhas, emboscadas
Lá onde chega a tua voz e o teu veneno

José do Carmo Francisco

A piscina da Soledade — recensão acrítica

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Foto enviada por anónimo perfeitamente identificado como tal, a propósito de 27ª Convenção dos Pseudónimos, Heterónimos e Homónimos de Portugal, reunião que teve lugar numa piscina de paradeiro incerto, algures no Algarve.

Já com o cognome de Swimmer’s Digest, dado por quem o sabe dar, o novíssimo blogue de Soledade Martinho Costa, minha prima, está fadado para os mergulhos de cabeça. Ou não tivesse a autora, efusiva e repetidamente, reclamado a posse de uma piscina grande, relvada, com árvores, com flores. É precisamente nessa piscina que costuma alinhavar linhas. Porquê? Porque não gosta de escrever directamente no computador. Assim, opta pela piscina, logicamente. Se tem vontade de escrever, vai até à piscina. Isto é lógico, repito. Ademais, é a sua imperial piscina um local muito calmo e aprazível, ambiente ideal para escrever indirectamente no computador. Dúvidas ou duvidas? Continuemos, então.

SARRABAL é o distinto vocábulo elegido no baptismo. Nome bonito para um blogue, informa-nos a autora. E aqui convém ilustrar os ignaros, os néscios, os decadentes, lembrando que são poucas as pessoas do Mundo que sabem serem poucas as pessoas no Mundo a dominar o significado destas 8 letras. Empáfia, dirão alguns, confrontados de supetão com estética de antanho. Por mim, apenas quero deixar um louvor a tão sofisticada e classissante tradução de blog. Mas mais: anoto o acerto lexical. Aos leitores da terceira entrada, de título AGOSTO, é servido um poema de fino e aromático recorte bucólico, logo seguido daquilo que, na falta de rigorosa definição, terá de ser chamado de sarrabulho. Isto é não só familiaridade e coerência fonética, é também estilo, donaire.

Das plurais e dilacerantes questões que o sarrabulho do Sarrabal picha nas laterais deste Agosto, ressalta uma CARTA ABERTA dirigida ao meu primo, a qual me convoca e interpela. É um texto notável, herdeiro singular do espírito bulhento de Maria Amália Vaz de Carvalho, e que ainda alcança o feito de estar pejadinho de verdades, do princípio ao fim. Todavia, desairosamente passo por cima do seu valor artístico e sociológico para me concentrar numa confissão que, se o Jorge Carvalheira autorizar, rotularei de pungente. É que a autora esclarece aparecerem algumas palavras no texto que nunca antes tinham sido usadas por si; e esta nota só ganha a sua verdadeira dimensão, o seu profundo sentido, o seu altíssimo valor, se contemplarmos essa longa, abarrotada de sucessos, carreira literária de todos sobejamente conhecida e por todos desvairadamente admirada. No parágrafo em causa, irrompem a negrito, sobre o lívido fundo da página electrónica, os vocábulos fumegam e cagalhão. Esta destrinça gráfica admite a tese de serem esses os termos virginais. E vem daí a minha perplexidade, a qual vou expressar sob a forma de repto: ó Soledade, quanto a fumegam, estamos de acordo: é agregado de caracteres que nenhum autor, se for sério, deverá sequer simular escrever no teclado de um telemóvel sem bateria — mas, Soledade, porque raio esperaste até agora para revelar o cagalhão da tua escrita?!…

Novela do estudo científico das línguas reais – I

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O estudo científico da linguagem humana verbal começou tarde e a más horas: apenas no século XIX com a Linguística Histórico-Comparativa. Até lá, como é óbvio, não se pode afirmar que a malta toda andou a apalermar (muito pelo contrário), só que, até aos histórico-comparativistas alemães, uma série de características enfermaram o estudo da linguagem humana verbal e o afastaram da cientificidade. Estas características foram, sobretudo, o pragmatismo (ver a descrição utilitária do sânscrito feita por Panini), a preocupação filológica (cheirar os estudos de Eratóstenes e de outros autores da Escola de Alexandria sobre os textos homéricos), a normatividade (audível, de forma geral, em todos os textos dos gramáticos até ao séc. XIX) e a subordinação à Filosofia da Linguagem (sobretudo no travo prolongado da questão do Crátilo de Platão sobre a origem convencional ou natural da linguagem, cujo paladar se prolongou de forma áurea até Santo Agostinho e São Tomás de Aquino). Como é óbvio (não é nada óbvio, eu é que gosto de me armar), não está aqui em causa os importantes contributos de todos estes autores no estudo da linguagem humana verbal, mas o facto de nenhum deles a terem promovido a objecto formal do seu estudo. A linguagem surge em todos eles com uma espécie de medium, cujo estudo era sempre motivado por questões extra-linguísticas.

Após os séculos XV e XVI, época em que se acentuou o contacto com novas civilizações e linguagens, começou-se a esboçar uma teoria monogénica da linguagem de cariz bíblica, em que se elevava de forma babélica o Hebreu a língua adâmica ou edénica. É apenas nos séculos XVII e XVIII que surgem os primeiros autores que me interessam (logo, que deverão interessar a toda a gente) para um estudo científico da linguagem humana verbal. Os dois primeiros são Antoine Arnauld e Claude Lancelot, autores da Gramática de Port-Royal, cujas páginas desenvolve a noção inovadora de universais linguísticos: se a linguagem é estruturada segundo a razão humana, é natural que se possa definir uma Gramática Universal comum a todas as línguas (o Chomsky viria, séculos mais tarde, a chamar um figo a essa inovação). O terceiro autor é Leibniz, que foi o primeiro a pôr em causa a teoria monogénica de que o Hebreu seria a língua-mãe de todas as línguas, argumentando com a impossibilidade dessa língua camito-semita ter dado origem a línguas com estruturas tão díspares. O rapaz era uma montanha de virtudes.

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Concurso

Depois da Ministra da Educação ter ido ao Parlamento prestar contas do Caso Charrua, onde despachou sem pestanejar a freguesia, e do arquivamento do Caso Sócrates pela Procuradoria, a oposição está num agudo estado de privação. Falta-lhe pretextos, meros contextos, para conseguir botar discurso, para continuar a brincar aos políticos e mandriões. O desespero já não se consegue esconder.

Aqui fica a sugestão: um concurso televisivo para se encontrar a estratégia de oposição mais imbecil. O júri seria constituído pelos actuais dirigentes da oposição com assento parlamentar. Bastaria que avaliassem as propostas com os mesmos critérios com que tomam decisões nas sedes partidárias. Seria o mais justo e objectivo júri alguma vez reunido.