Biliões

Acabo de ouvir António Guterres a denunciar a economia mundial por mandar para o desemprego biliões de pessoas. Foi na RTP Memória, datado de 1996, mas não perdeu nenhuma das biliões de razões para ser considerada uma questão actual.

27 thoughts on “Biliões”

  1. EU FALO DAS CASAS E DOS HOMENS

    Eu falo das casas e dos homens,
    dos vivos e dos mortos:
    do que passa e não volta nunca mais…
    Não me venham dizer que estava materialmente
    previsto,
    ah, não me venham com teorias!
    Eu vejo a desolação e a fome,
    as angústias sem nome,
    os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
    das vítimas.

    E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
    uma insignificante parcela da tragédia.
    Eu, se visse, não acreditava.
    Se visse, dava em louco ou profeta,
    dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
    – mas não acreditava!

    Olho os homens, as casas e os bichos.
    Olho num pasmo sem limites,
    e fico sem palavras,
    na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
    esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
    esta lama de sangue e alma,
    de coisa a ser,
    e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
    se o ódio sequer servirá para alguma coisa…

    Deixai-me chorar – e chorai!
    As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
    de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição
    e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
    por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
    por um segundo seremos os mortos e os torturados,
    os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
    seremos a terra podre de tanto cadáver,
    seremos o sangue das árvores,
    o ventre doloroso das casas saqueadas,
    – sim, por um momento seremos a dor de tudo isto…

    Eu não sei porque me caem as lágrimas,
    porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
    eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
    eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
    eu que estou na minha casa sossegada,
    eu que não tenho guerra à porta,
    – eu porque tremo e soluço?
    Quem chora em mim, dizei – quem chora em nós?

    Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
    as ruas são ruas com gente e automóveis,
    não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
    e a miséria é a mesma miséria que já havia…
    E se tudo é igual aos dias antigos,
    apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
    eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
    sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
    sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
    uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada…

    Adolfo Casais Monteiro

  2. À parte o exagero dos números, em que Guterres de vez em quando tropeça (calcula-se que, desde o primeiro Cro-Magnon, só terão existido uns setenta mil milhões de pessoas), a verdade é terrível. Bastava uma só criança ou um só adulto, mas são milhões, milhares de milhões. E este Adolfo, o oposto do outro mais famoso, disse tudo muito bem. Dramaticamente bem.
    Meu Caro Valupi, obrigado por teres gostado de “conhecer” o meu Pai. Também aprendi com ele que amar a Pátria não tem nada que ver com a veneração dos seus chefes, quando não merecem. Era o caso dos que havia naquele tempo.
    Como gosto de contar histórias, vai uma breve. E verdadeira. Nas “eleições” de 1958 havia uma jovem notária em Vila do Porto. Uma mulher admirável, a Conceição Bettencourt, de quem eu depois viria a ser colega de bancada na Assembleia Regional dos Açores. Finda a “contagem” dos votos, foi anunciado que o Delgado recebera zero. Ela protestou, dizendo que pelo menos um havia, que era o seu. Feita a “recontagem”, e para evitar outros protestos, foram “cedidos” quatro votos ao general. Ela foi suspensa do cargo, só voltando a exercer um ano e meio depois, e por empenho do padrinho que, ironia das ironias, era amigo do Salazar. Mas puseram-na desterrada na Povoação, que fica mesmo em frente a Santa Maria, que de lá se avista com frequência.

  3. Caro Daniel, mais dez. 80 mil milhões, é o número que li a um antropólogo, e, obediente, passei a repetir faz tempo. Mas sem autoridade, pois que ainda não os contei a todos, vou muito no começo. Concedo que o meu antropólogo peque por gula probabilística, porém.

    Quem agradece sou eu. Conhecer o pai é uma honra. O mesmo para a Conceição valente. Como é belo querer a justiça.

  4. Que engraçado, anda tente gente dos Açores neste blog, eu tenho a modos que paixão pelas ilhas.

    Se calhar anda aí equívoco entre biliões europeus e americanos, não? Dantes um bilião europeu era um milhão de milhão ou seja 10^12, enquanto um bilião americano é um milhar de milhão, portanto 10^9.

    Nós agora caminhamos para 7 biliões 10^9 de pessoas na Terra, creio, portanto ytudo junto já houve biliões de pessoas desempregadas, no último século e o Guterres (um bom homem) não errou.

    ———

    Valupi, eu estou a morder-me para discutir economia mas é porque tenho uma pulga na cauda, e ainda não consegui rilhá-la de jeito, que a danadinha escapa-se.

    Então se a porra do BCE injecta mais do PIB português nos bancos nuns poucos de dias, e o euro deprecia pouco face ao dólar, venham-me lá dizer que esse mesmo BCE não pode constituir desde já um bolo para pensões de reforma e outras…

    PS: eu não sou economista mas não me calo, recuso-me a aceitar que a economia seja dos economistas, esse dispositivo manipulatório que nos quiseram fazer engolir – a economia são ‘as regras de condução da casa’ e dizem-nos respeito a todos

  5. Caro Valupi, ponhamos isso a meias. Fiquemo-nos pelos 75 000 milhões. Não dizem que no meio é que está a virtude? Terias gostado da Conceição Bettencourt, tenho a certeza. Agora está muito velha já, coitada.
    Obrigado a Z por gostar destas ilhas. Não tenho mérito nenhum quanto à beleza delas e outras virtudes, mas agradeço na mesma. A respeito do Guterres, se falou em Inglês disse bem; a culpa terá sido de quem traduziu.

  6. O nosso estimado e detestado Guterres falou em portinglês. E a minha chamada de atenção é paralela à vocação da RTP Memória: observar o passado para melhor recordar o futuro.

    Que importância tem um notável representante da elite política portuguesa não ter escrúpulos em ceder à norma americana no que parece um pormenor lexical despiciendo? Tem a importância que o escol nacional lhe der.

    Elite e escol, a luta continua – e não é, de todo, a mesma.

  7. Valupi, aprendo sempre contigo pá, tenho de ir ver a distinção entre elite e escol…

    Daniel, agradeçamo-nos todos poder usufruir a beleza das ilhas, a simpatia das gentes, a delícia dos sotaques, a limpeza e o carinho pelos sítios, jardins e casas, as brincadeiras dos golfinhos, o bailado das baleias, e um toque sulfuroso que dá um tempero gostoso :-)

  8. Z, em relação à tua questão do BCE, estarás a defender a tese do financiamento dos Estados por essa instituição? É que seria não só impossível, como absurdo.

    A essência do dinheiro é a circulação, a troca. É nisso que ele se constitui como riqueza. Se os Estados não geram riqueza, quem os financiar a fundo perdido acaba perdido no fundo.

  9. Para Z, no caso de ainda aparecer por aqui a bisbilhotar nesta caixa, deixo o primeiro parágrafo de um livro que escrevi sobre os Açores. Ficará assim a saber o que penso das nossas ilhas “Afortunadas”.
    “A ideia que temos de um paraíso na Terra é quase sempre uma ilha. Mesmo quem vive em alguma sonha-o sempre em outra, muito longe. E nos Açores há nove, porque, como muitas outras, estas ilhas são as mais belas do Mundo.”

  10. Pois Valupi, essa é a tese tradicional que tem vigorado e sustentado este estado de coisas, reportando-se à afirmação do Guterres, entre outras coisas.

    Tem que ser assim? Eu recuso determinismos absolutos em coisas que têm a ver com o que é combinado entre os homens, como é o caso dos contratos fiduciários que subtendem a economia.

    Qual é a diferença substantiva entre o BCE financiar bancos, como foi o caso agora, ou financiar Estados?

    A diferença parece que é que os bancos vão redistribuir esse dinheiro cobrando juro e endividando ainda mais as pessoas e aumentando os seus lucros como é previsível.

    isso considera-se aceitável, pelos vistos, financiar Estados ai Jesus que dá para o torto…

    Como saberás também, desde Nixon, em 1973, creio, que o dólar deixou de estar indexado ao ouro, e ficou petro-dólar, e daí também as guerras no Médio Oriente. Operou-se aí uma mudança qualitativa, dir-se-ia, o referente do valor deixou de ser uma variável de estado (stock) para passar a ser uma variável de fluxo.

    Desde que o excedente de dinheiro gerado seja absorvido paulatinamente pelo sistema não parece gerar transições catastróficas inflaccionistas.

    Quanto à riqueza dos Estados, como também sabes, isso é medido pelo PIB, com todos os efeitos perversos que comporta, como por exemplo a quantidade de ‘riqueza’ gerada pelos incêndios florestais nas categorias facturáveis pelo PIB, enquanto não são contabilizadas perdas em biodiversidade, habitats, paisagens, solos, etc.
    (felizmente a economia do Carbono veio reposicionar o problema por agora).

    Conclusão: não sou economista e prefiro dizer absurdidades a calar-me, embora prometa ouvir.

    O BCE ‘tinha’ esse dinheiro que injectou nos bancos nos últimos dias? Eu acho que isso já não existe, o dinheiro hoje é digital, o BCE emitiu digitalmente esse gigantesco montante e afinal não se deu por nada…

  11. P. S. para Z
    Reparo que o Valupi não respondeu à tua pergunta acerca de elite e escol. Muito simples. “Elite” é portingálico, “escol” é português de Vieira. (Se serve a informação, “escol”, se for vinho, é o melhor, o “escol(hido)”. Topaste a origem?

  12. obrigado Daniel, eu já tinha percebido que ‘elite’ vinha de eleito e que ‘escol’ vinha de escolhido, agora acho que ainda anda aí uma distinção semântica mais profunda que me escapa,…, por causa da dimensão agonística que o Valupi invoca.

    Ainda para ti Daniel, este ano fui lá para aí pela 7ª vez, desta feita com o meu irmão, já não fazíamos férias desde putos e ainda rosnámos um bocado mas vá lá, correu bem. Ontem mandava-me ele um sms a dizer que estava a jantar sobre o Tejo mas não se comparava com *, o * era a ilha onde estávamos mas eu não digo qual porque não quero fazer ciúmes aos de outras e eu nem conheço todas. Isto dos amores profundos vá lá que não se esgota

  13. Ó Z, se esse “o” é artigo para Pico, diz à vontade. É uma ilha espantosa. A que mais me fascina, por causa da montanha. E isto apesar de eu ser micaelense e mariense. (Nasci em S. Miguel e vivi em Santa Maria dos dois aos quinze anos.) Por oposição, o meu pedaço preferido de Portugal (ilhas incluídas) é o Alentejo. O que não tem nada que ver com bajulação ao Fernando.

  14. meu Mao, deskulpa não te ter cumprimentado, estamos sempre encontrados, tu pões poemas e eu boto teoremas e ficamos rimados

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    Daniel: look for a rainbow

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    Valupi, a tua metáfora do ‘fundo perdido->bater no fundo’ é muito potente, lá fui eu montanhas-russas…

    Mas portanto estás a dizer-me que a economia não comporta o Dom, o que é dado desbaratina aquilo tudo, tem que ficar preso pelo laço fiduciário do juro, para não se perder a conta. Será?

    Mas será que no novo milénio não conseguimos sair disto?

    Não pretendo ter a chave mágica, mas podemos sempre recordar-nos quando o Wilde sugeria ao marquês-não-sei-das-quantas que era tudo uma questão de imaginação

  15. Daniel, agradeço o esclarecimento etimológico relativo a elite/escol. E, z, tens razão: faço uma provocação de cariz patriótico ao distinguir espiritual e sociologicamente os dois termos. “Elite” é palavra escolhida por arrivistas, “escol” por portugueses de boa cepa.
    __

    z, tens graça na ingenuidade com que falas de economia. Digo-o sem pingo de cinismo. Recordo-me do que defendia o Agostinho da Silva, na sua aparente simplicidade: que o dever do economista era o de fazer com que a vida fosse cada vez mais barata.

    E, aqui entre nós, qual seria o economista, e o político, que desperdiçaria essa oportunidade de ganhar o favor do povo e ficar na História? Só que (se calhar…) a questão não obedece ao voluntarismo dos que apenas estão preocupados com o que não têm.

    Para mim, a ignorância relativa ao sistema capitalista é muito mais grave e prejudicial do que os malefícios do próprio sistema. Até porque – e enquanto não se desenvolver a tecnologia que permita energia inesgotável a custo zero – não há outro.

  16. valupi, nessa mesma ingenuidade, lembro-me de ha muitos anos perguntar ao meu pai porque nao emprestavam os bancos dinheiro aos pobres, recebendo a explicacao dos juros, dos lucros, da garantia bancaria e das hipotecas.

    mas esse homem existe, afinal, economista, precisamente. fundou o banco grameen e se ficou na historia!
    desde que tive conhecimento (soube no inicio dos anos 90, ja a experiencia durava ha anos) deste sistema de ajuda ao desenvolvimento na pobreza do bangladesh, que aposta na gestao das mulheres e tem sido um sucesso com lucro e tudo, tenho mais esperanca.

  17. “z, tens graça na ingenuidade com que falas de economia. Digo-o sem pingo de cinismo. Recordo-me do que defendia o Agostinho da Silva, na sua aparente simplicidade: que o dever do economista era o de fazer com que a vida fosse cada vez mais barata.”
    Valupi, és muito simpático ao recordar o Agostinho da Silva. Cá para mim subscrevo o dito do mestre, substituía era ‘barata’ por ‘livre e feliz’. Também esclareço: falo de economia de uma maneira que outros poderiam classificar de infantil, por duas ordens de razões:
    – porque quero contribuir para que qualquer cidadão comum possa falar de economia sem complexos nem medos; afinal diz-nos respeito a todos e o mais das vezes calamo-nos com receio que nos chamem burros; ora, eu gosto muito de asininos e do Benjamim do Animal Farm
    – porque quero perceber eu próprio melhor os contornos da coisa, e apetece-me discuti-la com outros cujas opiniões prezo; além disso estamos na presidência portuguesa e acho que temos responsabilidades políticas e morais de inovar no assunto, na perspectiva do bem comum
    “Para mim, a ignorância relativa ao sistema capitalista é muito mais grave e prejudicial do que os malefícios do próprio sistema. Até porque – e enquanto não se desenvolver a tecnologia que permita energia inesgotável a custo zero – não há outro.”
    Gostaria muito que pudesses desenvolver o alcance da primeira afirmação.
    Vejamos: não me revejo em nenhum dos socialismos reais que andam ou andaram por aí, a normalização e a limitação das liberdades poem-me doente. Não me importo de me reclamar inspirado por um socialismo utópico, porque o que não tem lugar não se perde. No entanto a discussão que proponho trava-se dentro do sistema.
    Conheço a definição tradicional de economia: ‘a ciência que estuda e decide a afectação de recursos escassos a actividades alternativas’, alguns acrescentam na esteira da perspectiva marginalista ‘maximizando uma função de utilidade’.
    Se nos colocarmos na órbita do discurso político, o económico e o jurídico são matéria instrumental.
    Em termos políticos forçar a idade da reforma aos 65 anos é contribuir para instituir uma gerontocracia, à custa do desemprego dos jovens e todas as formas de precarização que constituem uma nova forma de escravatura. Nesta perspectiva as chefias da administração pública vão estar na mão de gente idosa, cansada, se calhar com histórias pesadas de corrupção activa e passiva. Não quero pôr os ‘velhos’ no caixote, mas só lá deve ficar a trabalhar quem se sentir motivado e capaz de acompanhar a inovação.
    Deixava-te duas perguntas se quiseres responder:
    – achas que o dinheiro injectado pelo BCE nos bancos já préexistia ou foi inventado na hora?
    – Achas que se o BCE anunciasse amanhã que tinha decidido instituir um fundo para apoiar o pagamento de pensões de reforma aos Estados-membros a partir de 2010 descarrilava e economia?

    Nota: dirijo estas perguntas ao Valupi, bem como o comentário, mas é por efeitos de diálogo, de facto estão abertas para todos que queiram

    e outras

  18. susana, foste buscar um belíssimo exemplo do que é o conhecimento ao serviço do bem. Yunus usou a sua imaginação teórica para levar a cabo uma experiência que se revelou viável e relevante. Para lá chegar, o nosso herói teve de conhecer muito bem o que era o capitalismo.
    __

    z, na resposta à susana já antecipo parte da resposta para ti. Só conhecendo o sistema capitalista, as suas estruturas e relações económicas, é possível fazer uma de duas coisas: gerar riqueza ou alterar o sistema.

    Quando não se conhece o objecto e a realidade que se recusa, abjura ou demoniza, nem se está a ter uma crítica que tenha um mínimo de credibilidade, nem se está a aproveitar os recursos que estão à disposição.

    Veja-se a tua pergunta (e anteriores afirmações) quanto à possibilidade do dinheiro vindo do BCE ter sido inventado na hora. O teu pressuposto é o de que o dinheiro se tornou numa completa abstracção, num sinal gráfico, num dígito num ecrã. Ora, se assim fosse, a pobreza ficaria reduzida a um acto de má-vontade do operador do sistema, o qual poderia a qualquer altura digitar os números que bem entendesse. A riqueza, nesta fantasia, seria infinita, e infinita para cada um.

    Por que razão estarás a delirar? Porque deixaste de relacionar números com bens e pessoas. Quando olhas para o que sustenta os números nos ecrãs, tu olhas para produtos manufacturados, para matérias-primas e para serviços. Isto, num primeiro olhar. E depois olhas para mercados, para índices monetários e para expectativas. Bom, e estou aqui a ser simplista para efeitos de brevidade de escrita e leitura.

    A ideia é óbvia: a economia e o dinheiro são dimensões dependentes do planeta, dos seus recursos e da sua população. A economia é a ciência que pondera todos estes factores e produz propostas teóricas para a instauração dos modelos de utilização dos recursos, naturais e humanos, que sejam os mais eficazes e eficientes perante as circunstâncias em causa.

    Assim, não faço ideia das consequências desse hipotético anúncio de um fundo para as reformas. Até admito que pudesse ser totalmente destituído de consequências negativas. É assunto que me ultrapassa na sua complexidade e contexto de decisão, escusado será dizer.

    O mesmo já não digo da tua afirmação relativa à idade da reforma, onde discordo dos efeitos (pessoas novas podem ser tão ou mais corruptas do que pessoas velhas), e das causas (relativas à demografia e à pirâmide dos pagantes do Estado, não havendo nascimentos suficientes para garantir o pagamento das despesas previstas a médio e longo prazo). Aliás, o que os estudos mostram é que as pessoas acima dos 50 e 60 anos são mais respeitadoras da ética e do espírito de equipa, levando a que possam (em dadas situações) ser mais produtivas do que os (seus mais) jovens. Tenderão a aliar a experiência profissional com a maturidade pessoal, criando os melhores ambientes de trabalho. Para além disso, com os avanços da medicina, a alteração de hábitos alimentares e a adopção de práticas profilácticas e regeneradoras, a chamada “terceira idade” confunde-se com a segunda nas suas capacidades, estilo de vida e vitalidade.

  19. Valupi, vejamos:

    Em primeiro lugar não me importo de delirar um pouco, de vez em quando, a isso nos obriga passar as fronteiras do imaginário.

    Mas procuro delirar sustentadamente.

    A história breve do dinheiro mostra que ele se foi desmaterializando sucessivamente, começou por ser sal ou conchas, houve uma altura já por volta do sec. XVI, creio, que foi bolbos de tulipa nas bandas da Holanda – tinha, em qualquer caso simultaneamente valor de uso directo e valor de troca. Ainda com o bronze os reis faziam ‘quebra de moeda’ quando era preciso fazer canhões e fundiam canhões em tempo de paz para fazer moeda.

    Quando passou a papel deixou de ter quase valor de uso, excepto para os excêntricos que acendiam charutos com notas ou parecido.

    Até 1973 o papel-dólar estava indexado às reservas de ouro depois disso desmaterializou-se num passo mais, deixou de ter como garantia um stock de referentes concretos. Desde que a procura fosse suficiente o dinheiro podia ser emitido e era absorvido no sorvedouro.

    Os mercados do petróleo e do armamento garantiam procura crescente da principal moeda de transacção: o dólar. Podia-se fazer mais e mais.

    Ou seja: deixou de vigorar uma lógica de balizar na ‘source’ (fonte) para passar a ser na ‘sink’ (sumidoiro).

    Com o dinheiro digital desmaterializou-se mais um passo e substancial. Agora são apenas dígitos certificados por outrem.

    É por isso que não me admirava nada que estivesse a ser produzido dinheiro à barda sem referente concreto. Concordo que a ausência total de indexação ‘não fica bem’ e portanto o mais provável é que a emissão seja sempre indexada a uma referência fiduciária, mais provavelmente títulos de futuro como sejam títulos de Carbono no ano x, ou assim. Alguma coisa tem que ficar escrita.

    E portanto passando ao limite desmaterializou-se completamente, ficou estritamente pendente da certificação por uma instituição credível pela força da sua potência negocial – banco ou Estado.

    Podes-me argumentar que o limita é lá, não é do lado de cá, excepto nas funções contínuas onde o limite (da função no ponto) coincide em valor com a imagem (do ponto).

    Creio que há condições de produzir dinheiro em barda, sustentadamente, fazendo-o chegar a quem necessita, atendendo às taxas de circulação de fluxos e à inércia do sistema.

    Claro que os Estados precisam de produzir bens e serviços, mas mesmo isso também se desmaterializa mais, por exemplo com a blogosfera.

    O que me preocupa é que na civilização consumista em que estamos, bastante mais dinheiro em circulação significaria simultaneamente um agravamento da pegada ecológica e isso traz consequências quiça nefastas.

    Teria que ser concertado com outras formas de conviviabilidade e consciência ecológica.

    Não diabolizo o capitalismo, mas insisto que deve ser social, sob pena de se entrar numa escalada de violência endémica nas sociedades, patente no terceiro mundo, e em risco de poder entrar na Europa civilizada não tarda nada, quando o conjunto de excluídos alcançar massa crítica suficiente.

    ——-

    Quanto à idade da reforma: por favor não confundas eu não quero obrigar ninguém a reformar-se antes dos 65, quero é permitir que possam fazê-lo antes, e assim contribuir para a entrada de gente jovem. Também aí se aplica um princípio de diversidade entre camadas etárias que me parece saudável.

    Lá vens no fim argumentar com a sustentação das contas da segurança social, etc., e daí a razão de ser disto tudo.

    É claro que o BCE não responde aos Estados por agora, e já agora responde a quem?

  20. z, concordo com muito do que dizes e partilho das tuas preocupações. É verdade que o dinheiro passou a ser um arbítrio cada vez mais abstracto. No entanto, continua numa relação directa com a realidade material, com a economia – e esta não é mais do que a soma de todas as formas e processos relativos à riqueza (no sentido de bens e custos do seu usufruto).

    Ao limite, o dinheiro é uma energia. Quem a condiciona, na origem, são os bancos, regulados pelos Estados. É uma realidade simbiótica e dinâmica, complexa. Mesmo quando se funda em expectativas dependentes de aleatórios imponderáveis.

    O BCE responde à economia, se tudo correr bem. A economia também é influenciada pela política, daí…

  21. Pois Valupi, imagino que tenhamos um conjunto de preocupações semelhantes, daí a conversa, ou nem valeria a pena, que se irá prolongando algures.

    Penso que com o euro a suportar-se nos 1,36 dólar há condições e conveniência em injectar basto dinheiro na economia europeia, incentivando formas de integração de excluídos, a bem da minimização da violência social. Como vês utilizo um enunciado bem ‘soft’…

    Hoje entrevistava-me uma realizadora de filmes e era ela que dizia: ‘perdemos o trabalho para a vida toda mas ganhámos dívidas para toda a vida’.

    Será uma maneira de prender as pessoas ao aparelho produtivo de bens e serviços e puxar por elas, dir-se-á.

    Com o esquema que tem vigorado injecta-se dinheiro no topo da pirâmide e vem onerado por aí abaixo, hipotecando o futuro de muita gente. Se essa gente às tantas não pagar dá flop e a única maneira de obviar é injectar dinheiro directamente na base da pirâmide por forma a que possa corresponder à demanda e restabelecer os fluxos fiduciários.

    Se a derrocada das bolsas não pára por certo que ainda rebenta breve uma ofensiva no MO.

    Mesmo descartando as soluções do socialismo não deixa de ser triste que entremos no novo milénio vinculados à dominância das práticas mais obscuras da humanidade.

    Tenho esperança que a blogosfera, tipo Fundação do Asimov, possa ser um esteio de luta contra o obscurantismo…

  22. Valupi, estava ali a pensar nas tuas palavras…

    O ‘dinheiro’ no limite ser uma forma de energia é muito boa referência. Confesso que não sei se é energia ou catalisador, mas na prática vai dar no mesmo, disponibiliza energia para quem dele necessita.

    Óbvio que não é para todos: a Christina Onassis, cheia de carcanhol até transbordar, resolveu sair desta vida pelo próprio pé porque tinha era falta de amor.Se calhar morreu de overdose de dinheiro. E muitas outr@s do topo da pirâmide.

    Sendo o dinheiro uma forma de energia ou equiparável, lá está em potência a tua forma de energia inesgotável e eventualmente gratuita: o dinheiro digital.

    Repara que o principal que sustenta a Vida é gratuito: a energia do Sol faz o clima e a fotossíntese das plantas verdes de onde vêm os açúcares e todos os derivados (álcoois, hidrocarbonetos, etc) e o oxigénio que respiramos.

    Esse oxigénio tem um valor infinito e está fora da economia porque não é escasso, felizmente.

  23. z, estás a levar a reflexão para o melhor terreno, o da ligação entre o dinheiro e o Sol. Repara tu que nem sequer o Sol é inesgotável, tendo nós apenas mais uns 5 mil milhões de anos para exibir o bronzeado. O mesmo para o Planeta e seus recursos, tanto naturais como tecnológicos, e ainda os intelectuais, também limitados!

    Ora, sendo a economia o sistema prático e teórico que organiza a exploração dos recursos, e seu usufruto, é óbvio que o dinheiro é sempre relativo a uma qualquer realidade. Se assim não fosse, as próprias trocas em dinheiro deixariam de ser possíveis, por não terem garantia.

    Em suma, para haver dinheiro em circulação, alguma garantia tem de existir com credibilidade universal. E o dinheiro é apenas uma forma de representação da energia gasta na exploração da energia por gastar. Ou seja, até na Natureza não há almoços grátis…

  24. Valupi, fiquemos então com o referente Sol. Para mim ele é o símbolo do Dom. Quanto a esses 5*10^9 de tempo de vida da estrela, isso são estimativas que podem vir a ser alteradas se entretanto se descobrir outra reacção termo-nuclear que por lá passava despercebida.

    A mim chega-me pensar que o Sol brilha por tempo muito longo e indeterminado, que é a modos que uma eternidade comparada com a escala das nossas vidas.

    Pelas tuas palavras excluíste o dom da própria Natureza, com o mote do das Neves. Não posso concordar, se o conceito existe deve ter alguma correspondência com o real.

    Terá sido talvez por eu ter radicalizado com o dinheiro ‘eventualmente gratuito’ e reagiste em sentido oposto.

    Creio que concordarás que soluções económicas inovadoras neste século e milénio ultrapassarão absurdos e impossíveis anteriores, pela própria definição de inovação.

    No entanto concordo que a economia não lida com o dom nem parece habilitada já a fazê-lo.

    O que me interessa é uma chamada de atenção política.

    Todos os que como eu andaram por Timor-Leste em 2002, 2003 e 2004 (eu só ia lá uns meses no ano) sabiam que aquela massa juvenil desempregada e enérgica, a viver de biscates e esquemas, era uma bomba-relógio que estava lá.

    Não é difícil transpôr, que, mutatis mutandis, essa massa de desempregados que anda aí e as imensas formas de precarização que levam a que a pessoa tenha que trabalhar mais que o estipulado para não ir para a rua, misturada com a espiral de endividamento e o encarecimento das taxas de juro, é outra bomba-relógio que anda aqui.

    Deliberada?

    Se isso não é contrariado vão-se formar gangs espontâneos aqui e ali, violência social emergente. Cabe aos políticos acharem que isso é um mal a contrariar, ou não.

    Nem sei se os tiroteios nocturnos na Invicta são um sinal disso.

    Os carros incendiados em França foram. Os brutais incêndios na Grécia deste ano foram políticos e criminosos.

    Creio que a melhor forma de as pessoas se retirarem da violência é integrarem-se em trabalhos que gostem de fazer.

    Quanto aos 200 mil milhões de euros que o BCE injectou nos bancos naqueles dias. Parece-me que na tua interpretação esse dinheiro já préexistia: o BCE foi buscá-lo algures e transferiu-o para os bancos. E portanto descontou nesse lado onde estava cativo. Creio que não, que está sempre a criar-se dinheiro novo a taxas variáveis de acordo com o fluxo de absorção (procura) dos sumidouros. Fica registado como emissão garantida pela tutela com um mecanismo fiduciário que permita contabilizar não sei onde, no futuro.

    Tendencialmente o dinheiro digital é gratuito, estando eu de acordo que o dinheiro total em circulação reflecte a cinética da produção e circulação de bens e serviços, mas esta também está sempre a crescer…

    Há assim um ponto de acordo entre nós (e outros), eu concordo que as injecções de dinheiro têm que ter em conta a produção de riqueza, no sentido mais lato do termo,

    esclareço: se a riqueza comporta a contabilização de todos os bens e serviços, então cresceu muito nos últimos tempos com toda a produção de serviço público intelectual na blogosfera.

    (onde já agora me interrogo sobre qual será o valor do Aspirina)

    Embora para mim o Aspirina se situe num espaço de troca de dons, contribui para a riqueza do Mundo.

  25. Só mais duas coisas. Valupi, como podes imaginar eu não estou aqui a discutir, estou a conversar, onde aprendo umas coisas e tento corresponder com outras. Nem me importo de refazer opiniões.

    Ainda outra coisa: não estou a propôr que o Aspirina, os seus colaboradores e até os comentadores, sejam recompensados monetariamente pela troca de dons. Isso seria no milénio passado. O que estou a dizer é que a blogosfera afirmou-se como uma nova componente de valor, de riqueza produzida, que é base fiduciária para libertar dinheiro para muitos e que, no meio desta salsa, por ínvios caminhos, possa chegar a quem mais precisa.

    Será delírio? Tremens garanto-te que não, não tremo das mãos e nem bebo alcool…

    Estes resolveram tomar medidas:

    http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1303733

    Será com certeza renegociação de prazos e taxas mas se isso não se traduzir numa injecção de algum dinheiro gratuito, comparativamente ao cenário anterior não vai resolver nada, creio. Não estou a dizer que seja todo gratuito, estou só a dizer ‘algum’, comparativamente…

  26. Boa noite Daniel Sá…
    Gostava de saber um pouco mais sobre Conceição Bettencourt. Tenho família em Sta. Maria e pode dizer-se que procuro um pouco as minhas raízes e a história da ilha.
    Agradeço a atenção.
    Cumprimentos,
    Paula Garcia

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