Canção da Musa*

Dê-os, Leda
Dê selado:
sela dedo
– dedo lesa.

Dele doas
Sado dele.
Dás de elo
dose dela.
És do dela,
soda dele.

Refrão
Desde olá
Sade de ló
Sede do lá
De sal e dó
(repeat)

Ode de sal
a do deles.
É de solda
e de saldo.

Ode delas
Dê de loas
(deles doa).
Sele dado.
Se de lado
dê de sola.

Refrão

susana

*Anagramas, acentos e pontuação patrocinados por Swimmer’s Digest e sanitários Roca

Foz do Arelho, ouvido cândido

São mais cás mães, pá. E aparecem, sem avisar, em tudo quanto é sítio, mesmo público, mesmo assim tipo discreto. O que mais por aí há são héteros, é o que eu te digo. Héteros. Nunca ouviste falar? Daqueles gajos que…, eh pá, tu percebes, não disfarces. E vêm, sim, vêm como calha: sozinhos, juntos, aos pares, claro, mas não se ensaiam por virem também aos magotes. Um gajo topa-os logo.

Também, pá, não escondem. Nem um nadinha de decoro. De urbanidade, digamos. Dantes não era assim. Dantes essa malta escondia um bocadinho. Fachada, meu, pois era, fachada pura, tá-se a ver. Mas sempre era outra coisa. Agora até os miúdos reparam, já viste? Até os miúdos. Que é que um pai vai dizer, se vêm com perguntas? Sim, um tipo não vai… Tá bom, há maneiras de rodear a coisa, eu sei. E os putos entendem. Às vezes entendem até mais que sei lá o quê.

Mas não devia ser. Não devia, pá. Quer dizer, eu nem sou contra. Nunca fui. Cada um lá… Ãh? Pois, pois falam, falam muito em liberdade, em assumirem, em «todos diferentes», comé quié? «Todos diferentes»… Isso, «todos iguais» tarantã. Mas depois um gajo é que os grama.

E são, são uma data deles. Vai por mim, meu. Mais cás mães.

abrir o livro

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O hóquei em patins português morreu no início década de 90, mas do seu funeral só nos chegou notícia em Junho último. Foi enterrado na Suíça, por suíços e franceses. O 6º lugar, a pior classificação de sempre em 70 anos de campeonatos do Mundo, passou por entre as notícias. O povo adepto que se poderia alvoraçar com a desdita também já passou, jazendo na amnésia. Quem tem menos de 40 anos não pode saber o que foi o hóquei em patins português em Portugal. Porque não pode saber o que era viver nos anos 70 e 60 e 50 neste país rural, analfabruto, cobarde e infantil. Um país literalmente desesperado, sem orgulho, que tinha no hóquei a possibilidade de viver a fantasia de se imaginar cosmopolita. Puro delírio. Nem nos Jogos Olímpicos o hóquei em patins podia entrar, quanto mais na atenção do Mundo. A nós se juntavam outros nostálgicos de tordesilhas, impérios e rios de prata, espanhóis, italianos e argentinos. Opulentos miseráveis. O hóquei, desporto para aristocratas, joga-se de bengala. Garbosos, elegantes, altivos, os jogadores sabem-se alados. Em cima dos patins o céu está mais perto, a terra é lisa e desliza.

Por leonina sorte, apanhei a última geração de amor popular, a equipa dos 5 magníficos: Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Chana e Livramento. Como a televisão da época ainda não era omnívora e insaciável, brilhavam as vozes dos locutores da rádio. Desses relatos ficou-me uma lição atinente ao poder das metáforas. Em 1977, o Sporting foi campeão europeu. Alguém, cujo nome não fixei, relatava os jogos tendo no seu reportório a expressão: abrir o livro. Dizer-nos que o Sporting estava a abrir o livro correspondia a celebrar os momentos em que a equipa alcançava um nível exibicional que o encantava, o equivalente à entrada da música para premiar o espectáculo do toureiro. Embora a sua voz fosse moldada pela grave solenidade de quem comunica com a audiência, o timbre era de bem contido encómio, de festa sentada.

Os movimentos sincronizados dos atletas, o juízo e gosto linguístico do comentarista, a imaginação púbere do ouvinte, uniam-se estes diferentes planos da realidade para transformar a expressão abrir o livro na minha iniciação ao poder divino das metáforas. Eu tomava conhecimento da existência de um livro onde estavam as jogadas perfeitas, aquelas que não tinham oposição possível nem possível melhoria. Eram absolutas, por isso estavam gravadas num livro. A equipa, por eleição misteriosa, conseguia abrir esse livro de vez em quando. E, enquanto o livro estava aberto, era até bom que a leitura não fosse perturbada pela marcação de um golo. Isso poderia levar à alteração súbita da coreografia mágica em acção, embora fosse esse evento a promessa de redenção, apocalipse e transcendência inclusa no livro agora aberto. O sublime estava no que antecedia a glória, o gozo de uma jogada eterna era preferível ao êxtase de um golo efémero. Mais valia não chegar ao fim, continuar a passar a bola, fintar os adversários, folhear o livro.

Era uma lição relativa à condição paradoxal do humano, o único animal que lê. O único animal que vai de patins.

Os olhos de Rosário

É nos olhos de Rosário que se principia
Todo o ritmo dos momentos desta casa
Há neles o verde do pinhal, a ventania
E a chama da lareira, sempre em brasa

Nunca desiste do seu olhar, preocupada
Para que tudo seja para todos harmonia
Acorda sempre com a luz da madrugada
E só descansa quando chega o fim do dia

E mesmo a voz é no olhar que se desenha
E até as mãos partem do olhar à procura
Trazendo nas palavras um calor de lenha
E nos seus gestos um bálsamo de ternura

São faróis que durante uma tempestade
Ajudam os outros a encontrar a bonança
Os olhos de Rosário são a luz e a verdade
Que nasce todos os dias – e não se cansa

José do Carmo Francisco

«Tu»

A presidente da maior confederação de sindicatos holandeses trata por tu o ministro do Trabalho. O presidente do conselho de universidades holandesas (que vai sempre de bicicleta para o trabalho) trata por tu o ministro da Educação. Vários presidentes de grandes bancos holandeses tratam por tu o ministro das Finanças.

E julga alguém que este Reino, de onde vos escrevo, amanhã se desmorona?

Studio: WEST COAST (reprise)

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Como prometido, volto à carga com o magnífico WEST COAST dos Studio, até porque não tenho ouvido outra coisa desde que publiquei o último post. Desta vez, vou ser porquito e deixar aqui aquela que considero ser a grande faixa do álbum: o longo e hipnótico tema instrumental que abre o disco: «Out There». Não tenho palavras para descrever a euforia que me provoca a audição desta absoluta maravilha de ritmo, groove e bom-gosto. Ele é guitarras pós-punk cheias de gorduras polinsaturadas, pitadas de disco-sound, apontamentos de produção que fazem lembrar os momentos áureos dos New Romantics e ainda uma linha melódica que (mais uma vez) parece invocar os fantasmas da santíssima trindade Marr, Rourke e Joyce (fase MEAT IS MURDER). Depois, a meio do tema, e quando um gajo já está totalmente rendido, somos atirados ao tapete por um baixo do tamanho da Avenida dos Aliados e, aí, ele é afro-beats, reggae, dub e a real puta que os pariu. A sério. Acho que é o melhor tema que ouvi na minha vida. E o mais incrível é que esta faixa se move por territórios que estão longe (muito longe) de serem os meus predilectos na cartografia pop. Eu sei que a solidão nestas merdas é sempre uma doce e fiel companheira, mas ainda assim, arrisco a pergunta: serei eu o único doido a venerar esta merda?

Laurent Filipe

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Tal como este som que me chega devagar
De uma fonte que o ouvido não determina
Mas capaz de alterar o espírito deste lugar

O som da trompete leva-me numa viagem
E estou de novo no coreto de uma aldeia
Numa festa de Verão mas uma paisagem
Tão diferente desta outra, mais fria e feia

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Com as sílabas dispostas numas camadas
Numa vagarosa construção que dissemina
Uma luz capaz de abrir as salas fechadas

Não me vou cansar de ouvir estas canções
Onde a música é um calor de fogo e brasa
O fraseado acumula os motivos e as razões
Uma trompete veio modificar a luz da casa

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Foi comprada no Custódio Cardoso Pereira
A música continua quando o resto é a ruína
Aquece a minha vida no Inverno sem lareira

José do Carmo Francisco

Studio: WEST COAST

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2007 está a ser um ano estupidamente frutífero para a música de dança. Para além do mainstream estar inundado de coisas bem recomendáveis como os Justice, Simian Mobile Disco ou Digitalism, chegou-me esta semana às mãos uma maravilha chamada WEST COAST dos Studio. O que é verdadeiramente admirável neste duo seco é o facto de eles reinventarem um dos estilos de música mais azeiteiros dos últimos anos, a música de dança balear da década de 80 (pensem em Ibiza, Maillorca, Menorca e sobretudo em Paul Oakenfoald) e acrescentar-lhe um pouco de dub, house, krautrock e camadas generosas de post-punk (olá Vini Reilly) para produzir um dos discos simultaneamente mais classificáveis e fascinantes que ouvi nos últimos anos. A coisa, como não poderia deixar de ser, também faz lembrar a Madchester e projectos como os The Stones Roses (sobretudo a parte rítmica) ou os Happy Mondays (tudo o resto), mas os Studio vão definitivamente mais além e conseguem desbravar os poucos terrenos que os Underworld não exploraram nos seus dois primeiros álbuns. Para já, ocupam um lugar mesmo ao lado de The Field e dos Of Montreal na minha lista dos melhores do ano, mas algo me diz que não por muito tempo. Deixo-vos de seguida com o solarengo «West Side» e prometo carregar logo que possível a Box com mais perolazinhas. Um conselho: nas primeiras audições, tentem ouvir esta maravilha como banda sonora das vossas navegações pela Internet, de preferência com auscultadores que é para se aperceberem da forma estupenda como o disco está produzido e, sobretudo, misturado. Só depois é que deverão passar para a fase «BT, a gente vê-se daqui a 72 horas». Um miminho.

Ramón vermelho

À beira da estrada, num pequeno café, encontra o viajante refrigério. Que além de professora reformada e boa conversadora, a dona Mariazinha é a gentileza em pessoa. Os clientes são escassos, para não dizer nenhuns, salvo este velhote que tem bócio e veio encher a garrafa do tinto. E ela está entretida no croché, enquanto a irmã lá dentro traquina na cozinha. Logo quer saber a que anda o viajante, assim exposto ao calor, e o que faz ele na vida, e donde vem. Mas depressa aparece a cozinheira, a dar fé do que se passa. E acabam, ambas as duas, a contar ao viajante a história de Ramón.
O homem dormia na casa da escola, num quarto que ficava por trás do quadro preto. A dona Mariazinha e a irmã eram crianças na altura, e nunca mais se esqueceram do mistério. A professora encostava todos os dias o quadro àquela porta, e proibia alguém de lá entrar. Um dia em que a apanharam distraída houve quem a fosse abrir, e todos viram Ramón, que estava a dormir lá dentro. Logo nesse dia soube a aldeia inteira que havia um homem na casa das professoras.
Elas eram três irmãs. Uma trabalhava na costura, outra ocupava-se da casa, e a terceira dava aulas aos garotos. O homem era galego, dos vermelhos, andou na guerra de Espanha. E quando caíram as portelas da serra de Guadarrama, e a Casa de Campo sucumbiu às investidas, perderam-se também as esperanças de Ramón. Com o batalhão destroçado, em vez de recolher à ratoeira de Madrid, enterrou a escopeta por trás duma ruína e pôs-se a andar na direcção contrária. Mais de noite que de dia, mais por carreiros de bichos que por caminhos de gente, viu ao longe a serra de Ávila, depois os montes de Francia, passou dias escondido em casebres de pastores, um era de Alba de Tormes, outro era de Santo Estêvão, três vezes morreu de fome, e já lá iam dois meses quando uma noite saltou o rio Águeda e chegou a Portugal. Alguém lhe deu inculcas em Almendra, e só assim ficará explicado que o homem tenha vindo bater à porta do padre Júlio, aqui nos confins do mundo.
Durante muito tempo não saiu Ramón de casa, que o padre Júlio não era tolo nenhum. Até que um dia calhou ele morrer, e o Ramón foi ao enterro. Desde então deu em sair à rua, que já não aguentava a solidão. Juntou-se às fainas do campo, pôs-se a trabalhar à jorna, fez amigos aí no povo. No final já se mostrava pelas festas, não faltava a um bailarico, era mais um entre a gente. Sabia a guarda do caso há muito tempo, e as ordens eram severas. Mas sempre que ela aparecia, alguém havia a passar a palavra. E sumia-se o Ramón, no quarto por trás do quadro.
Um dia apareceu no povo um amola-tesouras que ninguém conhecia. Ficou dias por aí, rua abaixo, rua acima, a soprar numa flauta esganiçada. Foi ao Zabro, às Moreirinhas, aos Moinhos das Cebolas, a meter-se no coração a toda a gente e a dar fé das passadas de Ramón. Já não havia mais facas para aguçar, nem mais tesouras da poda, nem navalhas da enxertia, quando a guarda cá voltou. E o amolador, que afinal era espião, delatou-lhe o segredo de Ramón.
O padre já cá não estava, que era duro de roer. O Ramón foi parar ao calabouço, antes de o devolverem ao Vale dos Caídos, onde acabaram com ele. E a dona Mariazinha e a irmã ficaram sem escola, que as professoras desapareceram daí.
À saída, depois das alongadas despedidas, passa o viajante por uma escola abandonada. Mas não era a desta história. E pensando um pouco mais, conclui o viajante que o rei que Moreira teve não foi o pobre Dom Sancho.

Jorge Carvalheira

CÔRTE? CÓRTE? UM ESPANTO.

Eu já tinha lá passado, no blogue Intermitências da Corte. Lá. Aqui. Mas agora foi para ficar.

A história curta, e mais ainda a supercurta, pode ser um espectáculo. Alguns dos seus cultores habitam o meu Olimpo privado. Como este. E este (comentado aqui). E este.

Os melhores momentos da arte de Confúcio Costa é em tudo comparável aos melhores momentos da arte desses outros. Com uma diferença: a do seu lado cru, com dedos a voarem, com ossos a estilhaçarem-se. É para aficionados – que sempre, incompreensivelmente, os há. Mas é arte, da mais pura, da que mais nos aquece a alma por vê-la feita no nosso idioma.

Fez-se aqui uma homenagem ‘provisória’ a Confúcio Costa. Esta, agora, é definitiva.

Tipo assim

Sou um viciado em linguagem da plebe. Da plebe culta, esclareço, aquela onde mais acontece roçar-me. Assim tipo… Atenção, isto não anuncia nada. «Assim tipo» é já linguagem da plebe que se cultiva.

É assim. Um gajo senta-se incógnito, à escuta, junto a uma mesa com umas… Como? Eu escrevi «É assim»? Não posso crer, isto nunca me aconteceu. Como? Escrevi também «Não posso crer»? Bom, senhores. Esqueçam. Eu não disse nada. Tchauzinho e até mais.

Tá vendo?

Tratam-se todos por você…

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Em 1908, Raul Brandão escreveu um capítulo muito curioso das suas Memórias (publicadas em 1919) que terá algum interesse recordar aqui. Quando nos queixamos de que a malta nova hoje não se preocupa em falar ou escrever utilizando o português escorreito e limpo, faz sorrir esta nota sobre aquilo que alguém definiu ao tempo como gente «smart». Vejamos.

«Distingue-se das outras por várias coisas; por exemplo: desprezo absoluto pela prudente instituição do chaperon (esses entretêm-se com o bluff) – desprezo absoluto pelas boas maneiras, pela cortesia corrente (só se cumprimentam as pessoas que passam de perto e essas mesmas com marcada indiferença) – ignorância completas das regras da gramática (isso seria falar difícil) e da ortografia. Cultivam só o corpo diplomático e a religião; vestem bem, jogam muito, dançam muito e bem e flirtam na perfeição. Votaram ao ostracismo algumas palavras que nós dizemos e que são possidónias como: chávena, trem, farmácia, Carnaval, etc. Tratam-se todos por você, alguns têm muita piada e usam todos um ar muito chateado. É da praxe, o calão.»

E para completar, aquilo a que hoje chamamos comunicação social:

«Esta sociedade que anda todos os dias nos jornais, vem do alto até baixo, da aristocracia ao povo, forma uma lista infindável, tem um cronista célebre, o senhor Luiz Trigueiros e pode ser vista às tardes no Dia e de manhã no Diário Nacional…»

José do Carmo Francisco

Cineterapia

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SICILIA!_Danièle Huillet & Jean-Marie Straub

Agosto de 2007, meados, é a melhor altura para ir à Sicilia!. Chegar de barco, viajar de comboio, visitar a mãe e andar a pé. A paisagem é toda a branco e preto, cinzenta, mas cheia de Sol. Até as sombras são imitações da luz. E cada pessoa fala com a confiança de quem se sabe escutada até ao silêncio diafragmático, aquele entre cada cigarra. Aquele, por onde passa a alma ou o comboio. Fala-se sereno, tão calmo, mesmo no brado, que ainda se dispõe de tempo para cantar. Cantam-se as palavras ditas. Canta-se a palavra pensada. Cantar é a única forma de transmitir a verdade, o ritmo da vida, a verdade.

Este é um dos mais amorosos filmes na História da arte, garanto-o eu que não sei o que digo. Os realizadores amam o texto, amam a luz, amam o cenário, amam os actores, amam o cinema e amam-se a si próprios, feliz casal, também como espectadores. Tenho vergonha de enaltecer este ou aquele aspecto, adivinhando-me desastrado e inconveniente, bruto na carícia da filigrana. Prefiro retirar-me para o Oeste, lembrando aos papalvos que Cassavetes se filiava em Capra e Huillet&Straub em Ford. Porque isto, do cinema no cinema, é mesmo como aparece.

Esses lupanares chamados fnac, em conluio com esses chulos chamados ATALANTA FILMES, reuniram as suas pérfidas intenções para nos proporcionar momentos do mais exaltado gozo, no segredo dos nossos pardieiros estéticos, e apenas em troca de vil papel-moeda ou moeda-cartonada. É fartar, por Baco!

Um largo atordoado

As ruas de Moreira têm calçada antiga, do bom tempo, não ficaram à espera que os fundos europeus viessem cuidar delas. E depressa chega o viajante ao largo do pelourinho, vistoso exemplar manuelino com cinco degraus. Cercado de fraguedos e hortas secas, o povoado é pequeno. Filho de estratégias muito antigas, nasceu à sombra do castelo que além está, no alto dum penhasco. Ganhou em esplendores e amplidão de vistas o que perdeu em espaço vital. Afora as casas, algumas modernizadas, tudo o que se pode ver neste adro minúsculo são antiguidades de outro tempo. A primitiva igreja de Santa Marinha, há muito sem usos litúrgicos, ainda hoje tem à porta o padrão das medidas correntes, entalhado nas colunas. Bastando a qualquer um dois côvados de burel para cobrir os ombros, estava aqui a justa medição. E se estes primores de pedra do pelourinho impressionam o viajante, mais o comove a secular gravidade do negrilho ali ao lado. Já sustentou uma frondosa copa, já a perdeu, e agora ganhou outra renovada. Só a frescura da sombra, que o viajante aproveita, é que se mantém igual.
Mais antigas do que o largo, e o castelo, e o negrilho, são estas sepulturas cavadas a picão, na fraga dura. A igreja de Santa Marinha foi-lhes construída em cima, e muitas outras ficaram por aí, disseminadas no largo. Há sepulturas debaixo das casas e dos canteiros de flores, algumas estão cobertas pela base do pelourinho, outras foram ocupadas pelas raízes do negrilho. A julgar pela dimensão e a fundura, dormiram nelas o sono derradeiro adultos e crianças, infantes e anciãos. Fossem eles justos, fossem pecadores, adormeceram todos a contemplar o sol, que todas elas foram escavadas na direcção exacta do nascente. Estão aqui, ombro com ombro, na grande igualação da morte. Mas porque o nascer do sol varia de lugar no horizonte, nem todas são paralelas. Este aqui morreu dos frios do inverno, aquele além sucumbiu às estiagens do verão, põe-se a imaginar o viajante. Se as contas baterem certas, logo aqui se pode ver a falta que faz ao mundo a sombra refrescante dum negrilho, e o fogo dos ramos dele.
Para chegar ao penhasco do castelo tem este viajante que subir uma empinada ladeira. Já passou à porta duma mulher de preto, que tem os figos a secar num tabuleiro, enquanto malha o feijão à sombra dum alpendre. Mas vinha tão afoito e decidido, à procura da cadeira do rei Sancho, que o viajante mal lhe deu a salvação. Muito a custo subiu à cidadela, ao pouco que dela resta, com este sol desapiedado a morder-lhe nos costados. Não viu cadeira nenhuma, e as bagas de suor que já lhe escorrem da fronte põem-no descorçoado. Manuel não está aqui para o ajudar. E apesar do panorama deslumbrante, decide bater em retirada, para escapar à canícula.
Bom refúgio era a sombra do negrilho, se não estivesse ocupada por duas famílias buliçosas, à volta dum farnel improvisado. Vêm dos lados de Aveiro, e andam à procura de alguma casita velha que possam reconstruir, cativas deste silêncio e do sossego da aldeia. Mas fazem tal barulheira que logo veio um vizinho, a explicar as qualidades dum queijo que lá tem para lhes vender. As mulheres falam tão alto que deixam o adro inteiro atordoado, era uma vez o sossego dum largo. E o viajante despede-se do negrilho, algum lugar há-de haver onde matar a sede.

Jorge Carvalheira