O que fomos e o que seremos são intangíveis. A consciência do presente uma alucinação dilacerante ou extasiante. E o resto todo à volta fragmentário, confuso, ignorado.
Apesar disso, esbanjamos infinitos.
Ontem, no noticiário das 20 horas, a RTP fingiu uma entrevista ao ministro da Educação. O que se passou não foi comunicação, foi oposição pura e dura. A indignação do dono do microfone tornou-se num espetáculo triste, incompatível, creio eu, com as regras deontológicas do jornalismo.
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NOTA
A RTP, apesar do dever de serviço público, é um órgão de comunicação social politicamente agendado. Isso não nasceu em 2015 com António José Teixeira, ano em que se tornou director adjunto de informação da RTP, já o era desde o cavaquismo. Porém, este Teixeira trouxe da SIC exactamente o mesmo editorialismo que lá praticava ao serviço de Balsemão. O resultado é uma cultura de oposição assanhada (quando não persecutória) aos socialistas que é uma violação tanto das responsabilidades da estação pública como das responsabilidades individuais dos jornalistas.
O PS, por sua vez, não parece preocupado com a situação. Talvez por ser uma área armadilhada, onde qualquer laivo de protesto é imediatamente explorado como tentativa de controlo e censura. Perdemos todos, até porque a decadência do jornalismo de agenda direitola não é a panaceia para a decadência da direita.
Sou fã da Ângela Silva. Porque ela é como uma placa de Petri da decadência da imprensa portuguesa. Tendo a função de ligar o Grupo Impresa à Presidência da República Portuguesa, assistimos semanalmente ao reverso: a Presidência a ligar à Ângela para ela espalhar os recados trapaceiros e ressabiados dos homens do Presidente. O cúmulo desta farsa, onde a suposta jornalista se comporta como assessora, ocorreu na chantagem via Expresso que podia ter causado uma gravíssima crise política, em Maio, quando Marcelo mergulhou de cabeça no irregular funcionamento das instituições.
Claro, ela não poderia ser isto sem a aprovação de Ricardo Costa. E o mano Costa não o poderia aprovar sem a autorização última ou primeira de Balsemão. Daí a senhora ser uma placa, não o ecossistema. Ela está apenas a fazer pela vida, ganhando do bom, num ambiente que lhe pede o que a assalariada tenta dar da melhor maneira que consegue.
O que nos leva para esta coisa: 2007: Tinha sido tão “Porreiro, Pá!”. Conceptualmente, é uma rubrica que promete resenhas sobre a história portuguesa recente. Na prática, este episódio não passa de mais um linchamento de Sócrates, o bilionésimo. Em 2007 a licenciatura de Sócrates ainda não tinha sido considerada irregular, pelo que a polémica se restringia ao confronto de diferentes versões sobre as muitas facetas do caso. Daí, ao tempo, esse episódio não ter tido qualquer impacto significativo no eleitorado, muito menos em 2009, ano de eleições legislativas. Pois Ângela Silva centra-se nessa história, de relevância relativa, para apontar ao carácter de Sócrates. Ao mesmo tempo, diminui e enxovalha o Tratado de Lisboa, de relevância absoluta, um dos grandes sucessos da governação socialista e de Portugal como país organizador. É isto jornalismo? Não, pá, é sectarismo e diabolização.
Sendo esta cultura tóxica o alimento do editorialismo do Expresso e da SIC, nada mais previsível do que esta outra coisa: Ângela Silva analisa o estado da relação Costa-Marcelo: “A montanha não pariu um rato, pariu um elefante”. Quem é cúmplice de Marcelo fingindo fazer jornalismo político trata a disfuncionalidade do actual ocupante de Belém como um conflito institucional onde há dois protagonistas voluntários e igualmente responsáveis pelas peripécias. Este falso nivelamento tem como objectivo envolver Costa na sua causalidade, para logo depois o carimbar como culpado pelo confronto, por actos e/ou omissões. A Ângela, com a nulidade Baldaia a servir de ponto, continua aqui a explorar o uso do Conselho de Estado como arma de arremesso, chafurdando risonha e gaiata na violação do sigilo do órgão e na restante boataria desonrosa. O cristalino propósito é o de pintar Costa como o mau da fita, Marcelo como o sofrido herói que tenta salvar a gente boa (leia-se: a direita oligárquica).
Num momento delicioso de involuntária hilaridade, saiu-se com uma pérola: “O Presidente está numa altura em que tem de pesar muito bem a palavra, tem que reflectir muito bem como é que vai gerir os lances do outro lado.” Isto foi publicado a 7 de Setembro. Nos dias seguintes, o tal Presidente fez-lhe a vontade. Cadeiras, decotes, Selecção, fado, bacalhau, Cristiano Ronaldo. A palavra do Presidente não poderia ter sido mais eloquente a gerir os lances do outro lado.
Quando me mandaram o vídeo de Marcelo a gozar com o decote, a minha primeira reacção consistiu em duvidar que fosse verdadeiro. Era um vídeo solto, sem logótipo de qualquer canal televisivo, pelo que fui à procura de marcas de truncagem onde se tivesse falsificado a locução. Só ao ver o mesmo registo em meios de informação profissional é que me rendi. E me espantei.
Imaginemos que Marcelo, desde 30 de Março de 2022, se tinha comportado com sentido de Estado, prudência, inteligência política, patriotismo e módico bom senso até ao passado dia 14 de Setembro. Sublinhe-se: essas características em nada o limitariam na actividade de fiscalizador do Governo, podendo com toda a legitimidade discordar politicamente das opções do Executivo, como é seu apanágio constitucional. A ter sido assim, o episódio do decote apenas justificaria a curiosidade de se discutir o eventual mau gosto da graçola. Nada de grave seria assinalado e tudo se varreria para debaixo do tapete da sua inveterada chinela popularucha. Ora, a real situação é radicalmente oposta.
Na ocasião mesma da tomada de posse do Governo com maioria absoluta começou um ciclo inacreditável, previamente inconcebível, de disfuncionamento da pessoa Presidente da República: nessa cerimónia, resolveu atacar o carácter de António Costa. Tal ficou finalmente evidente na forma como se deixou percepcionar na figura de cúmplice do abafamento e desvalorização das suspeitas de crimes de abuso sexual na Igreja Católica em Portugal. Tal ficou igualmente evidente na irracionalidade de ameaçar dissolver a Assembleia da República, ainda o Governo maioritário estava recém-empossado de meses, e no insano de repetir a ameaça quase a um ritmo semanal. Esta dinâmica de anormalidade presidencial conduziu a uma gravíssima crise onde Marcelo perdeu a noção das consequências dos seus actos, tendo usado o Expresso para fazer uma chantagem ao Governo. Igual anormalidade na saga do Conselho de Estado repartido e na decadência a que se entregou alimentando a perversão desse órgão, a violação do sigilo e a chicana da sua guarda pretoriana. Mas lendo retrospectivamente a partir do decote o seu comportamento, até a cena gaga em que atacou Ana Abrunhosa, nos idos de Novembro de 2022, era já manifestação do seu indisfarçável destrambelhamento.
O que me espantou nisto no Canadá foi ter ocorrido poucos dias depois do número da cadeira em que achincalhou uma mulher perante terceiros, grupo onde se incluía um primeiro-ministro e jornalistas a gravarem a humilhação. Tal significa que ele está em perda drástica de controlo sobre as suas emoções e a sua responsabilidade institucional — ou que fosse o mero cuidado em não magoar outrem ou chocar a comunidade. Atendendo à sua linguagem corporal nessas duas situações e às justificações inanes e infantiloides a que se agarrou, encontra-se matéria para nos interrogarmos sobre a sua saúde mental. O que leva à inevitável questão: quem não se sabe comportar em público com critérios adequados à função que exerce, saberá comportar-se em privado à altura do interesse nacional e do bem comum? Resposta: em privado, o caso é ainda pior. E basta acompanhar as notícias para o constatar. A sua actuação nem ao PSD serve, tem sido apenas absurda e degradante.
Com raras excepções, o comentariado censurou o decote. Das vedetas, apenas o Pacheco ousou fazer uma alusão lateral para atacar a Isabel Moreira sem a nomear. Esse silêncio é mais pesado do que a galáxia de Andrómeda. A cadeira já está a rachar.
Sleep Plays a Major Role in Neurological Disorders – Getting Good Sleep May Help Reduce Risk
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New evidence indicates patients recall death experiences after cardiac arrest
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Antidepressants may reduce negative memories while improving overall memory
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Hobbies linked to lower depression levels among older people
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Healthy lifestyle can help prevent depression – and new research may explain why
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Large amounts of sedentary time linked with higher risk of dementia in older adults, study shows
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All work and no play will really make a dull life
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O estigma relativo à doença mental continua a existir, apesar de se estarem a esbater os preconceitos. A sua origem está no cristianismo, por um lado, e no iluminismo, pelo outro. Da religião veio uma literal demonização do doente mental, os seus sintomas vistos como obra de forças malignas. Este pensamento mágico onde entidades ou energias sobrenaturais causavam a perdição dos humanos, por sua vez, era já ancestral, primevo. Pela ideologia do iluminismo veio um reducionismo da realidade psíquica às faculdades lógicas, estabelecendo-se culturalmente um fundamentalismo racionalista onde a doença mental aparecia como degenerescência. De ambas as causalidades nascia um comum moralismo no qual o doente mental era visto como infra-humano, fosse por ter perdido a protecção divina ou por ter perdido a essência racional. O estigma, neste contexto, vem da ameaça à identidade do paciente por via da alteração das relações com íntimos, próximos e até distantes.
Na verdade, não só estamos quotidianamente rodeados por doentes mentais, em qualquer tipologia e grau, como a própria complexidade ignota da condição humana implica não podermos ter definições simplistas, unívocas, do que seja a saúde mental. Melhor será assumirmos que todos, sem excepção, ignoramos se precisamos de ajuda nessa dimensão da nossa existência. E se nos disserem que precisamos, pode ser que tenham razão.
Assinando por baixo as palavras da Penélope a respeito de Lobo Xavier, acrescento que foi penoso ver os seus parceiros de programa (onde se inclui um suposto jornalista) a não terem coragem moral, ou então decência cívica, ou que fosse a mera noção de respeito próprio, para denunciar a sua violação do sigilo a que está obrigado como membro do Conselho de Estado. Pacheco Pereira ensaiou sugerir que ele estava a vender banha da cobra pois a “mentira” que Lobo Xavier atestava não ter encontrado nos relatos sobre o episódio pode assumir várias modalidades, mas não o confrontou com a obscenidade cúmplice de estar a validar publicamente os boatos lançados para atacar Costa. Alexandra Leitão foi inane, nem sequer simulando ter algo a apontar ao que tinha ouvido de Lobo Xavier e refugiando-se em banalidades sobre a questão que beneficiam o infractor.
Quanto a Marques Mendes, no mesmo domingo de bombardeamento marcelista, a pulhice foi igual e ainda mais sórdida, pois aquele seu espaço de propaganda é sempre mais sórdido. Nele, a suposta jornalista com que faz parelha não gasta uma caloria a fingir que representa algum interesse público ou vago ideal relativo à carteira que lhe dá o estatuto profissional. Ela está ali para ser ponto do artista, e o artista usa aquela meia hora semanal para ser a voz da direita oligárquica, ao mesmo tempo que fantasia vir a continuar a sua carreira de comentador laranja em Belém.
Vale a pena ouvir a sequência de sofismas chungosos a que se entregam para amplificarem a utilização do Conselho de Estado como arma de arremesso político cujo fim é manchar Costa e desgastar o Governo. Vale a pena porque estas pessoas têm muito poder sociológico em Portugal. Começa com uma canalhice de manual: “Todos sabemos que Luís Marques Mendes é conselheiro de Estado, tem o dever de reserva em relação ao que se passa lá dentro, mas há aqui uma situação que podemos dizer que pode ser analisada em teoria: é que se é ou não normal que um primeiro-ministro, ou conselheiro de Estado, fique em silêncio?” Segue-se a “teorização” do tal conselheiro de Estado muito respeitador do dever de reserva em relação a um dos órgãos mais selectos e protegidos pelo sigilo em toda a República. Menos de 20 segundos depois, a “jornalista” passa da teoria à prática vocalizando “Tanto pode que ficou”, referindo-se ao primeiro-ministro num aparte que recebeu um “Exactamente” pelo tal conselheiro de Estado teorizador e exímio respeitador da deontologia, da ética, dos princípios e das normas que assumiu por inerência do seu distintíssimo cargo.
Portanto, Marques Mendes igualmente validou, e explorou, o comportamento degradante que transformou o Conselho de Estado numa câmara baixa do regime. Chegou ao ponto de argumentar que o silêncio era criticável porque os conselheiros estavam lá para aconselhar o Presidente, o que parece fazer algum sentido. Mas, por ter mais em que pensar, esqueceu-se de referir que o Presidente em causa já tinha previamente anunciado que dispensava conselhos pois o seu plano era o de montar uma moção de censura belenense.
Temos conselheiros de Estado que se acham no direito de espalhar boatos e difamações a partir do privilégio que a Constituição lhes concede para darem ideias ao Presidente da República. Seria um grave problema se esse Presidente não os tivesse escolhido precisamente para esse papel. Assim, fica apenas como mais uma protérvia da direita portuguesa.
Study confirms it: Opposites don’t actually attract
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Believing in personal gut feelings and falling for conspiracy theories
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Study shows making cities greener doesn’t just capture carbon – it reduces it
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Toddlers learn to reason logically before they learn to speak, study finds
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Active children are more resilient
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Workers are less productive and make more typos in the afternoon – especially on Fridays
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The sense of order distinguishes humans from other animals
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O absurdo vem de ilimitadas e imprevisíveis formas. Pode vir como terramoto, incêndio, cheia. Acidente, doença, crime. Também pode vir — e vem — como família, nacionalidade, século. E ainda como encontro e desencontro.
Mas a experiência mais radical que o absurdo nos oferece continuará a ser sempre a de ele esperar com infinita paciência para dar a última gargalhada.
“Houve um Conselho de Estado e parece que houve um Primeiro-Ministro amuado. Houve um Primeiro-Ministro que não prestou explicações aos conselheiros de Estado, ao senhor Presidente da República, não prestou explicações sobre a situação económica, sobre a situação social, sobre aquilo que é a sua responsabilidade. Eu não sei se o Primeiro-Ministro tenciona andar a vitimizar-se à conta desse conflito que está a criar com o senhor Presidente da República para ver se tem algum ganho político, partidário, eleitoral no próximo ano. Não sei, desconfio que deve ser qualquer coisa como isso.”
Montenegro usou o que é tecnicamente um boato para fazer um exercício ad hominem que é moralmente uma pulhice. Com isso cumpriu jactante o plano de usar o Conselho de Estado como arma de arremesso político contra o Governo e contra o PS.
Isso significa que o actual líder da oposição em Portugal não só aprova como activamente explora a degradação do regime e a insídia de alguns, pelo menos um, que ocupam lugar na mesa onde se reúnem os representantes máximos da República — juntamente com outros supostamente eleitos pelo seu prestígio pessoal, relevância cultural e confiança cívica máximas — para tratar solenemente das mais ponderosas questões nacionais.
Tragicamente, o pior consegue ainda ser outra coisa. Ao usar a retórica de atacar a vítima, tentando reverter essa condição para envilecer Costa pintando-o como culpado pelo comportamento abstruso e indigno de Marcelo, este Luís Montenegro usa como práxis política a lógica universal dos criminosos: diabolizar o alvo da sua violência.
Enquanto a direita portuguesa for isto, nem Costa nem qualquer outro socialista terá razões para amuar.
Do autor, produtor e artista de uma chantagem a um primeiro-ministro e seu Governo via um arremedo de jornalista no que já não passa de um pasquim, chega-nos esta prestação de hipocrisia e cinismo que nem sequer se preocupa em disfarçar.
Marcelo não tem o rancor e pulhice de Cavaco, mas está a ser surpreendente — e lastimável — o aviltamento da gravitas e decoro do regime a que se entrega (a)celerado. Eis o princípio de Peter em acção: os comentadores e intriguistas, mesmo quando no topo da hierarquia da República, não resistem à pulsão daquilo que lhes deu a fama e o proveito antes de lá chegarem.