1) UM DIFUSO MAL ESTAR
Sente-se hoje na sociedade portuguesa um mal estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional.
Verdades verdadinhas da gente séria, Fevereiro de 2008
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À esquerda e à direita, a principal táctica política consiste em espalhar o medo. A esquerda diz que a direita irá sempre explorá-la e a direita diz que a esquerda irá sempre roubá-la. Ambos os lados cultivam o histerismo, a paranóia, a desconfiança letal. Isto dura desde sempre e para sempre durará numa dialéctica circular que varre como tempestade de estupidez a condução e gestão da coisa pública.
Foi precisamente esse o papel da, ao tempo, célebre metáfora do “difuso mal-estar”, vinda de um dos braços ideológicos da oligarquia. Estávamos já em pleno desmoronamento de parte principal do edifício bancário da direita, com BCP, BPN e BPP em convulsão. Existia uma crise do petróleo que ninguém conseguia explicar, prenúncio de outra crise muito maior a rebentar daí a nada. E o PSD estava entregue a um cómico chamado Menezes quando Cavaco não tinha mão em Sócrates. Havia que começar a minar, promover o catastrofismo e difamar os governantes em vez de perder horas de sono a desenvolver propostas alternativas, pensou a gente séria com séculos de prática na aplicação da mesma fórmula: destruir para ocupar. A imagem do, assim o grafaram sem hífen, “mal estar difuso” que punha em causa a “coesão nacional” era congénere da “asfixia democrática” e dos temas da “verdade” que foram explorados por Ferreira Leite e Cavaco meses depois. Tratava-se de sugerir que o Estado tinha sido tomado por mafiosos capazes das maiores vilezas ainda por revelar. Esta estratégia culminou, dois anos depois, com o Pacheco a consultar escutas ilícitas e a declarar que eram “avassaladoras” embora não tenha depois feito nada em coerência com essa declaração. Apenas lhe interessava chafurdar na porcalheira, não o cumprimento da Lei nem a defesa da ética. Pacheco foi o mais notável e raivoso Torquemada dos ranhosos no ciclo da perseguição a Sócrates.
Sair desta circularidade, onde a esquerda se alia com a direita na erosão e boicote dos Governos e passam o resto do tempo numa diabolização senil, implica ocupar o centro. Por inerência geométrica, o centro é o lugar das negociações, das cedências, dos compromissos. Logo, tanto pode ser o lugar da mais abjecta cobardia como da mais gloriosa coragem. O que leva ao reconhecimento de um eixo vertical com três posições: centro baixo, centro médio e centro alto. No baixo, o centro perpetua as desigualdades, fomenta a corrupção, aumenta a injustiça. No médio, o centro é politicamente frágil, socialmente confuso, economicamente volátil. No alto, o centro abre espaços de encontro, acolhe o talento dos adversários, confia na inteligência da comunidade.
E sim, sim, sim. No centro podes ser de esquerda ou de direita. Ou de outra coisa qualquer que descubras ou inventes quando lá chegares.
