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Um bom e infeliz Natal

22 de Dezembro, Lisboa, 18 horas e tal, agência de comunicação, pessoas sofisticadas, entre os vinte e os quarenta anos. Quem vai saindo despede-se com um “Bom Natal!”. A emoção é forçada, resulta em falsete, nalguns casos raia a jeremiada. Outros, os extrovertidos, vencem rendendo-se: soltam a voz, soltam o canastrão, soltam a franga: cantam. [horror!] E todos desejam o mesmo. A todos. Um bom Natal.

26 e 27 de Dezembro, perto do Tejo, 10 horas e tal, 11 horas e tal, meio-dia coiso e tal, agência sofisticada, pessoas que trabalham em comunicação, alguns nos quarenta, muitos nos trinta, vários nos vinte. Quem chega, e quem cruza, cumprimenta com a pergunta “Então o Natal, foi bom?”. A emoção é um fardo, um esgar. As palavras queimam os lábios, saem de jacto e trespassam o ouvinte. Ninguém presta atenção à resposta. As respostas talvez nem tenham som, mesmo aquelas que foram vocalizadas. Responder o quê? É mais fácil dissertar sobre o sentido antepenúltimo da existência.

Apenas por causa desta farsa natalícia, faço uma concessão à felicidade. Porque o problema nasce de se ter trocado uma fórmula testada durante séculos — o “Feliz Natal” — por um exotismo recente que está a ser origem de tragédia sociológica. Naquele tempo, de feliz memória, não lembraria a ninguém perguntar se o Natal tinha sido feliz. A felicidade tem essa tão aliviante qualidade: arrasta um pudor, ou um fastio, que anula a curiosidade, impõe sacro respeito. E desejar “Feliz Natal” gera fenómenos miméticos, psicossomatismos saudáveis por movimento associativo. O pessoal, nesses segundos elocutórios, ofusca-se numa hiperbólica e disforme encenação da felicidade — que é consolo, júbilo. Mas quando se dá como bitola o adjectivo “bom”, tudo fica reduzido a uma escala, obriga à mensuração. Porque o “bom” é maralha, anda metido com o “melhor”, o “mediano”, o “sofrível”, o “excelente”, o “fantástico”, o “medíocre” e até o bera do “mau”. Fica difícil, não nos façam escolher.

Louvada seja a felicidade, uma só vez ao ano. Para o resto do calendário, estão a valer as palavras de Flaubert, carta a Louise Colet em 1846, que permanecem definitivas:

Etre bête, égoïste, et avoir une bonne santé, voilà les trois conditions voulues pour être heureux ; mais si la première nous manque, tout est perdu.

Gigas

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A presença de Freitas do Amaral na RTP comoveu-me. Falo de presença, e não de entrevista, porque seria indiferente ter tido outro jornalista ou outro elenco de questões. Freitas é igual a si próprio, o que o levou para o percurso heterodoxo que incomoda tanta gente. E que o incomoda a ele. E que me comoveu.

Da direita à esquerda, da autarquia ao Governo, o tipo de político mais frequente é um misto de manha, pesporrência e más companhias. O “sistema” está disponível para observação e estudo atento nas juventudes partidárias, as quais servem para fazer a triagem dos eticamente “adaptáveis” ou “versáteis”: permitem ensaiar futuros papéis sem risco de causar prejuízo eleitoral e levam os neófitos a iniciarem-se nos benefícios da carreira política; havendo abundância de opções laborais, confortavelmente remuneradas, para entreter os rapazes-boys. Mas ainda mais embriagante do que a materializada segurança financeira e social é, ui!, a inefável sensação de impunidade. O Estado e seus recursos, a Lei e a Ordem, aparecem sarapintados a duas ou três cores (não mais, não mais…) nas pupilas dos políticos de profissão, permitindo localizar com rigor as zonas de protecção e influência. E os almoços e jantares, as festas e eventos, os aniversários e casamentos, vão selando outras negociações com as cores concorrentes. Todos ganham, desde que sejam discretos, porque todos procuram exactamente o mesmo: um sistema alternativo — e muito mais eficaz e eficiente, porque muito mais controlado e restrito — de redistribuição da riqueza.

Ora, Freitas, num passo do seu testemunho, disse que é do a-b-c da política começar os preparativos para a reeleição logo a partir do momento em que se é eleito. E disse-o com a impaciência alegre de quem explica a uma criança como usar os talheres à mesa. Este nada no meio do discurso, que nada suscitou na jornalista, é na sua cândida formulação um curso inteiro de ciência política. Se o político deve, em boa prática disciplinar ou artística, tentar garantir a reeleição, dai decorre que essa avidez é inevitavelmente o seu maior objectivo político e o primeiro do seu programa. Porém, como o político reconhece a desvantagem de assumir publicamente esta regra tácita da sua actividade, não a vai comunicar ao eleitorado, nem a admite em caso algum se calhar ser interrogado. Tem, então, de mentir; isto é, mente ainda mais alucinadamente.

Eis que vi Freitas do Amaral como nunca o tinha visto antes. Um homem a carregar peso dilacerante às costas, as quais se mostravam fracas para tal fardo, tanto física como moralmente. Porque nele coexistiam, em paridade, a estátua idealista e o cimento realista, o projecto de serviço e o plano de poder, a ilusão criativa e a desilusão pragmática, a identidade e a tentação. Como tal, foi supinamente educativo colher a ambivalência com que falou de Cavaco Silva. E o mais extraordinário, dentro desse extraordinário registo, consistiu nisso da genuína gratidão se saber, em concomitância, maquiavelicamente traída. Falta um coevo Shakespeare para esta tragédia.

Comove-me a transparência deste homem, que é coragem. Comove-me a sua grandeza, que é verdade. Comovo-me pelo falhanço da sua ambição, com o acerto da sua vida.

Que futuro para o pretérito perfeito?

Agora que todos, incluindo bravos ateus e petrificados marxistas, estão submergidos pelo melífluo tsunami consumista do Natal, e ainda menor é a disposição para blogues e seu cortejo de irrelevâncias, parece-me o tempo próprio para partilhar uma raiva cada vez mais quotidiana; e talvez bizarra para a catatónica maioria dos meus patrícios. Trata-se do take over hostil que o presente do indicativo vem fazendo ao pretérito perfeito do mesmo. Posso estar douradamente enganado, sugerindo que o foco da epidemia se situa algures na região do Porto e é corrupção amplificada pelos dirigentes futebolísticos invictos, mas em muito a praga ultrapassa essa fauna e já invade outrora imaculados santuários. A gota de fel foi ter constatado, ontem, que o vírus chegou à TSF, tendo o locutor (jornalista?…) largado um falamos quando o sentido temporal da acção obrigava a um falámos. Uma vez que está em causa a TSF do Fernando Alves, implacável capataz do rigor gramatical da sua equipa (ou assim era, em época não tão distante), é caso para ficarmos apavorados. Fenómenos há assim na oralidade, em que o desvio, de tão frequente, perverte a própria capacidade de discernir a norma. Língua viva, óptimo, mas excesso de vida é letal — ou será que andamos a querer destruir o que andámos oito séculos a criar?

O melhor blogue do mundo

Não apanhei o período da paixão pelos blogues, os anos de 2002 a 2004. Estava de ressaca, anteriores experiências comunitárias na Internet tinham-me já revelado o essencial e o acidental nisto de se comunicar com anónimos através de um teclado. E, talvez por ter começado num outro formato, pouco me fascinou, me fascina, nos blogues.

As leis da selecção natural também se aplicam na blogosfera. Stultorum numerus est infinitus, e nada como a Internet para o comprovarmos. Passado o ciclo da novidade — e exceptuando aqueles que, por variada causa, são militantes do meio ou se sentem obrigados a dar notícia de terceiros — ficamo-nos por um conjunto muito limitado de autores. Olhemos para a listagem de blogues referenciados aqui no Aspirina, por exemplo. A maior parte deles está activa, alguns mantendo um ritmo intenso. Quantos visito regularmente? Dois. Um deles é o melhor blogue do mundo.

O que Pacheco Pereira faz é admirável, sob qualquer ponto de vista. Primeiro, oferece conteúdos intelectualmente superiores num discurso acessível para o leitor médio (tal como faz na imprensa, onde alia o rigor da reflexão à simplicidade da argumentação), expondo a sua erudição e amplitude de interesses sem proselitismo. Depois, usa o meio para servir a comunidade, o que acontece com a publicação de e-cartas, fotos, textos de autor (a surpreendente parceria com Agustina), referências à blogosfera e, muito importante, com a reflexão e crítica da blogosfera enquanto objecto sociológico e ecossistema. Por último, mas cada vez mais longe do fim, a sua produção é constante; assim cumprindo a promessa, inclusa na etimologia, de os blogues serem diários e diários.

Com tudo, talvez o traço que mais me impressiona no Abrupto, e na pessoa que o faz, seja a ausência de cinismo. Há melancolia, sim, inevitável consorte da lucidez, e até essa apenas implícita, mas não há expressão do cinismo. O cinismo é imbecil, e o Abrupto é um dos mais poderosos antídotos contra a estupidificação nacional; logo, água choca para um lado, azeite puríssimo para o outro.

Lendo as suas “Regras Próprias“, não há como evitar a conclusão: eis o melhor blogue do mundo. Do meu mundo, pois claro.

Advérbio ad lib

Não faltam causas, problemas, projectos, escândalos, louvores, denúncias. O facto de já estar tudo dito, e redito, não impede que esteja sempre, e ainda, tudo por dizer. Aproxima-se o dia em que cada indivíduo terá 10 blogues — com um deles em estado de comatosa actividade, um outro, colectivo, aonde irá muito de vez em quando, e os sobrantes como orgulhoso currículo dos serviços prestados. Este será padrão obrigatório, as coisas vão chegar aí. Mas o que importa é que em cada um dos 10 blogues, se detivermos o tempo para ler com atenção, iremos encontrar grandes verdades expostas por esse indivíduo. E essa é que é a verdade, desse grande indivíduo.

No meu caso, o que me inquieta, o que posso erigir como verdade a ser publicitada, e que até poderá ser decisivo para a providência do mundo (como convém), diz respeito ao jornal Público. Acontece eles não terem um corrector ortográfico nos seus computadores, situação que me aflige e põe em risco a integridade da língua portuguesa. A prova foi entregue pelo articulista David Mariano, no suplemento MIL FOLHAS, o tal que é dedicado aos livros e aos escritores. Pois bem, o Sr. Mariano, recenseando uma biografia de Mengele, não foi de modas: no primeiro parágrafo grafa concerteza. O paginador, para que não ficassem dúvidas, compaginou a palavra na transição da quinta para a sexta linha, obtendo con-certeza. E o revisor, se os tiverem, terá abençoado o revisionismo gramatical. Ah!, calhou o episódio no dia 10 de Junho. Acaso? Não seja ingénuo.

É óbvio que a Redacção do Público não tem posses para adquirir o software em causa, tendo recorrido a este estratagema para fintar a Administração e revelar a ignomínia. Solidários, lançamos uma campanha para a oferta de um corrector ortográfico (actualizado) ao jornal do Sr. Belmiro, com licenças em número suficiente para, pelo menos, cobrir os articulistas do suplemento MIL FOLHAS; de todos os cadernos, o mais epistemologicamente carente de cuidados ortográficos. Vamos chamar-lhe Operação Dou Concerteza, e podem enviar os vossos donativos aqui para o Aspirina (que nós tratamos do resto).

Primeiras impressões

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As quais levei comigo, por troca com outras impressões:

Homo Ludens, Johan Huizinga, Edições 70

Às Avessas, Vasco Pulido Valente, Assírio & Alvim

Elogio da Cidade de Lisboa, Damião de Góis, Guimarães

Conto lá voltar, para colher mais impressões. E com Vossas Senhorias, que vos tem impressionado na Feira do Livro?

Gineceu

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Helena Roseta é uma das minhas personalidades políticas favoritas. Foi íntima de muitas figuras que fizeram a nossa História na segunda metade do século XX. Foi uma das fundadoras do Botequim, tinha 24 anos. É arquitecta. É mulher. E sempre que fala parece dizer o que pensa.

Uma das provas de Portugal estar amaldiçoado desde Alcácer-Quibir reside no facto de esta pessoa nunca ter sido Primeira-ministra ou vir a ser Presidenta da República.

Velha Lísbia

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Foi para isto que votei no homem: José Sá Fernandes apresentou uma ideia que é, no seu também simples pragmatismo, um manifesto de amor a Lisboa; e, por extensão, ao meu Portugal sonhado, às cidades por inventar, à História das estórias, à cultura da lógica da batata e da ética dos tomates, ao comércio da praça, ao turismo que envaidece, aos namorados da eterna esperança, às crianças de 90 anos, aos solitários que gostariam de estar sós, aos bem casados para incredulidade dos amigos, aos escrivães de versos banais, aos oradores de improvisos previsíveis, aos que lêem jornais por uma questão de sobrevivência, aos maluquinhos das fotografias, aos que se encantam com passeios de domingo às quartas-feiras, aos que não podem perder as manhãs de Sol, aos que escutam o Tejo a passar na alma, aos que ainda esperam partir nas caravelas, aos profetas da Velha Lísbia, aos que alucinaram e pedem informações, àqueles a quem apetece muito e já e no agora deitarem-se ao comprido num banco sem terem coragem para tal nem para muito menos, aos que passam de carro e juram voltar sabendo que estão a mentir por saberem que estão a jurar, aos que marcam o primeiro encontro num jardim por causa dos pontos de fuga, aos cães sempre aparvalhados, aos pássaros sempre de cabeça no ar, aos gatos sempre a pensarem lá nas coisas deles, a todos os puros de coração que nunca são falados sendo mais do que os outros que nunca estão calados e às minhas pernas.

Trata-se de demolir um acto de ódio a Lisboa, feito nos anos 70 na avenida 24 de Julho, criando no seu lugar um lugar. Para a catarse ser completa e exemplar, o prédio na posse da Direcção-Geral da Administração Pública deveria ser destruído e varrido do mapa pelos lisboetas. Eu iria.

Onde estavas no 25 de Abril de 1986?

Eu estava nas instalações da rádio Nova Antena, algures perto de Loures. Era o tempo da pirataria, um tempo de entusiasmo e aventuras hertznianas. O meu saudoso amigo Hermenegildo Gomes tinha sido convidado para fazer um programa nesse dia, ele que era realizador da RDP. Veio a fazer vários ao longo dos anos e a dar apoio à estação de sortidas formas, incluindo cursos de formação. Se bem o conheço, fez tudo de borla — era de outra geração… Já agora, o Gil teve um papel no 25 de Abril que talvez nunca venha a ser conhecido. Falava disso impante de orgulho, mas só em raras ocasiões de desvario alcoólico, e sem revelar o segredo.

Gravado em mim, dessa noite na Nova Antena, ficou o lamento de alguém que tinha ido fazer um périplo pela região à procura de festejos do 25 de Abril. De volta, disse num misto de estupor e contida raiva: “Não há nada… já ninguém festeja o 25 de Abril…”

O 25 de Abril não inspira artistas, intelectuais, políticos, académicos. O salazarismo também não. A Guerra Colonial, idem. As convulsões da Primeira República, idem. O fim da Monarquia, aspas. A diáspora portuguesa, aspas. Portugal não se conhece, vivemos sem memória. E talvez uma das causas esteja na suavidade da Revolução, o apagamento instantâneo do passado. 40 anos de uma execranda governação que ficaram sem culpados, sem sequer um acto solene de acusação. Começava assim o ciclo que repetia um dos aspectos operativos do regime precedente: a opacidade. Só que desta vez, supremo artifício, uma opacidade democrática onde o inimigo já não tinha rosto. A coberto desse véu, Portugal transformou-se num pardieiro de corruptos que, afinal, vieram substituir os anteriores ou apenas obrigaram à mudança das regras para os restantes. Como se diz noutros lugares, o Diabo é mais poderoso quando nos convence da sua inexistência.

Enquanto não acertarmos contas com o passado, cobrando factos e nomes, continuaremos com o futuro mal-parado.

Alegria pascal

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A 13 de Fevereiro comemorou-se com alguma pompa o centenário do nascimento de Agostinho da Silva. Um mês antes, o Luis Rainha teve a supina amabilidade de me oferecer uma agenda da Imprensa Nacional – Casa da Moeda dedicada ao George de Barca de Alva. Graciosa dádiva? Digamos que fui o providencial salvador dessa peça, de outra forma destinada a um funesto porvir nas mãos de um perigoso esquerdista. É que a Esquerda é alérgica ao Império do Espírito Santo, anticapitalismo oblige. [para os que tiverem dificuldade em detectar ironias, é favor introduzirem ponto e vírgula e parêntese direito no final do parágrafo]

Agostinho da Silva é um daqueles casos onde há de tudo para todos. Começa por não ter doutrina alguma, resultado de uma mescla delas. Quando apareceu como estrela mediática, em finais dos anos 80, o parolismo jornalístico tentou cunhar-lhe o epíteto de “Filósofo”. Seria filósofo porque dizia umas coisas assim a modos de coisa nenhuma, e os jornalistas têm a pragmática clarividência de reconhecer na filosofia a sua intrínseca inutilidade. Por outro lado, com a inflação de romancistas e poetas lusos, o nicho da filosofia pátria estava carente de reforços; até porque Eduardo Lourenço é complexo e taciturno demais para o gasto diário e José Gil ainda não tinha aparecido com um livro que se entendesse à primeira leitura. Com o velhote das barbas brancas era um regalo, toda a gente ficava com a sensação de ter percebido alguma coisa. Finalmente, tínhamos um filósofo para a faixa dos 7 aos 77 anos, fórmula que sempre vendeu bem.

A minha primeira reacção foi de enfado. Considerava a atenção mediática prova suficiente de logro, pois algo de errado tinha de existir para explicar a crescente popularidade. Sim, o povo não se costuma enganar, preferindo invariavelmente a má cópia ao original no que diz respeito ao pensamento. O que ia conhecendo dele, entretanto, só confirmava a intuição: aquilo não era filosofia, era literatura; e bera. Até que calhou ouvi-lo pela rádio e a sua voz deixou-me ver o que as palavras ofuscavam. Isto da voz, já agora, tem muito pouco que se lhe diga — é apenas a parte do corpo onde estamos mais nus.

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Quarta-feira de cinzas

Acabou o carnaval em S. Bento. Segue-se a quaresma cavaquista. A maior vergonha, no episódio da falta de quórum na Assembleia da República, ainda não está à vista. Vamos ter de esperar uns dias. Virá dos chefes dos partidos centrais, Sócrates e Marques Mendes. O que eles não serão capazes de assumir fechará um ciclo. Será o apogeu da decadência partidária, a fulguração suprema da vexante cultura política portuguesa.

119 deputados, por razões diversas, tinham coisas mais importantes para fazer do que estar a votar propostas do Governo relativas a espaços marítimos e a indemnizações a vítimas da criminalidade, entre outras trivialidades. Podemos até supor que a grande maioria dos faltosos estaria tão concentrada nos espaços marítimos que se antecipou à votação e partiu para o terreno. Os políticos preferem estar no terreno, é sabido, especialmente quando ele fica situado em frente aos tais espaços marítimos. Mas a viandante decisão destes impacientes deputados também conseguiu, num golpe de génio, abarcar a temática das indemnizações às vítimas da criminalidade. É que estamos perante um caso em que as vítimas da criminalidade parlamentar atingem dez milhões de indivíduos, o que só acrescenta relevância à proposta que ficou por votar.

A Assembleia esconde um laboratório para a investigação da esquizofrenia. O seu Regulamento impõe ao deputado a participação nas votações; já de si, este um dever patológico quando aplicado a pessoas que foram eleitas, e são pagas, para isso mesmo. Porém, o Estatuto dos Deputados considera que toda e qualquer razão é válida para faltar às votações. Nuno Melo, líder parlamentar do CDS-PP, deu-nos um exemplo paradigmático: a propósito de dois dos seus cinco deputados desaparecidos em combate, disse que se ausentaram para actividades que ele, Nuno Melo, considerou importantes. E assim arrumou a questão com um argumento que alia a beleza da simplicidade com o delírio de grandeza.

A dimensão veramente fascinante na ocorrência é do foro manual. Mãos esquerdas e direitas assinaram folhas de presença. Concluído o exercício caligráfico, enfiaram-se nos bolsos ou pegaram em sacos com toalhas de praia, e ala que se faz tarde. Os nomes inscritos foram deixados ao abandono, privados da dignidade que só as cabeças lhes poderiam garantir. A questão que agora temos de resolver é a seguinte: que fazer com esses nomes que levaram com os pés? Como já não representam os seus outrora legítimos proprietários, entretanto rebaptizados na igreja das Sinecuras e Prebendas, tornaram-se nomes inúteis. Devem ser apagados.

Limpar a fuligem

Também eu, a la Fernando e sem lhe pedir autorização, destaco parte de um comentário de Jorge Carvalheira adentro de um post que já era dele. É um texto delicioso, e bombástico… De caminho, recupero a tradição dos itálicos, de tão boa memória no BdE.

Anónimo, ou Dona E., ou lá o que é:
Assim de chofre V. assustou-me, nessa silhueta altiva de embuçado. A escura capa, o chapéu sobre os olhos, a protestar, ao Fernando, contra um vilão qualquer… Quase o confundi, oculto e misterioso, com umas figuras que antigamente havia, elas também secretas, também de chapéu e capa cintada… Mas depois vi que não. O seu estilo, bem lido, é mais do homem da Sandeman. Ou assim.
Eu só tinha ido ali visitar o blogue, “de viseira aberta” e coração nas mãos, não vi que o quarteirão era seu, desculpe lá!
Mas vamos ver se é possível meter algum rossio nesta acanhada betesga, um par de coisas há-de lá caber.
A primeira é o que V. chama, por erro crasso, choramingueira. Saiba que é raiva. É ira. É fúria, algumas vezes. É frustração e desespero, muitas. V. pode intuir as razões, mas eu vou alinhavar-lhas.
Eu não chamei a terreiro a educação daqueles largos tempos da nossa longa vida colectiva, em que três quartos do país trabalhava de sol a sol sem direito a uns sapatos, a uma camisa, a uma escola (lembra-se deles?), para o quarto restante viver à tripa forra. Para esses tempos nefastos há escusas avulsas, a pedido, foi ele a ditadura, a atribulada república, foram os desleixos da monarquia antiga, a economia fraca, a miséria geral…
Eu falei apenas dos últimos trinta anos, em que tivemos todos liberdade como nunca, de escolher, e de optar, e de decidir da nossa vida. Nunca houve na história de Portugal tanta escola, nem tantos alunos, nem tantos professores, nem tantos livros, nem tanto dinheiro, nem tanta iliteracia, nem tanto analfabeto funcional, nem tão crassa ignorância, nem tamanha ausência de educação. Então qual é agora a desculpa, perguntei eu, numa lógica honesta. E sugeri (sustento) que, não sendo nós piores que outros (salvo o que de nós disse um certo romano, há muito tempo), o busílis poderá estar, entre outros, na história que foi a nossa, e na vida que andámos 500 anos a fazer. Sugeri que não chegaremos à modernidade, nem apresentaremos cara lavada, antes de nos limparmos da fuligem.
É isto uma heresia, bem o sei, para consciências delicadas. Mas o mundo, que não fui eu que fiz, anda aí cheio delas. Senão vá V. perguntá-lo à história, à nossa em particular. Vá com cuidado, não bata a qualquer porta! Não gaste muito tempo com histórias de encartados, os das grandes roupagens oficiais, pelos riscos de conto do vigário. Essas histórias têm por trás a carreira, sabe como é, uma cátedra, a pública consideraçãozinha, o mais certo é adoçarem-lhe esta pílula mais amarga, ou aquela verdade menos cómoda, segundo a antiga ciência do sobreviver. Por isso experimente V. ir à literatura, excelente lugar para refugiados. Puseram-lhe sempre famas de falsa e de fingida, na bem fundada esperança de que o povo não venha a lê-la. Troque-lhes V. as voltas. Esqueça as alamedas épicas e vá por certos becos do Camões, anda por lá muita verdade ostracizada. Bata à porta do Sá de Miranda, que fazia sonetos como quem calceta ruas, ele explica por que se foi ao Minho e mandou os da corte bugiar. Em podendo, passe no Diogo do Couto, não perca por nada o Bernardo Gomes de Brito, espraie-se no Fernão Mendes Pinto, divirta-se com as entrelinhas do Gil Vicente, e vá perguntar ao Buchanan e ao Clenardo de Lovaina, eles lhe dirão o que a Índia, em três tempos, fez de nós.
E se ainda me segue, Dona E., procure outros que eu aqui não citei, que eu nem conheço, mas que andam por aí à sua espera, eles sabem muito bem que só é cego aquele que não quer ver. Havendo empenho seu, eles lhe mostrarão de que maneiras, para sossego do trono e do altar, os poderosos trucidaram sempre os mais sabedores de nós todos, os mais insubmissos e os mais lúcidos, os Damiões de Góis e os Teives humanistas, os Vieiras e os Cavaleiros de Oliveira, os Verneys e os Ribeiros Sanches, mesmo os duros Pombais, quando existiram, os estrangeirados iluministas, os liberais malhados, os republicanos maçons, os socialistas utópicos, os Jesus Caraça e os Azevedos Gomes, os Rodrigues Lapa e os Pulidos Valente, as Marias Lamas e os Jorges de Sena e os Luíses Gomes, que mais sei eu, nem um célebre bispo do Porto escapou.
E se ainda lhe sobrar algum fôlego, perca-o no Saramago dos anos 80, esfalfe-o no Lobo Antunes que já houve, antes de haver um génio. Mas não perca algum Quental, escabiche um bocado no Eça, e no fim vá ler a história alegre do Pinheiro Chagas, que era aquilo que o seu povo merecia. Vá, e indigne-se!
Não sei o que lhe diga sobre as criancinhas da Europa, que há cem anos andavam a trabalhar nas minas. Deus me livre de pensar que na Europa nunca houve exploração do trabalho! O que apenas poderá preocupar-me são aquelas criancinhas que na minha terra ainda hoje o fazem.
Por fim, onde viu apelos à resignação, V. tresleu. Mas não desanime, homem! Vê-se por aí muito pior! E não se ponha assim por baixo das rachas do meu texto, maré de levar para casa o embaraço duma pinga de lirismo, a comprometer-lhe o fato.

Jorge Carvalheira

Preto no branco

Um estudo mostrou como a variedade na pigmentação pode conduzir a decisões mais correctas em casos tão complexos como os das deliberações judiciais. A surpresa dos resultados (ou a falta dela) suscita outras reflexões que ultrapassam o contexto forense. Em particular, permite perguntar: que andamos a fazer com os povos que estão em Portugal?

Cada pessoa é um povo, e seria por aqui que tudo deveria começar. Um angolano tem mais diferenças face a um guineense do que um cabo-verdiano face a um português. Não há nesta observação nenhuma hierarquia, apenas o enfoque na estrutura cultural onde a personalidade se forma. A lupa pode mostrar mais: um angolano de Cabinda tem (ou pode ter) mais diferenças face a um angolano do Moxico do que um moçambicano face a um tanzaniano. Claro que tudo isto é discutível, e ainda bem.

O que não merece discussão é a constatação da inércia lusitana no processo de acolhimento do estrangeiro. Seja loiro ou moreno, escuro ou claro, tratamos as outras nacionalidades em figura de gente com uma desconfiança que se consuma em desprezo. Há causas antropológicas evidentes, pulsionais, que só se transformam com o poder evolutivo do pensamento; mas a nossa sociedade não está servida de um escol que queira alterar a situação. As escolas e os meios de comunicação não levam a que sejamos amorosos daquilo que no outro é diferente. Ficamo-nos pela curiosidade circense e manipuladora. A consequência trágica é que desse modo também nos impedimos de descobrir o que há no outro de semelhante — e até de nosso, por ser exactamente o mesmo em todos.

Os responsáveis principais pelo marasmo são os partidos políticos. Seja porque é aos partidos que é dada a responsabilidade da governação e legislação, seja porque os partidos — sem excepção — cultivam o oportunismo como estratégia de poder. O espectáculo das excursões aos bairros da miséria e marginalidade, em período eleitoral, é uma vergonha a pedir vaias, ovos podres e até uns sopapos. Visitem-se as montras online do PCP e do Bloco, insuspeitos defensores parlamentares dos direitos e condição de vida dos imigrantes, e leia-se o que eles têm para dizer: informação em circuito fechado para cumprir agenda editorial. Não há uma única iniciativa ou ideia relevante para com ela se fazer cultura. No caso do PCP, chega a ser escandaloso descobrir que a notícia mais recente trata de um texto de Jerónimo de Sousa datado de 21 de Dezembro de 2005, aquando de uma visita à Comissão de Moradores da Cova da Moura para tentar sacar uns votos. O Bloco é mais prudente, não datando a maior parte das suas parcas notícias, mas revelando igual falência política e cívica.

Explicar aos infantes que Portugal é uma misturada de heranças, algumas das quais ainda vivas na sua origem — e que por isso um berbere, um árabe e um judeu contemporâneos são nossos antepassados, são família — seria o começo de uma educação verdadeiramente superior.

A gravíssima crise do Aspirina B vista por um franciú

Toda a gente diz que o “meio intelectual”, onde se excomungam à força os virtuosos da reclassificação e desclassificação, apreciação e depreciação, é o mais encantatório de todos. Os profissionais do exagero vão buscar ao poder supremo do Verbo a capacidade sempre renovada de transfigurar o amigo e desfigurar o adversário. Os alucinados que se embriagam com generalizações ligam ainda menos que os outros aos factos, números, objectos, procedimentos, na sua neutra e muito pouco concludente materialidade. Nós, os encantadores do ramerrame quotidiano, na nossa função de mitómanos públicos, somos os delegados das pessoas morais e ficções úteis – Deus, a Pátria, a Revolução, o Rei, o Ocidente, os Direitos do Homem, a Esquerda, a Direita, etc. As lutas pelo domínio, nesta câmara fechada e sonorizada, manifestam-se através de guerras semânticas, com lista de anátemas e devoluções ao remetente, sem outra validação possível além dos decibéis e da superficialidade. Por isso se pode fazer um grande título de jornal a propósito de uma discussão acerca de nada. E com razão: os debaters, em condições de irresponsabilidade óptimas (ruído contra ruído na falta de experiência crucial) podem contar com o nosso prazer feiticeiro de tomar as palavras pelas coisas. É o que mais se ouve em todos os fóruns: a positividade adormece e a polémica desperta. E, no entanto, é impossível atribuir qualquer monopólio aos “agitadores de serviço”, o génio do vazio é o bem da espécie.

Régis Debray, O Fogo Sagrado, (trad. port.) AMBAR, 2005, p. 325