Claramente, o acontecimento que marca a vida política, e a vida do País, durante o ano é a situação de resgate em que caímos. Foi um momento particularmente dramático para o País, como se vê. Creio que nem tudo foi feito para o poder ter evitado, mas creio que foi sem dúvida o acontecimento que marcará a história portuguesa durante os próximos anos ainda. E creio que as lições que todos devemos tirar da situação em que ficámos nos devem também servir para não prolongarmos esta situação indefinidamente. E é preciso que o País se mobilize, justamente nesta fase crítica, para que rapidamente se restabeleça uma situação de normalidade do ponto de vista do financiamento da economia, do Estado, das famílias, que é o problema mais sério com que a sociedade portuguesa se confronta nos próximos anos.
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Uma das formas de manipulação mais comum, porque mais eficaz, consiste em enviar mensagens contraditórias ao mesmo tempo. Por exemplo, alegar que se violenta alguém por amor quando o amor é o critério que evitaria a violência ou a repararia. Defender que a liberdade pode ser perigosa quando é a ausência de liberdade a causa dos maiores perigos. Ou dizer que terceiros são os responsáveis pelas nossas acções negativas, porque nos incomodaram ou não apoiaram, quando isso implica que também outros teriam então de ser responsáveis pelas nossas acções positivas, assim nos anulando como seres com autonomia. O objectivo da contradição é a confusão mental e a subjugação aos interesses de outrem, funcionado pelo desvio da atenção dos elementos racionais numa dada situação para que sejam substituídos pelos mais cegos instintos de filiação e segurança. Quando uma pessoa que habita com outra – seja por anterior escolha de ambos ou laço familiar – justifica o seu comportamento narcísico, ou ameaçador, ou destrutivo, ou tudo isto junto, com um suposto profundo sentimento de afecto pela vítima, está a exercer uma insidiosa agressão que depende da manutenção da perversão semântica para se suster operativa.
O anterior Governo foi alvo de várias campanhas negras, ataques cujo único propósito era a difamação e não a comparação com políticas alternativas, uma delas que tinha em Luís Amado – mas cujo alcance atingia os restantes membros do Governo e do PS sem excepção – o nome ideal para este tipo de manipulação onde a contradição é intencionalmente cultivada como táctica. Depois das eleições de 2009, não sendo possível ao PS estabelecer qualquer acordo com os imbecis do BE e do PCP, a direita partidária apenas tinha de conter a fúria dos seus barões mais ressabiados e garantir a reeleição de Cavaco antes de se lançar no assalto final. Até lá, tratava-se de manter o Governo sob pressão máxima, sugerindo que a qualquer momento cairia. Isso foi feito através das coligações negativas, através das comissões de inquérito parlamentar, através das violações do segredo de justiça numa continuada exploração da golpada de Aveiro, através da ocupação do espaço mediático por sectários e fanáticos da direita e da esquerda, através dos apelos à intervenção do FMI feitos tanto em Portugal como no estrangeiro, e através do confronto aberto que o Presidente da República manteve sempre que foi fazendo declarações. No auge desta estratégia, assistimos a uma farsa na aprovação do Orçamento para 2011, o qual o PSD sabia jamais deixar que se executasse, e assistimos ao supino gozo debochado que consistia em sugerir uma possível coligação de bloco central, ou um Governo de salvação nacional, desde que o PS decapitasse a sua liderança e colocasse lá aqueles que os ranhosos aprovassem: os nomes mais falados iam de António Costa a Francisco Assis, mas o preferido era Luís Amado.


