Quem é que ganhou com o chumbo do PEC IV?

Claramente, o acontecimento que marca a vida política, e a vida do País, durante o ano é a situação de resgate em que caímos. Foi um momento particularmente dramático para o País, como se vê. Creio que nem tudo foi feito para o poder ter evitado, mas creio que foi sem dúvida o acontecimento que marcará a história portuguesa durante os próximos anos ainda. E creio que as lições que todos devemos tirar da situação em que ficámos nos devem também servir para não prolongarmos esta situação indefinidamente. E é preciso que o País se mobilize, justamente nesta fase crítica, para que rapidamente se restabeleça uma situação de normalidade do ponto de vista do financiamento da economia, do Estado, das famílias, que é o problema mais sério com que a sociedade portuguesa se confronta nos próximos anos.

Luís Amado, 23 de Dezembro

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Uma das formas de manipulação mais comum, porque mais eficaz, consiste em enviar mensagens contraditórias ao mesmo tempo. Por exemplo, alegar que se violenta alguém por amor quando o amor é o critério que evitaria a violência ou a repararia. Defender que a liberdade pode ser perigosa quando é a ausência de liberdade a causa dos maiores perigos. Ou dizer que terceiros são os responsáveis pelas nossas acções negativas, porque nos incomodaram ou não apoiaram, quando isso implica que também outros teriam então de ser responsáveis pelas nossas acções positivas, assim nos anulando como seres com autonomia. O objectivo da contradição é a confusão mental e a subjugação aos interesses de outrem, funcionado pelo desvio da atenção dos elementos racionais numa dada situação para que sejam substituídos pelos mais cegos instintos de filiação e segurança. Quando uma pessoa que habita com outra – seja por anterior escolha de ambos ou laço familiar – justifica o seu comportamento narcísico, ou ameaçador, ou destrutivo, ou tudo isto junto, com um suposto profundo sentimento de afecto pela vítima, está a exercer uma insidiosa agressão que depende da manutenção da perversão semântica para se suster operativa.

O anterior Governo foi alvo de várias campanhas negras, ataques cujo único propósito era a difamação e não a comparação com políticas alternativas, uma delas que tinha em Luís Amado – mas cujo alcance atingia os restantes membros do Governo e do PS sem excepção – o nome ideal para este tipo de manipulação onde a contradição é intencionalmente cultivada como táctica. Depois das eleições de 2009, não sendo possível ao PS estabelecer qualquer acordo com os imbecis do BE e do PCP, a direita partidária apenas tinha de conter a fúria dos seus barões mais ressabiados e garantir a reeleição de Cavaco antes de se lançar no assalto final. Até lá, tratava-se de manter o Governo sob pressão máxima, sugerindo que a qualquer momento cairia. Isso foi feito através das coligações negativas, através das comissões de inquérito parlamentar, através das violações do segredo de justiça numa continuada exploração da golpada de Aveiro, através da ocupação do espaço mediático por sectários e fanáticos da direita e da esquerda, através dos apelos à intervenção do FMI feitos tanto em Portugal como no estrangeiro, e através do confronto aberto que o Presidente da República manteve sempre que foi fazendo declarações. No auge desta estratégia, assistimos a uma farsa na aprovação do Orçamento para 2011, o qual o PSD sabia jamais deixar que se executasse, e assistimos ao supino gozo debochado que consistia em sugerir uma possível coligação de bloco central, ou um Governo de salvação nacional, desde que o PS decapitasse a sua liderança e colocasse lá aqueles que os ranhosos aprovassem: os nomes mais falados iam de António Costa a Francisco Assis, mas o preferido era Luís Amado.

Luís Amado, um dos mais discretos ministros até aos inícios de 2010, a partir de certa altura deixou que se vocalizasse a sua preferência por soluções governativas assumidamente centristas que fossem capazes de enfrentar a situação de crise internacional, assim reflectindo pontos de vista que foram imediatamente usados como arma de arremesso contra Sócrates. O ex-ministro dos Negócios Estrangeiro seria então o sinal, ou mesmo a prova, do isolamento e descrédito de Sócrates junto dos seus pares governativos. A lógica era básica e foi igualmente utilizada com Teixeira dos Santos, aproveitando-se qualquer declaração que fizesse referência a uma objectiva dificuldade da situação do País para se fazer um berreiro desmiolado contra o primeiro-ministro, o alvo de todos os alucinados e de todas as alucinações. Eis aqui o esplendor da contradição manipuladora: por um lado, pintava-se Sócrates como o Anticristo, fonte do mal que arrastava a Pátria para o abismo; por outro lado, dizia-se que alguns dos seus mais próximos e antigos colaboradores, tão leais que continuavam a seu lado nos momentos mais difíceis, tinham as condições para fazer exactamente o contrário do que tinham feito até então. Fazia isto algum sentido? Era suposto que o fizesse? Não, nunca. Tratava-se apenas do clímax da estratégia de assassinato de carácter, um espectáculo para deixar passar o tempo até que Belém iniciasse o derrube do Governo.

Amado tem sido uma das figuras do anterior Executivo que tem contribuído, com as suas declarações públicas, para um clima onde impere a racionalidade e o mínimo de concórdia política que permita lidar com as crises internacionais que afectam Portugal. É um dos raros elementos ligados a Sócrates que escapa ao ódio dos direitolas, ao ponto de ser convidado para iniciativas ligadas a entidades da direita. Por isso, exactamente por isso, quando ele diz que o pedido de ajuda externa podia ter sido evitado está a falar de algo da maior importância. Sendo óbvio que o empréstimo de urgência acarretou a queda de um Governo a meio da sua legislatura e a subida ao poder de políticos mentirosos apostados em aumentar a austeridade e a recessão a que já estávamos obrigados pelo acordo com a Troika, conhecer os bastidores do processo político no período que levou ao chumbo do PEC IV é uma necessidade que diz respeito à própria cidadania. Espantosamente, nenhum jornalista investiga o que Amado tem para contar. O País não tem imprensa e isso, em vários sentidos, é ainda pior do que a crise económica para onde fomos empurrados por forças incontroláveis, umas, e evitáveis, outras.

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Pedro Silva Pereira anda a fazer o que a actual liderança do PS não faz, por opções inexplicadas que envergonham os 1 568 168 eleitores que não se deixaram enganar a 5 de Junho de 2011:

Mentir com os dentes todos para “ir além da troika”

“Esta política não tem nada a dizer sobre o futuro”

13 thoughts on “Quem é que ganhou com o chumbo do PEC IV?”

  1. Muito boa análise, Valupi. Espero que a história revele os bastidores da golpada contra Portugal, que teve por finalidade derrubar o regime saído da Revolução dos Cravos. Como muito bem disse Miguel Sousa Tavares, o cinco de Junho 2011 não foi uma mudança de gorverno mas de regime económico. E valeu tudo para a golpada e está a valer tudo para a consolidação do novo regime. A Constituição vale tanto como a Biblia para um cristão que nunca vai à missa. E Seguro é o chefe do PS com que a Direita sempre sonhou: um perfeito sonso, ainda mais que o empalhado PM Coelho.

  2. não poderia ter sido de outra maneira, sem absolvição do bpn e submarinos não haveria garantias que o psd e o cds existissem.

  3. Caro Val,
    tocas na ferida com uma certeza impressionante.
    O caminho que a maioria dos parlamentares de então negaram ao acordo a estabelecer com Bruxelas, nunca saltoiu para as folhas de jornais, nunca foi escalpelizado nas suas consequências, ninguém até à data se preocupou em analisar prováveis consequências, etc., etc., etc..
    No entanto o acordo com a trika substituto (PEC V) já foi remodelado pelo menos duas vezes (PEC VI) e (PEC VII), vai a caminho do seguinte e a maioria parlamentar anda contente, o PS mia, o PCP dá uns assobios e umas pateadas não muito violentas e o BE entretem-se a destruir-se por dentro e nos intervalos manda umas bocas.
    Os casos mediáticos, polémicos oriundos da direita, são por vezes notícias fugazers quando aparecem à tona, mas rapidamente esquecidos e metidos na gaveta, mas bastará algum ex-ministro do anterior governo dar um pum! mais alto ou de olorosidade mais esfuziante e todas as trombetas acordam num infernal e orquestrado hino anti-socrático.
    A Constituição é assassinada, a concertação social é um espetáculo deprimente, o SNS vai a caminho do esgoto, a justiça é o catavento do pensamento justiceiro, a solidariedade é a esmola dos ricos, a segurança passou a ser um espetáculo foleiro e voyeurista, as poupanças são assaltos aos bolsos dos cidadãos, a economia não existe, a gricultura e pescas trata de gravatas e plantio de árvores!!!
    Quanto ao PM, sabemos que é casado, tem filhas a quem dá poucos presentes, usa gravatas horríveis, faz discursos sem nexo e oportunidade, gosta de oferecer enxadas aos desempregados, mandar emigrar quem tanto jeito lhe fez para ser eleito, mnudar de opinião como muda de camisa e rir-se desbragadamente em ocasiões em que, por decoro, não o deveria fazer.
    Nós aqui estamos a assistir a tudo isto. Até um dia!

  4. O que Portugal ganhou com o chumbo do PEC IV? Talvez tempo, segundo a actual doutrina do PS.

    Qual era o limite para o defice deste ano que constava do PEC IV? O que é que o Valupi acha que tal implica?
    Grato pela atenção

  5. Eu não votei em Amado, sou um dos 1.568.168 que votou PS, no PS de Sócrates. O meu voto está a ser usado exatamente ao contrário do que eu queria e por políticos que não quero. Eu comecei a votar PS em 1975 e tenho sido fiel eleitor do partido. Neste momento, com Seguro a liderar, não votava no meu partido. Andam para ali a engonhar e a fingir que fazem oposição, não servem para nada a não ser para a direita fingir que os respeita muito.

  6. Miguel D, o limite para o défice inscrito para o PEC IV era de 4,6. O que tal implicava eram medidas de corte na despesa, como é óbvio. Mas tendo em conta que não há uma única maneira de as alcançar, muito menos não havendo a necessidade de ir mais além, o que está em causa são essas escolhas: quanto cortar onde e como.

  7. É mesmo isso – com o PEC IV ao menos sabia-se quem estava por detrás. Agora vivemos num plano inclinado e ninguém sabe quem decide…

  8. 1ºval: eu tenho outros imbecis e estupidos.. os estupidos do ps que aprovaram a lei do trabalho ha 3 anos com a direita e que aprovaram oiutras tantas coisas com ela,que aprovaram os pecs com a direita, as reformas neoliberais da saude e do trabalho, os aumentos de impostos e congelamentos na 1ºredução do dérice. Imbecis para mim foram os partidos socialistas da europa, que votaram no parlamento europeu a directiva bolkestein e foram cumplices de muitas leis aprovadas pelo partido popular europeu.Socialistas que se tornaram em tecnocratas cinzentos, sim, cinzentos centristas, que da mão de blair aterraram no irak, que aprovaram as reformas neoliberais na alemanha, a tal agenda 2010, que na grécia agravaram a tal situação economica, assim como em espanha.
    Imbecil val, é a tua fingida ausência de ideologia, que não é mais que um centrismo bacoco e social-liberal,que foi castigado pelos cidadãos nos úlçtimos anos

  9. rr, se te queres queixar dos socialistas, sugiro que os procures para dizeres o que lá tiveres para lhes dizer. Comigo estás com azar, pois não sou militante, sequer simpatizante.

  10. Vai dar ao mesmo na tua cabeça. E não sei onde foi que me viste a apoiar as políticas deles nos últimos anos, se calhar andas a espiar-me em casa e eu não fui avisado. O que aqui tens lido da minha autoria são reflexões, e denúncias, relativas ao modo como se faz política em Portugal. Para tua informação, que já foi basto publicada neste blogue, não votei PS em 2005 nem em 2009. E votei em 2011 apenas por uma questão de salvaguarda da democracia, não por adesão programática.

  11. Também eu votei PS pela primeira vez em legislativas em Junho de 2011. Até então só o fizera duas vezes, nas duas últimas autárquicas, em Lisboa. Em rigor, diria antes que não votei PS mas sim Sócrates, pessoa sobre cujos defeitos não tenho, aliás, a mínima ilusão. Sócrates mostrou, porém, sem margem para dúvidas, que era capaz de manter o sangue-frio em situações extremas e que, em tempo de guerra, não desmaiava nem fugia ao primeiro tiro, como o oráculo de Boliqueime, por exemplo. E também que não faria como o general-sargento de Massamá, brilhante estratego que, encarregado de defender uma cidade, a única solução que encontra é dizimar a maioria da população, cortá-la às postas e servi-la em filetes aos poucos felizardos cuja sobrevivência ele elegeu como missão patriótica! E ninguém terá por certo dúvidas de que são extremos e perigosos os tempos que vivemos. Se usasse como bússola apenas o meu próprio umbigo, Sócrates seria com a maior das facilidades meu inimigo de estimação, pela cobertura política que deu, enquanto ministro do Ambiente de Guterres, a irregularidades que me prejudicaram pessoalmente de maneira irremediável. Mas o que é que vocês querem, tenho uma tendência quase doentia para simpatizar com o gajo que está no chão, a levar pontapés de bandos de corajosos vermes que assim se realizam, inflando a merdosa alma com o cretinóide sentido de pertença a uma espécie de missão colectiva de inspiração quase divina! Eles nem percebem bem porque o fazem, mas, se o gajo está no chão e toda a gente lhe dá pontapés, então é isso mesmo que têm de fazer. E vá de molhar a sopa, quem não chuta é traidor à pátria!
    Também eu, Val, não sou militante nem simpatizante do PS e não foi a adesão programática que me levou a votar PS em Junho passado, mas não te acompanho na questão da “salvaguarda da democracia” como motivação do voto. A minha foi mais a de última trincheira contra a sofreguidão obscena dos amigos do pote, contra a completa falta de escrúpulos e de vergonha na cara, contra a caldeirada de cabalinhas em voo rasteiro que usou como combustível exclusivo bílis de 99 octanas para destruir furiosamente o homem e, last but not least, a consciência aguda de mal menor: empalado por empalado, prefiro que quem me empala não chegue ao sádico requinte de forrar o pau com arame farpado!

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