Vinte Linhas 710

Dos semáforos de Telheiras e dos outros sentimentos

Numa das avenidas de Telheiras, uma tarde destas, um longo e agressivo apito logo seguido de uma forte buzinadela atacam um homem negro, meio perdido na cidade e a atravessar fora das passadeiras. Há um anacronismo na cena que parece saída de um filme de Charlot. O africano atravessa a avenida onde lhe parece mais a jeito. No seu país não há semáforos, é tudo a direito. É uma questão cultural; ele não despreza uma realidade que não conhece.

«Olha a passadeira!» – é o mimo que o segundo condutor lhe lança num grito. Não podemos esquecer que Telheiras tem o record de licenciados por metro quadrado em Portugal e talvez na Europa. É uma questão cultural – antes de mais. Por acaso (ou talvez não…) encontro o poeta e professor universitário Fernando J.B. Martinho que, com os poetas e tradutores Pedro Tamen e Armando da Silva Carvalho, integrou o júri da Associação Portuguesa de Escritores que em Janeiro de 1980 atribuiu ao meu original «Iniciais» o prémio «Revelação» em ex-aequo com um livro de Raúl Malaquias Marques. A cor da capa lembra o verde do semáforo.

Ficámos à conversa amena por largo tempo frente à Biblioteca Orlando Ribeiro e só fomos afastados pelo frio cortante daquele fim de tarde em Telheiras. Falamos de um poema seu escrito em Bristol no Eye Hospital mas já no Metro leio um postal de Manuel Freire com o poema de Fernando Pessoa: «Chove. É dia de Natal/Lá para o Norte é melhor/Há a neve que faz mal/E o frio que ainda é pior/E toda a gente é contente/Porque é dia de ficar/Chove no Natal presente/Antes isso que nevar/Pois apesar de ser esse/O Natal da convenção/Quando o corpo me arrefece/Tenho o frio e Natal não/Deixo sentir a quem quadra/E o Natal a quem o fez/Pois se escrevo ainda outra quadra/Fico gelado dos pés».

19 thoughts on “Vinte Linhas 710”

  1. Meu caro José do Carmo (deliciando-me com um Château Lafite que me está a saber pela vida), talvez seja de mim e dos vapores do cabernet sauvignon, mas a verdade é que não vislumbro o essencial da mensagem que o meu caro tão gentilmente partilha com este vasto auditório.

    (observando, olhos semicerrados, copo inclinado a quarenta e cinco graus, a tonalidade deste néctar, e sentindo os últimos vapores vagamente amadeirados)

  2. elementar caro ivanildo, mais uma manifestação narcisista do xico basófias, ganhou o campeonato de iniciados de uma merda qualquer, só priva com a griffe da intelectualidade lusotóina e frequenta tertúlias em telheiras onde fala de poemas feitos no hospital do olho. um vapor abananado a cabaret chauvinista com aromas silvestres a mongo da benedita.

  3. Meu Caro Ivanildo – O essencial da mensagem é o esplendor do acaso mas também uma reflexão sobre as buzinadelas sobre o pobre africano. Onde uns viram desdém eu vi a diferença de cultura, apenas isso.

  4. Meu caro José Francisco (bebendo um gin tónico de fim de tarde), não desejando colocar em causa o intrincado processo de reflexão seguido pelo meu caro, a verdade é que algumas questões pertinentes me são suscitadas. Antes de mais, o apito seguido da buzinadela parece-me confuso para o leitor, a primeira ideia visual que me ocorreu foi um condutor apitando desefreadamente pela janela do seu veículo, de forma a chamar a atenção do imprevidente negro que, não escutando o silvo avisador, foi então brindado com a buzinadela forte. Admito, numa segunda iteração, que o apito a que o meu caro se refere será então a chiadeira provocada pelo atrito dos pneumáticos em contacto com o alcatrão, o que me parece mais verosímil. Admitindo que assim seja, eis que outra questão me é colocada: a relação que o meu caro estabelece entre a inexistência de semáforos no país de origem do indíviduo de raça negra e o aparente desconhecimento da convenção que é o atravessamento na passadeira (pedindo um pouco mais de limão ao barman, um velho amigo). O meu caro concordará que existem passadeiras onde não existem semáforos e vice-versa, pelo que a alegação da inexistência de semáforos para justificar o atravessamento fora da passadeira não colhe.

    Outra dúvida que retenho é o facto de ter sido um segundo condutor a invectivar o infeliz atravessador de rua. O que terá acontecido ao primeiro, o da original presumível chiadeira de pneus e consequente buzinadela? Mais, a que se deverá esta aparente solidariedade entre o primeiro e o segundo condutores?

    Concordará o meu caro (e ainda não cheguei à parte em que afirma ser Telheiras o local de Portugal que apresenta maior densidade de lienciados, eu apostaria na Alameda da Cidade Universitária em dia de queima de fitas), que o que generosamente nos escreve carece de uma segunda e terceira leitura por parte do leitor menos conhecedor da sua escrita (colocando o copo de gin na base, olhando para o relógio Breitling e fazendo contas rápidas sobre a dimensão-tempo, de forma a determinar se terei oportunidade para um segundo gin tónico).

  5. Tom lá oh pueta, agora levas cu Ivanildo que por este téstu prumete. Mas o qué que tavas à espera cum posti destes sem pés nem cabeça e cum toda a cirteza escrito cus primeiros. Afinfa-lhe oh Ivanildo queu cá prefiro o tintú e manco a horas nu rilógio da cuzinha, cumprado pela patro nu chinês.

  6. Lendário Fígado de aço inox, não devias estar ainda no Lafite às três e meia e já a pegar no gin às sete, mas tenho que reconhecer pertinência às tuas considerações, bem como às do anonimo, sempre acutilante e criativo, apesar de hoje não ter levado com o simpático “vai morrer longe, cabresto”, graciosamente lançado pelo católico de esquerda Zé Francisco.

  7. Atenção pessoal!!!

    Não contente com a merda que escreveu no post, servindo-se, sem vergonha, da capa de um livro seu com mais de 20 anos, post onde fala de um pobre africano para caír, como é seu costume, em trocas-baldrocas apenas para se elevar (é preciso ginástica cerebral para chegar a este aprumo de estratégia), acaba mascarado de C.Serra para anunciar a maior novidade para 2012: a entrevista que fez em Janeiro ao Liberto Cruz!

    NÂO PERCAM ESTE CAGANEIRA QUE DÁ VÓMITOS!!!

  8. essa entrevista deve ter sido o prémio de melhor carraça do circulo de leitores no bairro alto, sobravam páginas na edição de janeiro e deram-te o espaço para encheres xóriços na condição de desamparares a loja por uns tempos, dáva mau aspecto andares a roçar as paredes do edifício à espera duma manga para puxar.

  9. eh pá! tive a ver a capa da ler no quiosque e não fala em ti, devem ter escondido a coisa para não afugentar comprador.

  10. Se ao menos o Liberto Cruz nos libertasse desta cruz que temos de gramar e que se chama José do Carmo Francisco!!!

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