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Seguro já merece uma estátua

Este intervalo de poucos dias, só até à moção de confiança, na demência que Passos, Portas e Cavaco despejam caudalosamente na política nacional permite voltar a sovar o PS de Seguro. O que está em causa não é o que o secretário-geral fez e não fez em Verões e Invernos ultrapassados, muito menos os seus dotes carismáticos ou falta deles, antes algo objectivo e actual: a estratégia de liderança da oposição. A situação é tão mais bizarra quanto estamos a falar do mesmo partido que vinha de exercer o poder ao longo de 6 anos e foi obrigado a negociar um empréstimo de emergência nas piores condições possíveis.

Seguro decidiu apagar qualquer referência – vamos repetir: “apagar qualquer referência” – ao contexto que antecedeu a sua tomada do poder no Largo do Rato. Não foi apenas uma desvalorização ou distanciamento do consulado Sócrates, algo que seria absolutamente legítimo e até previsível, tratou-se foi de uma verdadeira purga que vinha acompanhada de um angelismo fundador. Com ele, o PS iria libertar-se da peçonha que o corroía por dentro e, nesse balanço, salvar a Nação que agonizava nas mãos da corrupção de todos menos do António José. Aquando da crise gerada pela eventualidade do avanço de Costa contra Seguro, vimos como essa pulsão revanchista está inscrita nos elementos da sua direcção. E nestes dois anos tem sido penoso e degradante assistir aos silêncios cúmplices de Seguro perante os insultos com que o PSD e o CDS não se cansaram de causticar os socialistas em todas as sessões parlamentares. Espectáculo vexante até para quem não é nem quer ser do PS.

Mas é na relação com um Governo de incompetentes e de irresponsáveis que a liderança de Seguro se constitui como gravemente danosa para o País. De facto, esta legislatura iria ser a da Troika, pelo que seria sempre obrigatório começar por definir a postura face ao acordo original. Da parte da direita, o Memorando foi não só desejado como aclamado. Diziam que era a receita para os problemas nacionais, que já devia ter chegado há muito e Passos chegou a declarar que as medidas do PSD seriam as mesmas caso ele não existisse. Qual deveria ser a posição do PS? Figuras como Sócrates, Teixeira dos Santos, Augusto Santos Silva e Pedro Silva Pereira deixaram-na de modo lapidar: quem tinha aberto a crise tinha de ser responsabilizado pelas suas consequências. Ora, as consequências revelaram-se catastróficas, pois em cima de um resgate já de si penoso para a população, a entrega do comando a Vítor Gaspar arruinou por completo o tecido económico das pequenas e médias empresas e agravou colossalmente a crise financeira e social. Estes resultados não são apenas negativos em si mesmos, acresce à violência que se abateu sobre os portugueses o escândalo das condições em que foi possível ter estes decisores a desgovernar Portugal.

Entende-se facilmente a razão pela qual o PCP e o BE não atacam a direita por ter aberto a crise em Março de 2011. E recordar o que disseram esses partidos ao tempo será o equivalente a visionar uma cerimónia das seitas apocalípticas. Mas testemunhar a passividade do PS perante a impunidade de quem fez o mal e faz a caramunha é grotesco. Seguro mostrou que a história do partido é coisa inferior à história da sua peculiaríssima ambição pessoal. E, por conceber o partido à imagem e semelhança da sua megalomania, tem levado a que o PS não consiga convencer o eleitorado a querer uma mudança de Governo. Este feito, sinceramente, merece uma estátua.

Concordar no essencial, discordar substantivamente

Marina Costa Lobo é uma cientista política que se caracteriza pelo zelo metodológico e por uma corajosa honestidade intelectual. No auge da campanha para derrubar o Governo em 2011, foi das raríssimas vozes que alertaram para a desgraça que se seguiria caso Cavaco e PSD abdicassem da defesa do interesse nacional: A resistência de Sócrates serve Portugal

Eduardo Paz Ferreira, para além da carreira académica ilustre e da intervenção cívica exemplar, é um cinéfilo apaixonado e um fordiano de alma e coração. Em Março deste ano, sem saber o que me esperava tamanha a distracção, fui à Cinemateca ver o THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALANCE. Tratava-se do ciclo UMA QUESTÃO DE CARÁCTER e o Eduardo fez a apresentação da obra. Quem não é fordiano não o pode saber, mas o que está em causa nesta vocação é da ordem da metanóia. Ford, em cada um dos seus filmes, repete igual chamamento: sê grande, vence o mundo.

Estas duas simpaticíssimas personalidades aparecem neste debate a concordarem no essencial e a discordarem substantivamente. Representam a multiplicidade das posições ao centro, espaço da suprema inteligência política por ser o mais abrangente e complexo. No centro pode ser-se de direita ou de esquerda, contra ou a favor da Troika, da Europa e da Atlântida, apoiar este desgoverno ou pedir a sua demissão para anteontem. Pode ser-se tudo o que se queira, menos sectário ou pulha – ou seja, ser tudo menos ser estúpido. É por aqui que vamos.

Isso não se faz ao reformado, Pedro

Maria Luís Albuquerque, secretária de Estado do Tesouro, voltou hoje a garantir que na altura em que entrou de Governo não foi informada sobre as swaps.

“Na pasta de transição entre mim e o anterior secretário de Estado do Tesouro, Carlos Costa Pina, não constava nada sobre as swaps. Mantenho o que disse na audição parlamentar”, disse na primeira conferência de imprensa que o Governo resolveu começar a fazer diariamente.

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O ex-ministro das Finanças Fernando Teixeira dos Santos garantiu este sábado ter informado o seu sucessor, Vítor Gaspar, de “toda a informação necessária” sobre os contratos swap envolvendo empresas públicas em reunião a 18 de Junho de 2011.

A actual ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, teve conhecimento sobre o caso dos swaps quando tomou posse como secretária de Estado do Tesouro, em Junho de 2011, e até mostrou uma “preocupação especial” com a situação da Metro do Porto, garantiu nesta terça-feira no Parlamento o seu antecessor, Carlos Costa Pina.

O antigo director-geral do Tesouro Pedro Rodrigues Felício disse nesta terça-feira que falou com Maria Luís Albuquerque sobre swaps aquando da tomada de posse como secretária de Estado, tendo-lhe enviado no dia seguinte um “ponto da situação”.

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“O primeiro-ministro deu-me a garantia de que sobre Maria Luís Albuquerque não pesa” qualquer coisa menos correcta, afirmou o Presidente da República. Cavaco Silva não critica a escolha de Pedro Passos Coelho, já que se o primeiro-ministro considera bem não será ele a dizer o contrário, justificou.

Ainda teremos saudades desta direita

Em matérias de salubridade da acção política, não se aplica o cliché com que os homens do futebol racionalizam a depauperação dos plantéis. Neste Portugal, quem não está faz mesmo muita falta. Porque muito nos falta. E porque não parece haver quem nos valha.

Repare-se como foi possível ver Cavaco, no desfecho da palhaçada em que embrulhou o Governo e os partidos, a pavonear-se como o messias da “cultura política de compromisso” sem que, concomitantemente, o Sol se tenha apagado ao meio-dia e um estrondo cavernoso tenha percorrido cidades, estradas, parques de campismo e baldios. O fulano que a partir de meados de 2008 tudo fez para destruir qualquer possibilidade de compromisso entre o PS e o PSD lançando-se numa estratégia de difamação e ataques de carácter em que sugeria abertamente que o Governo socialista mentia aos portugueses e era corrupto, o beltrano que enganou o eleitorado e violou a Constituição, o sicrano que abriu uma crise política com a intenção de entregar o País aos credores internacionais e levar uma direita de pulhas ao poder, é o sonso-mor que trata os cidadãos como servos da gleba. Eis a única coerência que dá conta da oportunista e cínica variedade dos seus critérios.

Não há dúvidas, não há hesitações. Cavaco é a figura maior da direita após o 25 de Abril. Tutela e simboliza um modo de fazer política caracterizado por uma singela regra: vale tudo desde que não sejas apanhado. A regra vem com esta adenda: mesmo que sejas apanhado, continua tudo a valer a pena. Por isso a indústria da calúnia, as campanhas negras e as conspirações são o arsenal utilizado preferencialmente pela oligarquia – e tão mais e ferozmente utilizado quão mais forte for o adversário.

Será que a direita portuguesa está condenada a esta decadência? A avaliar pelo que se vê nas juventudes partidárias do PSD e CDS, ainda teremos saudades da actual miséria.

Sondemos

Cavaco tem toda a razão

Os indicadores conhecidos são claros. Portugal vive uma situação de emergência económica e financeira, que é já, também, uma situação de emergência social, como tem sido amplamente reconhecido.

Neste contexto difícil, impõe-se ao Presidente da República que contribua para a definição de linhas de orientação e de rumos para a economia nacional que permitam responder às dificuldades do presente e encarar com esperança os desafios do futuro.

A nossa sociedade não pode continuar adormecida perante os desafios que o futuro lhe coloca. É necessário que um sobressalto cívico faça despertar os Portugueses para a necessidade de uma sociedade civil forte, dinâmica e, sobretudo, mais autónoma perante os poderes públicos.

É altura dos Portugueses despertarem da letargia em que têm vivido e perceberem claramente que só uma grande mobilização da sociedade civil permitirá garantir um rumo de futuro para a legítima ambição de nos aproximarmos do nível de desenvolvimento dos países mais avançados da União Europeia.

Muitos dos nossos agentes políticos não conhecem o país real, só conhecem um país virtual e mediático. Precisamos de uma política humana, orientada para as pessoas concretas, para famílias inteiras que enfrentam privações absolutamente inadmissíveis num país europeu do século XXI. Precisamos de um combate firme às desigualdades e à pobreza que corroem a nossa unidade como povo. Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.

Os Portugueses não são uma estatística abstracta. Os Portugueses são pessoas que querem trabalhar, que aspiram a uma vida melhor para si e para os seus filhos. Numa República social e inclusiva, há que dar voz aos que não têm voz.

Foi especialmente a pensar nos jovens que decidi recandidatar-me à Presidência da República. A eles dediquei a vitória que os Portugueses me deram. Agora, no momento em que tomo posse como Presidente da República, faço um vibrante apelo aos jovens de Portugal: ajudem o vosso País!

Façam ouvir a vossa voz. Este é o vosso tempo. Mostrem a todos que é possível viver num País mais justo e mais desenvolvido, com uma cultura cívica e política mais sadia, mais limpa, mais digna. Mostrem às outras gerações que não se acomodam nem se resignam.

Palavra de Sua Excelência

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À espera

Cavaco é aquele ser que anda na política ao mais alto nível desde finais dos anos 70, que se rodeou de uma matilha de escroques quando foi primeiro-ministro, que continuou intima e politicamente ligado a eles mesmo já sendo Presidente da República, que alinhou com o PSD uma estratégia de combate ao Governo socialista assim que Manuela Ferreira Leite se tornou líder do partido, que lançou ou encobriu uma conspiração mediática para perverter actos eleitorais contra o PS, que deixou o PS formar um Governo minoritário em 2009 porque era essa a melhor forma de enfraquecer os socialistas e garantir a reeleição, que fez uma campanha eleitoral para a reeleição prometendo estabilidade e agitando o fantasma dos mercados mas no acto solene da tomada de posse lançou a maior crise política das últimas décadas, que tudo fez ao nada fazer para que Portugal fosse obrigado a pedir um resgate e a negociar o Memorando nas piores condições possíveis, que deixou Gaspar impor um plano desmiolado que tem destruído a economia, que deixou Passos governar como se continuasse na JSD, que não zela pelo cumprimento da Constituição e que quando o faz consegue agravar ainda mais a situação como aconteceu ao não ter pedido a fiscalização preventiva do Orçamento para 2013, que resolveu tornar-se parte da coligação governativa assim abdicando do seu papel de árbitro do regime, que somou ao caos governativo o caos presidencial não dissolvendo o Parlamento e pedindo um acordo impossível mesmo que algo tivesse ficado acordado, que alimenta um populismo ora larvar ora obsceno onde a política partidária surge como alvo do seu desprezo e nojo.

Parece que os cidadãos não se indignam, sequer se incomodam, com a continuidade deste ser no cargo de Presidente da República. No Portugal que amo, porém, o ser teria um mar de portugueses em frente do Palácio. Em silêncio. À espera.

Assim se vê

Comunistas e bloquistas já se reuniram algumas vezes com vista a formarem uma muralha d’aço. Por exemplo, algures antes das eleições de 2011 tiveram um desses encontros. Durou à volta de uma hora, talvez menos.

A explicação para a morosidade em chegarem a acordo para a salvação dos trabalhadores e do povo é singela: comunistas e bloquistas não confiam em ninguém de fora das tribos respectivas, não se gramam e, se pudessem, riscavam-se uns aos outros do mapa numa pulsão fratricida. Eis outra forma de traduzir este sentimento:

«A convergência de que falamos é uma convergência política. Cada partido tem o seu espaço de intervenção, ação e mobilização. Com essa quota de responsabilidade, vamos voltar-nos a encontrar no futuro para essa convergência e materializá-la. Cada partido agirá por si porque convergência não significa coligação», disse o secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa, numa visita inédita à sede bloquista.

A coordenadora do BE Catarina Martins sublinhou tratarem-se de «partidos diferentes que têm identidades próprias, públicas e reconhecidas», embora concordando na urgência da demissão do Governo, dissolução da Assembleia da República e convocação de eleições legislativas antecipadas.

Fonte

Os proprietários da esquerda pura e verdadeira nem sequer entre si se conseguem entender, quanto mais conviver. O PCP jamais abdicará do controlo sindical que lhe garante uma posição inamovível no regime. E o BE é aquela coisa que Louçã alucinava poder roubar o eleitorado ao PS para então conseguir vergar os comunistas à sua napoleónica liderança. Fodido. Maneiras que eles querem é saltar para os órgãos de comunicação social dominados pelo imperialismo capitalista e libertarem toda a energia revolucionária acumulada a malhar no PS – o qual será um partido de direita muito mau por insistir em respeitar a sua identidade democrática e por não lhes fazer a sectária vontade.

Na Ilha da Páscoa, consta, os nativos também conseguiram destruir o ecossistema porque continuaram a cortar árvores para suportar a construção das suas majestosas estátuas. Até que se foi a última, já a passarada tinha debandado há muito. Deram cabo da sua cultura e da sua vida, mas hoje a ilha oferece postais maravilhosos. Assim se vê a força da imbecilidade.

Lucy in the Sky with Diamonds

O Presidente do PSD e primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, abriu esta noite a reunião do Conselho Nacional do partido dizendo que os sociais-democratas são a força política com mais sentido institucional em Portugal.

“O PSD é hoje, indubitavelmente, a força política que mais serenidade, estabilidade e sentido institucional tem mostrado aos portugueses”, afirmou Passos Coelho perante os conselheiros nacionais do partido.

Na reunião de hoje do órgão máximo do PSD entre congressos, e a título excepcional, a intervenção inicial do presidente do partido foi aberta à comunicação social.

Fonte

Calma

Se o PSD tivesse optado por uma via de conciliação e defesa do interesse nacional – sendo isto não mais do que reconhecer que a crise de 2008 não foi um “abalozinho” – em vez da estratégia da terra queimada e dos ataques de carácter com que empestou o espaço público, se calhar os resultados das eleições de 2009 teriam sido muito mais favoráveis para Manela e Pacheco. E, nesse clima de respeito mínimo e decência máxima, não se teria visto a degradação da situação política nacional decorrente da inevitabilidade de o PS ficar a governar sem maioria absoluta quando a crise das dívidas soberanas rebenta. Calculem-se as perdas que se evitariam.

O tópico do consenso só não interessa a sectários e a trafulhas. Para quem olha para a política apenas a partir dos seus rendimentos, ou falta deles, o consenso que permite a melhor governação possível é o bem mais precioso. Dito isto, os consensos não são todos iguais e têm de ser avaliados com muita calma.

A arte de enganar o patego

Aparentemente, é apenas mais um número de alguém que ganha a vida a mentir, seja por irremediável estupidez ou por mero proveito. Atente-se como o jornalista, dito especialista em economia e política e também em economia política, repete a falácia populista de o Estado português ter tido de chamar a Troika para pagar salários, assim se encontrando a prova da bancarrota que o despesismo incontinente de Sócrates teria causado. Esta deturpação básica foi martelada vezes sem conta na comunicação social por políticos profissionais, comentadores e jornalistas engajados – mas o que surpreendeu, e continua a surpreender, é a bizarra incapacidade do PS para a anular. Esquecendo a vergonhosa postura de Seguro perante tudo o que diga respeito aos anteriores dois Governos socialistas e suas peripécias, só mais de dois anos depois ouvimos Teixeira dos Santos lembrar que as suas palavras foram proferidas depois do chumbo do PEC 4 e do sequente agravamento das condições de financiamento, não se podendo todavia concluir delas que não havia dinheiro e muito menos que não havia dinheiro por causa de quaisquer despesas anteriores. José Gomes Ferreira apaga esse contexto e ufana-se, em modo de bazófia chunga, por ser um dos protagonistas da pulhice com que esta direita faz aquilo a que chama “política”.

A exibição de miséria intelectual e moral deste artista da SIC é que contém a lição a recolher.

Com este vestido preto, nunca me comprometo

Cavaco Silva não se limitou a assistir inerte ao chumbo do PEC 4, passividade que por si só já seria violadora da sua responsabilidade presidencial tamanha a gravidade da situação, ele foi ainda – e principalmente – um dos instigadores desse momento que arrastou o País para o Governo do casal Passos-Relvas, os quais estavam unicamente interessados em alienar a soberania a troco do usufruto do poder de forma cobarde, arrivista e impenitente. Ora, se Cavaco tivesse querido, o PSD viabilizaria o acordo alcançado pelo Governo socialista com a Europa e as eleições seriam marcadas adentro desse contexto protector, provavelmente em Setembro de 2011. Ou, se Cavaco tivesse querido, tal como Sócrates também queria, o País testemunharia um acordo de regime entre o PS e o PSD, pelo menos, de modo a conseguir navegar através da tempestade perfeita que se abatia sobre nós desde começos de 2010. Em vez disso, vimos uma pequena aldeia de irredutíveis lúcidos a clamar por mero bom senso a ficar cercada por legiões e legiões de ululantes adeptos das eleições, aqui com a esquerda pura e verdadeira à cabeça, e fanáticos da chegada dos senhores estrangeiros para meterem na ordem os indígenas, aqui com os direitolas e os broncos a mandarem cartolas e foguetes pelos ares.

O nosso sistema político tinha os recursos para evitar o erro suicida que consistiu em trocar um mau acordo por um péssimo acordo, logo depois transformado em impossível acordo. O PEC 4 era mau porque a receita era má, mas não se podia escapar a ela e permanecer na Zona Euro. O Memorando era péssimo mas não era obrigatório. E as alterações ao acordo de resgate, que o actual Governo decidiu fazer a cada avaliação, afundaram Portugal na maior crise económica e social desde o 25 de Abril. Imaginemos, pois, um cenário alternativo. Que teriam feito Eanes, Soares ou Sampaio caso estivessem em Belém face a situação análoga? Ou imaginemos, por mais improvável que seja, que a Presidência estava na mão de figuras do calibre de um Adriano Moreira, de uma Teresa Patrício Gouveia, de um Guilherme de Oliveira Martins ou de um Carvalho da Silva? Ou ainda, pura e simplesmente, que teria feito qualquer outro fulano que não se chamasse Aníbal António Cavaco Silva? O que se passou em Portugal em Março de 2011 exigiu a vontade concertada dos diferentes poderes que constituem a direita nacional e correspondeu a um golpe de grande ousadia e estouvado risco. A corda ia mesmo romper, puxada pelo Presidente da República e pelo Parlamento, cada órgão a fazer força na sua extremidade e recorrendo ao extremismo de prejudicar todo o País nessa maquinação.

Porém, contudo, todavia, o que de mais extraordinário e significativo aconteceu na comunidade que somos não data dos idos de Março de 2011, pese a espectacularidade e consequência desses eventos, mas de Agosto e Setembro de 2009. O espantoso facto de se ter lançado uma conspiração escabrosa a partir da Casa Civil contra o Governo, o partido maioritário e o primeiro-ministro, recorrendo-se a um órgão de imprensa e estando-se a semanas de eleições legislativas, conspiração essa que foi assumida oficialmente pelo Presidente da República depois de ter sido denunciada e desmontada, conseguiu ser ultrapassado em espanto incomensurável quando se revelou uma sociedade conivente com a Inventona das Escutas. E se o silêncio do PS ao tempo se pode justificar pelo sentido de Estado e mera prudência que pediam estoicismo a quem governava e se vê logo depois a ter de continuar a governar mas em minoria, já o silêncio das figuras de referência do regime, mais o silêncio da esquerda, expõem um país que não se respeita. Um país de biltres.

Estamos agora, outra vez, com os ouvidos cheios dos valentões da esquerda do “com este vestido preto” a berrar contra o PS, o centrão, as décadas de miséria e roubalheira que eles foram registando em placas de mármore. Nada lhes dá mais alegria de viver do que a caça aos socialistas, qual luta contra a direita qual quê. Combater a direita é assim a modos que arriscado. E aborrece. Já a intenção de pegar fogo ao PS é um sonho lindo que não comporta risco nenhum e garante medalhas e taças. Eis a supina vantagem do maniqueísmo, a melíflua alucinação de reduzir a História aos limites do bestunto.