Concordar no essencial, discordar substantivamente

Marina Costa Lobo é uma cientista política que se caracteriza pelo zelo metodológico e por uma corajosa honestidade intelectual. No auge da campanha para derrubar o Governo em 2011, foi das raríssimas vozes que alertaram para a desgraça que se seguiria caso Cavaco e PSD abdicassem da defesa do interesse nacional: A resistência de Sócrates serve Portugal

Eduardo Paz Ferreira, para além da carreira académica ilustre e da intervenção cívica exemplar, é um cinéfilo apaixonado e um fordiano de alma e coração. Em Março deste ano, sem saber o que me esperava tamanha a distracção, fui à Cinemateca ver o THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALANCE. Tratava-se do ciclo UMA QUESTÃO DE CARÁCTER e o Eduardo fez a apresentação da obra. Quem não é fordiano não o pode saber, mas o que está em causa nesta vocação é da ordem da metanóia. Ford, em cada um dos seus filmes, repete igual chamamento: sê grande, vence o mundo.

Estas duas simpaticíssimas personalidades aparecem neste debate a concordarem no essencial e a discordarem substantivamente. Representam a multiplicidade das posições ao centro, espaço da suprema inteligência política por ser o mais abrangente e complexo. No centro pode ser-se de direita ou de esquerda, contra ou a favor da Troika, da Europa e da Atlântida, apoiar este desgoverno ou pedir a sua demissão para anteontem. Pode ser-se tudo o que se queira, menos sectário ou pulha – ou seja, ser tudo menos ser estúpido. É por aqui que vamos.

51 thoughts on “Concordar no essencial, discordar substantivamente”

  1. O Centro político, esta nulidade epistemológica aqui pintada de gnose política. Ó zéquinha, ao afirmares que esta inexistência política é um apanágio da suprema inteligência estás a ser, comprovadamente, um sectário ou um pulha. E os outros é que são as bestas?

  2. Segundo este tratado de segunda categoria, ser-se um cata-vento político é espelhar inteligência. É o político quântico. Ser e não ser, estar e não estar, direita e esquerda, tudo é, de uma forma quântica, politicamente “centrista”. Ai, Portas, tanto me ensinas.

  3. quem criou o centro politico foi o pc e a extrema esquerda,ao empurrar desde o inicio da democracia o ps para a direita com a politica de terror a que chamamos prec.esta politica atirou para os braços da direita milhares de trabalhadores que não tinham nenhum motivo para navegar naquelas aguas.pode o pais cair na miseria,mas um regime comunista nunca disso tirará grande partido como se tem visto,enquanto o povo tiver memoria! a prova do que estou a dizer,são os resultados eleitorais de quem oferece o melhor dos mundos durante o ano e em eleiçoes aos portuguesespois estão-se cagando para os “zés” destes pais!tinha graça sermos o primeiro pais a desenterrar o socialismo do enterrado alvaro cunhal,para não irmos a outras paragens!

  4. Caro Zé, tenho para mim que, ser democrata pressupõe ouvir as posições contrárias, pelo menos quando elas são assumidas com franqueza e, no caso, com inteligência. A troca de argumentos assumidos no curto debate relatado pelo Val, parece-me ser um dos casos em que se deve tentar perceber os fundamentos de cada uma das posições porque transmitidas com honestidade e qualidade intelectual. Coisas que, como sabemos, nem sempre andam juntas.
    É claro que os “taxistas” e outros populistas de direita e, bem assim, os donos da esquerda “verdadeira”, por falta evidente de cultura democrática, em vez de procurarem entender os argumentos, tendem a adjectivar sem discutir as questões em concreto.

  5. exactissimamente, e o facto de a mudança de opinião coincidir com ter sido contratada pelo pingo doce é pura coincidência

  6. lottaluv,concordo consigo.gosto de marina costa lobo,mas no debate chegou tal como a direita atrasada ao consenso!

  7. e estúpidos são os que lhe chamam, à via do meio, a impossibilidade política prática, a tal atitude apolítica que é tão inverosímil como o ser independente: um paradoxo inultrapassável, já que a heurística – decorrente da experiência e cognição do cidadão – tende sempre para a esquerda ou para a direita, sustentam. na verdade a metanóia só cabe mesmo no meio por ser lá que avaliamos e sentimos – pensando -, e pensamos – sentindo-, e organizamos.

  8. A questão não é ser do centro (o que é isso?) de esquerda ou de direita.
    A questão é ter princípios, ética, rigor e transparência, que são coisas que faltam na sociedade portuguesa (à esquerda, ao centro e à direita).
    O Liberty Vance era um homem de princípios. Já quem o matou, era um pistoleiro-mercenário. Nenhum deles era do centro…

  9. Compreendo que seja uma ideia que custa a entender, mas há que a repetir: no centro, pode ser-se de esquerda ou de direita. E porquê? Porque ser-se de direita ou de esquerda não corresponde a uma qualquer simplista ideologia. Quantas esquerdas e direitas são possíveis de conceber, algumas das quais completamente antagónicas entre si? Logo, o centro não é um espaço de exclusão de adversários por razões de identidade ou tribalismo. O centro, este de que falo, é o espaço do encontro e do acordo entre adversários, isso sim.

  10. Muito mais importante do que esta conversa de chacha inútil sobre a lateralidade, é apontar o lapso de Eduardo Paz Ferreira, que situa a tal carta de Manuel Laranjeira a Miguel de Unamuno em… 2007!

    Claro que só pode ser em 1907 (cem anos antes!), embora numa consulta rápida à “wikiki” se “aprenda” que Manuel Laranjeira conheceu Unamuno em Espinho, no ano de 1908 (?)…

    Quem puder, que nos esclareça…

  11. “Compreendo que seja uma ideia que custa a entender, mas há que a repetir: no centro, pode ser-se de esquerda ou de direita.”

    na esquerda ou direita tamém se pode ser de esquerda, centro ou direita, portanto cada vez que dividimos, estamos a multiplicar. de paleio é fácil, no dia-a-dia conta mais o preço dos melões.

  12. Ao considerar o centro político o … espaço da suprema inteligência política por ser o mais abrangente e complexo é ser-se sectário ou pulha, palavras do autor. Ao dar a este espaço político que não existe (utopia?) o qualificativo da suprema inteligência, implicitamente menosprezando os restantes sectores, é ser-se puramente sectário/partidário. É ter um visão estreia da complexidade política, que extrapola o centro menorizando os demais.

    É simples notar a dificuldade em compreender porque é contraditório aclamar o sectarismo do centro (o albergue da suprema inteligência política) ao mesmo tempo que define que ele não alberga sectários. Mas já percebemos o mote: ser sectário e não ser, ser de direita e não ser, ser a favor e não ser, etc.

  13. ignatz, és sábio.
    __

    Zé, tens algumas dificuldades com os conceitos de sectarismo e de pulhice. O teu problema nasce de pensares que o centro é uma categoria concorrente com as de esquerda e direita. Ora, não é de um centro assim que falo, mas antes de uma dimensão política onde ocorre o diálogo, a negociação e o acordo.

    Obviamente, para quem conceber a política como algo que não admite diálogo, negociação e acordo, o centro não existe.

  14. Chefe, tu lá sabes se este é o ponto “decisivo”. Eu só achei que no “espaço da suprema inteligência política”, ou o que quer que seja – mas inteligência -, deixar passar em claro um lapso factual de cem anos era importante.

    Se não te interessa para nada, siga para Bingo a conversa de chacha.

  15. Há dias assim;Os Rios Nascem No Mar,A Terra Gira Em Volta Do Sol,Os Porcos Voam,O Machete,Defende O Ladrão,Porque O Culpado Do Roubo É A Podridão Na Qual Continua A Banhar-se Diariamente Dispensando Shampoo e Sabonete E A Esquerda E Direita (Princípios e Valores)São A Mesma Coisa,Porque Entretanto,Acabaram O Capital E O Trabalho E Tudo Quanto Lhes Está Subjacente Ou Implícito No Que A interesses E Poder Diz Respeito.Que Falta Me Fazes Viegas!!!

  16. Não vi “centro” nenhum neste debate. Vi a Dra. Marina Costa Lobo defender o consenso em torno da austeridade e que o contrário seria irrealista. Portanto, o mesmo discurso da direita, do governo, do PR da maioria dos comentadores e jornaleiros e dos empresários. E vi o Dr. Eduardo Paz Ferreira defender que o consenso só faz sentido em torno da ideia de renegociar o memorando, de abrir perspectivas de desenvolvimento, de assumir a soberania do país perante os credores. Que é o discurso da esquerda, do PS, dos sindicatos, dos pensadores e comentadores de esquerda e também do PCP e do BE, evidentemente com diferenças de “intensidade” mas no mesmo sentido. A diferença é que há um respeito mútuo e uma qualidade intelectual que é rara nos debates partidários ou entre governo e oposição. Mas isso não tem que ver com esquerdas e direitas mas antes com o facto das forças políticas e institucionais não discutirem em torno de ideias mas antes fazerem propaganda em torno de interesses privados, pessoais ou empresariais. Tem a ver com o facto de o país estar podre de cima a baixo. Roído pela corrupção e pela propaganda antidemocrática que grassa por toda a parte. Tem a ver com o facto de o empobrecimento não ser regenerador mas antes atirar cada um para o salve-se quem puder com o estímulo que isso provoca nos instintos mais básicos do ser humano. Enquanto a crise fôr encarada como uma guerra social não há diálogo possível.

  17. Lamento não concordar.

    O Centro existe, sim, como espaço definido na Política – isso é inquestionável -, mas não deve é ser entendido como o espaço da Virtude política.

    A Virtude é “espacialmente” neutra. No plano moral, ou ético, estar situado à Esquerda, à Direita, ou ao Centro é perfeitamente indiferente. A diferença é apenas política, filosófica, ou ideológica.

    A única diferença de carácter (vagamente) moral entre o Centro e as laterais é que, ao contrário destas, o Centro não tem Extremo, ou seja, é um espaço que por definição rejeita o sectarismo e o radicalismo e admite mais o diálogo e a tolerância. Mas apenas isso.

    E parece-me que é neste sentido que quer apontar o texto, embora esta mensagem fique algo obscurecida quando se introduzem as noções de “suprema inteligência política”, de “abrangência e complexidade”, de “pulhice” e de “estupidez”. Que, evidentemente, não são apanágio, nem exclusivo, da Esquerda, do Centro, ou da Direita…

  18. O centro pode ser qualquer coisa que se queira, posto que é um conceito cuja semântica depende dos seus utilizadores. Logo, tanto para o negar como para o afirmar, devemos começar por o definir.

    No meu caso, a definição não é ideológica, mas cívica. É por isso que esta conversa ilustra a ideia em causa: duas pessoas que discordam ao ponto de poderem ser rotuladas como estando uma na direita e outra na esquerda, ainda assim podem estar de acordo em relação ao essencial. Deste acordo pode, então, nascer a melhor decisão política.

    Assim definido, o centro é superior em complexidade às posições sectárias ou golpistas cujas lógicas são tribalistas, ou de clã, ou individualistas. Em ordem a conceber a dimensão do bem comum, ou pensar a comunidade, é necessário assimilar muito mais informação e exercer muito mais competências do que aquelas que são necessárias para recusar o diálogo, a negociação e o acordo.

  19. equilíbrio, Sebastião. é preciso alcançá-lo e depois mantê-lo para partilhá-lo por forma a que este seja o meio mas também o fim na política. e na vida. e isso requer, sim, inteligência naquilo que é abraçar o sistémico – que é complexo – depurando e, desta feita, excluíndo a pulhice e a estupidez. e fica a essência do que vale, o melhor para todos.

  20. “… duas pessoas que discordam ao ponto de poderem ser rotuladas como estando uma na direita e outra na esquerda, ainda assim podem estar de acordo em relação ao essencial. Deste acordo pode, então, nascer a melhor decisão política.”

    o avô geropinga encontra-se com a paulette em canal caveira e acordam no essencial, partilhar uma de cozido, bebidas e digestivos à parte. deste cozido à portuguesa poderia, então, nascer um governo patriótico de salvação nacional, ganzas à parte. o cavacoiso tinha uma teoria parecida, mas mais avançada, dois gajos com a mesma informação que decidem igual.

  21. podes crer, meu! é só mudar o barril na horta seca e bais ber o efeito sexy na economia. o moedinhas que se cuide.

  22. …o «centro» retratado nesta conversa coisa entre dois colegas da mesma universidade cultos inteligentes e – coisa rara – conduzida por um jornalista…enfim e não por fim…entre uma bela mulher e um homem que quer brilhar…interessa seduzem todos os que não radiquem numa qualquer onda sectária…concordo…mas labora um belo equívoco…

    …não há aqui um «centro» …uma espécie de linha fofa que se pode enrolar e depois de transformada num novelo entretecer com ela a camisola para todos usarmos…

    …a linha que corta a conversa é antes o preludio de todo um abismo…aparentemente juntinhos mas vejo mais nítida a fractura nas tais «simpaticíssimas personalidades »…

    …sem tomar partido o final diz tudo
    ela – o programa da troika foi sufragado por 80% logo é legitimo…
    ele – houve uma politica de chantagem era aquilo ou nada…

    …os dados estão lançados e há muito…nenhuma convergência poderá suprir esta clivagem que é basicamente sobre aquilo que será a sociedade deste futuro – agora…afinal é disso que se trata…a vaga à toffler está a chegar-nos ao chão com toda a força…não sei que galho sobreviverá…mas sei que – numa questão de tempo curto – um ficará pelo caminho…sem «centro» que lhes valha…

  23. blablazada, diz lá se alguma destas afirmações está errada:

    “o programa da troika foi sufragado por 80% logo é legitimo…”

    “houve uma politica de chantagem era aquilo ou nada…”

  24. Na verdade (aconteceu mesmo, não é figura de estilo) adormeci a ver o vídeo. Às vezes acordava, ouvia lá ao longe uma palavra ou expressão reconhecível, mas logo caía no sono.

    Depois despertei e, ainda com a mente meio entorpecida, comecei a ler a caixa de comentários; logo dei com o do amigo «acordar para o essencial», que me o favor de mostrar de onde vem tanto neoliberalismo revestido com pele de centrismo:

    http://www.dn.pt/galerias/fotos/?content_id=3247809&seccao=Economia

    Que conclave, meu Deus! Tanto adorador do bezerro de ouro, mas para quê? Decerto para se dedicar àquilo que só os (suicidados) mortos-vivos da “res publica”

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Res_publica

    sabem fazer com generosa sobriedade:

    http://www.youtube.com/watch?v=ZUEeBhhuUos

  25. Nenhum eleitor sabia a ponta de um corno sobre o que estava previsto no programa da troika. Nem isso foi propriamente discutido nas eleições. Só havia de um lado Sócrates a dizer que a direita queria destruir o estado social, sem que ninguém acreditasse nele e do outro o Passos a dizer que o memorando era uma maravilha e que bastava de austeridade sobre as pessoas, estava na hora de cortar nas gorduras do estado. Se isto, que foi 80% do debate político das eleições, é discutir o programa da troika? Um programa, para mais, que nem existia em português! Como é que as pessoas votaram no programa da troika se não sabiam patavina do que lá estava? Como é que sufragaram o programa se 80% da austeridade que foi aplicada nem sequer estava prevista no programa? Portanto, essa afirmação é uma falácia. A única coisa que todos sabiam era que sem troika “não havia dinheiro para salários e pensões”. Se isto não é chantagem…

  26. @val

    O centro não é menos ideológico do que as franjas. A única diferença é que no centro há uma ideologia consensualizada junto da maioria da população.

    Quanto à tua questão… Ambas as afirmações

    1) “o programa da troika foi sufragado por 80% logo é legítimo…”

    2) “houve uma politica de chantagem era aquilo ou nada…”

    são verdadeiras; por isso é que se diz que há uma contradição essencial (se preferires, uma fractura) na actual sociedade portuguesa. Deve-se aplicar aqui um tipo de “lógica” que os antigos (Heraclito, Platão) designaram de dialéctica; a dialéctiva vive em terrenos onde a lógica clássica não dá resposta, neste caso por motivo de coexistirem premissas contraditórias no espaço ideológico do centro.

  27. joaopft, que ideologia consensualizada junto da maioria da população é essa de que falas? Onde é que Heraclito falou da dialéctica? O que é a dialéctica em Platão?

    Pois é, há que começar pelo começo.

  28. Val não me parece muito honesto colocar as coisas desse modo. Não é expectável nem me parece exigível que a maioria das pessoas tenha a disponibilidade e já agora os conhecimentos para decifrar dezenas ou centenas de páginas de “economês” onde estavam plasmados os pontos acordados com a troika. Era função dos políticos e da comunicação social explicar ás pessoas em termos acessíveis o que é que tinha sido acordado. Que a estratégia para “reformar” e “regenerar” o país era o empobrecimento, o desemprego, a desqualificação, o desmantelamento de serviços públicos, a construção de uma máquina fiscal impiedosa e repressiva para saquear os rendimentos do trabalho etc. Como isto não faz ninguém ganhar eleições, mentiram, falaram para o lado, desviaram a conversa, concentraram atenções no bandido do Sócrates, desconversaram, falaram em “democratizar a economia”. Com o banho de propaganda a que os portugueses foram e estão sujeitos diariamente é difícil que o homem e a mulher comum que ganham umas poucas centenas de euros e têm de fazer pela vida em condições difíceis tenham tempo e disponibilidade para ir à procura de algo mais para além do “telejornal” ou do DN ou JN… As pessoas foram enganadas! E continuam a ser enganadas. Só sentem a pobreza na pele. E isso não é bom princípio para nenhum “consenso” nem nenhuma “união” a não ser aquelas ditadas pelo medo de perder o pouco que ainda têm. E aí já entramos no campo da violência que é o campo das ditaduras.

  29. Sinceramente vocês com as vossas conversas pseudo-filosóficas parece-me que falham completamente o ponto. O centro ou as franjas e todas essas construções teóricas só fazem sentido se as forças políticas que se movimentam nesses “espaços” representarem de facto alguém. Se tiverem uma força social em que se apoiar. Os entendimentos entre lideres partidários e entre órgãos de soberania não valem um chavo se os cidadãos continuarem divididos. Não há um político com credibilidade para unir os portugueses. É necessário começar pelo princípio de facto. E no principio, na base de tudo tem que estar a justiça. Enquanto as pessoas não sentirem que os “sacrifícios são repartidos justamente” irão continuar a culpar o vizinho do lado, os políticos, os do rendimento mínimo, os funcionários públicos e os visados responderam na mesma moeda. É uma guerra fria civil. Se continuar assim durante muito tempo deixa de ser fria.

  30. DS, dizes que as pessoas (quantas?) não tinham condições para entender o que estava em causa quando foram votar em 5 de Junho de 2011 por causa da dificuldade dos assuntos na berlinda. Essa tua confiança no que diz respeito às capacidades cognitivas e intelectuais das pessoas permite-me fazer-te a seguinte pergunta: em que eleição passada as pessoas foram votar na posse da informação necessária para saberem o que estava em causa?

  31. não, nuno cm, o centro é uma hasta privada que começa em cada um – arma, não ofensiva, inofensiva que serve para escalar racionalmente o conflito cujo objectivo só pode ser a negociação como ajuste naquilo que seja o melhor para todos.

  32. Eu não estou a dizer que as pessoas não têm capacidade para perceber o que está em causa, atenção. Não estou a passar um atestado de incompetência ás pessoas em geral. Estou a dizer que nas ultimas eleições e nas eleições em geral a discussão pública está viciada pelo modo como os meios de comunicação e muitos políticos colocam as questões. Por exemplo toda a gente diz que é necessário que os portugueses tomem consciência e se informem mais sobre a integração europeia e sobre os mecanismos de governação da UE e as implicações que isso tem em Portugal. Mas recentemente foi ratificado pela Assembleia da República, quase ás escondidas, o tratado orçamental. A discussão pública sobre esse tratado foi perto de zero. Não houve grandes debates nem grandes polémicas sobre isso. A maioria dos portugueses não foi informada sobre o que esse tratado é e sobre as suas consequências. Se eu quiser ler esse tratado provavelmente nem o encontrarei disponível. Aquilo basicamente condena Portugal a austeridade permanente durante décadas! É uma mudança total no regime financeiro e portanto no regime político do país! Devia ser o centro de todas as discussões mais ainda do que o programa da troika ou as palhaçadas do governo e do PR. As televisões passam a vida a falar de swaps e ppp e não se discutem os assuntos fundamentais. E isso vem de há muito tempo. Os telejornais passam as notícias de caca no princípio e as importantes no fim quando as audiências são menores. Os jornais trazem capas sobre o homem que mordeu o cão e têm as notícias importantes em quadradinhos no canto das páginas. Existe um padrão de comportamento nos meios de comunicação social e em muitos debates políticos no sentido de alienar as pessoas distraindo-as do que é realmente decisivo para as suas vidas. Por mais informado e atento que se seja é difícil não nos perdermos entre tanto “encher chouriço” entre tanta manipulação. E nada disso acontece por acaso. Mesmo os partidos da esquerda à esquerda raramente colocam os nomes nos bois. Há toda uma camada de verniz que procura esconder a imensa corrupção e conluio de interesses que existe entre o estado e os grandes negócios. Para esconder a enorme subserviência a interesses privados nacionais e estrangeiros e à Alemanha em particular. A discussão pública em Portugal é um engano permanente. E isso não legitima coisa nenhuma. Nem antes nem durante as últimas eleições.

  33. DS, os teus considerandos estão a nascer do teu sentimento de impotência. Tu imaginas que estás sozinho perante uma força, ou conjunto de forças, que não consegues dominar, sequer compreendes no seu alcance e intenções. Vai daí, projectas para terceiros o desamparo que te habita.

    Ora, essa tua experiência não é necessariamente negativa, pois poderá ser apenas uma fase nascida de uma certa tomada de consciência. O ponto que quero frisar é o de que o teu discurso revela alguém que se sente isolado. Contudo, estás cercado por dezenas, centenas, milhares e milhões de indivíduos. E não só, tens ao teu dispor dezenas, ou até centenas, de organizações que adquirem, tratam e guardam informações relevantes, que defendem direitos e interesses e que organizam eventos e acções culturais, sociais e políticos.

    Acaso já tentaste juntar-te a outros? Que andas a fazer com as tuas capacidades, talentos e liberdade? É que desabafar nas caixas de comentários de um blogue qualquer pode servir de consolo ou alívio, mas não puxa carroças.

  34. Tens toda razão. Mas então não sei bem que diabo andas tu e os outros a fazer no “aspirina”… Se, modestamente, tu queres despertar consciências, os outros também têm direito :)

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