O que não posso deixar de notar é que a forma como esta questão tem sido tratada lembra-me um pouco alguém que coloca fogo a uma casa e depois queixa-se que os bombeiros não chegaram suficientemente depressa», disse Poiares Maduro aos jornalistas, em Cantanhede, à margem da inauguração da Expofacic.
«A questão fundamental aqui é saber como foi possível, durante sete anos, em Portugal, serem celebrados contratos ‘swap’, quem foi responsável por isso, quem é que tinha tutela quando foram celebrados», argumentou.
Poiares Maduro: Ministra dará «todos os esclarecimentos» sobre ‘swap’
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Estas declarações são especialmente relevantes, apesar da sua inerente efemeridade. Vejamos:
– Poiares Maduro chegou com a aura de ser um jovem e brilhante académico com prestígio europeu e internacional, a antítese perfeita de Miguel Relvas que substituía na pessoa, no estilo e na estratégia. Trazia modernidade e esperança para um Governo de fraquíssimas figuras.
– O professor de direito em universidades de Itália e dos EUA chegou também sem passado político, o que o deixava imune para escapar ao registo de baixa política onde o PSD encontrou nos últimos largos anos o arsenal para conquistar e manter o poder.
– Ei-lo, então, a usar uma analogia que se aplica como uma luva ao que PSD e CDS, entusiasticamente acolitados pelo BE e PCP, fizeram no Parlamento a respeito do caso BPN. Nesse processo, o alvo mais ferozmente perseguido – aliás, o único alvo – dava pelo nome de Vítor Constâncio. Crime do senhor? Ser socialista. Agora com o Poiares, os bandidos voltam a ser os polícias.
– Só que há polícias maus e polícias bons. Os maus estão todos nos Governos do PS, embora nada se demonstre acerca dessa insinuação e, portanto, tudo se difame. E os bons estão neste Governo, apesar de se ter no currículo obra feita à conta de muito swap embrulhado e despachado in illo tempore, e apesar de se mentir à boca cheia, inclusive sob juramento numa comissão parlamentar.
Este é tão-só mais um episódio onde constatamos a decadência da direita portuguesa, a qual nem com sangue novo e neurónios aparentemente em boas condições consegue sair do charco onde vegeta e procria. Lembre-se que a primeira vez em que o povoléu foi brindado com a notícia da existência de tais bicharocos ocorreu em Abril de 2013, em cima do congresso do PS. E que, a partir daí, o que se veio a saber do processo deixa uma imagem deplorável tanto de Maria Luís Albuquerque como de Vítor Gaspar. Não só estavam os dois devidamente alertados e informados desde que chegaram ao Executivo como não foram capazes de resolver o assunto mais cedo e ainda vieram culpar os governantes passados, os mesmos que começaram a tratar da questão e que foram transparentes a seu respeito na mudança de poder.
Para além dos considerandos imediatos, um pouco mais de tempo a matutar nas manhas do Maduro leva-nos para uma mais tenebrosa conclusão: este PSD do valente Pedro só concebe a acção política em modo pós-Estado de direito, particularmente quando está no Governo. Aqui, temos um ministro a dizer que o actual mandato dos governantes não deve ser tido em conta para o apuramento de responsabilidades políticas, morais e até criminais. Ali, temos um Governo a fazer dois Orçamentos inconstitucionais e a queixar-se de um Tribunal por este insistir em defender a Constituição. Acolá, temos ministros a ofenderem-se uns aos outros em público e por escrito, a fazerem juras e a voltarem imediatamente com a palavra atrás a troco do crescimento das sinecuras.
Isto, a esta escala, com esta falta de decoro, às escâncaras, nunca se tinha visto no Portugal democrático, tem sido amiúde repetido. Mas isto, colhe frisar, igualmente nunca tinha sido imaginado como sendo possível. É que estes são os mesmos da “política de verdade”, do “falar verdade aos portugueses”, da “década perdida”, do “fim do regabofe”, do “os familiares de Sócrates deviam ter vergonha”. Esta é a gente séria do meu país.