Todos os artigos de Valupi

Atentado à democracia, disse ele

À margem da tomada de posse do presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), no Porto, o ministro defendeu a necessidade urgente “de uma reflexão sobre a cultura política em Portugal”.

“Por um lado, foi construída uma história, que era uma história de que o Governo anterior teria recusado e teria impedido o negócio, que era pouco ético e legal, até que agora verificamos que não é exactamente verdade, que esse Governo tinha até interesse e considerava absolutamente normais as operações em causa”.

Mas, na opinião de Poiares Maduro, o que lhe parece “particularmente preocupante e grave, competindo “às autoridades judiciais averiguar”, é o facto de “ter existido realmente, como há fortes indícios de que existiu, a falsificação de um documento”.

Poiares Maduro

__

É bizarro, mas acontece. Poiares Maduro revelou-se um simétrico de Miguel Relvas. O que, na simetria em causa, leva a que cheguem aos mesmos resultados por caminhos opostos.

Relvas é o exemplo acabado (pun intended) do arrivista ordinário e canalha: de ofensas à família de um adversário político, passando por perjúrio no Parlamento a propósito de ligações secretas com espiões do Estado, até à ameaça de boicote a um jornal e chantagem a uma jornalista, vale tudo. E se isto é assim na montra, visível a quem passa incauto na rua, tememos pelo que se guardará no armazém. Maduro é o exemplo por acabar (intended pun) da vedeta académica moderna e internacional: percurso brilhante e impoluto, investigador premiado, coroado com lugares de docência em institutos de prestígio na Europa e nos EUA. Um mimo, este rapaz.

Ora, ora. Portanto, ora. Dá-se o caso de ouvirmos amiúde ao substituto de Relvas a sua preocupação com a “cultura política em Portugal“. É um assunto onde não está sozinho: 10 milhões de portugueses, pelo menos, estão, estiveram ou estarão igualmente muito preocupados, desiludidos e magoados com a cultura política em Portugal. Realmente, isto de o regime estar balizado por uma esquerda fanaticamente sectária e uma direita raivosamente caluniadora não dá saúde política a ninguém. E sendo parte integrante de um Governo PSD, olha a sorte, não faltam ao Maduro acontecimentos a merecer urgente atenção da sua superior capacidade analítica e supina vocação reflexiva.

Deixa cá ver. Como descrever a cultura política de quem se arroga a posse da “verdade” como bandeira política? E que cultura política será essa que utiliza e explora escutas ilegais a conversas particulares de um primeiro-ministro e tentativas infundadas de incriminação desse mesmo governante e dirigente partidário? Qual o contributo da “Inventona de Belém” para a literatura sobre a cultura política? Que ilações tirar do boicote ao PEC 4 na febre do pote e da estratégia para que o País capitulasse e fosse entregue aos credores? Como avaliar uma campanha eleitoral onde se mentiu do primeiro ao último segundo, prometendo o fim dos sacrifícios, a recusa de aumentar impostos e cortar salários e pensões, mais a imediata reviravolta nos mercados por via da ostracização de um homem mau e da entrada da gente séria? É um sem-fim de material à disposição da missão de regenerar a cultura política em Portugal – e até pode deixar esquecido esse outro monumento da coisa que consistiu no apoio que Passos Coelho e Cavaco Silva foram dando a Relvas durante a sua passagem pelo governo da República, pois é compreensível que não se consiga ir a todas quando os dias continuam a só ter 24 horas.

Continuar a lerAtentado à democracia, disse ele

Revolution through evolution

“I’m Sick of Talking about Sexual Harassment!”
.
How Parents See Themselves May Affect Their Child’s Brain and Stress Level
.
Smart Enough to Know Better: Intelligence Is Not a Remedy for Racism
.
Young Vs. Old: Who Performs More Consistently?
.
An Extra Hour of TV Beyond Recommendations Diminishes Toddlers’ Kindergarten Chances
.
More Tweets Mean More Votes for Political Candidates, Study Finds
.
Which Jeff Bezos bought the Washington Post?

Continuar a lerRevolution through evolution

Um socialista excepcional

Seguro – corrijam-me se estiver enganado, é o actual secretário-geral do PS – não tem qualquer opinião sobre a actividade do Governo anterior no que diz respeito aos swaps. Não estava lá, não viu, não foi nada com ele, cruzes canhoto. Mas vai ter. Assim que a comissão de inquérito apresentar as suas conclusões poderemos descobrir o que pensa Seguro destas manigâncias. Porque ele vai pensar exactamente o mesmo que sair a público. Eis como o mais recente ideólogo da “política de verdade” apresenta a questão:

Sobre a eventual responsabilidade do PS nesta matéria e se o partido deveria ter outra forma de encarar esta situação, Seguro reiterou: “É para isso que há uma comissão de inquérito. As comissões de inquérito existem para se apurar a verdade e quando estão envolvidos dinheiros dos contribuintes essa verdade tem que vir ao de cima”.

Duas inovadoras ideias: (i) as comissões de inquérito chegam à verdade; (ii) quando há dinheiro dos contribuintes na berlinda, essa verdade na posse das comissões de inquérito consegue mesmo trepar por ali acima e aparecer à tona – já nos casos em que não haja pilim, temos pena, a verdade poderá ficar submersa.

Outro grande momento que este momento político está a oferecer a todos os apreciadores de grandes momentos consubstancia-se na declaração:

Na política não somos todos iguais. Eu abomino a baixa política e a política feita sem ética.

É um facto. Há dimensões onde somos todos iguais. Estou a pensar, especificamente, na primeira dimensão, sendo que a partir da segunda as coisas já se começam a complicar, e quando chegamos à quarta, então, é caso para dizer que nem dois gémeos monozigóticos são iguais. Outros autores defendem que há situações e lugares onde somos todos iguais, e dão como exemplo os transportes públicos, a praia, o médico e a feira da Malveira.

Porém, chega-nos a palavra de Seguro para acreditarmos no que nos está a transmitir. É que não falha. Seguro abomina tanto a baixa política e a política feita sem ética que anda há dois anos a ver os seus camaradas de partido que tiveram responsabilidades governativas no passado recente a serem difamados e caluniados diariamente sem que alguém lhe consiga arrancar uma qualquer palavra de defesa individual ou do grupo. E isso mostra o grau da sua abominação, pois estudos feitos com rãs provam que quando um animal atinge o grau máximo da abominação já não consegue falar. Os cientistas chegaram a esta descoberta depois de passarem longos meses a insultarem as rãs sem nunca terem registado qualquer declaração das próprias contra o tratamento a que estavam a ser sujeitas.

Seguro, no entanto, não precisava destes dois anos para mostrar que não é igual aos outros. Basta lembrar que ele foi um dos dois ou três deputados socialistas que aplaudiram esse monumento de alta política e perfectibilidade ética que Cavaco deixou na Assembleia da República no dia 9 de Março de 2011. Enquanto à sua volta uma bancada inteira se remetia a um silêncio igualitário, Seguro lançava as palmas das mãos uma contra a outra no afã de exibir o seu apoio ao que tinha acabado de se passar.

Só não percebeu quem não quis: aquele militante socialista era especial de corrida.

The best predictor of future behavior is past behavior

Este caso dos swaps veio expor mais um pedaço da podridão que reinava nos Governos de Sócrates. Como agora ficámos a saber, algures em Julho de 2005 fizeram-se reuniões entre elementos do Executivo socialista e elementos do Citigroup. Um destes elementos dava pelo nome de Joaquim Pais Jorge, mas terá participado apenas com o estatuto de pau-de-cabeleira (e consta que passou a maior parte das horas com os olhos fechados e a roncar como se estivesse na mata de Sesimbra depois de uma almoçarada com antigos colegas da tropa). O propósito das reuniões: vender swaps com a finalidade de baixar o défice por via de uma engenharia financeira possível à luz da legislação europeia. Aqui, a doutrina divide-se. Para o PSD que repescou esses tais vendedores e lhes deu cargos e contratos, nada de errado, muito menos de ilegal, se passou. Para o PSD que desde Setembro de 2012 mantém o País sob uma crise governativa permanente, cada vez maior, cada vez mais decadente e cada vez mais inenarrável, esses mesmos senhores são agora criminosos, embora as autoridades devam é perseguir os malvados socialistas que não denunciaram esses tais brilhantes recursos humanos que tão valiosos têm sido para o laranjal. Confuso?

Confuso foi o que os terríveis socráticos fizeram em 2005 nesta particular situação. Pelos vistos, terão seguido um protocolo oficial que ficou pejado das suas assinaturas e cifras maçónicas. Nele, a proposta burlista é passada de entidade em entidade para receber pareceres. Até que acaba recusada pelo ministro das Finanças depois de um patego qualquer ter demonstrado que havia ali esturro. Reparem: um ministro das Finanças não foi capaz de impor uma negociata que deixaria o Citigroup – empresa onde trabalhavam pessoas tão talentosas que até o PSD faz questão de as levar para o seu Governo – com um lucro bem jeitoso e mais que justo. Lamentável e prova da falta de carácter dos socialistas.

Obviamente, estamos apenas a falar de um contrato. Outros existirão, dezenas (centenas?), onde será fácil conferir se este comportamento se manteve ou foi alterado. Os contratos estão lá arquivados, basta que a gente séria os revele em nome da transparência, da credibilidade e do futuro das próximas gerações. Sabemos que dois anos podem não ser suficientes para conseguir dar com eles, dado que os socráticos são famosos por conseguirem esconder as papeladas em esconsos que não lembram ao Diabo, mas é imperioso continuar a procurar. O PSD tem um longo historial de denúncias na Justiça contra o PS – um partido que merece ser ilegalizado por constante perturbação da moral e dos bons costumes cavaquistas – pelo que este é o tempo para a machadada final. Há que proteger a sociedade deste tipo de gente perigosíssima; e quem tiver dúvidas ou hesitações que comece a ler o Correio da Manhã, faxavor.

O PSD não nos vai abandonar no presente como não nos tem abandonado no passado. O PSD tudo fará para se manter no poder e limpar Portugal, custe o que nos custar. E isso é tão certo e hipnótico como a visão de uma cálida rodela laranja a desaparecer no plácido oceano da Verdade.

Para a história do crime organizado em Portugal

A fraude do BPN foi construída “com todo o à-vontade científico e cirúrgico” e “com gente de poder envolvida”. Na sua primeira entrevista depois de ter deixado a chefia do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), dada nesta quinta-feira ao Diário Económico, Cândida Almeida não se coíbe de falar de um caso que envolve corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de influências: “Aquilo é um mundo, um mundo… Mexe-se na terra e sai minhoca por todo o sítio”.

Fraude do BPN foi construída “com à-vontade cirúrgico e com gente de poder envolvida”

Marco António Costa – Florilégio

 

.

CrespoDeixe-me perguntar: viu os documentos, os dois?

MACVi na comunicação social.
__

MAC[…] swaps destinados a mascarar, a esconder, já ouvi adulterar, maquilhar, dissimular, os adjectivos têm sido muitos…

CrespoE estão correctos na maior parte dos casos…

MACEu creio que sim.
__

MAC[…] instrumentos para maquilhar, dissimular, esconder, modificar, adulterar, o adjectivo é indiferente…
__

MAC[…] um conjunto de instrumentos financeiros para deliberadamente esconder a dívida pública. Há vários adjectivos que foram usados.
__

CrespoEstes dois documentos que o senhor referiu terem sido manipulados, o conteúdo é exactamente o mesmo!

MACCerto.

CrespoPortanto, não há manipulação nenhuma.
__

Crespo[…] o comunicado da demissão do senhor secretário de Estado, em que diz que o podre da política e a podridão, não sei o quê, hã…

MACEu não conheço o comunicado, não li. Confesso que não li.
__

MACEu acho que este assunto, sob o ponto de vista da sua densidade técnica, levar-nos-ia muitos dias de discussão. A questão que se coloca é que se instalou na opinião pública uma dúvida metódica em relação a tudo isto.
__

MACA questão que se coloca é saber se foi ultrapassada a linha da legalidade ou não; isto é, se as propostas que foram apresentadas nessas reuniões ultrapassavam a linha da legalidade.
__

MACJulgo que todos nós temos consciência de que ficará aqui uma dúvida existencial se isto não for esclarecido.
__

MACEu julgo que é precisa alguma serenidade e alguma objectividade.

PSD lamenta que Pais Jorge não tenha ido de cana logo em 2005

“A ser verdade o que é relatado pela imprensa, que instituições bancárias abordaram o anterior governo para vender produtos financeiros que, alegadamente, permitiriam adulterar ou falsificar as contas do Estado português, questiona-se como é que o governo de então não denunciou tais práticas ao Ministério Público e ao Banco de Portugal, como entidade supervisora do sistema financeiro.”

Marco António Costa, futuro presidente do PSD

Se não tiverem espelhos em casa, um qualquer retrovisor também serve

Interrogado sobre a polémica em torno da sua passagem pela Sociedade Lusa de Negócios (SLN), a holding do Banco Português de Negócios (BPN), Rui Machete respondeu: «Isso denota uma certa podridão dos hábitos políticos, porque deviam saber em que condições eu passei, em vez de darem notícias bombásticas».

BPN men

Foram exploradas e distorcidas declarações que fiz sempre de boa-fé. É este lado podre da política, de que os Portugueses tantas vezes se queixam, que expulsa aqueles que querem colocar o seu saber e a sua experiência ao serviço do País.

Swap men

How low can you go?

Ao bater da meia-noite, o ministério das Finanças desdobrou-se em telefonemas para órgãos de comunicação a fim de cumprir a promessa de esclarecer o envolvimento do secretário de Estado do Tesouro na venda de “swaps” tóxicos. Resultado da investigação: alguém forjou as provas.

O secretário de Estado adjunto Pedro Lomba tinha prometido de manhã que, até ao final do dia de hoje, o Governo iria esclarecer a presença do secretário de Estado do Tesouro, Joaquim Pais Jorge, nas reuniões em que o Citigroup tentou vender ao executivo de José Sócrates, em 2005, swaps que permitiriam esconder o défice público.

Já com o dia estava particamente no fim, o Ministério das Finanças comunicou à própria SIC que a proposta apresentada pelo Citigroup ao governo de José Sócrates divulgada terça-feira pela televisão “foi forjada”.

Segundo a SIC, a equipa da ministra Maria Luís Albuquerque afirma que há dois documentos diferentes e que no original não consta o nome do secretário de Estado do Tesouro Joaquim Pais Jorge.

“Essa alteração terá sido introduzida deliberadamente por terceiros à proposta original do Citigroup”, refere a SIC citando o Ministério das Finanças.

Entretanto, as fontes que falaram aos jornais e televisões disseram que o ministério estava a enviar um comunicado às redações sobre as diferenças detetadas entre os documentos, mas ao Expresso, até à 1h30 de hoje, ainda não chegara qualquer nota explicativa.

Secretário de Estado foi incriminado, dizem as Finanças

Briefalhados

Os membros do Governo convidados a aparecer ao lado do Lomba a fingir que respondem aos jornalistas entram acto contínuo na lista dos demissionáveis.

Sugestão: presença urgente de Passos Coelho num brief do Lomba.

Imitatio Dei

O episódio já tem duas semanas, mas quero juntar-me à Shyznogud no protesto (repúdio?) pela escandalosa hipocrisia de Manuel Clemente: Uma resposta miserável

Mais ninguém deu atenção ao assunto, que eu saiba. Não surpreende. É raro encontrar quem em Portugal esteja disposto a criticar a Igreja Católica, sendo que a quase totalidade desses poucos faz parte da dita. Criticar a Igreja começa por ser muito difícil por obrigar a um conhecimento profundo de uma realidade demasiado complexa para os apressados e desatentos. Depois, não há outro interesse nessa actividade que não seja o propósito reformista, crítica interna, ou o combate ideológico, crítica externa. Acontece que a direita e o centro não perdem uma caloria com uma entidade que lhes é identitária ou folclórica, enquanto à esquerda existe um PCP tão ou mais conservador, litúrgico e messiânico do que o catolicismo. Os recorrentes elogios da direita conservadora e reaccionária ao PCP traduzem uma afinidade cúmplice que é uma continuação da estruturação corporativa do Estado Novo e sua ordenação paralisante do devir social. São inimigos que se amam, pois dependem uns dos outros para saberem qual é o lugar respectivo no universo.

A Shynogud atirou-se à mistura do tema da pedofilia com o da homossexualidade. Com toda a razão, pois essa ligação, mesmo quando nascida da ignorância, promove a homofobia. Claro que estar em diálogo com um jornalista pode levar a ambiguidades na expressão que não passariam caso Manuel Clemente tivesse tempo para pensar mais um bocadinho no que realmente pretendia dizer. Todavia, a sua posição na hierarquia, e a gravidade do tema, obrigam-no a um zelo comunicativo que teria evitado a inaceitável confusão que verbalizou.

A mim, confrange-me a exposição de tamanha e oportunista secularidade num patriarca. Ao invocar o tratamento dado à homossexualidade fora da Igreja para reclamar uma amnistia ou tolerância para os casos ocorridos com sacerdotes, ficamos sem saber se Manuel Clemente estudou teologia. Aliás, isso de estar zangado por haver dois pesos e duas medidas até nos faz duvidar que tenha alguma vez lido a Bíblia, particularmente os Evangelhos. É que a questão primeira nem sequer é relativa à homo e heterossexualidade, mas pura e simplesmente à sexualidade. Que tem a Igreja Católica a dizer sobre o assunto no século XXI? Tirando exemplos avulsos, alguns demasiado crípticos para consumo popular, o discurso católico sobre a sexualidade não ultrapassa a fasquia da banalidade e do infantilismo.

Os escândalos sexuais nos espaços católicos mostram uma instituição profundamente pervertida. A perversão é o silêncio, a cobardia e a cumplicidade. Hierarquia e fiéis não têm qualquer desculpa para os erros que insistem em cometer. A conclusão que há a tirar quando vemos crianças, adolescentes e doentes violentados seja por pedófilos, homossexuais, bissexuais ou heterossexuais ordenados, ou leigos sob a responsabilidade da Igreja, é uma e só uma: Cristo não mora ali.