Imitatio Dei

O episódio já tem duas semanas, mas quero juntar-me à Shyznogud no protesto (repúdio?) pela escandalosa hipocrisia de Manuel Clemente: Uma resposta miserável

Mais ninguém deu atenção ao assunto, que eu saiba. Não surpreende. É raro encontrar quem em Portugal esteja disposto a criticar a Igreja Católica, sendo que a quase totalidade desses poucos faz parte da dita. Criticar a Igreja começa por ser muito difícil por obrigar a um conhecimento profundo de uma realidade demasiado complexa para os apressados e desatentos. Depois, não há outro interesse nessa actividade que não seja o propósito reformista, crítica interna, ou o combate ideológico, crítica externa. Acontece que a direita e o centro não perdem uma caloria com uma entidade que lhes é identitária ou folclórica, enquanto à esquerda existe um PCP tão ou mais conservador, litúrgico e messiânico do que o catolicismo. Os recorrentes elogios da direita conservadora e reaccionária ao PCP traduzem uma afinidade cúmplice que é uma continuação da estruturação corporativa do Estado Novo e sua ordenação paralisante do devir social. São inimigos que se amam, pois dependem uns dos outros para saberem qual é o lugar respectivo no universo.

A Shynogud atirou-se à mistura do tema da pedofilia com o da homossexualidade. Com toda a razão, pois essa ligação, mesmo quando nascida da ignorância, promove a homofobia. Claro que estar em diálogo com um jornalista pode levar a ambiguidades na expressão que não passariam caso Manuel Clemente tivesse tempo para pensar mais um bocadinho no que realmente pretendia dizer. Todavia, a sua posição na hierarquia, e a gravidade do tema, obrigam-no a um zelo comunicativo que teria evitado a inaceitável confusão que verbalizou.

A mim, confrange-me a exposição de tamanha e oportunista secularidade num patriarca. Ao invocar o tratamento dado à homossexualidade fora da Igreja para reclamar uma amnistia ou tolerância para os casos ocorridos com sacerdotes, ficamos sem saber se Manuel Clemente estudou teologia. Aliás, isso de estar zangado por haver dois pesos e duas medidas até nos faz duvidar que tenha alguma vez lido a Bíblia, particularmente os Evangelhos. É que a questão primeira nem sequer é relativa à homo e heterossexualidade, mas pura e simplesmente à sexualidade. Que tem a Igreja Católica a dizer sobre o assunto no século XXI? Tirando exemplos avulsos, alguns demasiado crípticos para consumo popular, o discurso católico sobre a sexualidade não ultrapassa a fasquia da banalidade e do infantilismo.

Os escândalos sexuais nos espaços católicos mostram uma instituição profundamente pervertida. A perversão é o silêncio, a cobardia e a cumplicidade. Hierarquia e fiéis não têm qualquer desculpa para os erros que insistem em cometer. A conclusão que há a tirar quando vemos crianças, adolescentes e doentes violentados seja por pedófilos, homossexuais, bissexuais ou heterossexuais ordenados, ou leigos sob a responsabilidade da Igreja, é uma e só uma: Cristo não mora ali.

7 thoughts on “Imitatio Dei”

  1. é mesmo nojenta a manipulação de uma religião com a finalidade de proteger delegados ao seu serviço – esquece-se e ostraciza-se e despreza-se e relativiza-se a vida naquilo que é o maior atentado terrorista contra a humanidade: a violência, o abuso, o roubo dos sonhos. e interessa, não quem os comete com esta ou aquela preferência sexual, já que são todos criminosos sem direito a amnistia, quem tem de ser protegido e objecto de luta contra os psicopatas e tarados. infelizmente a maior crise por que passamos é a de valores e de sensibilidade e de inteligência: o homem ao tanto querer a máquina em máquina se quer tornar. e enquanto não houver tolerância zero, e neste caso não faz sentido a via da prevenção mas apenas a da correcção, os crimes a favor da morte em vida hão-de continuar. os castigos têm de ser os socialmente inaceitáveis e condenáveis – ou continuarão a persistir.

  2. Achar-se que a aceitação da homossexualidade na sociedade moderna tem alguma coisa a ver com a moral religiosa no seio da religião católica não faz o menor sentido para quem não é bispo/cardeal!

  3. Quase tudo o que D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa e prémio Pessoa, disse em resposta a essas perguntas é confrangedor, hipócrita e contraditório.

    À pergunta de se a Igreja terá fechado demasiado os olhos aos abusos sexuais, respondeu: “Quando os problemas apareceram, tentou-se resolver da melhor maneira que se soube e que se pôde”. É hipócrita e mentirosa esta resposta, como se esses “problemas” só tivessem aparecido quando vieram denunciados nos jornais e como se a Igreja os tivesse tentado então resolver, de facto, da melhor maneira, o que se sabe que não aconteceu assim e que, por sua vez, foi motivo de escândalo.

    Não distinguiu abusos sexuais (pedofilia) e homossexualidade, que vinham já estupidamente associados na pergunta do jornalista. Essa omissão escandalosa da resposta de Clemente sugere que para o patriarca de Lisboa não há verdadeiramente diferença entre abuso sexual e homossexualidade, sendo simplesmente duas formas de pecado. Falou da “grande aceitação social desta pluralidade” sem dizer que estava a referir-se apenas à homossexualidade e não à pedofilia. Por fim, escudou-se na tal “grande aceitação social” para desculpar a homossexualidade do clero (completamente “esquecido” já da pedofilia), sabendo-se porém que o catecismo católico continua a condenar a homossexualidade, em geral, como contrária à lei natural, não podendo, está lá dito, ser aprovada “sob nenhuma circunstância”.

  4. “a melhor maneira” é manda-los de castigo para roma!d. clemente não “aprendeu” nada nos dialogos com carvalho da silva, (ex. pcp) passados para o papel do jnoticias!

  5. Ganharás o pão com o suor do rosto dos outros que tu exploras em proveito próprio.
    (e depois digam que eu sou decadente por exigir justiça social e religiosa)

  6. Pingback: Imitatio Dei
  7. Excelente texto.

    E a questão não é tanto saber se o Clemente estudou ou não Teologia, mas sim saber para que Diabo perdeu ele o seu “rico” tempo a estudá-La!

    Não haja cá dúvidas: a Igreja Católica e o Poder político em Portugal são as duas faces da mesma “má moeda” que nos “guverna” desde a Inquisição – e muito em especial durante os 48 anos do Estado Novo -, com os “brilhantes” resultados que estão à vista…

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