Com este vestido preto, nunca me comprometo

Cavaco Silva não se limitou a assistir inerte ao chumbo do PEC 4, passividade que por si só já seria violadora da sua responsabilidade presidencial tamanha a gravidade da situação, ele foi ainda – e principalmente – um dos instigadores desse momento que arrastou o País para o Governo do casal Passos-Relvas, os quais estavam unicamente interessados em alienar a soberania a troco do usufruto do poder de forma cobarde, arrivista e impenitente. Ora, se Cavaco tivesse querido, o PSD viabilizaria o acordo alcançado pelo Governo socialista com a Europa e as eleições seriam marcadas adentro desse contexto protector, provavelmente em Setembro de 2011. Ou, se Cavaco tivesse querido, tal como Sócrates também queria, o País testemunharia um acordo de regime entre o PS e o PSD, pelo menos, de modo a conseguir navegar através da tempestade perfeita que se abatia sobre nós desde começos de 2010. Em vez disso, vimos uma pequena aldeia de irredutíveis lúcidos a clamar por mero bom senso a ficar cercada por legiões e legiões de ululantes adeptos das eleições, aqui com a esquerda pura e verdadeira à cabeça, e fanáticos da chegada dos senhores estrangeiros para meterem na ordem os indígenas, aqui com os direitolas e os broncos a mandarem cartolas e foguetes pelos ares.

O nosso sistema político tinha os recursos para evitar o erro suicida que consistiu em trocar um mau acordo por um péssimo acordo, logo depois transformado em impossível acordo. O PEC 4 era mau porque a receita era má, mas não se podia escapar a ela e permanecer na Zona Euro. O Memorando era péssimo mas não era obrigatório. E as alterações ao acordo de resgate, que o actual Governo decidiu fazer a cada avaliação, afundaram Portugal na maior crise económica e social desde o 25 de Abril. Imaginemos, pois, um cenário alternativo. Que teriam feito Eanes, Soares ou Sampaio caso estivessem em Belém face a situação análoga? Ou imaginemos, por mais improvável que seja, que a Presidência estava na mão de figuras do calibre de um Adriano Moreira, de uma Teresa Patrício Gouveia, de um Guilherme de Oliveira Martins ou de um Carvalho da Silva? Ou ainda, pura e simplesmente, que teria feito qualquer outro fulano que não se chamasse Aníbal António Cavaco Silva? O que se passou em Portugal em Março de 2011 exigiu a vontade concertada dos diferentes poderes que constituem a direita nacional e correspondeu a um golpe de grande ousadia e estouvado risco. A corda ia mesmo romper, puxada pelo Presidente da República e pelo Parlamento, cada órgão a fazer força na sua extremidade e recorrendo ao extremismo de prejudicar todo o País nessa maquinação.

Porém, contudo, todavia, o que de mais extraordinário e significativo aconteceu na comunidade que somos não data dos idos de Março de 2011, pese a espectacularidade e consequência desses eventos, mas de Agosto e Setembro de 2009. O espantoso facto de se ter lançado uma conspiração escabrosa a partir da Casa Civil contra o Governo, o partido maioritário e o primeiro-ministro, recorrendo-se a um órgão de imprensa e estando-se a semanas de eleições legislativas, conspiração essa que foi assumida oficialmente pelo Presidente da República depois de ter sido denunciada e desmontada, conseguiu ser ultrapassado em espanto incomensurável quando se revelou uma sociedade conivente com a Inventona das Escutas. E se o silêncio do PS ao tempo se pode justificar pelo sentido de Estado e mera prudência que pediam estoicismo a quem governava e se vê logo depois a ter de continuar a governar mas em minoria, já o silêncio das figuras de referência do regime, mais o silêncio da esquerda, expõem um país que não se respeita. Um país de biltres.

Estamos agora, outra vez, com os ouvidos cheios dos valentões da esquerda do “com este vestido preto” a berrar contra o PS, o centrão, as décadas de miséria e roubalheira que eles foram registando em placas de mármore. Nada lhes dá mais alegria de viver do que a caça aos socialistas, qual luta contra a direita qual quê. Combater a direita é assim a modos que arriscado. E aborrece. Já a intenção de pegar fogo ao PS é um sonho lindo que não comporta risco nenhum e garante medalhas e taças. Eis a supina vantagem do maniqueísmo, a melíflua alucinação de reduzir a História aos limites do bestunto.

6 thoughts on “Com este vestido preto, nunca me comprometo”

  1. O PS que faça o que tem a fazer. Para ja foi ao encontro de mao estendida com o BE chamar lhe manobras partidarias. Ao do PCP nao vai, que os comunistas ha muito sabem o que a casa gasta.

  2. Estava a ler o post e estava a ver que não se levantava o papel do BE e PCP…Ainda hoje o seu inimigo continua a ser o PS, haja o que houver…

  3. Uma cagarra c’agarre o gajo, o adopte e guarde no ninho, com muito amor e carinho. A sua utilidade será bem maior lá do que cá.

    Também podemos reviver o espírito de Abril e, à falta de gaivotas, cantar:

    “Uma cagarra cagava, cagava, merda no gajo, até o tapar.”

  4. Bater sem piedade no Cavaco e nesta Direita golpista e irresponsável nunca é demais.

    Apontar a Esquerda à esquerda do PS como cúmplice imoral da vitória fulminante desta corja nojenta em 2011 é sempre útil, para avivar a memória dos mais esquecidos.

    Mas dar-lhe importância excessiva não leva a nada. Mais valera perder o tempo a discutir as contradições do atual PS, que tem muito mais (e de útil) que se lhe diga.

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