Errar é humano, errar muito é sinal de que se exerce ou exerceu o poder. Não precisa de ser um poder político. Os pais erram. Os amantes erram. Os amigos erram. Os gestores erram. Os patrões erram. E os professores, os polícias, os militares, os juízes e os médicos erram à fartazana. Até Einstein errou (e não foi pouco).
Coincidindo com uma crise que só comparava na sua dimensão e gravidade com algo acontecido 70 anos antes, agravada por uma outra crise nascida da primeira que se apresentava absolutamente original, começou a ser exigido a Sócrates que reconhecesse os erros. Os seus tão grandes erros. Só que o primeiro-ministro de então tinha outra ideia: frustrar o desejo de humilhação que os seus imensos adversários alimentavam em crescente fúria. Terá essa atitude sido um erro?
Quando se acusa um governante ou ex-governante de ter errado, três possibilidades semânticas podem ocorrer:
a) O erro ser técnico. Por exemplo, ter-se enganado nalgum cálculo orçamental que tenha gerado um qualquer prejuízo. Nesse caso, o suposto erro revelaria incompetência.
b) O erro ser aferido a posteriori. Por exemplo, ter feito um investimento num porto e ele mostrar-se ruinoso por não ter conseguido captar mais trânsito de navios e mercadorias. Nesse caso, o suposto erro revelaria incapacidade.
c) O erro ser de tipologia ideológica. Por exemplo, apostar na Educação e na Segurança Social, canalizando para aí parte importante dos recursos. Nesse caso, o suposto erro revelaria uma natureza maligna.
Quem acusa políticos recorrendo à arma dos “erros” está sempre em pelo menos um destes registos, mas o mais provável é que a acusação reúna e misture os três. Quão mais emocional, sectária, fanática, desinformada, analfabeta e estúpida for a cabeça que faça a acusação, mais provável é que não haja qualquer possibilidade de discernir e discutir o que se aponta como “erro”. É deste modo que se formam e mantêm os bodes expiatórios, através da matilha dos broncos. Sócrates foi, e assim permanece, como o mais famoso bode expiatório da democracia portuguesa.
Ninguém pede a Cavaco para assumir erros. Quer isso dizer que a sua governação está isenta deles? E que dizer da sua presidência, esse nobilíssimo exercício da mais alta concepção do Estado e do papel de protector da Constituição? Ninguém pede a Barroso, Santana ou Ferreira Leite para se mandarem ao chão em pranto e rasgarem as vestes por causa dos erros cometidos. E que dizer de Passos? Um ingénuo diria que o actual primeiro-ministro dá azo a alguns pedidos para reconhecer os seus erros. Ou será que Passos não errou quando recusou o PEC IV, quando fez uma campanha eleitoral onde mentiu do princípio ao fim e de alto a baixo, e quando foi além da Troika no empobrecimento dos portugueses só para acabar sem ter atingido os propalados objectivos da regeneração nacional? Tendo em conta que ninguém lhe exige tal coisa, pode ser que o Pedro não tenha errado. Quem estará a errar somos nós, os que ainda não emigrámos.
Como se vê acima, Sócrates admite poder ter errado na forma como lidou com os professores. Admite, sem acrimónia nem ressentimento, que Costa possa ter razão. Noutras ocasiões, já admitiu que errou ao aceitar ir para um Governo minoritário. Na campanha de 2009, disse ter errado ao ter desinvestido na área da Cultura. Ao mesmo tempo, vai repetindo o óbvio: que é impossível governar sem que alguém, seja lá quem, por alguma razão, seja ela qual for, considere que a governação errou aqui e ali. Logo, por que caralho havia ele de ser a excepção? O assunto é absurdo se tomado fora do seu contexto. Ora, o seu contexto não é o de uma investigação regida pela honestidade intelectual dos acusadores. Ninguém de ninguém, incluindo políticos, jornalistas e académicos, se mostrou interessado em reflectir fora das agendas ideológicas o período de 2008-2011 no que respeita à governação e ao papel da oposição e do Presidente da República. Mesmo os economistas que se declaram à esquerda do PS, e que desmontam a retórica da direita quanto às origens da crise, não têm o mínimo interesse em dizer algo que valide a racionalidade das decisões de Sócrates em 2010 e 2011, pois isso seria o equivalente a saltar para a cama do inimigo de estimação. A pressão para Sócrates reconhecer os “erros” não passava da normal luta política para o diminuir na sua liderança e carisma. O óbvio do óbvio.
Acontece que estamos em 2014 e Sócrates não sai de cena, a causa não estando nos seus minutos na RTP. Mesmo sem essa rubrica, ele continuaria a ser usado como arma de arremesso pela direita, grupo onde se encontra Seguro por adesão voluntária. Há toda a vantagem para este grupo em explorar até aos limites do possível a campanha de ódio contra Sócrates pois ela é, simultaneamente, uma campanha contra o PS que pode vir a ser Governo e um disfarce para o real programa de ataque à herança do 25 de Abril que vem a ser feito por Passos&Portas. Nesta situação, devemos apontar um erro a Sócrates.
Este: achar que se pode limitar aos seus 20 minutos semanais onde faz uma prelecção. Essa presença é um fracasso quanto à captação da opinião pública para a sua versão dos acontecimentos. Pelo que é necessário mudar de táctica e colher a lição do que aconteceu com o José Rodrigues dos Santos. Foi graças à estultícia desse jornalista, achando que ia bater em mortos, que foi possível ter um dos melhores momentos de esclarecimento, e convencimento, da audiência nesse espaço televisivo. É esse o palco que Sócrates deve procurar, o do confronto com os seus acusadores. Quem não gostaria de ver Sócrates a debater com Nuno Melo, Marques Mendes, Marcelo Rebelo de Sousa, Lobo Xavier, Aguiar-Branco, Carlos Abreu Amorim e sei lá quem mais? Seriam espectáculos imperdíveis.
E eles aceitariam? Eis o erro de Sócrates, não estar a desafiá-los directamente, obrigando-os a entrar no jogo da Verdade ou Consequência.