Žižek irritado com os comunas portugueses

Já têm 2 anos, pelo menos, mas estes 6 minutos são cristalinos quanto ao erro sistemático da esquerda imbecil: recusar a negociação. Ao recusar a negociação, o prémio é a manutenção da pureza fanática. Mas o preço é a ausência, a nulidade, o falhanço absoluto na defesa daqueles que alegam querer defender.

Slavoj Žižek usa o exemplo de Obama no combate pelo sistema de saúde pública norte-americano como paradigma do que é um pensamento da esquerda inteligente e corajosa. E é de um simples processo intelectual que está a falar, a simplicidade de usar o bom senso. A simplicidade de conseguir escolher entre 1 e 0. Ou mesmo entre 2 e 1.

No caso da esquerda pura e verdadeira portuguesa, e sua delirante convicção de que o “povo” está agradecido pelo sua recusa em partilhar responsabilidades governativas, é ainda mais simples: trata-se de conseguir escolher entre quem se contenta com a cassete e quem tem alma de compositor.

31 thoughts on “Žižek irritado com os comunas portugueses”

  1. havendo princípios e interesses, o melhor para eles, por uma questão de sobrevivência, é ficar pela defesa dos princípios. isto porque a negociação poderá levar ao uso do poder executivo, o que lhes seria fatal.

  2. peço desculpa,mas este simples operario que navega no aspirina com muito prazer, há anos que diz isto mas por palavras menos eruditas !

  3. executar,com os comunas só nas autarquias.é só dar e distribuir o poder com a direita quando precisam da maioria.gente reles é outra coisa!

  4. Isolar uma opinião de Zizek não é boa ideia. Pode despertar curiosidade em alguns habituais comentadores em conhecer o homem, a sua militância, os livros, e chegar à conclusão que é melhor mudar de clube.

  5. Comentaristas deste blogue, observem o que diz Val;

    ” Ao recusar a negociação, o prémio é a manutenção da pureza fanática. Mas o preço é a ausência, a nulidade, o falhanço absoluto na defesa daqueles que alegam querer defender.”

    “E é de um simples processo intelectual que está a falar, a simplicidade de usar o bom senso. A simplicidade de conseguir escolher entre 1 e 0. Ou mesmo entre 2 e 1.”

    “trata-se de conseguir escolher entre quem se contenta com a cassete e quem tem alma de compositor.”

    E depois vão ler tudo o que respondeu aos comentaristas no seu delirante post “O Erro de Sócrates”, uns post atrás.
    Como exemplo claro de que Val anda confuso e perdido entre a perseguição dos valores absolutos metafísicos transcendentais do Bem Absoluto ou Ideia platónica e o relativismo absoluto de Protáguras de que tudo o que se diz é verdade porque, desde logo é verdade para si, está visível na sua obstinação pura de recusar votar Costa face a um mal maior e aqui fazer a defesa e apologia de um simples processo intelectual, a simplicidade de usar o bom senso; a simplicidade de conseguir escolher entre 1 e 0. Ou mesmo entre 2 e 1.”

    Parece mentira não é?

  6. jose neves, continuas com afinco o estudo da minha pessoa. Deves continuar, pois só te faz é bem. Mas precisas igualmente de sair de casa; dia sim, dia não. 0k? Sempre sentado em frente ao monitor não é vida que se recomende, há que desopilar um bocadinho.

  7. os mantras, quando muito, servem para paralisar – já que a hipnose é terapêutica e tem como finalidade, servindo-se de metáforas criativas, fazer o paciente avançar.

    já a ausência de negociação, e negociar é sempre levar em consideração a economia de interesses para o bem comum das partes, faz inevitavelmente a escalada irracional.

  8. Do not be afraid, join us, come back! You’ve had your anti-communist fun, and you are pardoned for it—time to get serious once again!

    Slavoj Žižek

  9. A Kautsky, Kerensky,Miterrand,ao inglês do pic-nic dos Açores com o Bush, perguntai-lhes,se não tendes opinião, o que conseguiram com a negociação. Volto a Aquilino Ribeiro: quem lava burro preto,perde ÁGUA e SABÃO!

  10. A esquerda imbecil, para Zizek, são vocês.

    Para se perceber o que é o PS podemos reportar ao caso BPN e como a solução do PS foi a de nacionalizar os prejuizos privados deixando os activos fora da nacionalização, beneficiando completamente o infrator em prejuizo dos recursos que hoje são necessários para, por exemplo, as reformas dos trabalhadores.

    O BPN é o buraco que o PS legou ao país. Mas não só o BPN. O PS legou também contratos PPPs ruinosos para o Estado.

    O PS contribuiu e muito para a ruína actual do país.

  11. Nada que uma “consulta” ao Zizek não resolva. Para que os resultados sejam substanciais devem levar bem estudadas as folhas do “Violência”

  12. Valupi,

    É exactamente ao contrário. Zizek faz o elogio do PCP, porque faz o elogio do reformismo. Evitar as grandes narrativas que as pessoas não percebem, e pegar em cada causa individualmente considerada, tal como faz o PCP e o seu programa de cumprir a CRP, de defesa da saúde pública, gratuita e de qualidade. O programa do PCP, a democracia avançada, é isso mesmo, um programa de reformas no quadro constitucional do capitalismo português.

    A tal negociação que o Valupi pede, faz-se sobre um plano inclinado para o avanço liberal. Algo que o PCP, em boa verdade, não faz. Senta-se à mesa com os parceiros sociais e negoceia sempre que dá para manobrar e fazer com que o trabalho ganhe algo. Mas quando o plano está inclinado para o outro lado, recusar sentar-se à mesa é a única coisa a fazer, até para um reformista.

    O PCP e o BE são os únicos partidos social-democratas e de defesa dos trabalhadores que existem em Portugal. São os únicos instrumentos institucionais para fazer aquilo que Zizek pede aí nesse vídeo. Embora eu discorde dessa táctica..

    Cumprimentos

  13. Valupi,

    Só mais uma achega. Estou disposto a aceitar, no entanto, uma ideia: os reformismos do PCP e do BE não servem para nada porque não reformam nada. O capital avançou até aqui sem grandes dificuldades, e o desmantelamento do salário social e dos direitos laborais tem sido um processo contínuo. Mas a conclusão a retirar não é a de que o reformismo do PCP, e de que se o PCP se sentasse com o PS, se se encaixasse na estrutura de poder, poderia conseguir pequenas vitórias para os trabalhadores. Estou convencido que se o PCP ou o BE fizessem isso, a ruína seria ainda maior, como o exemplo italiano demonstra à saciedade.

    A falência é do próprio reformismo como táctica.

    Cumprimentos

  14. Argala, pode ser que tenhas absoluta razão. Não saberia como o confirmar, mas admito, por imperativo epistemológico e filosófico, que sejas o detentor da verdade. Porém, como também antecipo que aceites, não sendo para mim evidente que tenhas razão, tenho de continuar agarrado ao que me parece fazer sentido,

    Ora, o que me parece fazer sentido é respeitar o que escreveste. E nisso que escreveste encontra-se isto:

    “A tal negociação que o Valupi pede, faz-se sobre um plano inclinado para o avanço liberal. Algo que o PCP, em boa verdade, não faz. Senta-se à mesa com os parceiros sociais e negoceia sempre que dá para manobrar e fazer com que o trabalho ganhe algo. Mas quando o plano está inclinado para o outro lado, recusar sentar-se à mesa é a única coisa a fazer, até para um reformista.”

    Repara que não tens como demonstrar que a negociação proposta esteja “inclinada para o plano liberal”. Por um lado, porque não fiz referência a qualquer inclinação. Por outro lado, porque a negociação não existe, estamos apenas a fazer referência a ela no plano abstracto de ponderar a sua viabilidade. Donde, és tu que estás a incluir esse pressuposto para justificar a recusa. Inevitavelmente, irás recorrer a argumentos de fé para justificar a falácia.

    Mas o teu problema é mais grave ainda, como se pode constatar pelas tuas próprias palavras. É que no passo seguinte estás a constatar dois factos: 1- Que o PCP negoceia quando vê que pode daí obter vantagens para os trabalhadores. 2- Que o PCP negoceia com o capitalismo, representado pelos parceiros sociais. Donde, a recusa em negociar com o PS terá de ter outra origem e resulta em prejuízos para os trabalhadores dado que o PCP não aproveita as oportunidades à disposição para obter ganhos.

    Gostava igualmente que pensasses nisto:assim como se pode dizer que o plano está inclinado para os interesses liberais, de igual modo se pode dizer que os interesses liberais teriam de se inclinar para a esquerda em ordem a existir um acordo que acolha algumas reivindicações da parte não liberal com quem se estabelece o acordado.

    No fundo, Argala, o que vieste fazer nesta caixa de comentários foi mostrar que a estratégia do PCP passa inevitavelmente pela recusa de qualquer negociação com o PS. Mas isso já sabíamos, sempre se soube e é a razão pela qual o capital adora o PCP.

  15. Valupi,

    É mentira que eu não tenha forma de demonstrar o que afirmo, mas seria uma exposição demasiado longa. A minha prova é a experiência institucional e sindical desde o 25 de Abril.

    A negociação do PCP com o PS para o empurrar para este lado da barricada começa logo nos governos provisórios. O PCP cede aqui e ali (em questões tão flagrantes como a presença de Portugal na NATO), o PS diz que quer o socialismo em liberdade, e não vale a pena repetir o resto da história.

    O PS é um actor liberal nas negociações. O PS é um partido liberal. Não há sequer um mínimo denominador comum. O que significa que o que o PCP quer, tem que arrancar a ferros, dando ao PS algo que ele queira (estabilidade numa maioria relativa, por exemplo). É isso que queria dizer.

    Os partidos chegam à mesa das negociações e defrontam-se com propostas do estilo: “ou aceitam o PEC ou o PSD vai ganhar as eleições”. Ainda me lembro do Louçã a cair nesta esparrela num voto de uma moção de censura no governo do Sócrates, onde o BE faz uma moção precisamente para não ser aprovada. Lembra-se disto?

    O PS faz parte da força que inclina o plano. Por mero exemplo, vide o caso do salário mínimo. Nem quando o PCP e o BE conseguem pequeninas vitórias na concertação social, como o aumento do salário mínimo, estas são cumpridas.

    Diga-me lá honestamente. Acha mesmo que o PCP e o BE ganhavam alguma coisa para o trabalho se estivessem a votar favoravelmente os OE do PS? Já referi o caso italiano, mas agora posso referir as coligações PSOE/IU na administração local.

    Ao invés, a minha crítica ao PCP e ao BE é diferente da sua. Para mim, negociar com o PS pode ser feito, mas só em posição de força: “ou fazem isto, ou acontece-vos aquilo”. É assim que se deve negociar com o PS.

    A crítica que se pode fazer ao PCP e ao BE, é a crítica mais geral ao reformismo. Não serve, e toda a evidência história o demonstra. Negociações com quem está do outro lado da barricada, só ajudam a agudizar o problema.

    Cumprimentos

  16. Argala, confirmaste tudo o que disse a respeito do que escreveste. Ora vamos lá:

    – Disse que não tinhas forma de demonstrar que uma negociação futura tivesse uma “inclinação para o plano liberal” e acertei, pois vieste falar de episódios passados. Estás aqui a usar um argumento de autoridade e de infalibilidade, o lado papista da extrema-esquerda ou esquerda ditatorial.

    – Disse que caías em contradição ao louvar as negociações do PCP com os parceiros sociais e ao louvares a recusa de negociações com o PS, e em contradição voltas a mergulhar ao definires o processo negocial como a situação em que uma parte impõe a sua vontade contra a vontade da entidade com quem se negoceia. Obviamente, não é a negociação que te interessa, mas a subjugação.

    O teu problema é, repito-me, mais grave, porque no seu fundo está a recusa do regime vigente. O regime consiste num democracia liberal. E a Constituição que o fundamenta consagra isso mesmo: a democracia e o liberalismo. Claro, podem-se conceber outras formas de democracia que não sejam representações do liberalismo enquanto filosofia política, mas não consta que essa questão interesse à maioria da população portuguesa.

    Que resta? Três possibilidades:

    – A solução do PCP e quejandos, os quais recusam mais ou menos secretamente o regime democrático liberal, mas que tentam manter-se nele e obter o máximo de vantagens possíveis. No caso do PCP, trata-se de garantir posições no Parlamento, nas câmaras e nos sindicatos.

    – A tua solução e de outros como tu, que é a de uma resignação melancólica, esse cinismo estéril que alimenta e cristaliza o sectarismo. Para vós, o mundo é um lugar nefasto e só a revolução é que o poderia purificar. Contudo, a revolução dá muito trabalho, ou é muito arriscado, ou já não há pernas para essas avarias.

    – A solução final, fazer a revolução. Não sei se alguém em Portugal perde o seu tempo com isso, para além dos putos, mas se existe não parece que esteja a ter sucesso. Mas cá continuaremos à espera desses bravos.

    __

    Olinda, nesse caso, e para os próximos tempos pelo menos, não há nada a fazer.

  17. “Disse que não tinhas forma de demonstrar que uma negociação futura tivesse uma “inclinação para o plano liberal” e acertei”

    Podia demonstrar por indução. Por isso é que disse que a exposição é longa. Não vou despejar aqui todo um rol de factos e acontecimentos da vida institucional desde o 25 de Abril. Desde o 25 de Abril que houve um avanço contínuo das forças do capital, em todas as áreas.

    “Disse que caías em contradição ao louvar as negociações do PCP com os parceiros sociais e ao louvares a recusa de negociações com o PS, e em contradição voltas a mergulhar ao definires o processo negocial como a situação em que uma parte impõe a sua vontade contra a vontade da entidade com quem se negoceia. Obviamente, não é a negociação que te interessa, mas a subjugação.”

    Não é uma contradição. É a aplicação de posições distintas em negociações distintas. A negociação com o PS, uma força que está em confronto directo com o trabalho, faz-se assim como descrevi. A mesma regra não se aplicará às forças que possam ter interesses semelhantes.

    “O teu problema é, repito-me, mais grave, porque no seu fundo está a recusa do regime vigente.”

    Não é um ‘problema’. É a minha posição política. Se eu não fosse contra o regime vigente, não seria comunista.

    E não, a minha posição não é melancólica, nem a posição do PCP é aquela que descreves, porque não tens provas para o afirmar.

    Por partes. O PCP foi o primeiro partido a registar-se depois do 25 de abril, a defender a fase “democrática” contra os “aventureiristas”. Foi e é um partido desta terceira república desde sempre, com um programa eleitoral para ser executado neste quadro constitucional. Não existe o mais leve indício que faça alguém suspeitar dos laços que unem o PCP ao actual regime. O PCP tem mais respeito pelo regime e a ordem constitucional que o governo, e as coisas “mais ou menos” secretas (??) que saiba do PCP não são nada, quando postas ao lado do historial do partido. E sim, esse apego secular do PCP à legalidade e à Constituição, é aquilo que, na minha opinião, o impede de realizar as tarefas próprias de um Partido Comunista. Em suma, você acusa o PCP do facto de ele se recusar a negociar para preservar a pureza (quando sempre negociou, desde o princípio, alimentando a possibilidade de puxar o PS para o campo do trabalho; e a pureza.. bem.. onde é que isso já vai..) e de, secretamente, se opor ao regime vigente – o que a história não confirma.

    A minha posição não é de resignação melancólica. Até porque os tempos estão interessantes..

    Cumprimentos

  18. Argala, por indução não se demonstra, esta é de manual. Mas tu nem sequer te dás ao trabalho, porque já lhe advinhas o desfecho: estarias apenas a falar do passado. O PCP, e qualquer comunista que se preze, é um cultor do passado pela simples razão de estarmos perante uma organização cuja temporalidade implica uma mitologia das origens e uma teleologia apocalíptica -“os amanhãs que cantam”. Daí poderem esperar, ao ponto de tudo acabar por ser indiferente. Desde que tenham um pedaço de terreno conquistado, a luta continua e recomenda-se.

    Como tu sabes, e bem melhor do que eu, o PCP estabelece no seu programa que o período histórico que se inicia no 25 de Novembro de 1975 é “contra-revolucionário”. Daqui decorre que o PCP considera que o regime foi pervertido e deslegitimado. Ou seja, desde 25 de Novembro de 1975 que o capitalismo tomou conta do regime, conspurcando e viciando todos os seus processos, a começar pelos legislativos. Um dos corolários que o próprio programa do PCP deixa patente é este:

    “A aprovação de leis inconstitucionais e revisões mutiladoras da Constituição inseriram-se num processo de reconstituição, restauração e reconfiguração do domínio dos grupos monopolistas, associados e dependentes do capital estrangeiro.”

    Vou agora apelar às tuas competências indutoras para me explicares se esta passagem é compatível com “o respeito pelo regime e a ordem constitucional”. Como é? O PCP respeita um regime e uma ordem constitucional que declara estarem ao serviço do imperialismo capitalista?

    Todos os tempos são interessantes, companheiro, com ou sem traduções chinesas. É essa a essência mesma da liberdade.

  19. Meu caro Valupi: Se o PCP é um partido do passado, esqueçam-no,parem de o combater e voltai as vossas armas contra a direita que vos come de cebolada. Deixai o melancólico marxismo fenecer e,agarrados aos Antónios, pelejai até à morte contra os Salazares ressuscitados!

  20. manuel pereira, essa tentativa de controlar o que os outros pensam, dizem e fazem tem muita popularidade na Soeiro Pereira Gomes. Mas não estamos obrigados a tanta camaradagem com a ciência da História. Coisas da liberdade, nunca os aprendizes de ditadores irão compreender.

  21. “por indução não se demonstra”

    É certo que isto não é matemática, mas a experiência histórica vale muito. O passado ensina muito sobre o que é o PS e o que podemos fazer ou não com ele. Qual é a próxima ilusão?

    Vamos supor que o PCP agora se aproxima do PS, e quer com ele construir um programa comum de coligação. Exactamente que parte do programa do PCP é que o PS está disposto a aceitar?! E vice-versa?!

    O PS vai aceitar a nacionalização dos monopólios naturais que ajudou a privatizar? O fim das PPP que assinou? A reforma do código laboral em benefício dos trabalhadores que o Vieira da Silva tanto combateu? A renegociação da dívida? A NATO? O €uro? A diminuição das taxas moderadoras que o PS aumentou? O restituição dos serviços de saúde de proximidade que o PS fechou? O memorando da troika que o PS assinou? É apenas isto que afirmo. O que é que pode ser comum aqui? Não há nada para negociar com o PS, a não ser em posição de força. Não há nada no PS que interesse aos trabalhadores.

    “Vou agora apelar às tuas competências indutoras para me explicares se esta passagem é compatível com “o respeito pelo regime e a ordem constitucional”. Como é?”

    É simples. O PCP apresenta-se como o único partido em Portugal que quer realizar o programa social que está na CRP. A mesma que ainda hoje define no seu preâmbulo que a “Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português (…) de abrir caminho para uma sociedade socialista”. Defendem que é o programa do PCP que está dentro dos objectivos constitucionais. E apesar das revisões constitucionais, e das relações de tipo capitalista que vigoram em Portugal, as transformações que o PCP propõe devem ser feitas no quadro da lei fundamental. Precisamente o ponto que cita é revelador:

    “4. As ofensivas contra as conquistas de Abril e a firme luta do povo português na sua defesa tiveram a caracterizá-las, por um lado, o constante desrespeito e violação por parte de sucessivos governos das leis e da Constituição e, por outro lado, o desenvolvimento da luta popular em observância da legalidade democrática e exigindo o seu respeito pelos órgãos de poder.

    A legalidade democrática afirmou-se assim como um obstáculo real a uma política que subverteu o regime instaurado com a revolução de Abril. A aprovação de leis inconstitucionais e revisões mutiladoras da Constituição inseriram-se num processo de reconstituição, restauração e reconfiguração do domínio dos grupos monopolistas, associados e dependentes do capital estrangeiro.”

    Posso complementar isto com declarações de Jerónimo de Sousa (a propósito de declarações do Otelo sobre o papel dos militares): “A nossa proposta é que haja uma ruptura com esta política através da luta dos trabalhadores, das populações, de todos os patriotas democratas que estão preocupados com o seu país, num quadro que a Constituição da República acolhe e consagra: a luta de um povo que não pode ser substituída por ninguém”.

    Continuo a achar que essas acusações são injustas. No actual regime, o PCP vê-se a si como polícia, e a reacção como os ladrões (mesmo que os ladrões ocupem postos de chefia de governo e estado).

    Cumprimentos

  22. Argala, estás assim a modos que a patinar. Que não defendes qualquer negociação com o PS está claro desde a primeira linha que escrevi. No entanto, e caso sejas um comunista que se filie no marxismo (pois, às tantas, o teu comunismo terá outra raiz), então essa da experiência histórica valer muito pede esclarecimentos. Como sabes, e melhor do que eu, o materialismo dialéctico pressupõe que a acção política vá dando origem a novas situações que pedem uma inteligência original. Nunca aconteceram antes, daí não poderem ter no passado a chave para a sua plena interpretação. É o caso desta questão à volta das negociações com o PS, onde te esforças por negar a realidade da própria História que alegas representar.

    Repara: se o PCP negoceia com os parceiros sociais, grupo onde também estão os patrões, e se os parceiros sociais estão inseridos no sistema capitalista, então o PCP negoceia com capitalistas e com a sua estrutura de produção. Sendo assim, a recusa em negociar com o PS tem de ter outra origem e outro propósito. Os argumentos que tu dás não resistem às tuas próprias palavras.

    Quanto à Constituição, aqui tropeças e quase que mandas a toalha ao chão. Pelo que percebo, o PCP é o guardião do Preâmbulo, tudo o resto servindo para o imperialismo capitalista dar cabo da revolução. Não há citações do Jerónimo que te valham.

  23. “então essa da experiência histórica valer muito pede esclarecimentos. Como sabes, e melhor do que eu, o materialismo dialéctico pressupõe que a acção política vá dando origem a novas situações que pedem uma inteligência original. Nunca aconteceram antes, daí não poderem ter no passado a chave para a sua plena interpretação.”

    Correctíssimo. E a palavra ‘plena’ está aí a para confirmar aquilo que escrevi. A história do PS é uma parte das razões que justificam a posição actual.. não é tudo.

    A situação pode alterar-se, e forçar-nos a adoptar outras tácticas – como por exemplo alianças com forças da burguesia. Nada disso é estranho na história do movimento operário, já foi feito: a experiência das frentes populares para travar o fascismo. Qual foi o resultado disso?

    Partidos comunistas também já experimentaram aquilo que defendes, e não é irrelevante a experiência histórica que daí se colheu. No estado espanhol o PCE a baixar a grimpa à monarquia na transição, em Itália em coligações, e sabemos o que se passou.

    “então o PCP negoceia com capitalistas e com a sua estrutura de produção. Sendo assim, a recusa em negociar com o PS tem de ter outra origem e outro propósito.”

    O PCP representado na concertação social pela CGTP-IN, tem para com as entidades patronais, o mesmo comportamento que tem com o PS. Estão lá sentados, de facto. Os poucos acordos a que chegam, como o do salário mínimo (que não foi cumprido por Sócrates), são feitos como referi. Aquilo que estás a pedir ao PCP para fazer com o PS é diferente, são acordos para governar “à esquerda”. Mas o que ainda não percebeste é que o PCP tem um programa social-democrata e o PS é um partido liberal. E como tal, não é possível fazer um programa comum.

    Um programa comum talvez pudessem fazer o PCP e o BE, se nisso vissem vantagens. Mas como é que isso se faz com o PS?!

    “Pelo que percebo, o PCP é o guardião do Preâmbulo, tudo o resto servindo para o imperialismo capitalista dar cabo da revolução.”

    Como deves ter reparado, eu estava a descrever o programa do PCP, não o estava a defender.

    Eu também acho que o programa leva o PCP a entrar em contradições, problemas e a abandonar tarefas que são a razão de ser de um Partido Comunista. Mas os problemas não são aqueles que apontas.

    O PCP diz que a CRP é o programa dos trabalhadores. E de facto, a nossa constituição tem orientações nas quais os comunistas se podem rever, por mero exemplo preconiza a abolição do imperialismo e dos blocos político-militares. E de facto ela foi mutilada, mas o PCP não propõe nada que deva ser feito fora desse quadro legal.. e é isso que não consegues refutar.

    Cumprimentos

  24. Argala, não consigo nem tento. A devoção do PCP pelo legalismo, algo que espelha a sua cultura ditatorial e o seu fundamentalismo moral, é o seguro da direita portuguesa. Quando Bagão Félix, antes do chumbo do PEC IV, veio propor um Governo PSD-CDS-PCP não estava na reinação. Ou não estava apenas na reinação. Estava também a louvar aquilo que reconheceu como a “seriedade” do PCP – por contraposição com a desonestidade do PS de Sócrates. Igual sentimento se encontra em Cavaco, alguém que adora o Jerónimo porque o Jerónimo não é malandro, é comunista. E, ao ser um comunista português, trata-se de alguém que um fulano como Cavaco pode aturar e em quem até pode confiar. Os comunistas não enganam ninguém, são santos, diz quem sabe da coisa. O mesmo para o agrado com que a direita vê a actuação dos sindicatos controlados pelo PCP, verdadeiras polícias dos desvarios da extrema-esquerda ganzada ou alucinada. Não há qualquer dúvida, o capitalismo pode fazer o que bem entender a partir da Constituição que ainda ganha como bónus o respeito do PCP pela Lei vigente.

    Não adianta falar mais do PS e do PCP porque estás obcecado com a tua experiência. Tens a taça cheia, como se diz no Zen. Pelo que vou tentar que acrescentes algo de novo. Por exemplo, dado que não representas o PCP, e até o consideras uma versão defeituosa do que deve ser um partido comunista, qual é o teu plano para trazeres a paz e a abundância à Terra?

  25. Estou de acordo que o legalismo do PCP é uma válvula de segurança muito importante para o patronato, mas não é assim que se devem comportar os comunistas. Um Partido Comunista não é uma confraria de juristas.

    Os trabalhadores devem olhar para a lei da mesma forma que a burguesia. Devem ser malandros e cínicos: aproveitar as possibilidades na lei para levar a água ao nosso moinho e fazer vista grossa ao que não interessa. O Passos Coelho faz o mesmo. E obedecer à lei, assim sem mais considerações, é aceitar combater com menos armas que o inimigo.

    Quando o Mário Soares acusava o Cunhal de estar com um pé dentro e o outro fora (do governo provisório), estava apenas a descrever aquela que deve ser a atitude dos comunistas. Os comunistas podem apresentar-se a eleições, se nisso virem vantagens para a luta revolucionária. A luta legal e institucional é apenas uma das armas de que deve dispor um PC. Ou seja, quando dizes “Jerónimo não é malandro, é comunista”, pois eu acho que não pode ser comunista sem inspirar a desconfiança do Cavaco, sem ser “malandro”.

    “qual é o teu plano para trazeres a paz e a abundância à Terra?”

    Não cuideis que vim trazer a paz à terra.. :)

    Cumprimentos

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