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É tímido, mas também bom rapaz

Na entrevista de António Costa à TVI24, na semana passada, Paulo Magalhães tentou que o seu interlocutor abandonasse o registo das indirectas, ainda por cima básicas, e nomeasse aquele a quem se dirigia. Costa recusou de modo infantil parar com a infantilidade. O assunto pode parecer menor mas nada há de irrelevante quando está em jogo a liderança de um Governo. É para esse cargo que ele concorre, e, pelos vistos, não está a ter o aconselhamento estratégico que o desafio merece. Porque a ideia que fica é a de uma duplicidade imatura, uma parvoeira. Algo que diminui o seu carisma e levanta dúvidas sobre o seu auto-domínio.

Estando eu na posse de um curso de psicologia de café, atribuo a malapata à timidez. Costa é tímido, o que o leva para posturas onde se inibe. Porém, como simultaneamente usufrui do poder no topo da pirâmide, a tensão acumulada solta-se imprevista e violenta. Foi o próprio que o admitiu numa outra entrevista, quando justificou berros e murros na mesa como formas naturais do exercício da gestão sobre as suas equipas. É aquilo a que se tem assistido, ao começar por prometer que não respondia a ataques pessoais, uma excelente ideia, e pouco depois estar também a fazê-los, uma péssima ideia. Sim, os ataques de Seguro são canalhas, apontam ao carácter e à honra do seu adversário, enquanto os ataques de Costa são políticos, denunciam a fraqueza e perversão dos actos do seu adversário. Todavia, para a audiência, Costa aparece a rebolar com o porco na pocilga.

O PS não precisa de união, uma contradição que tolhe o discurso e a pose de Costa. O PS não precisa de Seguro no próximo grupo parlamentar do PS. O PS não precisa de Seguro no PS. O PS, numa situação única na sua história em que tem um secretário-geral disposto a destruir o partido porque se considera superior a ele, precisa de desunião. Frontal, total e decidida desunião. O combate pela liderança do partido está a ser um palco para se exibir a capacidade de liderar o País. Um País que, igualmente, não precisa de união, posto que não há união possível com quem o afundou para o explorar nem com os seus aliados de ocasião.

Vai Costa assumir a evidência? Não. Mas só porque é tímido, não porque seja mau rapaz.

O Crachá de Ouro perdeu o brilho

Teófilo Santiago, o inspector da PJ que dirigiu a investigação do processo Face Oculta, foi entrevistado pela TVI, SIC e RTP no rescaldo da leitura das sentenças em Aveiro. São peças que variam entre os 2 e os 5 minutos, repetindo o mesmo enfoque narrativo: a exploração do estado emocional, afectivo e sentimental do entrevistado. Os perguntadores aparecem a guiar e forçar as declarações, como parteiras das expressões que vão saindo com hipócrito esforço do sujeito. Da TVI para a RTP, passando pela SIC, há um crescendo da anulação da função jornalística, com as suas competências críticas e obrigações deontológicas, substituída pelo simulacro de uma entrevista que não passa de um tempo de antena. A duração das peças acompanha a extensão da manipulação, sendo a RTP a ir mais longe na (con)fusão com a subjectividade do estupendo inspector.

Que ficámos a saber pela boca do próprio? Que teve “satisfação” com as sentenças, que “se fez justiça”, que “as penas não são pesadas, são justas”, que “as sentenças decorrem naturalmente do que os acusados fizeram”, que “o tribunal foi corajoso” e que, apesar de se mostrar um especialista-tagarela em jurisprudência, “não faz parte da sua forma de ser comentar as decisões judiciais”. Primeiros corolários: este inspector da Judiciária (i) vê o julgamento das provas obtidas nas investigações como uma mera extensão mecânica, invariável, da recolha das mesmas e (ii) só raramente vê os tribunais a lavrarem sentenças que decorram do que os acusados fizeram, daí louvar a excepção, a “coragem”, deste tribunal neste processo. Ou seja, os tribunais portugueses, na sua prática corrente, não são “corajosos”, não aplicam a Lei, não “fazem justiça”, afiança o crachá de ouro.

Que mais ficámos a saber pela boca do próprio? Que num processo onde estão envolvidos, directa e indirectamente, um ex-secretário de Estado, um ex-ministro, uma secretária de Estado em funções, um ministro em funções, um primeiro-ministro em funções, processo que rebenta em cima de um período eleitoral para umas legislativas e autárquicas, processo onde pela primeira vez na democracia portuguesa se espia um primeiro-ministro através de uma instituição estatal, processo onde a investigação ilude a legislação antes, durante e depois da espionagem, processo que gera fugas ao segredo de justiça que passam a servir de arma política, processo que dá origem a um clima de suspeição à volta de um Procurador-Geral da República e de um Presidente do Supremo, processo que vai para o Parlamento na forma de uma comissão de inquérito onde se arrasta durante meses, pois é este mesmo processo que o Teófilo considera ser ofensivo considerar como “político”. Ofensivo para si, para a sua equipa, para a Judiciária, para os magistrados e para o Tribunal. Tão ofensivo que ele chega a sugerir que só não respondeu (??) a essas declarações porque não pôde. Será que está a responder agora? Será que lhe chega tratar como “cobardes” os que ousaram fazer tais declarações? Qual seria o castigo suficiente para que o grande Teófilo se sentisse, também aqui, “satisfeito”? Segundos corolários: este inspector da Judiciária (i) não distingue entre tipologias de crimes, esferas do Estado, consequências políticas da acção policial e judicial e (ii) personaliza a reacção dos envolvidos e concebe-se como representante corporativo para efeitos de multiplicação e maximização de um suposto dano de honra. Ou seja, estamos perante um concepção primária, ou fundamentalista, da acção policial e testemunhamos a exposição de um estado mentalmente perturbado que colide com as exigências profissionais de um vulgar agente da Judiciária, quanto mais de um investigador de topo e com a sua responsabilidade num processo deste melindre.

Quem quiser investigar o investigador encontra nesta entrevista de Março de 2014 – «PERDI A INOCÊNCIA NO APITO DOURADO. E COM O FACE OCULTA DESACREDITEI DE TUDO» – indícios suficientes para abrir um processo na Procuradoria-Geral da Inteligência a seu respeito. Por ela ficamos a saber que o Teófilo Santiago tem uma excelente opinião acerca da sua magnífica pessoa, que odeia políticos, que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento protegeram Sócrates (portanto, que são corruptos) e que acha que há leis a mais. A entrevista é radical porque o levou a libertar duas considerações que iluminam a face negra do Face Oculta:

TS- Até já ouvi dizer que mais vale uma primeira página de um jornal do que um acórdão.

NM- Mas podem-se usar os media para ajudar na investigação?

TS- Usar sim, abusar não.

E quem é que decide se é abuso ou santo combate contra o mal? Os Teófilos com o seu brilho nos olhos. Brilho que diz ter perdido após este feito heróico em que filou o sucateiro e o amigo do outro. Só que não o deixaram completar o trabalho, os vígaros do costume, o que lhe provocou uma depressão.

O crachá de ouro perdeu o brilho, a cidade está sem xerife.

Uma justiça patriótica e de esquerda, com o patrocínio do CM

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O Correio da Manhã – um esgoto a céu aberto que António Costa admira, defende e promove – podia ter feito a sua 1ª capa pós-sentenças do Face Oculta dramatizando o castigo imposto a essa figura patética chamada Manuel Godinho, o sucateiro crucificado no altar da Justiça furiosa. Teria sido uma capa do agrado popular. Ou podia ter colocado pai e filho Penedos lado a lado, dramatizando a desgraça que atingiu essa família outrora tão poderosa e reputada. Teria sido uma capa do agrado popular. Ou podia ter dado o protagonismo ao Tribunal, ou ao juiz que leu a sentença, assim dramatizando a excepcionalidade do processo e do seu desfecho exemplar e justiceiro. Teria sido uma capa do agrado popular. Podiam ter ido por aí, sem receio de perder leitores, se estivéssemos perante um tablóide apenas com interesses comerciais – e não face a um tablóide com uma agenda política específica e sistemática. Assim, a capa que montaram dramatiza a figura de Armando Vara e acrescenta-lhe uma ligação a Sócrates. O agrado popular terá à mesma sido atingido.

Dentro do pasquim, Miguel Alexandre Ganhão, subchefe de Redacção, expande a doutrina aveirense – Vara e Salgado – e anuncia ao povo que já pode dormir descansado: os monstros estão a ser caçados, finalmente. Louva “a igualdade de todos perante a lei”.

No Público – um jornal de referência, certo? – a Direcção Editorial também toma partido pelo povo: Justiça sem medo do poder. É isto que o povo quer, é disto que o povo gosta. O poder que se cuide. Daí terminar o seu manifesto em nome do povo com: “Vara disse estar «chocado» com a condenação. Os portugueses que acompanharam o processo não estão”. Vara, grande javardão, desiste. És apenas um contra os portugueses.

Mas o prémio para o maior amigo do povo tem de ir para o Jerónimo de Sousa, et por cause. Ei-lo, em 47 segundos, a dar-nos um lamiré do que poderá vir a ser uma Justiça patriótica e de esquerda: «A justiça funcionou neste caso». É o próprio que admite não ter lido o acórdão, sendo que tal pormenor em nada o inibe de concluir pelo funcionamento da Justiça. A Justiça terá funcionado para o Jerónimo, conclui-se por exclusão de partes, porque toda aquela bandidagem apanhou pela medida grande. É só esse o critério. Imaginemos que o Tribunal tinha ilibado os réus, ou imaginemos que o Tribunal tinha ilibado o réu Vara – nesse cenário, Jerónimo teria a certeza de que a Justiça não funciona e continuaria sem precisar de ler o acórdão. A rematar, a voz do povo: “Este princípio democrático de uma Justiça igual para todos é fundamental”.

Uma Justiça igual para todos nasceu em Aveiro, dizem em coro esses especialistas em povo que são o Correio da Manhã e o PCP. Contudo, há um sucateiro condenado a mais anos de prisão do que muitos assassinos e por causa de dinheiros a uma escala caricata quando comparada com outros escândalos financeiros. Há um ex-gestor de um banco que não viu provada em tribunal a existência da verba que viu provado em tribunal ter recebido. Há a decisão inaudita de recolha do ADN numa tipologia de crimes que até agora não suscitou tal necessidade em mais nenhum tribunal português. Há o dado estatístico bizarro de todos os 36 arguidos terem sido condenados. Ou seja, aquilo com que estamos a lidar nesta sentença poderá ser qualquer coisa menos a expressão de uma Justiça igual para todos. Tudo neste processo, desde o início e incluindo a exploração política que alimentou, é diferente e estranho.

Se com o Correio da Manhã e com o Jerónimo estamos perante sectários inveterados, já a posição do Público exprime o sentimento colectivo de que Armando Vara, fosse qual fosse a sentença que recebesse, estaria sempre condenado. Não se lhe concede a presunção de inocência depois de tantos anos de assassinato de carácter e perante a pulsão vingativa que a queda de Jardim Gonçalves originou. A sua carreira estava destruída, mesmo ilibado continuaria a ser perseguido. E nessa crença vem por arrasto a tentação para o inibir nos seus direitos. Caso um eventual recurso lhe reduza a pena ou o ilibe, tal gerará reacções furibundas dos especialistas em povo.

Queremos mesmo viver numa sociedade onde o Correio da Manhã e o Jerónimo é que estabelecem quais são os casos onde a igualdade de todos perante a Lei foi servida?

ADN da Justiça

O tribunal que julgou o processo Face Oculta ordenou a recolha de ADN dos condenados a penas superiores a três anos. Esta decisão, que só será cumprida após trânsito em julgado do acórdão, será inédita, uma vez que para a base de dados apenas têm sido canalizados perfis de ADN de condenados em crimes sexuais, homicídios e roubos.

Juiz manda recolher ADN de Vara, Penedos e Godinho

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O inimigo público nº 1 de Portugal era um sucateiro de Ovar que oferecia robalos, canetas e garrafas de whisky, embora não necessariamente por esta ordem, só para conseguir ter dinheiro para dar ao seu amado Sporting Club de Esmoriz. E o País passou décadas sem disso ter a mínima suspeita. Mas eis que uns bravos em Aveiro resolveram acabar com o regabofe e agora não descansam enquanto não salgarem o processo para que nunca mais ninguém se esqueça destes supercriminosos. Os corruptos estão apavorados, o partido invisível dos interesses e dos negócios, esse reino da sucata, vai ser alvo de uma perseguição implacável e de castigos exemplares.

Como é óbvio, para além de ser evidente, e ainda de estar à vista de todos, este é também um processo político muito antes de ser um processo meramente judicial. Os responsáveis pela investigação, a qual começou em finais de 2008, decidiram espiar um primeiro-ministro em funções sem terem autorização para tal. O resultado dessas captações não foi mantido em segredo de justiça no âmbito original da investigação a Manuel Godinho, antes foi usado numa dupla frente: por um lado, tentou-se uma golpada onde Sócrates ficaria como arguido de um possível crime de atentado ao Estado de direito precisamente em cima das eleições legislativas de 2009; por outro lado, as escutas começaram a circular entre jornalistas e políticos do PSD. Foi assim que em 24 de Junho de 2009 se ouviu de Manuela Ferreira Leite uma convicção acerca do que Sócrates saberia pessoalmente a respeito de um eventual negócio entre a PT e a TVI. Só a leitura das escutas teria permitido tal soberba e gozo, diz a intuição. Igualmente de Cavaco vimos declarações alarmistas em Junho de 2009 a respeito do mesmo assunto, sendo altamente provável que tenha sido dos primeiros a ser informado do que se ia montando em Aveiro. A direita estava frenética e febril num ódio pesporrento, antecipando como iminente o fuzilamento do Governo por via do Ministério Público. Porém, como Pinto Monteiro não lhe fez a vontade, a 18 de Agosto a Casa Civil e o Público lançavam a “Inventona de Belém”. Havia eleições e havia que fazer uma pulhice gigante, algo nunca antes visto. Não fizeram assado, fizeram cozido.

Talvez o episódio mais pícaro, e mais simbolicamente irónico, associado ao processo Face Oculta seja aquele que envolve a Manela aquando da campanha eleitoral para o Parlamento Europeu em 2009. Num 30 de Maio à tardinha, a senhora partilhou com os jornalistas o seu medo de usar o telemóvel por ter medo de estar a ser escutada a mando dos socialistas. Onde é que ela se lembrou de fazer essa revelação? Em Aveiro, ao lado dos senhores que estavam nessa mesma altura a escutar as conversas privadas de Sócrates.

Este é um processo político que inevitavelmente atinge Sócrates na sua reputação, dada a proximidade pessoal com Vara e o desgaste que o caso lhe provocou por estar nele envolvido por razões laterais. De que forma será afectado, veremos pela sua reacção e pelo desfecho do processo após os recursos estarem esgotados. Aliás, Sócrates será o factor que explica a severidade das penas e a patente intenção de humilhação absoluta que a notícia da recolha do ADN configura. De outra forma, não parece razoável que um processo com esta dimensão logística e força conflitual, o qual chegou a afrontar um Procurador-Geral da República e um Presidente do Supremo Tribunal de Justiça ao ponto de não se cumprirem ordens, se justifique para castigar um sucateiro que não passa de um sucateiro. Num país onde há casos abertos, e sem fugas ao segredo de justiça, que envolvem prejuízos para o erário público de centenas e milhares de milhões de euros, qual seria então a gravidade das penas dos eventuais acusados caso se seguisse o critério de proporcionalidade aplicado no Tribunal de Aveiro? O desmembramento dos culpados seguido da entrega dos restos a cães esfaimados?

A Justiça não é justa quando deixa escapar criminosos. A Justiça não é justa quando culpa inocentes. A Justiça não é justa quando é lenta. Mas a Justiça também não é justa quando quer ser algo mais do que tão-só Justiça.

A ministra e a sua vara

Ouvi durante o almoço, na mesa ao lado.

Mulher 1 (consultando o tele-esperto) – Olha, o Vara apanhou 5 anos!

Mulher 2Hã?…

Mulher 1O Vara, foi julgado e apanhou 5 anos naquele processo da corrupção.

Mulher 2 Ai sim?… ah, mas agora começam com os recursos, e isso ainda vai acabar por prescrever, já se sabe…

Mulher 1Pois… mas olha que com esta ministra da Justiça as coisas já não são assim…

Mulher 2Sim, sim. Ela é dura e não permite essas coisas.

Mulher 1Pois é, pois é.

Não faço ideia se 5 anos de cadeia efectiva correspondem à pena mais justa para os crimes que o Tribunal de Aveiro deu como provados adentro da acusação feita a Armando Vara. Se calhar até merecia mais. Se calhar merecia menos. E até se pode colocar a fantástica hipótese de merecer um pedido de desculpas. Mas no que não tenho dúvidas é aonde a estratégia populista do PSD e CDS no combate ao PS de Sócrates conduziu, ao serviço de uma oligarquia apavorada e vingativa: o bom povo português acha que a Justiça pode ser mais ou menos castigadora de supostos corruptos consoante os ministros se exibam mais ou menos justiceiros.

Quando pensamos no que a elite da direita tem feito em Portugal desde o Cavaquistão, culminando na procura de troféus de sangue em ordem a se poder continuar a imaginar intocável, apetece largar uma homérica gargalhada para cima desta decadência ubíqua onde até a direcção do maior partido da oposição deve estar neste momento a dançar em êxtase à volta do madeiro incandescente, tamanha a alegria com o auto-de-fé em curso.

Estado Islâmico contra o resto do Mundo

O procurador-geral russo pediu hoje restrições no acesso a um vídeo difundido no YouTube pelo Estado islâmico em que ameaça "destronar" Vladimir Putin e iniciar uma "guerra de libertação" no Cáucaso russo.

EI ameaça “destronar” Putin devido ao seu apoio à Síria

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Quando se vê estes chanfrados dos cornos a pedir aos EUA, à NATO, à Rússia e a uma série de outras potências militares para se unirem num bombardeamento em grupo sobre os seus corpinhos, fica evidente que não estamos a lidar com extremistas religiosos – trata-se apenas de uma alucinação colectiva cujo desfecho é o suicídio. Pelo que o enfoque principal neste fenómeno não está na dimensão militar – pese a urgência em parar os crimes, ou em reduzi-los ao mínimo possível – mas no estudo dos processos psicológicos pelos quais se dá a alienação.

Seja qual for a estratégia a adoptar por americanos e europeus, um facto crucial mantém-se: os muçulmanos, vivam onde viverem, continuam sem repudiar politica e culturalmente os crimes que são cometidos em nome da sua religião e da sua fé. Essa é a principal passividade dos justos que há a lamentar, uma que alimenta directamente a loucura criminosa e suicida.

Costa, estadista ou excursionista?

Na entrevista de António Costa desta quarta-feira, na TVI24, a última pergunta foi algo como “Consigo vai regressar a tralha socrática?“. Paulo Magalhães chegou ao ponto de embrulhar o momento num manto de seda, carimbando a pergunta como sendo “provocatória”. Com isso estava a querer mostrar que a entendia – e queria que Costa disso se aproveitasse – como elemento da retórica de baixa política usada por Seguro.

Não foi oferta que Costa tivesse aceitado, pois de imediato revelou o desconforto, mesmo insegurança, que o tema lhe provoca. E saiu-se com algo como “A actual direcção errou ao fingir que o passado não existe. O PS é todo o seu passado, com o que tem de bom e o que tem de mau. Os erros que se cometeram são para serem assumidos.” e etc. e tal. À superfície, estamos perante a expressão de uma posição de mero bom senso, com a qual qualquer um se pode relacionar vendo nela racionalidade e bondade. Mas no fundo do que ficou dito, pela enésima vez, estamos confrontados por uma gravíssima disfunção do candidato a primeiro-ministro.

Costa não controla o que os outros dizem, restando-nos a esperança de que controle o que diz. Se resolve botar faladura sobre a canalha matéria dos “socráticos” tem de se decidir: ou aborda a questão como estadista ou como excursionista. Nesta última opção, pode falar em “erros”, “falhas” e até “maldades” sem justificar a ponta de um corno. Está tudo bem porque é tudo derrisório, como assinalou o jornalista, o que significa que é tudo irrisório, é conversa de merda. Como estadista as regras são outras, sendo a primeira a da responsabilização. Quando Seguro e os seus dizem que elementos não identificados dos Governos e direcções partidárias liderados por Sócrates desviaram dinheiro público para bolsos privados, práticas que o actual secretário-geral do Partido Socialista (!!!) associa ao “partido invisível dos negócios e interesses”, esta é uma calúnia até prova em contrário. Calúnia agravada por estar a ser usada como arma política contra camaradas seus e no âmbito de uma disputa interna. Não há, então, qualquer consequência dessa violência? Será um acto lícito, seja à luz do Estado de direito ou da moral cívica? Também no PS vale tudo, como o PSD e o CDS consagraram a partir de 2008? É neste tipo de pulhices, onde se acusa sem prova só para efeitos de assassinato de carácter, que a comunidade se encontra com o melhor de si própria?

A desconcertante e infeliz conclusão é a de que Costa comunga da axiologia difamatória usada por Seguro, pois admite haver uma parte “má” que se deve carregar como penitência por amor aos nossos e critica-o por não ter feito esse sacrifício. Mas de que se fala? De quem se fala? Quem fez o quê? E quem são os socráticos, afinal? É o Campos e Cunha? O Freitas do Amaral? O Francisco Assis? O Carlos Zorrinho? O Alberto Martins? É que toda essa malandragem, e dezenas ou centenas doutros, andou ao serviço do diabo.

A postura de Costa, ficou nesta entrevista clarificado, é paternalista. Ele está a transmitir ao eleitorado que não é um socrático, seres algo peçonhentos, mas que muito pior do que ser-se socrático é não se ser defensor do partido. E o partido, qual família, para o bem e para o mal, tem de perdoar aos seus e tirar daí lições para que os erros não se repitam. Portanto, com ele, esses erros são passado – e não tentar escondê-los será a forma mais rápida de os levar a ficarem esquecidos. Esse pormenor, coisa de nada, do Seguro à solta fora da gaiola ter muito claramente replicado o argumentário das campanhas negras ainda hoje usadas contra Sócrates e contra o PS é olimpicamente ignorado pelo pater familias que julga poder varrer para debaixo do tapete uma cisão sem possibilidade alguma de reconciliação sob pena de o PS se transformar num circo grotesco.

Resta-me a consolação de imaginar que num universo paralelo há um António Costa a responder a um Paulo Magalhães paralelo o seguinte: “Não sei o que a expressão “tralha socrática” quer dizer, mas tenho reparado que sai invariavelmente de cabeças a quem os portugueses não devem nada. Bem pelo contrário.

Vamos lá a saber

Se nem com este Governo além-Troika, nascido de uma fraude eleitoralista, o povo se virou para a esquerda pura e verdadeira a pedir protecção e auxílio, quando é que a esquerda pura e verdadeira vai poder finalmente libertar-nos do imperialismo norte-americano e da exploração capitalista? Quando o Cinfães ganhar a Champions?

O exemplo dos mortos-vivos

Quando questionado sobre a situação das eleições para a Federação Distrital de Braga, no porto de pesca da Póvoa de Varzim, o dirigente socialista disse que condena "todas as irregularidades, tenham a origem que tiverem".

"Felizmente introduzi regras no PS que permitem detetar as irregularidades e corrigi-las", acrescentou o secretário-geral do PS.

Seguro, Agosto de 2014

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As palavras em política estão gastas e perderam significado. A melhor maneira de reconciliarmos os portugueses com a política, em particular com o PS, é através do exemplo.

Seguro, Julho de 2011

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A invasão de zombies no PS de Braga não é das mais difíceis de explicar. Rick Grimes resolveria o problema entre dois bocejos. Isto porque bastava ter-se feito o que até em editoriais de jornais se demonstrou ser canja fazer: identificar os prevaricadores. Tal não foi feito. Ainda mais estranhamente, apareceram dirigentes do PS a desvalorizar a situação, senão mesmo a validá-la como normal. Dirigentes ligados ao secretário-geral. O homem transparente, com três gloriosos anos no lombo de heróica construção da nova forma de fazer política, decidiu-se finalmente a falar no assunto e o que lhe saiu é paradigmático do que está em causa tanto para o futuro do PS como para o futuro do País (isto, na eventualidade de chegar a primeiro-ministro).

Quando Seguro diz condenar “todas as irregularidades, tenham a origem que tiverem“, está a transmitir a seguinte mensagem aos seus apoiantes e eleitorado:

– Há várias irregularidades, não só esta de Braga, esqueçamos a de Braga, ele há tantas irregularidades, não falemos mais desta.
– As irregularidades têm diferentes origens, isto é que importa realçar.
– Sim, algumas das irregularidades podem ser da responsabilidade de pessoas ligadas a mim, talvez, mas outras vêm dos outros, fatalmente.
– No fundo, isto é normal, é a regra, é assim que se faz política, como o povo bem sabe.
– Os outros que se estão a queixar são os piores, porque fazem o mesmo que nós, ou pior, mas fingem que são puros, como o povo bem os topa.
– O único puro nisto tudo sou eu, pairando acima das irregularidades, como o povo deve ficar a saber para saber em quem votar.

As discrepâncias entre a retórica angélica e messiânica de Seguro, um triste que não passa um dia sem dizer a alguém quão valioso ele se acha a si mesmo, e a sua praxis, mais um sonso a repetir a estratégia do PSD no ataque aos socialistas desde 2008 até ao presente, atingem o zénite no quadro das suas relações com o seu próprio partido. Como é que se permite a um fulano que entra em cena como o Torquemada da purificação da política supostamente corrompida por camaradas seus tamanhas exibições de hipocrisia e cumplicidade com a corrupção de processos democráticos? É que nem jornalistas nem militantes o confrontam com a obscenidade ululante; numa aparente, ou real, aceitação desta inaudita decadência no PS.

A candidatura de António Costa, se outros méritos não tivesse, já estaria justificada por ter levado o passaroco a sair da gaiola, assim mostrando a toda a gente as porcarias que está disposto a fazer. E não se imagina possível uma futura reconciliação entre os dois lados da barricada, precisamente porque não está em jogo nenhuma diferença ideológica ou programática de fundo. Nesses casos, é possível construir pontes dado existir uma topografia comum. Na situação actual do PS, e sem paralelo na sua história, o conflito opõe regulares socialistas a exemplares mortos-vivos vindos lá do outro mundo.

O pastor e os borregos

A propósito da fúria da Ana Matos Pires – E ela cedeu – aproveito para publicar um documento que interessa a jornalistas e cidadãos por igual. Trata-se de uma entrevista feita por Marília Gabriela ao Silas Malafaia em 2013. A parte mais interessante, e intensa, do episódio é sobre a homossexualidade e sua visceral condenação pelo entrevistado. Mas o que causa perplexidade é a incapacidade da jornalista para desmontar o discurso primariamente falacioso do Malafaia. Tal revela graves falhas de conhecimentos científicos, históricos, bíblicos e teológicos por parte da Gabi, a qual é só uma das mais reputadas e experimentadas jornalistas brasileiras. A situação vai ficando vexante para o espectador com dois neurónios a funcionar à medida que vamos assistindo ao progressivo encantamento que o discurso sinistro e demente provoca na senhora.

Muitas são as lições que se podem tirar deste espectáculo.

Revolution through evolution

Study Finds Less Domestic Violence Among Married Couples Who Smoke Pot
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Pig pheromone proves useful in curtailing bad behavior in dogs
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A long childhood feeds the hungry human brain
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Self-deceived individuals deceive others better
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Expectant Parents’ Play with Doll Predicts Later Parenting Behavior
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Learning by Watching, Toddlers Show Intuitive Understanding of Probability
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A Touching Story: The Ancient Conversation Between Plants, Fungi and Bacteria

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Semedo acerta contas com Louçã

O coordenador do Bloco de Esquerda afirmou na sexta-feira à noite não ter "qualquer expetativa" em relação às eleições internas no PS, considerando que, independentemente de quem ganhar, "não vai nascer uma alternativa de esquerda".

"No Bloco de Esquerda, não estamos disponíveis para dar o braço a quem faz da política uma simples rotação, uma simples alternância", afirmou, contrapondo que o partido dá "a mão, o braço, o corpo e a luta àqueles que querem mudar para a esquerda a vida do país".

Semedo, 2014

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Rejeitar o PEC é o princípio da saída da crise.

Louçã, 2011