Todos os artigos de Valupi

A direita à direita adora a esquerda à esquerda

O LIVRE pediu para ser recebido pelo BE. A metade masculina do BE aceitou receber o LIVRE. O mês era Setembro. O ano 2014. Frente a frente Semedo e Tavares. Rezam os cronistas que a reunião durou “cerca de uma hora”. “Cerca de uma hora” é o eufemismo usado no jornalismo para descrever reuniões que duram cerca de meia hora. As reuniões que duram cerca de meia hora gastam em média 15 minutos entre o momento em que os convidados chegam e aquele em que partem, depois de todas as conversas de salão e idas à casa de banho estarem completadas. Pelo que não erraremos por muito se pensarmos que o BE dispôs-se a bater bolas com o LIVRE durante um quarto de hora. 15 minutos inteirinhos em que o futuro da esquerda foi esculpido e avenidas revolucionárias se abriram em direcção à grande união vitoriosa, pura e verdadeira. No final, Rui Tavares veio dizer que valeu a pena, que os amanhãs irão cantar, que eram todos grandes amigos. Enfim, é uma questão de esperar mais um bocadinho e a festa sairá à rua. João Semedo também tinha dizeres a pedirem soltura depois da sessão de mútuo esclarecimento. Revelou que o BE é muita bom para o povo e que o LIVRE é muita mau para esse mesmo povo. Isto porque o LIVRE admite coligar-se com o PS, um partido da direita. Quão de direita? Não importa, a lógica é a de todos os racistas: basta um tom mais escuro, uns caracóis mais indomáveis, e temos pretalhada pela frente. Se aceitam conviver com o PS, concluiu Semedo embora com outra fraseologia, então vão para o caralho que vos foda e desamparem-me a loja, filhas da puta dum cabrão.

O BE sabe bem o que está a fazer. Está a tratar o LIVRE exactamente como é tratado pelo PCP. Por sua vez, o LIVRE adoraria poder tratar o PS como foi tratado pelo BE. Só que não pode, pelo menos oficialmente. Esta tragicomédia da esquerda portuguesa não é completamente irracional. Aliás, tem sido cuidadosamente protegida pela direita, a qual não se cansa de cobrir de elogios tudo o que cheirar a comunista. É esta seriedade, esta integridade, esta fibra de mais valer quebrar do que torcer dos fabulosos combatentes esquerdistas que enche de segurança a direita à direita do PS.

Vamos lá a saber

Mas não haverá ninguém nesta terrinha que queira investigar o uso sistemático das fugas ao segredo de justiça em conluio com jornalistas amigos para efeitos de manobras políticas? Será que o poder judicial está acima da Lei? Não existirá uma única força política capaz de fazer frente a esta república de juízes e amanuenses do Ministério Público? Vamos mesmo deixar que a democracia e o Estado de direito continuem a ser pervertidos para benefício de uns tantos pulhas e gáudio de tantos broncos?

O título decisivo (do “Expresso” e quiçá do PSG)

A entrada de Pedro Santos Guerreiro no Expresso levou a uma mudança de estilo que me deixou dividido quanto à sua bondade. Trata-se do engraçadismo nos títulos, à mistura com uma cópia do registo anglo-saxónico da informação digital servida já mastigada e em pequenas porções. A promessa é a de tudo poder ser explicado com o máximo de clareza e descontracção e o mínimo de esforço e perda de tempo para o leitor – as questões da actualidade reduzidas amiúde a numerais de digestão rápida, à tirania do lúdico sem vestígio de pathos. O PSG nos seus textos já mostrava quão viciado estava na duvidosa arte do trocadalho, daí não ser uma surpresa que queira uma Redacção à sua imagem e inverosimilhança.

Tenho estado a patinar na ambivalência porque se, por um lado, o registo me parece descredibilizar o jornal por o aproximar do amadorismo e irresponsabilidade dos blogues, por outro lado, a solução poderia ser defendida com o argumento da renovação demográfica e do triunfo da cultura digital, ambas eventual ou supostamente a apelar a novos e mais difusos códigos de comunicação na imprensa. E assim estive até há pouco, quando tropecei nisto:

O momento decisivo (da Escócia e não de Cartier-Bresson) contado em 11 capas de jornais

Que felicidade. A minha dilaceração acabou. Tudo graças ao zelota pimpão que conseguiu enfiar o Cartier-Bresson num título sobre o referendo escocês. Um fanático que merece o meu mais aliviado agradecimento. E até aposto que o requinte absurdo desta avaria tem as assinaturas do Pedro, do Santos e do Guerreiro.

Tendo ficado estabelecida a natureza ridícula do estilo em vigor, espero que não se acanhem e não se limitem ao decisivo fotógrafo. Ele há tanto maduro para meter nos títulos à doida. É que nem o céu será limite.

Seguro é um perigo

António José Seguro contou que, à chegada ao restaurante de Viseu, alguém lhe disse que ele era "um perigo".

"Um perigo para os interesses, um perigo para aqueles que em Lisboa querem que tudo permaneça na mesma, que haja uma evolução na continuidade. Mas nós estamos aqui para dizer que vamos fazer a mudança", garantiu.

Para o líder socialista, há que combater a "falta de confiança nas instituições", porque "quem está errado não é o povo, quem está errado é quem, com opacidade, protege interesses e não faz o apuramento da verdade, o esclarecimento total".

Fonte

__

O PS nunca esteve perante uma tão grande ameaça à sua identidade e função na democracia portuguesa. Ameaça tão mais extraordinária quanto a enorme maioria dos seus militantes e dos opinadores profissionais não a viu chegar. Só que as coisas são como são, e são estas: o actual secretário-geral diz à boca cheia que a quase totalidade dos ex-dirigentes do PS, a começar por Mário Soares e a acabar em Sócrates, passando por Alegre e Costa, são corruptos e protegem corruptos.

Digamos o óbvio, este discurso já nada tem a ver com uma retórica mais exaltada, mais patarata, para efeitos de campanha. O tempo da retórica durou três anos, período em que Seguro se apresentou como o impoluto que vinha moralizar os costumes degradados e degradantes da escumalha política. Agora, nesta fase, Seguro declara preto no branco que lidera um partido com uma história criminosa onde ninguém se salva a não ser ele, os seus e quem se converta à sua verdade.

Será interessante ver como é que Costa irá unir o partido caso ganhe e observar as atitudes daqueles que neste momento estão com Seguro. Será interessante do ponto de vista político, sociológico, psicológico e até antropológico. Mas nada se compara com o que poderá acontecer no PS caso Seguro ganhe. Essa seria uma experiência que é literalmente inimaginável dado o radicalismo demente em que se colocou. Quem ficaria ao seu lado? Quem apareceria nas listas de deputados? Qual seria o registo seguinte, regresso à versão Passos Coelho II ou continuação da febre populista?

Seguro vestiu a camisola de ser um “perigo” para os bandidos de “Lisboa”. É ele quem o diz. Com orgulho. Aos berros. Em nome do “povo”. E está cheio de razão.

A pergunta do momento

Vítor Gonçalves é um jornalista medíocre e mal-educado, porque sonso em versão Mr. Smile. Tal não impediu que Proença de Carvalho lhe, e nos, oferecesse uma aula sobre o que é o Estado de direito e o que deve ser uma imprensa que o respeite e promova. Quanto a saber se o Vítor Gonçalves a compreendeu, ou sequer se tem alguma noção do que seja o Estado de direito ou o sigilo profissional e a privacidade, as imagens disponíveis não permitem dar resposta a essas magnas questões.

Para além disso, Proença de Carvalho desanca em Paula Teixeira da Cruz, assinala a anomalia que aconteceu nas sentenças do Face Oculta e faz a pergunta do momento: quem são os poderosos?

Baldaia’s effect

Costa acabou de perder os dois debates com Seguro, mesmo que a ansiedade de uma parte significativa dos comentadores não lhes tenha permitido ver nem a vitória de Seguro no primeiro debate nem a contradição de Costa no segundo, quando atacou as banalidades do seu próprio PS "copiado" pelo PS de Seguro. Tivesse Seguro a comunicação social e a opinião publicada que tem Costa e eu não apostava um cêntimo sobre quem vai ganhar as primárias socialistas.

Paulo Baldaia

__

O Baldaia é um incansável defensor de Cavaco e de Passos. Nada contra isso, obviamente. O Baldaia é igualmente uma máquina de fabricar platitudes, o que pelos vistos compensa pois suponho que esteja a ser pago pelo trabalho. Essa dupla condição não retira o interesse, imprevisto, ao contacto com o seu pensamento. No exemplo acima, ficamos com o retrato mental do direitolas típico a olhar para o actual PS.

Começa com a declaração de que Costa perdeu os dois primeiros debates com Seguro. Que significa o verbo “perder” neste texto? Apenas que o Baldaia, independentemente do que viu ou lhe terá atravessado a cognição em relação aos debates, não gosta da possibilidade de ser Costa o próximo secretário-geral do PS. Vai daí, dizer que Costa perdeu é o seu contributo para a desvalorização desse candidato. É o equivalente exacto do apupo.

Sabemos que entrámos dentro da cabeça do Baldaia através da sua retórica simplista porque o homem não gasta um caracter a explicar como é que alguém, que até podia ser a minha vizinha do 4º andar, pode perder debate algum com um ser que quase se desfez em lágrimas na fúria de anular a discussão política e de emporcalhar o seu adversário, e que depois foi reduzido à sua fétida inanidade do princípio ao fim dos segundos 30 minutos. O Baldaia não explica esse mistério, talvez porque os mistérios não têm explicação, mas desencantou um enigma de arrebimbomalho: Costa tem a comunicação social e a opinião publicada na mão. Exemplos? Népias. Está a falar do quê e de quem? Acaso sabe o que se tem dito de Costa nos jornais e televisões? Estará a falar da sua TSF? A declaração é tão fantástica que até duvido que o Baldaia tenha ouvido ou lido algum comentário aos debates.

Eis aqui um jornalista a dar a sua opinião política, e muito bem, mas a deixar igualmente um convite a que se opine sobre a sua pessoa política. E é nessa junção, a partir da qual intervém na discussão pública, que o jornalista saí conspurcado pelo sectarismo político manifestado. Por exemplo, o Baldaia acha que Costa denunciou “banalidades” do PS quando este estava era a desmontar a fraude que Seguro é. Baldaia não quis perder tempo a pensar e aproveitou logo para carimbar como “contradição” a maravilhosa descoberta. Mais tarde, olhando à sua volta, constatando que mais ninguém estava a reclamar esse tesouro, começou a desconfiar que havia algo de errado. Concluiu que o erro não era dele, era da conspiração costista que tinha tomado conta do comentário profissional.

Se o Baldaia é capaz de uma avaria destas perante uma situação à prova de estúpidos como aquela, do que não será capaz sem a ajuda do Costa?

Revolution through evolution

Will the real unemployment rate please stand up?
.
A wife’s happiness is more crucial than her husband’s in keeping marriage on track
.
Your Parents Were Right: New Research Shows Importance of Saying Thank You
.
Texting Gives a Voice to Urban Communities
.
Re-analysis of clinical trial data can change conclusions in one-third of studies
.
Open Streets Initiatives Benefit Physical, Social Health of Communities
.
Algorithms Reveal Forecasting Power of Tweets

E o cabrão do Lino?

O acórdão do Face Oculta está disponível para consumo caseiro. Ao contrário do que parece quando se pensa nas suas 2781 páginas, o meio digital permite uma leitura cómoda e rápida. Isso porque não há que ler tudo para ficar lido no que cada um considerar essencial. Por exemplo, usando a função “localizar” ficamos logo a saber que o nome “Sócrates” aparece escrito 35 vezes. Depois, caso seja esse o nosso tópico de interesse, podemos saltar de passagem em passagem com a maior simplicidade. Para além disso, o registo de escrita, por se pretender analítico e justificativo, é igualmente de grande clareza tanto na forma como no conteúdo. Finalmente, o documento tem um interesse acrescido para aqueles que sintam curiosidade a respeito do modo como as autoridades judiciais raciocinam adentro de uma investigação sobre tráfico de influências.

E é essa uma das perplexidades, no mínimo interrogação, talvez enigma, do processo: por que razão deixaram escapar o Lino? De acordo com o acórdão, o ex-ministro foi parte activa do plano gizado pelo Manuel Godinho. Está relatado que ele tentou, em diferentes ocasiões, favorecer os interesses do sucateiro por influência de terceiros. O Tribunal, para agravar o que já parecia irremediável, não deu credibilidade ao seu depoimento, o que equivale a carimbar o homem como mentiroso. Mas deixou-o escapar num exercício de magnanimidade que não tiveram com mais ninguém sobre quem recaiu uma suspeita, bem pelo contrário. Nem sequer por falsas declarações foi processado. Porquê?

Não terá sido por ele ser socialista, mas pode ter sido por ser ex-ministro. A perspectiva de se lançarem numa acusação dessa gravidade a uma figura nessa posição, sem provas incontestáveis dada a complexidade do suposto crime em causa, poderia abrir uma batalha política que iria prejudicar o que já davam por garantido: conseguir acusar todos os envolvidos e aplicar-lhes um castigo draconiano. Ainda assim, o dano público e político continuaria a ser feito à pessoa do Mário Lino e ao Governo de que fazia parte, pois o acórdão deixa sem margens para dúvidas que o Tribunal considera haver indícios mais do que suficientes para o poder ter acusado com a mesma lógica usada para acusar Vara.

O tratamento dado a Lino não se explica por critérios de boa conduta judicial do Tribunal, ficando como contraditório. Para quem tanto se preocupou em realçar que o crime de tráfico de influências nem sequer carece de realização final para ser concretizado, bastando alardear a capacidade para tal, e contando com uma testemunha ao serviço da acusação com o peso de Ana Paula Vitorino, a ideia que fica é a de que o Ministério Público e o Tribunal de Aveiro calcularam politicamente as consequências das suas decisões e optaram por garantir o maior dano pessoal e social para o maior número de envolvidos. Fazer de Lino arguido poderia comprometer o pacote final, dado que não seria um desfecho desejável que fosse ilibado nem seria sensato dar-lhe uma pena que, então, até teria de ser muito maior do que a de Vara dada a proporção por via da sua responsabilidade no Estado. Deixando-o sem acusação formal, mas exibindo que é culpado, tem a vantagem assassina de impedir que se defenda, ficando com a sombra da pena a persegui-lo até ao último dos seus dias. Prender um ex-ministro socialista por causa do sucateiro seria um terramoto na política nacional. Demasiado arriscado quando se garantiram os troféus de caça suficientes.

Ler o acórdão também é benéfico para se contemplar o poder devastador das escutas. Não só a privacidade dos alvos fica exposta como à disposição de manipulações incontroláveis, a começar logo pelo facto de uma transcrição não captar a totalidade da comunicação oral onde a entoação é fonte de sentido. Daí ser tão importante garantir que não possam ser usadas como arma política. E daí serem prática corrente nas ditaduras, precisamente como arma de perseguição política.

O debate “muito histórico”

Um rolo compressor passou por cima de Seguro durante 30 minutos, para a frente e para trás. Costa foi exímio a demonstrar a fraude que Seguro é. Talvez no último debate lhe dê para mostrar o pulha que Seguro igualmente é, seguindo o avisado conselho de Ana Gomes e Carlos Abreu Amorim para se higienizar o PS.

Pensar alto

A percepção de que Costa está a cometer erros estratégicos nesta campanha adensou-se com o 1º debate. Se venceu a prova do auto-domínio emocional, uma das qualidades pilares da liderança mais ameaçadas pelo desvairo emocional e ataques canalhas de Seguro, falhou quando foi arrastado para uma falácia oleosa e quando foi atingido na sua insegurança.

A falácia consistiu na comparação entre as decisões de um secretário-geral do PS, ainda por cima chefe da oposição parlamentar, com as declarações de um comentador político num regular exercício de comentário mediático. Ir buscar afirmações avulsas de Costa para o expor em supostas contradições é, acto contínuo, intencionar uma difamação que não tem defesa directa naquela situação. O alvo tenderá na maior parte dos casos a retorquir de forma atabalhoada, dada a pressão do tempo disponível e a complexidade necessária para desmontar uma descontextualização pejorativa. Costa tentou, sem sucesso, denunciar o golpe baixo. Sem surpresa, os apoiantes de Seguro na comunicação social amplificaram a percepção difamatória ao serviço da descredibilização de Costa. Acontece que não há comparação possível, salvo em ordem a lançar sofismas, entre o estatuto e a responsabilidade de um secretário-geral do PS perante o Orçamento para 2012 e a performance de um comentador num programa televisivo de opinião à época. O que está em causa não é saber o que se disse na Quadratura do Círculo mas sim o que se fez na Assembleia da República.

O ataque à sua insegurança diz respeito a tudo o que envolva Sócrates, seja lá o que for. O desconforto de Costa com essa matéria foi indisfarçável no debate precisamente quando começou a querer mostrar que também ele tem erros a apontar. Começando a análise pela temática dos erros, constata-se a transformação de um substantivo comum numa categoria específica para gasto com Sócrates. E entende-se facilmente porquê: estamos em 2014 mas continuamos no ciclo aberto pelo afundanço do País às mãos da união nacional composta pelo CDS, PSD, BE e PCP. Culpar Sócrates e o PS pela Troika, pelo “além-Troika” e por qualquer coisa negativa que aconteça em Portugal vai ser uma prática diária da direita decadente até ao ano 3000. O que ninguém poderia imaginar, nem nos seus pesadelos mais assustadores, era ver um secretário-geral do PS a repetir essa cassete. Haverá Governos que não tenham cometido erros? E o que serão erros para uns têm de ser erros para todos? Como é óbvio, a discussão acerca dos “erros” dos Governos de Sócrates não pretende conhecer, discutir e pensar coisa alguma, pretende é fazer um julgamento sumário, seguido de execução e abandono dos cadáveres na vala comum.

A insegurança de Costa nesta importantíssima questão estratégica – fosse quem fosse, e seja quem venha a ser, o secretário-geral do PS – materializa-se na sua ambiguidade. Por um lado, quer marcar uma distância, por outro lado, quer manifestar uma solidariedade. Ora, a ambiguidade fragiliza-o, ao ponto de um calhordas político como Seguro se aproveitar desse flanco descoberto para causar o maior dano mesmo que tal leve, concomitantemente, a provocar danos ao seu próprio partido. A situação é tão vexante que seria preferível para Costa simplesmente ficar calado e não se pronunciar sobre Sócrates e socratismos. Ou até a de alinhar no ataque, concordando com Seguro e festejando já estarmos livres do diabo – pelo menos, o assunto ficaria esgotado.

Que deve Costa fazer, então? A resposta é só uma: o que lhe der na real gana. Se acha que há erros dos Governos de Sócrates que colham ser discutidos na presente disputa eleitoral, então bute, venham eles e venham límpidos, crus. Venham com a marca da sua autenticidade, da sua convicção. Se acha que o assunto é espúrio e está ao serviço das pulhices de Seguro, então bute, que assuma isso mesmo e que tal seja dito na cara de Seguro sempre que ele quiser ir por aí. O que está a prejudicar inutilmente Costa é a sensação espalhada involuntariamente de estar a ser hipócrita, de preferir não ter de lidar com essa parte do PS que, ao mesmo tempo, acusa o adversário de ter recusado e maltratado.

Em 2011, depois de tudo e apesar de tudo, votaram no PS de Sócrates 1 568 168 cidadãos. Em 2014, depois de tudo e apesar de tudo, votaram no PS de Seguro 1 033 158 cidadãos. Para quem gosta de agitar gráficos e sondagens, estes números são significativos. Significam que falta nesta disputa interna do PS quem queira dar ao ciclo político de 2005-2011 uma sentido outro para além da tribal culpabilização, seja a de direita ou de esquerda. E para o fazer não é preciso estar de acordo com muito nem com pouco do que aconteceu. Basta pensar alto.

Marx, pá, voltaste a acertar

No debate de ontem, Seguro quis que o seu eleitorado primário, o qual em muito ultrapassa o dos militantes e simpatizantes socialistas, ficasse com a seguinte imagem a seu respeito:

– Que quem se lhe opõe não tem honra e é cúmplice da corrupção.

– Que o tempo dos sacrifícios acabou.

– Que ele já fez as contas.

– Que é necessário e urgente falar verdade aos portugueses.

– Que Sócrates é o culpado de tudo o que aconteceu e acontece de mal ao PS e ao País.

Aquele velhinho cliché de a História se repetir, primeiro como tragédia e depois como farsa, tem no Seguro imitador de Passos uma paradigmática concretização.

Marcelo e os factos jurídicos

As sentenças de Marcelo Rebelo de Sousa sobre os sentenciados do Face Oculta teriam sempre um interesse duplo, ou triplo. Tendo sido um dos mais notáveis, e sofisticados, divulgadores das campanhas negras contra Sócrates, o homem é também uma sumidade jurídica e desfruta de uma posição única na sociedade portuguesa: é presença constante na TV de sinal aberto, em horário nobre, com promoção e aparato de vedeta, onde defende as agendas mutáveis e plurais da direita com um domínio perfeito da linguagem televisiva. Nenhuma outra área política conseguiu tal feito.

Dividiu em três aspectos o seu julgamento. Primeiro, referindo o óbvio: o Face Oculta atinge Sócrates e o PS. Há danos inerentes. Depois, fazendo um exercício retórico habilidoso que consistiu em voltar a referir o óbvio, isso de as penas “terem sido muito elevadas” para o tipo de crimes em causa, e apresentando duas hipóteses explicativas da anormalidade. Na primeira, o Tribunal teria sido influenciado por uma suposta opinião pública já formada sobre os arguidos, assim levando os juízes a quererem corresponder à expectativa castigadora do povo. Na segunda, aquela que Marcelo considerou a mais importante, e aquela que deixou para último lugar na sua exposição, o Tribunal teria manifestado um suposto efeito desequilibrante na Justiça que leva ao aumento das penas em crimes contra o património por comparação com crimes contra a integridade física.

Não é um acaso esta teoria da valorização dos crimes contra o património ter ficado para o fim e ser apresentada como a explicação mais relevante. É que estamos perante uma patranha cabeluda, um “facto jurídico” herdeiro da melhor tradição dos seus “factos políticos” da era Expresso. É o próprio que começa por circunscrever o fenómeno a julgamentos com jurados, sendo a tese a de que eles se imaginariam mais facilmente a serem vítimas de ataques ao património do que à integridade física. Nenhuns dados estatísticos são apresentados, nenhuma referência a uma qualquer literatura científica é referida. Mas mesmo que o tivesse sido, este julgamento não teve júri. A prova da desonestidade intelectual está na sua conclusão de que nada se pode concluir, seja porque são raros os processos desta natureza, ou mesmo sendo este inédito em Portugal pela tipologia dos envolvidos e seus crimes julgados, seja porque precisaríamos de uma série longa para começar a perceber como é que as penas respectivas comparavam com esta em ordem a saber se estávamos perante a excepção ou a regra. Ou seja, voltamos a discutir o caso daqui por 100 anos, mínimo.

A hipótese de o Tribunal de Aveiro ter cedido ao clima populista geral, a ânsia de ver políticos no chilindró, é apresentada para que se saiba que o Marcelo sabe que isso também terá acontecido. E que ele aprova. Aprova porque as vítimas são xuxas, ainda por cima de raça socrática. Por isso não perde muito tempo com a coisa e embrulha-a no meio do falatório. Também aqui, porque tem a noção da enormidade que está a celebrar, remete para um futuro longínquo a avaliação do presente. Só com outros julgamentos iguais, em circunstâncias sociais iguais, é que daria para observar se a seta na balança sobe, desce ou mantém-se. Uma chatice, não pensemos mais no assunto.

Súmula objectiva do seu exercício:

– Marcelo atesta que as penas são muito elevadas, ao ponto do exagero caricato.
– Marcelo avança com duas explicações, enfatizando a mais inverosímil e inócua.
– Marcelo não faz referência à decisão de recolher o ADN dos condenados a penas superiores a três anos.
– Marcelo não faz referência à tese do procurador Marques Vidal em que este declarou em tribunal que o Governo de Sócrates violou o segredo de justiça ao descobrir, primeiro, a existência das escutas e, depois, o seu móbil, sendo por isso que o suposto plano gizado por Godinho não se concretizou com decisões governamentais.
– Marcelo não toca sequer ao de leve na novidade de pela primeira vez se ter espiado um primeiro-ministro através da Judiciária e do que se fez judicial e politicamente com os registos obtidos.
– Marcelo não recupera o choque entre as autoridades judiciais à volta deste caso, com os magistrados em Aveiro em conflito aberto com o Presidente do Supremo por causa de umas escutas sem qualquer relevância para o processo Face Oculta.
– Marcelo não retira consequências, para uma correspondente responsabilização das entidades judiciais envolvidas, das explicações que dá publicamente.

Ou seja, Marcelo abafa com rigor geométrico a dimensão política deste caso. Confrontado com o dado bruto das penas e sua desmesura, a explicação mais simples é anulada. A explicação mais simples não é a de que aqueles juízes são volúveis ao brado da turba-multa medido em capas do CM. A explicação mais simples ainda menos é a de existirem jurados, algures, que decidiram não sei o quê não sei quando. A explicação mais simples para aquelas penas, já para não falar na obtenção de prova no que ao Vara diz respeito, é só uma: castigo político. São os próprios responsáveis da investigação, do inspector Teófilo ao procurador Vidal, que publicitam a sua intenção persecutória contra aquele poder político.

Admitamos, para avaliação intelectual, que o Marcelo está cheio de razão. Admitamos que o processo Face Oculta não tem um pingo de motivação política. Nesse caso, será aceitável que um tribunal decida que alguns cidadãos podem ser castigados com penas acima da prática corrente só porque um juiz se lembrou de querer passar uma mensagem através do sacrifício da liberdade alheia? Será aceitável que um tribunal elabore as sentenças de acordo com a sua percepção do que seja a opinião pública do momento? Acaso essas eventuais práticas não são, precisamente, a negação da justiça? Acaso constatar que um tribunal corrompe a função suprema de que está investido não é muito mais danoso, muito mais grave, infinitamente mais perverso para a segurança da comunidade do que as supostas trafulhices do sucateiro e do amigo do outro?

Marcelo Rebelo de Sousa, um dos mais poderosos passarões da nossa elite, ri-se enquanto alvitra que há tribunais e juízes que são inimputáveis, distribuindo penas a bel-prazer que não carecem de justificação. A face oculta da nossa elite nunca teve razões de queixa da inimputabilidade dos justiceiros da Justiça. É só rir nesse meio onde se criam factos jurídicos.