Todos os artigos de Valupi

Revolution through evolution

Hey, Guys: Posting a Lot of Selfies Doesn’t Send a Good Message
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Optimistic people have healthier hearts, study finds
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Burnt-out workers more likely to make irrational decisions
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Corporate philanthropy increases workers’ productivity
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Staying in touch during out-of-office hours damages workers’ wellbeing
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Good quality me-time vital for home and work wellbeing
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Was Beethoven’s Music Literally Heartfelt?

O poder das caricaturas

Maomé não deixou filho varão. O seu sogro e o seu genro disputaram a sucessão no que se tinha tornado uma poderosa organização árabe, o Islão. O sogro ganhou, tornando-se no primeiro califa da novíssima religião. Daqui nasceu uma guerra civil, que continua hoje, pois o genro não se conformou com a derrota. E daqui nasceu uma circunstância política que promoveu a conquista fulminante de uma parte dos Impérios Romanos, do Ocidente e do Oriente, e ainda algo mais. O que não teve aqui origem, nesta génese histórica do islamismo, foi um fanatismo genocida. Bem ao contrário, os conquistadores dos sucessivos califados, que conseguem exercer o seu domínio desde a Península Ibérica ao Paquistão, não estão interessados em conversões forçadas e convivem muito bem com os crentes de outras religiões mesmo em territórios onde as populações muçulmanas são minoritárias – por sua vez, os povos conquistados convivem muito bem com os novos senhores, preferindo-os aos anteriores. Várias são as causas para o que erroneamente chamaríamos “tolerância”, incluindo razões do estrito foro religioso dado o tronco comum com judeus e cristãos, mas uma das mais poderosas vem da fiscalidade. Quem não abraçava o Profeta passava a estar sujeito a impostos muito mais altos. Donde, as contas são simples e apenas requerem competências aritméticas básicas: mais convertidos = menos graveto. Este sentido económico é um inequívoco sinal de estarmos perante malta onde nos podemos reconhecer. São cá dos nossos.

Não só os califados respeitavam os crentes de religiões diferentes como veio deles uma das mais decisivas forças culturais que moldaram o que consideramos actualmente como o Ocidente moderno e/ou a Civilização. Começa pela matemática, suprema manifestação da racionalidade, que recebe dos árabes contributos fundamentais. Esta disciplina gera coevos e posteriores avanços em astronomia e geografia. Sem as descobertas árabes nessas disciplinas não teríamos descobrimentos portugueses, pois não conseguiríamos ter desenvolvido as tecnologias de navegação para o efeito só a plantar pinheiros perto de Leiria. Passa pela medicina, algo que se situa no extremo oposto do impulso de morte. E chega à Grécia clássica. E aqui, em especial, a Aristóteles, um dos pilares da filosofia ocidental e da teologia católica por via de Tomás de Aquino, o qual apenas o conheceu graças aos pensadores islâmicos. Os califados financiaram traduções do acervo textual grego, embora não tenham valorizado as obras dos tragediógrafos e poetas, para nosso grande azar. Entre este califado medieval, o qual é parte integrante das História e cultura europeias, e o que passa por califado no auto-intitulado “Estado Islâmico” a diferença é a mesma que se dá a ver entre um Ovo Fabergé e um montículo de bosta.

Quem ataca as religiões a partir de uma posição de soberania secular, preciosa e sofrida conquista que se confunde com o triunfo dos direitos humanos, está a investir contra uma caricatura. Sem as religiões não teríamos civilizações e Civilização. Elas foram, durante milhares de anos, a forma que a raça humana encontrou para se ir libertando da animalidade. Cumprido esse papel, é inevitável que persistam numa duração indefinível pois os seres humanos não estão antropologicamente sincronizados e continuam a depender da coerção identitária para darem sentido à sua existência. Dentro do mesmo espaço-tempo há múltiplos espaços e variados tempos. Em termos históricos, a criação de sociedades politicamente seculares e democráticas é recentíssima. E ninguém tem culpa dos constrangimentos que recebe ao vir do nada para o mundo num dado lugar, num dado tempo e com certas pessoas à sua volta e não outras. De igual forma, os ataques contra ocidentais, ou tão-só cidadãos livres, feitos em nome do Islão por indivíduos que nasceram, foram criados e vivem em países ocidentais não passam de caricaturas. A caricatura do inimigo que pretendem destruir e a caricatura do deus que pretendem representar. Nada nessa motivação, a qual só se explica a partir da psicologia e não da religião, tem qualquer relação com a essência do fenómeno religioso que remete invariavelmente para uma colectividade.

Crimes como o que ocorreu no Charlie Hebdo deviam passar a ser tratados pelas autoridades e pela imprensa estritamente como acções psicóticas, sem qualquer nexo ontológico com a religião. Em termos estatísticos, e nas suas consequências trágicas, não diferem dos crimes ocorridos em escolas, empresas e espaços públicos, onde um ou mais atiradores matam aleatoriamente quem puderem enquanto puderem. Nestes casos, o absurdo é bem maior por nem sequer haver explicação que ofereça um simplismo causal. Atribuir algum tipo de inteligência religiosa – ou política, para crimes similares com esta suposta motivação – a quem está num estado de niilismo assassino e suicida é uma perversão que não defende os inocentes e que alimenta a psicose. Fatal caricatura do que se está a passar.

Incentivos para a lucidez

Costa CM

Entrevista

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A menos que este seja mesmo um país de suicidas, as próximas legislativas irão escolher António Costa como primeiro-ministro. Com maioria ou sem ela, ele é inquestionavelmente a melhor escolha possível entre os diversos candidatos. A fúria ideológica de uma direita sem decência, sem inteligência e sem piedade irá desaparecer. A vida comunitária recuperará alguma salubridade (ou quase toda, caso o PS obtenha maioria), e o PSD poderá fazer uma avaliação do legado do passismo e decidir se quer mais do mesmo ou se recupera a sua matriz social-democrata.

Reconhecer a superior qualidade de Costa, e a oportunidade histórica de mostrar o que vale no cargo político mais desgastante do regime, não equivale a desistir da implacável lucidez de que a democracia depende para se defender e fortalecer. O actual secretário-geral dos socialistas só é um D. Sebastião para efeitos de caricatura pelos seus adversários e está longe de ser um Vasco da Gama. Aliás, ele nem para Nuno Álvares Pereira parece ter vocação dada a desconcertante mediocridade estratégica que estes meses de liderança vêm mostrando. Recorde-se o que se dizia sobre a oposição de Seguro e compare-se com a suavidade da oposição de Costa, onde parece que vigora uma lei de adormecimento geral que copia a ausência de propostas do líder que despertem discussão pública e entusiasmo eleitoral. O ponto de reflexão não é sobre a eventual eficácia desse adiamento do debate, cuja lógica gelada até poderá ser a mesma do ganhar por meio a zero do Scolari, antes a respeito da sua concepção da política e da sociedade que assim fica espelhada.

Vamos admitir que Costa não ignora que o combate da direita contra o PS desde 2008 consistiu principalmente na antiquíssima modalidade do tiro ao carácter. Sócrates, como se vê, prestava-se e presta-se a ser um alvo gigante para tal desporto. Por cima disto, havia salpicos “liberais” dos fanáticos cooptados na Católica e nos blogues do ódio. Chegada ao poder, a direita tirou o máximo partido do resgate de emergência a que tinha sujeitado o País e alinhou com a direita europeia na política da punição ao Estado social, à classe média e aos pobres. Como se não bastasse, esta direita alimenta e alimenta-se de uma máquina caluniadora que domina a comunicação social e que tem no Presidente da República o supremo aliado. Nunca ninguém ouviu uma palavra a Cavaco contra a miséria do jornalismo de agenda caluniosa porque essa pseudo-imprensa tem os mesmos objectivos de ataque contínuo ao PS que Belém cultiva desde o episódio dos Açores. Face a isto, Costa opta por pedir tréguas. É esse o sentido da sua declaração, na sede do PSD, acerca da “crispação”:

Além da nota sobre "as grandes convergências de futuro", António Costa apelou também "ao diálogo entre as diferentes forças políticas", considerando como um dos fatores mais negativos dos últimos anos o ambiente de "crispação e de incomunicabilidade".
"É necessário virar uma página nesse sentido", salientou o líder socialista.

5 de Janeiro de 2015

Não contem com ele, portanto, para estar a perder tempo e votos em bate-bocas marialvas com o laranjal. Poderíamos até ver nesta atitude algo de bondoso para a política nacional se primeiro, ou ao lado, se fizesse a justiça de denunciar o que se passou e suas consequências. Ora, não só tal denúncia está e ficará por fazer pela sua pessoa como o caso é mais bicudo. Por exemplo, Costa já admitiu na TV, a pedido do Lobo Xavier e com a aprovação do Pacheco, considerar que Vara andou mesmo a roubar. Apenas pediu, na ocasião, pudor nos achincalhamentos por ele não ter feito mais do que muitos outros já fizeram na direita. E quanto à “Operação Marquês”, a ida a Évora serviu para confirmar que ele não ficará chocado, sequer surpreendido, caso Sócrates venha mesmo a ser culpado de alguma ilegalidade. Mais uma vez, esta postura poderá estar correctíssima, seja do ponto de vista do seu futuro político como da sua integridade. O facto é que Vara foi realmente condenado em Tribunal, pouco importando para este apontamento estar agora a discutir a validade da prova na base da sentença. Costa conhece muito melhor Vara e Sócrates do que eu, comum observador sem acesso à intimidade do poder partidário, e as suas posições poderão nascer desse conhecimento ou tão-só da sua personalidade. O certo é que existe uma barreira sólida, talvez inviolável, entre o capital político de Costa e o que venha a acontecer a Sócrates ou a outro socialista qualquer que calhe estar na lista do Ministério Público à espera de vez para ser levado ao pelourinho. E muito bem para a cidade, pois claro.

Altura de olharmos para a citação que encima este texto. O Correio da Manhã não é apenas um tablóide, estamos perante um bicho bem diferente. Trata-se de uma das mais poderosas armas da oligarquia, cuja actividade mediática é assumidamente de combate por via da baixa-política, da difamação e da calúnia. São os próprios directores, jornalistas e funcionários que o assumem publicamente. O seu inimigo é um PS que não sirva os seus interesses, como o PS de Sócrates não servia. O seu aliado principal é o próprio sistema de Justiça, o qual comete crimes sistemáticos ao longo dos anos sem que se apure qualquer responsável. Foi para este esgoto a céu aberto que Costa quis ir escrever em Fevereiro de 2014. Foi a este esgoto a céu aberto que Costa resolveu dar a sua 1ª entrevista como secretário-geral do Partido Socialista. E é deste esgoto a céu aberto que Costa recebeu aquilo que assegura ser “um excelente incentivo para este novo ano que estamos a começar“.

Que tristeza, Costa. E o mais triste será adivinhar-te a nem sequer dares importância a quem se indignar com o teu calculismo onde parece valer tudo, até favores a pulhas.

Revolution through evolution

Echolocation acts as substitute sense for blind people
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First baby of the new year race is real, says OB/GYN
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3 CEOs share top tips for keeping calm under stress
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Significant link between daily physical activity, vascular health
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Readiness to Change Is a Vital Facet to Committing to New Year’s Resolutions
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Mind Over Matter: Can You Think Your Way to Strength?
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Little Change Seen in Fast Food Portion Size, Product Formulation between 1996 and 2013

Cavaco por Santana

A ideia de termos Santana Lopes como Presidente da República dá vontade de rir. Riso desopilante. Essa é a primeira reacção. Depois, à volta de 10 segundos depois, somos esmagados pela verdade: Santana, nem que intencionalmente o tentasse, jamais conseguiria fazer um milésimo do mal que Cavaco fez ao cargo que ocupa e à comunidade que era suposto representar.

Esta evidência, escusado será dizer, nada nos diz acerca de Santana, só de Cavaco.

Brilhante*

O antigo primeiro-ministro sempre foi assim (há mesmo quem testemunhe discussões na sua adolescência em que já era assim): tem sempre um argumento novo, tem sempre uma desculpa nova, passa sempre ao ataque, não tolera que não se aceite a “sua verdade” mesmo quando a relação desta com a verdade verdadinha é muito, muito longínqua.

Haverá gente capaz de acreditar sempre na verdade do engenheiro, haverá gente capaz de negar sempre mesmo os mais gritantes indícios, haverá gente capaz de jurar sempre pela sua inocência. Não faço parte desse grupo. Não creio que esteja inocente. Não acredito na história da carochinha.

Neste caso, muitos antes de qualquer violação do segredo de justiça, o que nunca faltaram foram indícios, alguns deles deixados de forma impante, quase exibicionista, como se a impunidade estivesse garantida para todo o sempre, como se certas cúpulas amigas da máquina judicial estivessem lá para a eternidade. E se não sei se “falta provar rigorosamente tudo” (mas desconfio que não), essa fanfarronada só reforça o meu desejo, a minha exigência, de que a investigação criminal e a justiça actuem de forma rigorosa e competente.


Zé Manel
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* A pulhice.

Mudar a mudança

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A mensagem de Natal de António Costa já foi esquecida por todos quantos tomaram conhecimento dela, incluindo o próprio (ou até a começar por ele). Sob o mote da “mudança”, foram desperdiçados três minutos de tempo de antena só para cumprir calendário. E isso levanta duas questões:

– Porquê estar a ser displicente a 9 meses das legislativas?
– Será que o melhor discurso para o líder da oposição consiste na repetição do convencional pedido de mudança?

O tema da displicência começa a configurar-se como uma categoria interpretativa da praxis de Costa. Algo que pode inclusive não se revelar defeito, apenas feitio. As contas serão feitas ao longo do tempo. A ser assim, ele terá despachado a mensagem de Natal com o mínimo de esforço possível, tanto o político como o intelectual, por a considerar completamente inútil. Porém, quem assim malbarata uma ocasião solene para se dirigir à comunidade num ano eleitoral deixa o flanco exposto para se questionar o seu discernimento e a qualidade da liderança.

Problema mais agudo é o da insistência de todas as oposições no pedido da “mudança”. Se o fazem, tal como os vendedores de atoalhados e seus bordões clássicos, é porque tal continuará a funcionar. Às tantas, é uma inevitabilidade do sistema democrático em todos os tempos e geografias. Porém, também aqui nasce a interrogação sobre o discernimento e a qualidade da liderança de uma oposição que se limita a esse lema estafado face a um País que validou as juras de “mudança” da direita portuguesa, Presidente da República incluído, às costas das crises económicas e financeiras que assolaram o Mundo e a Europa. A mudança que eles tinham em mente era o empobrecimento a mata-cavalos do maior número de cidadãos que conseguissem apanhar. E nesse propósito enganaram sem pestanejar o eleitorado. Seguro foi pelo mesmo caminho, tendo mesmo chegado a copiar os argumentos da direita sobre a crise e o papel nela dos Governos socialistas.

Não. Ná. Népias. A bandeira da mudança é um tiro ao lado, e de pólvora seca. Se o PS ganhar as eleições sustentado nesse ordinário lema isso significará que a história dos idos de Março de 2011 continuará sem ter quem lhe faça justiça.

Cavaco atribui à corrupção a necessidade do resgate

Portugal não pode regredir para uma situação semelhante àquela a que chegou em princípios de 2011, em que foi obrigado a recorrer a auxílio externo de emergência.

Só o rigor e a transparência na condução da política nacional permitirão a melhoria continuada das condições de vida das pessoas.

O combate à corrupção é uma obrigação de todos.

Mensagem de Ano Novo do Presidente da República

O melhor 2015 de sempre

Agradeço a simpatia dos seguintes amigos que por aqui deixaram saudações festivas, pedindo desculpa aos que eventualmente tenha deixado escapar:

cavaleiro da parva figura
jpferra
Corvo Negro
jafonso
P
Nuvorila
Carlos Sousa
Manolo Heredia
Manuel Pacheco
Roteia
fifi
Olinda

E celebro a presença de todos quantos por aqui passam, seja em silêncio, para falar, gritar, insultar, brincar ou aparvalhar. É uma estranha, mas muito cómoda, forma de comunicação esta das mensagens escritas. Dizemos o que queremos, quando queremos, como queremos e só se quisermos. Grande liberdade que cria também a grande tentação para se abusar dela – como de tudo o que é de graça e gracioso.

Os blogues são há vários anos, desde a chegada do Facebook e do Twitter (para não ir mais longe), canais já quase arcaicos que estabilizaram em audiências mínimas sem qualquer relevância sociológica ou política. Como disciplina interior, gosto de conservar a imagem, que mantenho desde o início, de que o Aspirina só chega a 100 pessoas por mês e nunca tem mais do que 20 leitores realmente apreciadores. Números que, a serem esses, me deixariam espantado pelo tamanho enorme do grupo assim criado. É que isto não é mais do que um passatempo, o qual tentamos que seja igualmente um tempo bem passado.

Vamos ter o melhor 2015 de sempre. Coisas excelentes, umas, magníficas, outras, vão acontecer. Não se sabe é a quem. Nalguns muitos casos, nem se saberá porquê. Nem isso importa. Basta que em 365 haja pelo menos um dia verdadeiramente novo.

Cartas e cartolas

As cartas trocadas entre Sócrates e Soares têm um duplo interesse: pelo que dizem e pelo facto de terem sido publicadas. Quanto ao conteúdo, o texto de Sócrates será peça inevitável numa sua futura biografia, aconteça o que acontecer no processo. Se nada se conseguir provar contra ele, a carta também terá impacto político. Já o texto de Soares é circunstancial e vale só como mensagem pessoal e peça destinada à publicitação neste contexto da prisão preventiva.

Era bom saber de quem partiu a intenção de publicar as cartas. E quais as intenções dessa exposição da privacidade. Não o sabendo, ficamos reduzidos à evidência de estarem os dois autores de acordo com a divulgação. Evidência que se junta a outras. Uma delas consiste no testemunho de lealdade dado por quem o visita na prisão. Mesmo no caso daqueles que não se pronunciam sobre a culpabibilidade ou falta dela, o facto de darem a cara e o nome nesta situação implica que se estão a colocar no prato da balança que pende para a inocência. E dá que pensar: junte-se o rol dos notáveis que já foram a Évora e pense-se se será possível que eles admitam que Sócrates os enganou durante anos e anos e que continua a enganar estando preso e olhando-os nos olhos durante as visitas. Claro que Sócrates poderá ser esse monstro capaz de ludibriar até quem privou intimamente com ele ao longo de tanto tempo, como qualquer Helena Matos nos poderá explicar febril e o caluniador João Miguel Taveres já garantiu, ou talvez todos esses que o visitaram sejam tão ou mais corruptos do que ele (sim, Guterres, não penses que escapas), mas este tempo de espera até ao desfecho de haver ou não uma acusação, e qual, adensa a probabilidade de estarmos perante um outro tipo de história que não a corrupção na origem dos indícios captados pelo Ministério Público.

Como escreveu a Isabel – “quando observamos um caso de justiça a desenrolar-se, devemos tomar partido pelo Estado de direito e não pelo sentimento de amizade ou de inimizade que um detido ou um arguido nos desperta. A não ser assim, estamos a pôr em causa a cidade, nós, o derrube do fascismo, a essência dos direitos fundamentais.” – a Justiça joga com as brancas e os arguidos com as pretas. As brancas levam sempre uma jogada de avanço, para além de se passearem garbosamente alvas. Para que iriam os procuradores dar-se a este trabalho todo se não estivessem na posse de elementos suficientes para garantir uma acusação? E para que iria um juiz pôr em causa a sua reputação se esses indícios não fossem legítimos para se constituir arguidos? É nisto que acreditam as pessoas de boa-fé cidadã. Devemos manter essa confiança na Justiça sem vacilar. Não devemos é confundir confiança com estupidez. E só um estúpido é que poderá ignorar a estrutura de poderes fácticos onde os agentes da Justiça operam.

Não existe em Portugal nenhum órgão de comunicação social que faça para os interesses do PS o que o Correio da Manhã, o Sol e a SIC fazem para os interesses do PSD e CDS. Não há e nunca houve. Não existe em Portugal nenhuma Moura Guedes, nenhum José Manuel Fernandes, nenhum Mário Crespo, nenhuma Felícia Cabrita, que faça para o PS o que estes passarões já fizeram e fazem para o PSD e CDS. Não existe sequer em Portugal, actualmente, algum comentador televisivo de referência ligado ao PS, o panorama do comentário político está tomado pelo laranjal, tirando excepções independentes sem impacto popular. E não existe em Portugal uma cultura da calúnia e do ódio vinda das bandas do PS como aquela que a direita portuguesa espalhou desde 2008 – onde um dos mais rancorosos incendiários foi e é Cavaco Silva, essa espécie de Presidente da República. Não há e nunca houve.

Assim, quando se constata que os responsáveis da investigação à “Operação Marquês”, seja como for e por que for, alimentam os assassinatos de carácter na praça pública a Sócrates e terceiros a ele ligados por laços pessoais e/ou políticos, temos de reconhecer que há algo de profundamente podre no nosso País. A violação sistemática e selectiva do segredo de Justiça – no processo BPN não ocorre, por exemplo – é apenas a ponta visível do que temos patentes razões para suspeitar que seja uma real falência do Estado de direito num dos seus pilares mais fundamentais. Quem faz em público o que se vê, fará mil vez pior blindado pela máquina policial e de Justiça. E perante este cenário temos metade do País feliz da vida por lhe darem pão e execuções públicas e a outra metade em estado catatónico. Nem sequer no PS conseguimos identificar uma singular voz – à excepção da de Soares, et pour cause – que se ofereça para liderar a resposta ao constante bombardeamento que é feito contra a decência básica sem a qual deixa de fazer sentido falar em comunidade. Aliás, até no PS há quem alinhe nesta demolição alegando querer combater o mal.

Aqueles que vão para para a televisão, jornais, rádio e Internet lançar as cartolas ao ar para festejarem a desgraça de quem consideram um inimigo são cúmplices activos desta corrupção entranhada no âmago do sistema de Justiça português. Quem sabe, talvez um dia alguns deles, ou alguns a quem queiram bem, venham também a engrossar a tradição epistolar tão favorável a estadias em cárceres.

No centro é que se está bem

A forte probabilidade de o Syriza ser Governo após as próximas legislativas na Grécia dá oportuna relevância à ida de Rui Tavares à TSF nesta manhã. Não resultou da hora e meia de perguntas e respostas qualquer novidade, antes um condensado do que tem sido dito ao longo destes meses de caminhada do Partido Livre (uso a denominação dada pela TSF) em direcção às legislativas – o verdadeiro teste, quiçá o último, à exequibilidade do projecto.

Primeira nota: o Rui é o líder, o mentor e a única celebridade deste frágil movimento. Reconhecer a sua fragilidade não é estar a apontar um defeito, antes a registar uma evidência neutra. Fragilidade que começa no próprio Rui, o qual não tem credenciais políticas suficientes para encher o saco das ambições que agita. Tanto o seu percurso, de independente desleal ao BE, como o seu discurso, uma réplica das raríssimas promessas não sectárias da esquerda pura e verdadeira, não chegam para puxar carroças, quanto mais para moverem montanhas. E seria preciso mover não só uma mas várias cordilheiras para conseguir levar o PCP a aceitar coligar-se com a “direita”. Tal seria o equivalente a pedir às Testemunhas de Jeová para levarem uma transfusão de sangue em ordem a poderem ocupar a TV em horário nobre. Quanto ao BE, a menos que se dê uma purga de todos os militantes que simpatizem com Louçã, jamais o Rui Tavares deixará de ser persona non grata por causa do ódio que a sua traição gerou. Se juntarmos ainda o argumentário pífio usado para convidar PCP e BE à coligação com o PS, entramos num registo delirante.

Dos muitos aspectos passíveis de comentário nas palavras despejadas na telefonia sem fios, vou apenas pegar num: a centralidade do centro. O Rui tem feito do combate ao “bloco central” um eufemismo que nasce da sua aversão ao “centro”, primeiro, e com isso da sua repulsa pelo posicionamento do PS, a seguir, e da sua negação do que tem sido a História da democracia portuguesa, por fim. Este discurso contra o “centro” tem uma característica sofística bem cabeluda, isso de não passar de ocas abstracções. O que é o centro, afinal? Na forma como a esquerda pura e verdadeira o define, o centro é tudo aquilo com que não se identifica. Trata-se de um maniqueísmo tribal cujas raízes e dinâmicas são de fácil explicação e poderosa consequência. É o que justifica a eficácia da manipulação semântica do PCP, a qual o BE imita, quando carimba o PS como partido da “direita”. No fundo desta sanha contra o “centro” está uma pulsão contra a própria democracia liberal.

A forma como Rui Tavares se refere ao “arco governativo” é exemplar para compreendermos o nó cego donde está a falar. Ao mesmo tempo que reconhece ser essa imagem uma emanação da perversidade do sistema partidário até à actualidade, não retira daí a inevitável consequência que consiste em responsabilizar o PCP e o BE, jamais o PS. Não foram os socialistas que ganharam fosse o que fosse com a impossibilidade de fazerem acordos à sua esquerda – quem ganhou, ganha e ganhará com o sectarismo comuna é a direita. Para o Partido Livre ser coerente com o arremedo de lógica que veicula na sua retórica estaríamos agora a ver aquilo de que o Rui acusa o PCP e BE não estarem a fazer: substituir a táctica pela estratégia. Tacticamente, qualquer partido da esquerda pura e verdadeira quer ir buscar votos ao PS. Estrategicamente, para um partido de esquerda criar um novo espaço de representação tem de conseguir ir buscar votos ao PCP. O BE, após as eleições de 2009, não o conseguiu porque a engorda tinha sido feita exclusivamente com votos socialistas que foram ao engano. O feito heróico de ficar à frente do PCP foi completamente desperdiçado por não passar de um resultado conjuntural que apenas serviu para inchar a megalomania icária de Louçã. No entanto, Louçã andou 10 ou 15 anos a prometer ser o pauzinho na engrenagem, o predestinado que ia conseguir acabar com a guerra civil na esquerda portuguesa. Bastaria levar a cabeça do PS numa travessa ali à Soeiro Pereira Gomes e a “esquerda grande” teria os seus gloriosos mil anos de poder. Acabou a fazer as malas, deixando como herança um ser bicéfalo no seu lugar que conseguiu aumentar o rombo no navio já quase todo submerso.

Sintomaticamente, o Rui não se dá conta da suprema ironia que consiste em dizer que o Livre deve ocupar o “centro da esquerda”. Vamos esquecer o lado meramente utilitário, isso de justificar a escolha alegando ser um local vazio, e atentar nas razões de “equilíbrio” e “mediação” entre os extremos à sua direita, PS, e à sua esquerda, BE e PCP. Pelos vistos, é o próprio quem o diz, faz sentido para o líder do movimento anti-bloco central existir quem se proponha fazer um outro bloco central desde que se reduza o universo representativo: em vez do País, da comunidade e da sociedade, o bloco central sonhado pelo Tavares apenas admite esquerdistas. Ironia das ironias, esta antinomia redutora e segregadora é sugerida aos cidadãos com um embrulho onde se lê “Livre”.

Será a tua?

"Porém, segundo Passos Coelho, em 2015 haverá «uma recuperação assinalável do poder de compra de muitos portugueses, a começar pelos funcionários públicos e pensionistas».

«Mas também de todos os portugueses em geral com o alívio fiscal que a reforma do IRS irá trazer, procurando especialmente proteger quem tem filhos a seu cargo e familiares mais velhos na sua dependência. Num contexto em que ainda não podemos ir tão longe quanto gostaríamos é muito importante que quem tem mais responsabilidades na sua vida familiar encontre um alívio fiscal maior. Também aqui estamos a falar de justiça e da construção de uma sociedade mais amiga das famílias», acrescentou."


Pedro

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Passos Coelho preferiu afundar Portugal num resgate de emergência só para tentar vencer umas eleições. Dessa decisão resultou um conjunto de alterações abruptas na vida de milhões de portugueses que consistiram num fenómeno generalizado de empobrecimento, emigração, degradação do Estado social, recuo em políticas de combate à pobreza, formação educativa, investigação científica e desenvolvimento tecnológico. Passos Coelho teve a possibilidade de ajudar o País, de acordo com o pedido veemente, suplicante, dos governantes da altura e de todos os parceiros europeus, incluindo a Comissão Europeia e o Banco Central, e preferiu ajudar o seu partido e o seu currículo.

É mais um chavão dizer-se que os partidos existem para ganhar eleições, mas não é essa a sua responsabilidade primeira, posto que actuam sob a autorização e a égide da Constituição. Donde, o primeiro dever de qualquer partido é para com a comunidade do ponto de vista do “interesse nacional”. Ora, a situação em Março de 2011 aparecia inequívoca: chumbar o PEC IV era um absurdo por todas as razões menos uma – ser a bomba que forçaria a entrada de uma mistela de incompetentes e fanáticos em S. Bento.

No primeiros dois anos, Passos Coelho foi ostensivo e provocador no discurso da punição, chegando ao ponto de se apresentar em público com um registo de insulto soez aos cidadãos. Era o tempo em que anunciava que ele não era piegas como aqueles malandros que se queixavam. Queixavam-se de barriga cheia depois de terem andado 10 ou 40 anos a roubar. Roubaram subsídios disto e daquilo, andaram a reclamar melhores escolhas e escola para a vida só para estarem na moinice, não gostavam de trabalhar e apenas sabiam dizer mal do patrão. Pois vão ficar sem quatro feriados até vergarem os costados e porem-se mais a jeito para a chibata. E quanto à emigração? É sair da zona de conforto, seus merdas que não tiveram papás ou tios que vos pagassem os estudos lá fora nem nada. Desamparem a loja e puta que vos pariu.

Este mesmo homem vem falar, no Natal de 2014, em “justiça” e “construção de uma sociedade mais amiga das famílias“. Mas de que famílias é que o Pedro se reclama amigo? Depois de ter mentido sobre tudo e a todos na campanha eleitoral, e de ter assumido voluntária e raivosamente o papel de carrasco ao serviço dos erros da direita europeia na gestão das crises internacionais, quais são as famílias que vêem no Pedro um amigo? A minha não é, posso garantir.