O poder das caricaturas

Maomé não deixou filho varão. O seu sogro e o seu genro disputaram a sucessão no que se tinha tornado uma poderosa organização árabe, o Islão. O sogro ganhou, tornando-se no primeiro califa da novíssima religião. Daqui nasceu uma guerra civil, que continua hoje, pois o genro não se conformou com a derrota. E daqui nasceu uma circunstância política que promoveu a conquista fulminante de uma parte dos Impérios Romanos, do Ocidente e do Oriente, e ainda algo mais. O que não teve aqui origem, nesta génese histórica do islamismo, foi um fanatismo genocida. Bem ao contrário, os conquistadores dos sucessivos califados, que conseguem exercer o seu domínio desde a Península Ibérica ao Paquistão, não estão interessados em conversões forçadas e convivem muito bem com os crentes de outras religiões mesmo em territórios onde as populações muçulmanas são minoritárias – por sua vez, os povos conquistados convivem muito bem com os novos senhores, preferindo-os aos anteriores. Várias são as causas para o que erroneamente chamaríamos “tolerância”, incluindo razões do estrito foro religioso dado o tronco comum com judeus e cristãos, mas uma das mais poderosas vem da fiscalidade. Quem não abraçava o Profeta passava a estar sujeito a impostos muito mais altos. Donde, as contas são simples e apenas requerem competências aritméticas básicas: mais convertidos = menos graveto. Este sentido económico é um inequívoco sinal de estarmos perante malta onde nos podemos reconhecer. São cá dos nossos.

Não só os califados respeitavam os crentes de religiões diferentes como veio deles uma das mais decisivas forças culturais que moldaram o que consideramos actualmente como o Ocidente moderno e/ou a Civilização. Começa pela matemática, suprema manifestação da racionalidade, que recebe dos árabes contributos fundamentais. Esta disciplina gera coevos e posteriores avanços em astronomia e geografia. Sem as descobertas árabes nessas disciplinas não teríamos descobrimentos portugueses, pois não conseguiríamos ter desenvolvido as tecnologias de navegação para o efeito só a plantar pinheiros perto de Leiria. Passa pela medicina, algo que se situa no extremo oposto do impulso de morte. E chega à Grécia clássica. E aqui, em especial, a Aristóteles, um dos pilares da filosofia ocidental e da teologia católica por via de Tomás de Aquino, o qual apenas o conheceu graças aos pensadores islâmicos. Os califados financiaram traduções do acervo textual grego, embora não tenham valorizado as obras dos tragediógrafos e poetas, para nosso grande azar. Entre este califado medieval, o qual é parte integrante das História e cultura europeias, e o que passa por califado no auto-intitulado “Estado Islâmico” a diferença é a mesma que se dá a ver entre um Ovo Fabergé e um montículo de bosta.

Quem ataca as religiões a partir de uma posição de soberania secular, preciosa e sofrida conquista que se confunde com o triunfo dos direitos humanos, está a investir contra uma caricatura. Sem as religiões não teríamos civilizações e Civilização. Elas foram, durante milhares de anos, a forma que a raça humana encontrou para se ir libertando da animalidade. Cumprido esse papel, é inevitável que persistam numa duração indefinível pois os seres humanos não estão antropologicamente sincronizados e continuam a depender da coerção identitária para darem sentido à sua existência. Dentro do mesmo espaço-tempo há múltiplos espaços e variados tempos. Em termos históricos, a criação de sociedades politicamente seculares e democráticas é recentíssima. E ninguém tem culpa dos constrangimentos que recebe ao vir do nada para o mundo num dado lugar, num dado tempo e com certas pessoas à sua volta e não outras. De igual forma, os ataques contra ocidentais, ou tão-só cidadãos livres, feitos em nome do Islão por indivíduos que nasceram, foram criados e vivem em países ocidentais não passam de caricaturas. A caricatura do inimigo que pretendem destruir e a caricatura do deus que pretendem representar. Nada nessa motivação, a qual só se explica a partir da psicologia e não da religião, tem qualquer relação com a essência do fenómeno religioso que remete invariavelmente para uma colectividade.

Crimes como o que ocorreu no Charlie Hebdo deviam passar a ser tratados pelas autoridades e pela imprensa estritamente como acções psicóticas, sem qualquer nexo ontológico com a religião. Em termos estatísticos, e nas suas consequências trágicas, não diferem dos crimes ocorridos em escolas, empresas e espaços públicos, onde um ou mais atiradores matam aleatoriamente quem puderem enquanto puderem. Nestes casos, o absurdo é bem maior por nem sequer haver explicação que ofereça um simplismo causal. Atribuir algum tipo de inteligência religiosa – ou política, para crimes similares com esta suposta motivação – a quem está num estado de niilismo assassino e suicida é uma perversão que não defende os inocentes e que alimenta a psicose. Fatal caricatura do que se está a passar.

51 thoughts on “O poder das caricaturas”

  1. Concordo em parte com a síntese do úlimo parágrafo, e fico à espera que venha aqui o juju dizer novamente o que pensa sobre a pertinência de publicar posts acerca da temática “Deus-Alá”.

  2. São acções psicóticas, sim, que têm tanto que ver com o fenómeno religioso como o canibalismo tem a ver com a culinária. Concordo. Mas é inegável que não têm uma ocorrência individual esporádica. Adquiriram organicidade com capacidade de se propagar e reproduzir de forma a garantir a sobrevivência. Não é bicho que se comova com caricaturas e falinhas mansas. Se a comoção de horror pela morte destes 12 mártires contribuir para que o mundo olhe como olhos de ver e de consequência para, por exemplo, os outros 600 que morreram, só em Kobane, nos últimos 4 meses, a fazer frente à mesma besta, não terão morrido em vão.

  3. Exactissimamente!
    (acabei de usar, numa conversa com a minha filha, o mesmo exemplo dos atentados nas escolas americanas)

  4. e a tão famosa revolução islâmica? foi apagada da história? é pena, porque foi dos maiores retrocessos civilizacionais que a humanidade assistiu (ao contrário da revolução turca, por exemplo, mais antiga e mais bem sucedida). desde então o mundo islâmico só produziu petróleo e assassinos. dizer que isto não tem nada a ver com a religião é uma caricatura da caricatura.

  5. a religião também é o que faz a humanidade e é pronúncio de vida. e depois cada Homem faz-se em si, e para os outros, em si mesmo. lambi cada palavra de exaltação, e da história, da vida.

  6. Valupi, enquanto este crime não tiver sido devidamente esclarecido – nomeadamente quem são os cúmplices, como foi organizado, quais os seus objectivos – é prematuro tirar as conclusões do último parágrafo.

  7. Gostei muito, Valupi. Esclarecedor e pedagógico. mas penso que o problema com o islamismo actual é bem maior que simples caricatura do islamismo histórico. Também penso que há males que vêm por bem e que “Deus escreve direito por linhas tortas”. A deriva caricatural do islamismo actual ajuda a pôr a nu a grande dose de infantilismo intelectual que persiste entre os crentes de todas as religiões. Se Alá não pode ter dado ordens criminosas a estes assassinos, também o Deus dos cristãos não as deu no passado aos nossos “maiores” (santos e tudo) nem cura os males dos que se arrastam até Fátima. também não tem ouvidos para ouvir os gritos dos explorados, nem poder para derrubar os poderosos. Acreditar num Deus que escuta e tem poder para “mover” o coração do homem dá um jeitaço para que tudo continue na mesma. Por isso penso que esta caricatura de Deus que os extremistas islâmicos nos proporcionam há-de servir par alguma coisas mais que um exemplo da barbárie. Os poderosos civilizadissimos do ocidente cristão, sobretudo aqueles que “juram sobre a biblia”, nâo se comovem com um milhão de mortos e estropiados no Iraque. Aquele milhão não são gente da categoria superior das vítimas de Paris! Sinto náuseas da nossa hipocrisia, dos votos de condolências, no preciso momento em que assistimos, com indiferença olímpica, aos que se afogam no mediterrâneo em busca do paraíso europeu…

  8. “… este crime não tiver sido devidamente esclarecido – nomeadamente quem são os cúmplices, como foi organizado, quais os seus objectivos…”

    yeah meu! se calhar era uma empresa de cobranças que se enganou na entrega da notificação para pagamento ou então hebdomanários com salários em atraso. a miss gomes diz que é por causa do chômage e o sócio do rogeiro, o martim que é uma sumidade em assumptos estrangeiros diz que é falta de carros para incendiar.

  9. O califado que arrasou a biblioteca de Alexandria também foi um espetáculo.
    Coitados dos árabes muçulmanos e respetivos califados em termos de contributos para a nossa Civilização se os compararmos com os contributos dados por outras civilizações, nem esse contributo sublima toda a crueldade daquela religião e de alguns seus costumes que nos repugnam. Basta pensar no tratamento que as mais bondosas criaturas árabes dão às mulheres em geral.

  10. De qualquer modo, repito que não vejo o mundo muçulmano como uma ameaça para o ocidente, antes será mais verdade o inverso, tendo, por exemplo, em conta toda a miséria que este já provocou no Iraque e que a Avaria Abril alude no seu comentário. Não venha é esse valerico de meia tigela contar para aí uma história ingénua dos árabes bonzinhos e que tanto nos ajudaram a florescer…. histórias da carochinha.

  11. Olha. Ao contrário do Valupi, a Maria Abril dá sinais que os maluquinhos já estão a ganhar qualquer coisa com isto. É a religião e é logo a cristã que está por trás disto… Mete Fátima e tudo. Chamem os psicólogos!

  12. conta-se que De Gaule teria dito na hora da euforia da independência argelina, “ainda vão ter muitas saudades nossas”.

    Também De Gaule teria aconselhado o nosso ditador, meu ídolo, a abandonar à sua sorte as colónias africanas.

    aí já a europa estva completamente rota, sem força, já tinha perdido 3 grandes guerras, a 1ª a 2ª e a guerra fria.

    agora, roinha de todo, entra frio pelas ilhas gregas, ilhas italianas, e por melila e portela de sacavém.

  13. Todo o contributo cultural do “mundo árabe” descrito no segundo parágrafo é inegável. O islão era uma civilização aberta à cultura (outras), à ciência e filosofia, em contraste com a europa medieval. Averróis, uma das figuras mais importantes da chamada cultura ocidental, propunha uma interpretação alegórica do corão e ficaria até conhecido por defender a ideia de múltiplas verdade. Foi ele o responsável pela entrada do pensamento grego na europa naquilo que viria a ficar conhecido como a patrística da igreja.

    Depois do séc xv, o mundo conheceu um processo de secularização em que a religião foi perdendo força, dando lugar à ciência e à racionalidade. Isto é tão verdade para o chamado “mundo ocidental” como “mundo árabe”. A revolução e a fundação da república Turca (onde foi estabelecida a separação do poder político e religioso) são um bom exemplo disso.

    Acontece, porém, que em meados/finais dos anos 70 se dá aquilo que viria a ficar conhecida como a revolução iraniana ou islâmica: o poder do xá dá lugar ao poder do aiatolá e tudo que era ocidental passa a ser proibido: o álcool banido, as mulheres cobertas com mantos até aos pé, introduziu-se a preceitos da sharia, castigos corporais, pena de morte para os infiéis, comunistas, homossexuais, etc. etc. etc. Em suma, exactamente o oposto daquilo que tinha acontecido na Turquia nos princípios do séc xx.

    Assim tem origem o chamado fundamentalismo islâmico que rapidamente se estende a outros países do médio oriente e hoje está em todo o lado, tipo praga, como se pôde ver ontem pelos atentados em paris (já não vou falar do 11/9, 11/4 ou o 7/7).

    Assim, aquilo que era uma civilização aberta, secular, culta, deu lugar a um povo e regime ignorante, fundamentalista, assassino, agarrado aos textos religiosos, a um único deus e uma única verdade, pronta a combater todos aqueles que não seguissem a religião da submissão (só o nome diz tudo, né?) E dali não veio mais nenhum contributo para o mundo com excepção do petróleo, assassinos, e ameaças de morte a quem ousar contrariá-los.

    Espero que tenha ficado esclarecido e perceba agora a razão de eu entender que a ausência de qualquer referência à revolução islâmica no seu post o transforma numa caricatura da caricatura.

    Mas não fique zangado. Averróis tinha razão. Existem de facto múltiplas verdades. Mas não passam pela religião, essa lepra.

  14. chacinaram 12 gajos 12 à queima-roupa, há que prender os culpados e julgá-los, são as únicas conclusões possíveis.

  15. Miguel, o que é que, na tua opinião, poderá tornar errada a minha conclusão? Não digo que não esteja errada, e se calhar por muitas razões, mas não estou a perceber o teu raciocínio.
    __

    Joa15zinho, vais ter de te esforçar um bom bocado mais se a tua intenção for a de me saberes zangado. Acontece que o que trazes é algo que eu também poderei assinar por baixo, mas na condição de igualmente seres tu a contar a história toda – neste caso, a história toda do fundamentalismo islâmico. Essa história é política, e é a consequência dos imperialismos ocidentais e seu domínio económico, militar e tecnológico. No Irão, essa foi a forma mais eficaz para controlar as massas para uma elite dirigente que se sabia ameaçada por todos os lados e por inimigos poderosíssimos. Ora, é precisamente para que essa lógica seja evidente que devemos comparar com a génese do Islão enquanto doutrina espiritual com consequências sociais. E aí, o que a História mostra é um Islão vencedor sem medo das outras culturas e sem medo da ciência, bem ao contrário.

    Repara, ou concede, que no texto apenas elaboro sobre os atentados contra ocidentais ocorridos no Ocidente por muçulmanos que nasceram, ou vivem, em países ocidentais. Esse é o âmbito da reflexão, pois desses actos não vem nenhuma “revolução islâmica”. A única consequência dessa destruição é mais destruição, seja para as suas vítimas, para si próprios, para os seus e, no final, para a causa que supostamente dizem defender. É totalmente irracional – logo, não é uma acção religiosa nem política, pois estas pressupõem um objectivo inserido no edifício teórico tomado como sagrado ou como concretizável.

    Em suma, vejo como um erro estar a confundir o domínio do religioso com o domínio do crime, primeiro, e o da psicose, por fim.

  16. Caricatura, caricatura é não condenarmos com a mesma indignação e revolta, as mortes que estão a ocorrer nas urgências dos hospitais. É tão terrorista aquele que mata com tiros como aquele que mata sem tiros.
    Os franceses ainda (têm?) a desculpa da religião, mas nós cá temos a desculpa de quê? É que dando as devidas proporções o número de mortes é igual. Não deveríamos fazer também um minuto de silêncio?
    Ou vamos também entrar nesta paranóia fundamentalista dos franceses, e dizer que os que morreram não foi por vingança mas sim por vontade do Senhor.

  17. Estes terroristas também têm uma religião, a que chamam Islão, embora possa ser um Islão deturpado ou degenerado, como dizem os doutores muçulmanos. Estes terroristas têm um Deus privativo, apesar de o irem buscar ao Corão, tal como os bons muçulmanos. É um Deus intolerante que inspira assassinos, massacres de inocentes, um Deus mau, odiento e sanguinário. Dir-se-á que só existe na cabeça deles. Pois será. Com certeza que é. Mas não é na cabeça dos crentes que todos os deuses existem?

    O problema com a maioria das religiões, assim como com a maiorias das ideologias, é que elas têm sempre frutos degenerados, mas tantos e tais que se chega a tomar o fruto podre e venenoso pelo resto. É ver como o comunismo, com os seus belos ideais, degenerou na máquina trituradora voraz do estalinismo, exterminando a liberdade e os direitos mais elementares, esfaimando e oprimindo as massas trabalhadoras e aniquilando até comunistas autênticos. Ou como o cristianismo degenerou na Inquisição, na queima de hereges e infiéis, na intolerância… religiosa, na intolerância pura e simples, na opressão do espírito, nas guerras religiosas fratricidas. A religião produziu sempre intolerância, ainda hoje produz, se excluirmos as crenças de certas seitas espiritualistas que não contam para nada. Na verdade, o ateísmo militante – aliás organizado segundo moldes religiosos – também degenerou muitas vezes em totalitarismo…

    Quando foi do 11 de Setembro, milhares de palestinianos, paquistaneses, etc. vieram para a rua festejar. Sondagens de opinião realizadas em França e na Alemanha deram graus de aprovação ou condescendência com a Al Qaida assustadores. A aparente indiferença de muitos muçulmanos que vivem na Europa e que se consideram “bons muçulmanos” perante os atentados terroristas dos islamistas radicais também dá que pensar. Parece que a constante referência a Alá dos assassinos os desarma e entorpece. Olham-nos muitas vezes como irmãos transviados, mas no fundo dignos de compaixão. Eu olho-os como assassinos psicopatas, mas também como escravos de um Deus mau, desumano e exterminador. Um Deus bom e misericordioso não irrita nem assusta a minha descrença de ateu. Mas há muito quem acredite num Deus mau. E não são só os terroristas islâmicos.

  18. Juju, ainda com essa conversa do Deus-Alá? Não percebes que estes gajos são psicóticos, revoltados e traumatizados? Que interessa o Deus-Alá em que acreditam e que é apenas uma projeção destrambelhada dos seus pathos? Esquece a religião.

  19. Valupi, venho em paz. :) mas venho mostrar o meu desacordo em alguns pontos.

    concedo, sem dificuldade, que no texto apenas elaboras “sobre os atentados contra ocidentais ocorridos no Ocidente por muçulmanos que nasceram, ou vivem, em países ocidentais”. mas só aceitaria a falta de nexo ontológico com a religião se os alvos tivessem sido escolhidos aos acaso. e não foram. foram escolhidas aquelas pessoas por afrontarem com os seus desenhos o profeta e o islão.

    além disso, não basta dizer que o islão foi em tempos bastante tolerante para demonstrar que esse nexo ontológico não existe, ignorando o fundamentalismo islâmico e o seu ódio à democracia e a todos os valores que caracterizam as sociedades liberais.

    não reconhecer esse facto – e tomar os jihadistas como tolinhos – é tentar tapar o sol com a peneira e negar a doença que atravessa o chamado mundo árabe. negação essa, que à luz dos acontecimentos de ontem, faz crescer na europa a extrema direita e os sentimentos de ódio e intolerância relativamente a valores que demoraram séculos a construir e a tornar efectivos.

  20. Completamente de acordo com a ideia que muito do radicalismo islâmico foi consequência directa e indirecta do colonialismo europeu e americano, e que estes atentados não reflectem o sentimento generalizado dos muçulmanos. Por outro lado, até que ponto é que as particularidades da religião contribuem para criar um clima propicio a actos que no ocidente consideramos inaceitáveis? Por exemplo, a discriminação das mulheres, a ideia cada vez maior em comunidades islâmicas europeias de utilizar “tribunais” onde se cumpre a lei da sharia. Depois há sempre isto, um merdas nascido e criado no reino unido:

    http://news.yahoo.com/video/radical-imam-anjem-choudary-charlie-034400837.html

    O hannity é uma besta, mas mesmo assim penso que vale a pena.

  21. Júlio, concordo contigo admitindo que estamos a tratar do caso psicológico, não do cultural. Psicologicamente, as religiões têm sempre de promover a intolerância sob pena de perderem a razão de ser. Isto no campo do monoteísmo, que no politeísmo à egípcia, grega, romana e hindu, mesmo budista nas suas variantes, a intolerância está reduzida à esfera local, quando existe. Assim, intolerante é o Papa Chico e a sua intolerante crença em Jesus. A mais doce das freiras que seja possível encontrar será, por acordo consigo própria, um ser de uma intolerância absoluta: jamais aceitará abdicar da sua fé por troca com outra ou com nenhuma.

    Ora, que eu saiba não há matanças em jornais, televisões e rádios todos os dias, todas as semanas, todos os meses e todos os anos. Contudo, todos os anos, todos os meses, todas as semanas e todos os dias é possível identificar órgãos e indivíduos nesses órgãos a veicular conteúdos que ofenderão, de alguma forma, a fé e a mundovisão de um qualquer muçulmano. Tendo em conta que eles são aos milhões nos países onde tal ocorre, e sendo facílimo pegar numa arma para cometer uma carnificina, por que razão estes episódios são tão raros? Seja qual for a explicação, será qualquer coisa menos o mínimo denominador comum: a religião ela própria.

    Pegando no teu exemplo do 11 de Setembro, que também repito amiúde como imagem cristalina do ódio, aqueles palestinianos que foram para a rua festejar não estavam a ver o mesmo acontecimento que nós, não palestinianos, estávamos a ver. Para nós, o 11 de Setembro foi um atentado contra o nosso modo de vida, um ataque aos nossos valores. Para os palestinianos, o 11 de Setembro foi um ataque aos que eles identificavam como responsáveis pelo ataque ao seu modo de vida, aos seus valores e ao seu território. Não tem isto é nada a ver com a religião, obviamente, mas sim com a política e com a guerra.

    Culturalmente, as religiões não passam de formas de organização da vida em comum. Podem servir como desculpa para a violência, a violência é que continuará sempre a ter outra origem.

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    Joa15inho, o fundamentalismo islâmico é um fenómeno político que só se compreende quando o inseres na modernidade ocidental e na geopolítica que inventou mapas ao arrepio da História e da lógica secular de povos, tribos e regiões. Não existe fundamentalismo sem ser como reacção a ameaças. Isto não lhe confere qualquer bondade, estou apenas é a querer realçar que a tua tese é redutora, pois estás a querer explicar acções ocorridas fora do âmbito onde o fundamentalismo se cumpre como força comunitária.

    Os que andam a matar inocentes em nome de Alá não são apenas tolinhos, são doentes mentais, à maneira dos nazis e dos khmers vermelhos. Repara como o seu projecto político é completamente inviável, sendo apenas uma questão de tempo até serem exterminados. Se estes infelizes conhecessem a história do Islão desmaiavam com o choque.

  22. “Repara como o seu projecto político é completamente inviável, sendo apenas uma questão de tempo até serem exterminados”

    Val, será inviável se houver quem esteja disposto a fazer-lhe frente com as botas no chão e se alguém com juízo a Ocidente percebe que a sua proliferação também é um colateral da ingénua estratégia geopolítica russófoba que não caíu com o muro de Berlim. De outra forma, segundo Darwin, isto nunca mais acaba.

  23. Valupi: «Sem as religiões não teríamos civilizações e Civilização».

    Sem religiões abraâmicas, teriamos talvez ciência, filosofia, teologia, alguma sabedoria, regras de vida mais ou menos sábias consoante as inspirações de sistemas religiosos não exclusivistas, teístas, deístas, politeístas ou ateus (budismo, taoísmo, talvez estoicismo, epicurismo, platonismo-plotinismo nos lugares vagos do cristianismo, gnosticismo etc.) e cultos de manipanços folclóricos, geralmente especializados em actividades milagreiras, nas sociedades mais primitivas.

    Com o trio de religiões abraâmicas — uma quarta prestes a eclodir, à sombra do santuário de Auschwitz e do superlativo Povo Escolhido, milagrosamente exterminado primeiro e milagrosamente ressuscitado logo a seguir ou mesmo antes — temos a milenar história religiosa ocidental que se conhece, sistemas invejososos de superstição organizada e manipanços pseudo-históricos em catedrais.

    Como dizia o Russell (e bem percebia o Gibbon), a propósito do papel do Cristianismo na preservação da civilização greco-romana depois da queda do império: «primeiro um mal gigantesco, depois um pouco de bem».

  24. Observação divertida, a propósito de censuras: já repararam no cuidado meticuloso com que os media anglo-americanos evitam a todo o custo mostrar as capas mais significativas do Charlie Hebdo ao seu público não francês?

  25. Valupi, pode ser uma coisa organizada com fins políticos e envolvendo gente que é muito diferente dos assassinos. Não sei se é, mas pode ser. Se for, não faz sentido essa interpretação do foro psiquiátrico. É só isto.

  26. Valupi: « Atribuir algum tipo de inteligência religiosa – ou política, para crimes similares com esta suposta motivação – a quem está num estado de niilismo assassino e suicida é uma perversão que não defende os inocentes e que alimenta a psicose.

    Revisão que aconselho: «Não atribuir algum tipo de estupidez religiosa – ou cultural, para crimes similares com esta suposta motivação – a quem está num estado de niilismo assassino e suicida é uma perversão que não defende os inocentes nem permite perceber a raíz e natureza do problema».

    Porquê? Porque existe a estupidez espontânea, mas também existe — e de que maneira — a estupidez por contágio e endoutrinação.

  27. Apresso-me a acrescentar que não estou, nem a reduzir o papel da cegueira de directa inspiração religiosa no Ocidente, nem a negligenciar o actual papel relativamente benévolo e positivo de religiões já quase fósseis — i.e. que abandonam, ou procuram abandonar, ou consentem no progressivo abandono, dos seus próprios dogmas — como o velhinho e hoje mais ajuízado cristianismo [*].

    Pelo contrário, estou até a dar o nome claro de «Holocaustismo» ao mais recente rebento da velha forja de religiões fanáticas, invejosas e violentas, espécie de segunda actualização ateia do Judaísmo original («onde estava deus em Auschwitz?» etc.), que procura controlar as sociedades ocidentais em torno de um sincretismo judeo-cristão (penitência para o cristão + tributo para o judeu = felicidade para todos os virtuosos) em defesa do estado racial-confessional judeu, com uma vocação, por assim dizer, levítica de estado sacerdotal, destinado a governar os outros estados, ou seja, a própria espécie humana, como a Lei antiga e suas interpretações talmúdicas previam.
    _____________________________

    [*] Se exceptuarmos algumas seitas bíblicas do “Belt” americano (infelizmente com abundantes prolongamentos nos corpos políticos, qua já muito pouco têm a ver com os conceitos revolucionários de Paine, Mason ou Jefferson), que ainda esperneiam em todas as direcções e anseiam acabar com o mundo o mais depressa possível para cumprir as profecias.

  28. Mais proclamação de princípios (nem tanto ao mar, nem tanto à terra), se me permitem: Religião, nos aviões contra as torres, durante a intifada das crianças na Palestina? Talvez um minúsculo bocadinho. Religião, no assassinato por se ridicularizar o profeta das arábias? Um enorme bocadão.

    Entrementes, a outra grande religião ocidental bem activa, a única a dispor de submarinos com armas nucleares publicamente secretas e isentas de regras e controle — cortesia gratuita dos amalequitas arrependidos — mas sem possibilidade de nuclearizar de forma não-suicida os amalequitas escravizados na terra prometida, lá vai esfregando as manápulas manipuladoras de satisfeita.

    Repare-se, aliás, como o nível de estridência das ameaças quase diárias de Israel ao Irão diminuiu, à medida que se foi tornando mais óbvio que o controlo sobre os Estados Unidos ainda não é suficiente para uma terceira invasão e guerra por procuração no Médio Oriente devastado.

    O teatro de operações está a mudar, das arábias para as eurábias .

  29. Lucas Galuxo, o terrorismo – que quando tomado como moralmente legítimo se chama “resistência” – é um combate assimétrico. Causa danos e assusta, mas não ganha guerras.

    Quando olhamos para a negação da ciência e dos direitos humanos nos talibãs ou no Estado Islâmico, por exemplo, o que ali vemos é uma regressão a um estado pré-tecnológico. Por acaso, alguém lhes dá armas modernas, não ou pouco sofisticadas, mas essas pessoas, na sua alucinação, preferiam apenas andar a matar de espada na mão. Compara agora esta postura, e os números de indivíduos que agrega, com o resto do Mundo e o seu poder militar e tecnológico. A conclusão é só uma: eles ainda sobrevivem porque não há vontade política para os exterminar. É esse o decisivo factor, tudo o resto é absurdo nas suas pretensões.

    __

    Miguel, mas mesmo que tenha sido assim, algo provável, isso não altera a consideração de que para se tornarem agentes deste tipo de acções é preciso um quadro mental que do ponto de vista do nosso modelo de vida é uma aberração psicótica.

    Se interrogasses acerca da sua saúde mental um fulano que no dia a seguir iria para o meio da rua levar a cabo uma matança que andou a preparar e a imaginar ao longo de meses ou anos, ele não te iria dizer que era maluco. Talvez dissesse é que estava rodeado de malucos.

  30. … as religiões, todas elas, são fruto da imaginação que nos libertou da animalidade. Sem imaginação, não haveria humanidade! Se observarmos a arqueologia das crenças, verificamos que estas determinaram culturas e civilizações que a imaginação de homens do nosso tempo, para sua segurança psicológica e cultural, também pretendem perpetuar, através de mitos, ritos, convenções, dogmas, etc.
    Porém, se nada mais houver que religião, há homens que fenecem no próprio círculo cultural em que cresceram. Se o círculo desaparece ou é violentado por forças exteriores ou interiores, a animalidade surge com o seu esplendoroso poder.

  31. Valupi disse;

    ” Não tem isto é nada a ver com a religião, obviamente, mas sim com a política e com a guerra.”

    E estou perfeitamente de acordo. Acrescentaria que sobretudo tem a ver com o último extertor de resistência, pela e em nome da religião, da tentativa desesperada de manutenção de um poder despótico ancestral que sempre teve sustentáculo ideológico, inicialmente, na magia e superstição e depois na mesma crendice aculturada em filosófica com Platão e Aristóteles e rigidamente organizada em religião e igreja.
    A luta do fundamentalismo islâmico que levou ao estado de barbárie actual não é diferente da do fundamentalismo católico que levou à inquisição; são lutas pela sobrevivência dos privilégios do poder absoluto inerentes a um deus absoluto.
    Igualmente os meninos parisienses, londrinos ou lisboetas e outros, de igual condição e relativo bem-estar, que vão de cabeça orgulhosa combater ao lado dos islamitas vão, sobretudo, psicologicamente trabalhados e apanhados, para voltar e combater-abater o seu “inimigo” de sua terra natal e vizinho ao qual já antes atribuía culpas e, depois de bem industriados “religiosamente” e adquirido psicoticamente que quanto mais cruel e brutal for a vingança maior serão as honras na recepção e salvação no céu como mártir, não tem como sair da situação e, necessariamente, vai até ao fim do mal submetido à ordem “religiosa” do chefe “religioso”.
    Estes rapazes são levados por meio da religião mas, eles próprios, voltam aos seus países para actuarem sob forma de vingança político-social. Seria pouco provável que um revoltado social, um lúmpen ou meio-vadio parisiense, em poucos meses se tornasse um tão elevado crente religioso fundamentalista se antes, quando aderiu ser combatente islâmico, não tivesse interiorizado um desejo de vingança pessoal devido à sua situação de incompreendido e revoltado relativamente ao seu meio socio-político.
    Pelo que, quanto a mim, todo o esquema tem nada de religioso mas sim de política; os ditos chefes “religiosos” primeiro lutam pela conquista de espaço onde possam aplicar absolutamente o seu poder político-temporal travestido de “religioso”.
    Um poder absoluto não cai sem lutar absolutamente; é o que está acontecendo mas a história nunca foi regressiva e, certamente, também não o será agora.

  32. A maior vitória que os maluquinhos podem conseguir é elevar a sua condição de bestialidade, a recusa dos princípios de tolerância ao diferente e respeito pelos mais fracos em que se funda a nossa civilização, à de categoria religiosa, a visão que cada um tem do mundo e da sua própria finitude, destruindo a unidade que o combate à sua patologia exige. Metade desta casa, entre muita outra gente, está a fazer-lhes o jeito. Até a Palmirinha despertou do sono e já anda atrás de ti, Valupi. ‘ Tá bonito.

  33. As rádios, televisões, jornais deixaram há muito de ser veículos de divulgação de informação. Hoje, sendo detidas pelos grandes grupos económicos, passaram a ser veículos de fabricar opinião pública à medida desses grandes grupos. É por isso que este ato terrorista está longe de ser um ato tresloucado de pessoas insanas. Foi um ataque cirúrgico intencional.

    As grande repercussão que teve nas altas esferas do poder francês, e não só, são uma prova disso.

    A liberdade de expressão é hoje defendida pelos poderes instituídos, com unhas e dentes, pois ela representa uma mais-valia importante no funcionamento da máquina encarregue de influenciar a opinião pública, com particular relevo para a influência dos cidadãos votantes, uma máquina de colocar peões, cavalos, rainhas no tabuleiro da cena política dos países democráticos .

  34. Lucas Galuxo, a Palmira é uma cientista que luta contra a irracionalidade religiosa. Nunca a vi a instigar ao ódio, só a reagir ao ódio.

    Mas que queres dizer com o “já está de olho em ti”?

  35. quer dizer isto:

    Palmira F. Silva obvio, não é tudo mas também é. como sempre que o tema é religião, ler as beatices bacocas do valupi irrita-me. mesmo, mesmo muito
    6 h · 1

    (como para lhe responder lá teria de querer ser amiga dela, aqui fica: se lesses mais ouvindo-te menos, Palmira, talvez o caganço te caísse de cima da burra – e olha que caganço não é feitio: é defeito.)

  36. Mairreles, oube, num savia ca habia religioes foçeis, pá, e Cristo tambéie é fócile, hum? E as almas saoe o quÉ? Istás a indótrinarre ou a istupidificarre, hum, cumenta aí, meue.

  37. Disse eu, lá mais acima: «Observação divertida, a propósito de censuras: já repararam no cuidado meticuloso com que os media anglo-americanos evitam a todo o custo mostrar as capas mais significativas do Charlie Hebdo ao seu público não francês?»

    Para se perceber melhor a ideia, referia-me às muitas capas deste género:

    Charlie Hebdo

    Se passasse na CNN, uma boa parte da audiência familiar ia mas era pedir para se bombardear o Charlie com drones!

    A coisa é pícara: percorre-se as edições online dos jornais mainstream americanos que procuram dar exemplos do humor satírico gaulês ao público que não o conhece e descobre-se conversa e mais conversa a falar em cristãos e judeus, mas imagens, só dos maomés de rabo para o ar!

    De judeus, é claro, e não admira muito, só poderiam ir descobrir meia dúzia de cartoons (e de vendedores de «Holocausto» nenhum), mas de cristãos é ao pontapé. De onde a ironia dos elogios à heróica luta contra a censura…

  38. Val, lê os seus comentários no post com os pronunciamentos de um tal Anjem Choudary, ao USA Today, na página de PS.
    Tenho uma opinião diferente de Palmira Silva. Acho que o cientista Pavlov teria poupado uns cobres na compra de cães se tivesse conhecido a sua capacidade de reacção à oportunidade de malhar em conviccções alheias. Acho que representa bem a turba dos maiores aliados dos assassinos de Charlie, no Ocidente; aqueles que, tendo também nascido no dia do ataque às Torres Gémeas, cavalgam falácias e a presunção totalitária de se achar donos da razão para fazer a terraplanagem cultural onde os extremismos encontram o substrato adequado.

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