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Exactissimamente

Carta aberta a um possível candidato

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Adenda

Seria interessante saber em que altura Sampaio da Nóvoa se convenceu de que daria um magnífico Presidente da República. Será um sonho de infância ou de adolescência? Surgiu-lhe quando visitava o Palácio de Belém à época em que era consultor do primeiro Sampaio? Terá aterrado na sua ilustríssima cabeça aquando da organização do 10 de Junho em 2012? Ou é fenómeno ainda mais recente, de meses? Conhecer esse calendário íntimo talvez permitisse decifrar um candidato cujo discurso é vexante e não tem ponta por onde se pegue.

Esta entrevista foi dada na sequência da apresentação da sua candidatura presidencial. Ou seja, é suposto que nesta altura ele já esteja em campanha. E estar em campanha implica ter previamente decidido quais são as principais mensagens que se quer transmitir. Pois bem, no final da entrevista foram estas as três principais ideias que retive:

– Sampaio da Nóvoa considera que o principal problema de Portugal radica na falta de uma ideia de futuro para Portugal.

– Sampaio da Nóvoa pretende ser Presidente da República para ouvir as pessoas e, a partir do que vier a ouvir, conseguir estabelecer que ideia seja essa.

– No entretanto, Sampaio da Nóvoa ocupará o tempo que medeia até à sua eleição no esforço de explicar ao País a sua própria ideia para o País – “uma e outra vez, e outra vez, e outra vez” – ideia essa que nasce de mais ninguém ter tido ideias, garante, e a qual consiste em ouvir as ideias de toda a gente ao mesmo tempo que se olham essas pessoas nos olhos pedindo confiança e espalhando energia. Ah! Não esquecer que a ideia com que for eleito terá de ser respeitada, independentemente dessa outra ideia que irá sacar aos portugueses após a sua audição. Isto ficou dito, é conferir.

Eis uma figura que parece a réplica vingativa de Seguro, embora menos tonta do que o original, alimentando o mesmo “magma de afectividade” e cultivando o mesmo populismo antipartidos de quem se imagina superior à política. Mas o mais extraordinário, ou assustador, é constatar que as suas palavras apagam a própria História. Ele descreve o País e a sua missão no topo da hierarquia do Estado como se tivesse aterrado em Portugal em 2015 e nada soubesse do nosso passado para além de generalizações e abstracções. Só se sente à-vontade para apresentar factos e referentes concretos quando fala da sua experiência académica ou biográfica. Quanto ao que se tem registado desde o 25 de Abril no regime e na comunidade, nicles ou merda. Daí o seu entusiasmo com o vocábulo “confiança”, precisamente aquilo que temos para gastar com os estranhos. Quão mais afastado do nosso quotidiano, mais confiança temos de convocar para permitir que alguém entre na nossa intimidade. Faz todo o sentido que se concentre no pedido da confiança.

Uma das piadas do ano está a ser a criação do mito a respeito dos seus dotes oratórios. Nunca a capacidade para o copy/paste tinha sido tão valorizada cá pelo rectângulo. Ora, sem o papel à frente, uma entrevista revela muito melhor os seus recursos dialógicos. O que saiu nesta ocasião foi confrangedor, e não me refiro só à vacuidade transversal a qualquer uma das temáticas abordadas. A perplexidade é a de que nada se salva. Aliás, algumas passagens merecem castigo. Como esta:

"- O que é que significa que estará numa luta intransigente em defesa do Estado social?

- Significa que quando alguém se apresenta a uma candidatura com esta responsabilidade tem que dizer claramente quais são as suas ideias para o País. E, em particular, no caso do Estado social, as minhas ideias são claras. Eu acho que Portugal precisa de ter um Estado social na Educação, na escola pública, no Serviço Nacional de Saúde, nas questões do trabalho, nas questões da Segurança Social, precisa de ter uma sociedade que tenha essa coesão que é dada pelo Estado social. E precisa de ter um Estado que, além disso, tenha a capacidade de investir nos sectores estratégicos para o futuro. Um Estado que tenha capacidade de acção e de actuação. Eu creio que isso é absolutamente decisivo.

Agora, o Estado não substitui muitas dinâmicas da sociedade civil. Eu julgo que aliás uma das experiências, uma das aprendizagens, que esta crise nos trouxe é a extraordinária qualidade e dedicação do trabalho, sobretudo nos sectores sociais, no País inteiro. No País inteiro... Em associações ligadas à Igreja, em associações sociais, em movimentos diversos, nas próprias famílias que criaram uma malha, uma rede de apoio. Muitas vezes de apoio aos jovens, que vivem estas situações dramáticas de desemprego e de emigração. Muitas vezes de apoio aos netos. Noutros casos ao contrário, de apoio aos idosos, de apoio às pessoas que estão numa situação difícil do ponto de vista do envelhecimento. Eu acho que um dos exemplos mais extraordinários dos últimos anos foi esta capacidade de construir estas redes. Estas redes são muito importantes, estas redes são essenciais para o futuro de Portugal."

A única parte clara neste segmento está na pergunta. Ana Lourenço não lhe perguntou se ele sabia o que era o Estado social. Contudo, a sua resposta foi tão básica que se ficou por esse nível. O que a Ana queria inquirir remetia para o adjectivo “intransigente”; o qual é cabeludo, valente. Quem promete uma “luta intransigente” a respeito seja lá do que for está, acto contínuo, a declarar-se radical nesse ponto. Daí a relevância da pergunta.

Se a primeira parte da sua resposta é um nada onde cabe tudo, na segunda temos a defesa intransigente da política além-Troika e do discurso da culpa com que a direita decadente embrulhou a gula pelo pote. Descrever o propósito do empobrecimento e do desmantelamento do Estado social como a génese do “homem novo” que cria redes solidárias “essenciais para o futuro de Portugal” só não provocou o mínimo alarido porque se calhar ninguém conseguiu aguentar a entrevista até essa altura e a própria Ana Lourenço terá fingido que não ouviu.

Sampaio da Nóvoa é um provinciano. E uma excelente pessoa que deseja ardentemente aumentar o número de casos onde se valida o Princípio de Peter. Infelizmente, do que precisamos na Presidência da República é de um candidato que o fosse a contra-gosto, por obrigação, empurrado à força. Do que não precisamos é destes todos que se babam na via pública sonhando-se com autoridade para nos massacrarem com o seu bocejante narcisismo.

Do queijo ao chouriço

O episódio do elogio de Passos Coelho a Dias Loureiro não tem especial interesse desse ponto de vista onde o Pedro se deleita a gozar com a República. Essa será até uma faceta simpática do actual primeiro-ministro, exibindo-se como um certo impulso dadaísta que lhe molda o discurso trôpego, a gramática kitsch, o pseudo-liberalismo saloio e o atrevimento em registo Feira da Malveira. Não.

Ademais, Dias Loureiro, o porco-riquenho, nunca foi acusado de nada de nadinha de nada. Sim, mentiu ao Parlamento, mas, quer-se dizer, terá isso alguma importância? Ainda por cima sendo um ícone pop do laranjal e uma das traves mestras do cavaquismo? Pois.

O que realmente interessa no sapateado de Passos é o regresso dessa consciência de não haver fugas ao segredo de justiça na miríade de processos judiciais originados pela roubalheira do BPN – e já lá vão 7 anos. Dado o número exorbitante de agentes policiais e de Justiça envolvidos, tal quantidade desmente forçosamente a tese da disfunção sistémica na origem de algumas fugas. Como se constata, é possível manter processos altamente complexos, demorados e melindrosos sem o espectáculo dos assassinatos de carácter e da judicialização da política. Mas, porquê? Será por não haver mercado, dado não existirem órgãos de comunicação social especializados em chicana, calúnias e ódio na área do PS? Será apenas uma questão de falta de comprador, uma questão de dinheiro? Ou haverá nesta dinâmica das fugas selectivas, sempre com o mesmo alvo, um elemento estratégico e/ou passional?

Já li, numa direitola intensamente fanática, a ideia de que a nacionalização do BPN tinha sido decidida pelo Governo de Sócrates exclusivamente para assim os monstros poderem deitar a mão aos papeluchos que comprovavam a ligação umbilical de Cavaco ao banco do seu genial secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Aparentemente, porém, os xuxas não devem saber o que fazer com essa documentação, talvez por serem muito burros ou por não terem frequentado as mesmas escolas da rapaziada do PSD e do CDS. Seria maravilhoso ver o Pedro, com a sua fluência deslumbrada quando o tema é a probidade dos ricos, a explicar estas matérias ao nosso povo tão carente de ensino e comando. Talvez numa próxima ocasião, calhando visitar uma fábrica de chouriços.

A violência dos sonsos

O estado de insanável contradição moral que Cavaco ostenta desde 2008 é um microcosmo daquilo que na cultura da direita portuguesa decadente se considera ser o “fazer política”. Não tem qualquer novidade por comparação com outras práticas em geografias e calendários diferentes, pelo contrário. Antes fica como a síntese do que de mais baixo se pode levar a cabo em democracia para conquistar o poder: diabolizar e conspirar. Com uma diferença, contudo, a de Cavaco juntar à vilania a alucinação. Ele, de facto, imagina-se puro, superior, iluminado. Já nos dirigentes e militantes do PSD e CDS, tomados aqui em grupo na sua condição de cúmplices, trata-se apenas de pragmatismo. O poder conquista-se com mentiras e canalhices, valendo tudo desde que não se seja apanhado pela bófia, e não há cá noites mal dormidas à pala disso.

Veja-se este trecho notável, retirado do último discurso que fez enquanto Presidente da República nas comemorações do 25 de Abril. É notável do ponto de vista político, do ponto de vista antropológico e também, ou principalmente, do ponto de vista psicológico, quiçá psiquiátrico:

Noutro domínio, de grande importância, tornou-se evidente a necessidade de garantir a segurança dos cidadãos face a novas ameaças transnacionais, a que devemos dar resposta através da afirmação dos nossos valores e princípios, mas também com recurso a meios preventivos e repressivos. Portugal é uma sociedade aberta e tolerante. Para continuar assim, tem de rejeitar com firmeza os extremismos e ser intransigente com a violência e o terrorismo.

Um desafio premente que aqui se coloca é o de adequarmos a organização e o funcionamento de todas as estruturas que compõem o nosso sistema de segurança nacional às exigências que decorrem destes novos perigos, que não se fazem anunciar e que não conhecem fronteiras.

Ainda que num plano claramente distinto, a violência não se manifesta apenas através da força física e das armas. Temos assistido, no debate público em Portugal, a um nível de crispação e de agressividade verbal que, muitas vezes, não hesita em extravasar da controvérsia de opiniões para os ataques e os insultos de caráter pessoal.

A quem mais é que lembraria passar directamente da temática do terrorismo, e sua galeria de crimes contra a humanidade, para a temática da tipologia superficial do debate político? A quem mais senão a quem esteja, nesta específica altura do campeonato, preocupado em equivaler assassinos dementes com políticos e cidadãos desagradáveis? E quem é que poderão ser esses políticos e cidadãos senão os da oposição?

Quando Cavaco lançou a estratégia do “falar verdade aos portugueses”, em conluio com a “Política de Verdade” da sua amiga Manela, não se mostrava nada preocupado com os níveis de crispação e com as calúnias. Precisamente o oposto, essa estratégia o que pretendia era o crescendo da agressividade no espaço público, de forma a criar um ambiente insuportável onde o adversário político se transformasse num inimigo moral. Em vez daquele que tinha uma proposta diferente, a direita a partir de 2008 apostou tudo em fazer de Sócrates e do PS aqueles que violavam as leis compulsivamente e não eram dignos de qualquer confiança, por isso devendo ser escorraçados da cidade por estarem possuídos pelo mal.

Será que Cavaco não se lembra do que já conseguiu alcançar em matéria de violência? Quando Cavaco, ou alguém em seu nome, lançou a “Inventona de Belém” em cima das eleições de 2009, atingiu-se um grau inaudito de crispação, difamação, calúnia, mesmo alarme público. O normal funcionamento das instituições foi para o galheiro e chegou-se ao ponto de vermos o Correio da Manhã a noticiar que se tinham chamado as secretas militares a Belém para averiguarem se havia escutas posto que a Presidência não confiava nas secretas civis, as quais ficavam sob suspeita de estarem a mando dos socialistas. Isto aconteceu a poucas semanas das eleições. Quando Cavaco foi para o comício da tomada de posse em 2011, a três dias de uma manifestação de protesto contra o Governo socialista, insultar os políticos por atacado e pedir para que as pessoas se revoltassem na rua, que nível de agressividade terá atingido? E como é que Cavaco avalia as seguintes declarações que, numa bizarra coincidência, lhe pertencem e foram gritadas na noite da sua reeleição – as quais ficam igualmente como uma estreia histórica quanto à degradação da figura presidencial:

“Nesta eleição há vencidos: são aqueles políticos e seus agentes que preferem o caminho da mentira das calúnias, dos ataques sem sentido, ao debate de ideias sobre o futuro de Portugal. Foi o povo que democraticamente os derrotou”, frisou Cavaco Silva, arrancando mais aplausos. “Uma vez mais, o povo português não se deixou enganar. Esta é a noite da vitória da dignidade. A honra venceu a infâmia e a qualidade da democracia ganhou com esta vitória da dignidade”, reforçou.

Sobre uma grande bandeira portuguesa, numa varanda interna do Centro Cultural de Belém, voltaria a falar aos seus apoiantes para dizer, uma vez mais, que prevaleceu perante o que considerou ser a “vil baixeza” das estratégias dos adversários. E também para deixar críticas aos média: “Eu penso que seria extremamente benéfico para o funcionamento da política em Portugal que a nossa comunicação social revelasse os nomes daqueles que estão por detrás desta campanha que foi orquestrada contra mim”.

Deste homem não se poderá dizer que tenha qualquer aproximação com a natureza, sequer a imagem, de um terrorista. Mas espero que um dia a História lhe faça justiça. Espero que a História não esqueça o terror institucional que a sua ambivalência e sectarismo representaram para a qualidade da democracia.

Na república dos cidadões iguais

O discurso de Sua Excelência o Presidente da República, na 41ª Sessão Solene Comemorativa do 25 de Abril, foi interrompido por vários aplausos dos deputados do PSD e CDS. Eis as passagens que eles saudaram:

– Aplausos para a descrição positiva da economia nacional

– Aplausos para o apelo ao regresso dos jovens emigrados

– Aplausos para o apelo ao consenso em nome do interesse nacional

– Aplausos para o combate à corrupção + 1 + 1

– Aplausos para o mérito como critério de recrutamento na administração pública

– Aplausos para a qualidade dos serviços públicos como factor da qualidade da democracia + 1

– Aplausos para a defesa do SNS

– Aplausos para a elevação do debate, acabando com as difamações e calúnias

– Aplausos para a celebração dos compromissos de Abril

– Aplausos finais, de pé

Duvido muito que os deputados do PSD e do CDS sejam hipócritas. Não creio nessa hipótese porque é sabido que a gente séria e os filhos-família só escolhem esses dois partidos para exercerem a sua actividade política, desde sempre e para sempre. É também do conhecimento público que o PS selecciona os seus deputados, dirigentes, militantes e até os simpatizantes de acordo com atestados médicos onde se diagnostique baixeza moral e a pulsão para a violação da Lei na primeira oportunidade.

Não se tratando de hipocrisia, portanto, os aplausos exibiram as convicções e práticas da Maioria. Revelaram estar de acordo com o empobrecimento dos portugueses para além do que o Memorando impunha, revelaram estar contra os convites para que os portugueses abandonassem a chamada “zona de conforto”, revelaram abominar a pressa em ir ao pote e com isso afundar-se o País num resgate de emergência, revelaram que a luta contra a corrupção é o combate das suas vidas, revelaram estar muito chateados com as políticas do Governo de recrutamento de quadros para o Estado através do cartão partidário, revelaram que tudo têm feito para melhorarem os serviços públicos, revelaram que estão felizes e contentes com o que se passa no SNS, revelaram serem alérgicos à chicana, à difamação e à calúnia, revelaram que se inspiram no exemplo da Assembleia Constituinte e seu espírito de compromisso, e, finalmente, revelaram que Aníbal António Cavaco Silva é o seu grande líder, o modelo supremo das qualidades e virtudes da direita portuguesa.

Do que mais gostei, e em sintonia com a tripla de aplausos, foi do entusiasmo com que os deputados do PSD e CDS mostraram estar com o Presidente da República nesse pleito homérico contra a corrupção. Se há pessoas em Portugal que consigam ter mão nesse flagelo – que de tão ubíquo nem precisa de números, só de títulos na imprensa especializada – são os deputados do PSD e do CDS, guiados pela presciência e coragem do actual Presidente de todos os portugueses.

[clap!clap!clap!]

Diz tudo, como os malucos

É importante os partidos, ainda para mais em ano eleitoral, terem a transparência de dizerem ao que vêm, definirem com clareza a sua estratégia para futuro. Isso deve ser saudado.

Passos Coelho, Abril de 2015

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O responsável máximo pela campanha eleitoral do PSD em 2011 discursa em público como um amnésico. Tratar-se-á de uma amnésia colectiva, pois à sua volta as reacções são de assentimento, tranquilidade, apatia. Não importa o calibre da enormidade que o Pedro largue na via pública; jornalistas, políticos e cidadãos desviam-se imperturbáveis e seguem o seu caminho. Ou talvez não seja amnésia (não é, pois não?), talvez tenha outro nome.

Sendo justo, reconheço que alguns verbalizam alguma indignação perante o desplante com que Passos mente e nos trata como borregos. Mas mesmo esses logo aliviam as suas dores acrescentando que o outro, o que lá estava antes, era igual. “Passos igual a Sócrates” é uma receita que neste tópico acaba por proteger o Pedro dada a radical diferença entre eles: Sócrates foi leal com o eleitorado até ao limite das suas capacidades, Passos planeou trair o eleitorado até à plenitude das suas incapacidades. Para falar de promessas falsas de Sócrates apenas se consegue ir buscar a questão dos impostos, e mesmo aí há factores atenuantes, enquanto em Passos estamos perante um chumbo do PEC, consequente crise política e queda do Governo e uma campanha eleitoral onde todas as principais mensagens, de todos os dirigentes do PSD, foram intencionais mentiras. Já abraçados ao pote, quem fizer o levantamento do que foi sendo dito a cada medida além-Troika e acerca das responsabilidades pelo Memorando vai encontrar o mesmo padrão.

Aparentemente, um fulano que nos enganou tragicamente, causando com as suas acções sectárias e fanáticas desgraças incontáveis, não poderia ficar impune se abrisse a boca para se armar em político decente. Aparentemente, isto devia ser simples. Mas talvez Portugal seja um país que já tenha desistido de se respeitar a si próprio.

Revolution through evolution

Polarization in US Congress is worsening, and it stifles policy innovation
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Strontium atomic clock accurate to the second — over 15 billion years
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Google, Apple, Amazon spend record amounts on lobbying
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Four-dimensional printing unfolding as technology that takes 3D printing to an entirely new level
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We think better on our feet, literally
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60 = 50: New Study Reveals Increases in Life Expectancy Reflect Slower Population Aging
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Caloric Restriction: A Fountain of Youth for Aging Muscles?

Bem esgalhado

A ‘troika’ em Portugal agora chama-se Portas, Passos e Cavaco

Vai ser interessante observar se Costa mantém, campanha eleitoral a chegar e adentro, a pressão sobre Cavaco. Visto aqui da janela, todas as razões e mais algumas recomendam essa táctica. Por um lado, tem o condão de unir a esquerda, o centro e até parte da direita numa repulsa comum. Por outro, é de elementar justiça não ter qualquer tipo de misericórdia com quem tanto mal fez à democracia portuguesa e quem conspurcou os dois mandatos presidenciais.

Costa, porém, é imprevisível naquilo que parece ser o mais previsível, pelo que temos de esperar.

Na rotunda do Marquês

Não é uma beleza esta sincronia entre as fugas ao segredo de justiça, e as acções públicas de Rosário Teixeira e Carlos Alexandre gerando parangonas, com os momentos de afirmação do PS de António Costa? Começou em Julho de 2014, e na altura a lógica dessa primeira fuga favorecia Seguro contra o socrático de Lisboa. Seguiu-se um tumular silêncio. Costa ganhou. E esperou. Quando se preparava para, solenemente, lançar o seu ciclo de afirmação política, o Ministério Público ofuscou e condicionou a ocasião com a prisão de Sócrates a dias do evento. Agora, em cima do lançamento de um importante documento económico que servirá de base à elaboração do programa e que prestigia o PS, alguém decidiu chamar de novo à ribalta a Operação Marquês. Porquê agora? As autoridades não estão obrigadas a dar essa explicação ao público. Talvez a ninguém. E, mesmo que fosse prática corrente, poderiam invocar o que bem entendessem para terem o calendário justificado sem direito a contraditório. Isso implica, por cima do poder judicial, um poder político de vastas consequências quando estão em causa acusações de corrupção dirigidas a um ex-primeiro-ministro e num ano eleitoral.

Mas não só. Os esgotos a céu aberto, onde se inclui o Observador, aproveitaram para espalhar que teriam sido apanhadas “provas” de corrupção no computador do gestor ontem detido, e que as casas de Paulo Campos e Mário Lino já tinham sido revistadas, ficando sugerido que eles serão os detidos seguintes e que novos processos serão abertos respeitando a outros casos de corrupção envolvendo governantes dos Governos de Sócrates. Serão? E se o forem, quando? Vai ser por alturas da apresentação do programa socialista, em Junho? Ou estará a investigação à Operação Marquês a obedecer ao pedido de Marcelo Rebelo de Sousa para que se lavre acusação antes do Verão, em ordem a que os prejuízos para o PS sejam os maiores possíveis? E por que razão a investigação demorou tanto tempo para ir vasculhar o computador de Joaquim Barroca? Não tinham medo que, passado quase um ano desde as primeiras notícias, ele apagasse as cenas, trocasse de máquina, derretesse em ácido o hardware ou mudasse os números no Excel? E como é que um jornal e seus jornalistas se permitem veicular as suspeições de algum agente do Estado a respeito do que está ou não está, vale ou não vale, na posse de um detido em cima do momento da sua detenção? Ou essas suspeições não nasceram nalgum agente do Estado, daqueles com nome e responsabilidade criminal, sendo tão-só puras invenções de certos jornais e de certos jornalistas?

Sócrates poderá ser culpado de corrupção. Ou poderá ter recebido prémios que, não configurando actos de corrupção, sejam infracções fiscais. Ou poderá ter mesmo pedido dinheiro emprestado, ou até emprestadado, a um amigo que o tinha para emprestar ou dar. Nada disso, que só se poderá aferir caso haja acusação, primeiro, e julgamento, depois, impede a presente constatação de que esta é uma prisão política como nunca se conheceu outra igual em democracia.

Ricardo in the sky with diamonds

Deixo a análise profunda das medidas apresentadas esta terça-feira pelo PS aos especialistas em economia. Há ali, felizmente, muita coisa para se discutir, o que é meio caminho andado para deixarmos a política de casos e podermos falar do futuro do país. É um bom ponto de partida para a oposição e para o governo. E um passo que o PS levou demasiado tempo (anos!) a dar: só agora é que o maior partido da oposição esqueceu os lamentos do PEC IV e de chorar os idos de 2011.


Mano do mano

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Ricardo Costa garante que só agora é que o PS se está a libertar do PEC IV e de 2011. Ricardo Costa acumula com a autoria desta ideia a responsabilidade de dirigir o Expresso. Ora, gostava de saber se o Ricardo Costa quando está a dar ordens no Expresso se encontra no estado lastimoso em que damos por ele ao garantir que o PS andou desde 2011 a chorar e a lamentar-se à pala do PEC IV e dos idos de 2011. Não seria rápido a concluir pela intoxicação alcoólica ou de outra origem, mas alguma forma de alucinação se abateu sobre a sua cachimónia.

Até finais de 2014, o secretário-geral do PS era aquela figurinha que jamais gastou uma caloria a defender o PS que em 2011 tentou livrar Portugal da Troika e do casal Passos-Relvas. Pelo contrário, Seguro estava alinhado com os permanentes insultos, ofensas e calúnias e com o discurso da punição que a direita martelava diariamente, tanto no aspecto das causas da crise (culpa de Sócrates), como no aspecto da moral da crise (PS de Sócrates era corrupto, daí Seguro ter como missão desinfectar a casa com a sua imaculada pureza). Em Setembro de 2014, aparece um novo secretário-geral. Ninguém lhe ouviu qualquer lamento ou choro a respeito do PEC IV ou de 2011. Aliás, nas pouquíssimas ocasiões em que se refere a esse período, mostra-se invariavelmente com pressa para sair do assunto e faz questão de frisar que tem críticas a apontar ao Governo socialista de então. Ainda mais espectacularmente para esta análise do que o aquilino Ricardo afiança, temos tido um António Costa calado desde a sua chegada à liderança do PS. Esse silêncio de meses exasperou muito boa gente, o que não provocou em ninguém foi a peculiar “trip” que o mano partilhou com os leitores do Expresso.

Esta é uma boa ocasião para lembrar que Sócrates não tinha em Março de 2011 condições políticas para continuar a governar. Não tinha porque não podia ter, porque Cavaco queria que ele caísse o mais rapidamente possível, porque não existia maioria no Parlamento e, acima de tudo, porque o PSD estava convencido de que a aprovação do PEC IV iria levar a que o Governo socialista conseguisse evitar o resgate. Então, não quiseram dar a mínima oportunidade a que tal pudesse acontecer e afundaram o País sem qualquer remorso. A lógica do poder pelo poder é a única a que obedecem.

Ricardo, quem não larga o PEC IV e os idos de 2011 é a direita decadente que tu apoias e para quem trabalhas. Bem podes limpar as mãos à parede.

Festina lente, Costa

António Costa começou o discurso no Pavilhão Rosa Mota, neste domingo, acelerado. Acelerado continuou. E ainda mais acelerado terminou. É preciso que alguém lhe diga para se acalmar se a ideia for a de acelerar o eleitorado.

Há características psicológicas em Costa que prejudicam a sua afirmação como líder e, muito provavelmente, estão também na origem da surpreendente inépcia estratégica que tem revelado. Por exemplo, no primeiro debate com Seguro a sua prestação foi comedida, tendo procurado passar uma imagem conciliadora, quiçá amistosa, no trato público com o então secretário-geral. Após o debate, todos os comentadores de direita aproveitaram a oportunidade para fingirem que Costa tinha perdido o páreo, que nem sequer se teria preparado. Tudo conversa da treta face à inanidade de Seguro, mas treta permitida pelo amadorismo ou sobranceria de Costa. O segundo debate levou-o para um urgente exercício de intensa pressão sobre Seguro, não deixando dúvidas quanto à percepção geral produzida. E o terceiro foi um misto dos dois anteriores, tendo esse debate acabado por ficar marcado pelo descontrolo emocional de Seguro. O ponto que realço é este: Costa mostra-se desconfortável em situações de antagonismo, parecendo não saber qual é a medida certa para a sua agressividade. Esta hipótese também radica na por si mesmo admitida imagem de ser alguém dado a provocar, ou a não impedir, explosões de violência emocional para com os seus subordinados. Exemplos vários poderiam ser dados, inclusive o modo ambíguo e passivo como lidou com a prisão de Sócrates, e ainda antes na forma como se exibia perante os ataques de carácter a Sócrates por parte do Pacheco e Lobo Xavier na Quadratura – marcas de um desequilíbrio entre dois extremos, a afirmação e a abstenção.

Referir estes aspectos da sua pessoa pública não pretende ser uma avaliação da sua capacidade como político. Costa é Costa é Costa, e assim será. Os factores que estão a prejudicá-lo são parte de um todo onde têm uma função que não pode ser desligada dos factores que lhe têm dado o sucesso político que obteve até agora, a sua reputação incluída. Todavia, algo poderá ser melhorado. E pode ser algo tão simples, aparentemente, como a alteração do quadro psicológico associado às suas intervenções tribunícias. Porque, como o exemplo da “Festa da Democracia” revela, ter um líder afectado pela ansiedade não é benéfico para si, para os seus e para a cidade.

Conselhos:

– Não querer imitar Fulano, Beltrano ou Sicrano.
– Começar devagar.
– Não gritar por convenção, gritar só por paixão.
– Falar para alguém, não falar para ninguém.
– Quando há algo para dizer a Passos, Portas ou Jerónimo, imaginar que Jerónimo, Portas e Passos estão ali, mesmo em frente, e dizer o que há para dizer como se.
– Nunca, mas nunca, gritar “PS, PS, PS” ao ritmo de uma metralhadora.

E prontos. Por hoje é tudo.

Revolution through evolution

Teaching children in schools about sexual abuse may help them report abuse
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Should a political party form a coalition? Voters and math decide
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Civic engagement may stave off brain atrophy, improve memory
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Faculty in doctoral programs more responsive to white male prospective students, research finds
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Nothing beats a good night’s sleep for helping people absorb new information, new research reveals
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Why Everything You’Ve Heard About Women and Negotiation Might Be Wrong
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Professional golfers live a lonely life in the midst of rivalries on a meager income
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Verdade com sabor a laranja

Já em 2009, às portas das eleições mas com o País em pré-bancarrota, o PS de Sócrates usara da mesma estratégia. Aumentou os salários na função pública e reduziu a taxa normal do IVA e, pelo caminho, prometeu TGV's e cheques bébé.


Francisca Almeida

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Tendo convocado Yourcenar para um exercício que se esgota em tratar os socialistas como mentirosos, esta deputada do PSD introduz um acrescento refrescante na cassete da “bancarrota”: em Setembro de 2009 já estávamos em “pré-bancarrota”. Porquê? Não terá tido tempo, ou caracteres, para explicar. Aliás, talvez convenha nada explicar para não tirar encanto literário à imagem. O talento romanesco não carece do zelo e aridez da racionalidade demonstrável.

Acontece que o conceito “pré-bancarrota” é de irresistível utilidade. Pode ser aplicado sem limite lógico por ser desvairadamente plástico. Podemos até perguntar se haverá algum período na História onde os Governos, nacionais e internacionais, não tenham estado em “pré-bancarrota”; exclusão para os que, de facto, entraram em bancarrota e só durante essa altura. Por aqui, a Francisca está a representar com garbo a “política de verdade”, outro conceito que conhece muito bem posto ter sido eleita para o Parlamento sob a sua égide. A chatice começa quando nos recordamos do que não ouvimos nem lemos nesses idos de 2009. E não ouvimos nem lemos ninguém do PSD ou CDS a falar em bancarrota, pré-bancarrota ou ante-quase-pré-bancarrota. Do que se falava era das contas que as “gerações futuras” teriam de pagar por causa de umas estradas algures. E também se falava muito da “asfixia democrática”, do “Freeport”, “da PT e da TVI”, da “Manuela Moura Guedes”, do “clima de medo” e de uma malandragem que andava a espiar o correio electrónico do Sr. Cavaco. Pode dar-se o caso de essa asfixia ter reduzido drasticamente o oxigénio a circular pela mioleira dos estrategas da direita ao tempo, eventual razão pela qual deixaram escapar o tema da franciscana “pré-bancarrota”. Enfim, um dia o Pacheco revelará em livro o que realmente se passou.

A “bancarrota” está connosco desde meados de 2011 e não tem tido um dia de descanso. A campanha eleitoral da direita não terá muito mais para berrar do que esse estribilho. Se tudo se mantiver igual, e vai manter, não teremos direito a qualquer explicação acerca do que causou a tal festejada “bancarrota”. Terá sido causada pelo TGV que não chegou a ser construído e para o qual havia fundos comunitários, sendo que o projecto tinha nascido num Governo PSD onde contemplava 4 linhas? Terá sido causada pelo novo aeroporto que não chegou a ser construído? Terá sido causada pelas PPP cujos custos só iriam ser pagos pelas gerações futuras? Terá a “bancarrota” nascido do gasto em combustível de avião para carregar os computadores Magalhães daqui para fora? Terá a “bancarrota” aparecido como consequência do investimento em energias renováveis e consequente diminuição das importações de petróleo que originaram? Será que a “bancarrota” foi o resultado inevitável da instauração do Simplex? A lista é fastidiosa, pelo que nos daria muito jeito ter os arautos da “bancarrota” a fazerem uma pausa no estado de êxtase com que celebram a chegada da mesma e dignarem-se apresentar alguns dados carnudos para mastigarmos.

Claro que o problema se torna ainda mais bicudo quando olhamos para o que literalmente se passava em 2011 até à “bancarrota”. Tendo o Governo socialista apresentado um plano que continuava e alargava as políticas iniciadas em 2010, por imposição europeia, para diminuir as despesas do Estado, vimos a direita a chumbá-lo e a levar o País para uma crise política que de imediato o afundou nos mercados de financiamento, acabando por obrigar ao resgate em poucas semanas. Até parecia que a direita não queria mais medidas de austeridade e que assim anunciava aos portugueses e ao Mundo que vinha aí o fim dos sacrifícios.

Não sei se a Francisca Almeida se lembra desta história. Não sei se tem uma memória de Adriano. Mas lá que ela e o tempo são dois grandes escultores, isso fica patente na extraordinária capacidade para moldar o passado segundo o seu gosto e fantasias. Fantasias verdadeiras, obviamente, e com sabor a laranja.

Zeitgeist – A era dos liberais à portuguesa

Mariano Gago?!... Mas esse tipo não foi um socrático do pior, tendo andado a esbanjar o rico dinheirinho dos meus impostos em ciência, educação, tecnologia e inutilidades dessas só para o dar aos xuxas em vez de ir a correr guardá-lo para encher os nossos cofres? E a corrupção toda que ele andou a esconder e de que é cúmplice? Querem ver que não sabia dos milhões na Suíça que o cabrão andou a roubar com o amigo... LOL!! Ninguém fala nisso porquê? Por medo dos serviços secretos, e do Noronha e do Pinto Monteiro, né? Só pode... FILHOS DA PUTA. Ainda por cima era gago!!! LOLOLOLOLOLOLOLOL!!!!!!!!!!

A festa e a festança

Voltando a 2011, Pedro Passos Coelho considerou que, "mesmo quem não votou no PSD, sabe que a 'festa' não podia continuar e que era preciso ajustar".

Abril, 2015

"Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro", afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento do fórum de discussão "Mais Sociedade", no Centro de Congressos de Lisboa.

O PSD quis "vasculhar tudo" para ter contas bem feitas e, "relativamente a tudo aquilo que o Governo não elucidou bem", procurou "estimar", preferindo fazê-lo "por excesso do que por defeito", referiu.

Para Passos Coelho, a solução é "austeridade para o Estado" e quem lidera deve dar o exemplo, "porque isso tem um efeito multiplicador muito importante em toda a sociedade", o que só pode ser feito "mudando a liderança em Portugal".

Abril, 2011

“A nosso ver, o último pacote de austeridade não iria potenciar o crescimento mas impor sacrifícios inaceitáveis aos membros mais vulneráveis da sociedade. Eram demasiados impostos e uma redução de despesa insuficiente”, refere, num artigo que será publicado na quarta-feira na edição impressa do Wall Street Journal.

Março, 2011