Todos os artigos de Valupi

Isto da inteligência é muito cansativo

Há um secreto alívio na destruição do património histórico iraquiano, sírio, líbio, o que conseguirem apanhar e não queiram vender – o qual é igualmente património da humanidade – levada a cabo com invejável entusiasmo e atenção videográfica pelos doentes do Estado Infâmico. Podemos até reunir todos esses actos num apocalíptico “momento zen”, o qual simbolizaria a libertação das amarras da cultura e do passado. De facto, para quê estar a conservar ruínas já num estado de ruína? E aquelas estátuas foleiras não representam déspotas ou falsidades mitológicas? Não fizeram o mesmo os cristãos e os civilizadíssimos europeus ao longo de séculos e séculos? Também de um ponto de vista marxista, a criação do “homem novo” não se compadece com agarramentos aos velhos homens das velhas explorações dos trabalhadores doutrora. São muitas e boas as razões para simpatizarmos com a razia, pois.

E que não restem dúvidas, no dia em que um destes doentes consiga pôr a mão numa arma que destrua o Planeta inteiro ele irá carregar no botão na primeira oportunidade. Talvez esteja aí uma das explicações para o paradoxo da previsível infinidade de planetas com condições para desenvolverem vida neste Universo e nem um singelo sinal de rádio com lógica comunicacional nos ter ainda chegado às antenas. É que talvez a inteligência, ao atingir o ponto em que consegue extinguir os seres que a albergam, não resista à tentação de descansar de si própria.

O jornalista do jornalista

Estive a passear pelos arquivos do blogue e encontrei este vídeo, publicado por cá originalmente em 2009. A situação nele registada remete para 2006, ou antes.

Rodrigo Amarante é um músico brasileiro e a questão em que se envolve numa discussão com o jornalista não poderia ser mais fútil, ou mais típica daquele contexto geral de futilidade que decorre da questão ela própria. Contudo, a resposta que o Rodrigo teve a felicidade de dar ao atarantado jornalista é brilhante e paradigmática. Aplica-se a qualquer outra questão, seja ela qual for, mas em especial em situações onde os jornalistas estão a explorar suspeições, difamações e calúnias.

É simples, basta ser o jornalista do jornalista.

Parabéns Pedro&Paulo

Passos e Portas estão de parabéns, e o Pedro ainda mais. Muito mais. Não entender porquê será um erro, mais um, da oposição.

Durante as eleições para a liderança do PSD em 2008, uma parte do partido sentiu asco da conduta do então apodado imitador de Sócrates. Os seus elogios ao dito, e os seus ataques a Ferreira Leite – que valeram ao casal Passos-Relvas a exclusão da lista de deputados laranjas – exibiam uma personalidade ainda totalmente mergulhada na cultura política adolescente e estouvada da JSD. Com a saída da Manela, a disputa interna parecia favorecer Paulo Rangel, visto como o preferido dos cavaquistas, e levar a uma repetição do desaire passista da anterior eleição. Porém, as bases o que queriam mesmo era o seu Sócrates e justamente castigaram um Rangel que estranhamente se revelou um fiasco nos debates, inclusive tendo perdido com escândalo o mano a mano com o bimbalhão do Aguiar-Branco.

Tínhamos agora o Pedro à frente do partido e com a certeza de que a legislatura não chegaria ao fim, dado não haver maioria parlamentar nem interesse em alcançá-la. O caos nos mercados de financiamento externo e a certeza de que Cavaco apoiaria o derrube do Governo na primeira oportunidade colocavam o calendário das legislativas nas mãos do PSD. Neste período, a grande dúvida na direita ocupava-se com a capacidade de Passos para se aguentar no confronto eleitoral com Sócrates. A percepção geral era a de ser altamente improvável que conseguisse bater o primeiro-ministro de então. Ironicamente, o ostracismo parlamentar acabou por protegê-lo, tendo chegado ao período eleitoral sem qualquer desgaste na imagem e sem derrotas em duelos. Na única ocasião em que enfrentou a fera, no debate televisivo, apareceu à sua frente um Sócrates interiormente derrotado pelos acontecimentos que levaram ao resgate, descrente de que valesse a pena lutar pela vitória. Ainda assim, quem revir os 60 minutos tem de se render à evidência: Sócrates denunciou correctamente a agenda secreta da direita e Passos mentiu quanto pôde e do princípio ao fim. Os que consideraram, e consideram, que o “homem invulgar” venceu o debate estão acto contínuo a definir o estatuto da sua relação com os factos e com a decência.

Nestes 4 anos, que estão quase a acabar, Passos superou obstáculos gigantes. Por exemplo, excelentes cabeças não concebiam que o primeiro-ministro conseguisse manter-se no cargo caso perdesse Vítor Gaspar ou Miguel Relvas. Pois ele perdeu os dois e viu a sua autoridade reforçada também por causa dessa perda. As crises da TSU, em 2012, na Educação e na Justiça não o derrubaram, nem derrubaram qualquer ministro, podendo mesmo dizer-se que não o molestaram. A inversão radical do discurso ao sabor dos acontecimentos passa impune, a própria oposição mostra-se incapaz de capitalizar nesse deboche. E o contraste entre as promessas eleitorais e a prática governativa, entre a aclamação do Memorando como obra própria e salvífica e a sua utilização como arma de arremesso contra o PS, entre o património ideológico da direita e a fúria do empobrecimento e do saque fiscal, tudo isto e o resto não faz ninguém sair à rua. Nem sequer os profissionais do protesto, tão fogosos num passado ainda recente. O episódio da demissão de Portas acabou por ser favorável aos dois, dando a Passos uma liderança do Governo reforçada e a Portas o consolo das prebendas a que reduziu a sua intervenção política. O ciclo acaba com o supremo e colossal troféu de ter Sócrates preso e cada vez mais desprestigiado, o que igualmente contribui para a reactivação e reforço dos discursos da culpa e do ódio com que a direita justificou o chumbo do PEC IV, o logro eleitoralista e o além-Troika devastador.

Será tudo mérito de Pedro&Paulo? Não. Por um lado, existe um Presidente da República que actua despudoradamente como chefe de facção. O que Cavaco hoje faz é rigorosamente simétrico do que fez com o Governo socialista a partir de 2008. Onde atacou sem piedade, agora defende sem vergonha. Por outro lado, enquanto os anteriores Governos socialistas enfrentaram uma permanente barragem de campanhas negras fazendo o pleno na comunicação social, posto que o PS não tinha qualquer órgão que assumisse as suas dores, o actual Governo dispõe da maioria dos comentadores políticos e ainda conta com órgãos de imprensa cuja agenda ostensiva é a defesa dos interesses políticos da direita portuguesa. Não existem assassinatos de carácter nem casos de perseguição patológica por parte de jornalistas com vasta influência, como se viu, e vê, contra Sócrates e quem esteve ao seu lado. Last but not least, as condições económicas são completamente diferentes graças à intervenção do BCE que levou à baixa dos juros nos mercados e graças à baixa do preço do petróleo.

As sondagens aí estão para introduzir realidade eleitoral nestas impressões casuais. Do PCP e do BE, cúmplices da chegada ao poder daquela que é a mais violenta e decadente direita que já conhecemos na governação, nada se deve esperar. Mas no PS, que era suposto defender a sua História, algo poderia ser feito. Esse algo consistia em dar nome às coisas. Não o dando, dão os outros. E os outros devem estar neste momento aparvalhados pela facilidade com que se pode tratar os portugueses como gado para abate.

A esquerda apodrece Portugal, reconhece Louçã

Louçã escreveu um texto na passada quarta-feira que, sem surpresa, deixou indiferente o mundo político nacional – As três alianças e os meios de as conjurar: a terceira, a da esquerda. Todavia, o seu tema é fascinante, e de estrutural importância para a qualidade da nossa democracia: o bloqueio do sistema partidário à esquerda.

O resumo do problema consiste nisto: a esquerda pura e verdadeira (BE, PCP e grupelhos a escolher pelo Anacleto) não se une por “rotina de fechamento“, “tradição dos partidos” e “falta de vontade e audácia“. Consequentemente, reconhece com humildade merecedora de aplauso, estamos num “situacionismo que apodrece Portugal“. O resto do texto é ocupado com a sua augusta pessoa, tendo chegado ao ponto de largar este delicioso naco da sua exorbitante megalomania:

(e sobre isso não faço agora nenhuma sugestão, para não condicionar nem influenciar ninguém, nem discuto aqui a evidente importância das eleições presidenciais para novos sinais de novos tempos)

Louçã está mais perto dos 60 do que dos 50. Tem uma existência dedicada à política e pode reclamar ter sido um dos mais inovadores dos seus agentes. O que conseguiu com o PSR e com o BE é notável a vários títulos. Pois bem, que tem ele para nos dizer sobre uma das mais graves questões do regime, a tal impossibilidade de termos um PS com alianças à esquerda? Que se trata de um fatalismo onde a única coisa que há para fazer é ir sofrendo até que o País caia de podre.

Não faço ideia de qual possa ser o ideólogo de esquerda, ou tão-só da esquerda que o Louçã se considera proprietário, que recomende a desistência perante a adversidade – por maior que seja a adversidade. Pegando de empréstimo a referida audácia, ouso declarar que não existe ninguém de esquerda que passe tal receita. E é com base nessa convicção que chego ao corolário: Louçã não é de esquerda.

Colocada assim a questão, tudo de repente parece fazer cristalino sentido. Só alguém que abomina a esquerda consegue dedicar uma vida inteira ao boicote da democracia.

Revolution through evolution

Recognizing the signs of child abuse and how to help prevent it
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Winning women: Fielding more female candidates helps political parties gain votes
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Stop complaining about the moral decline of western society, expert says
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A grateful heart is a healthier heart
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Execs sitting on each’s other’s boards: How unethical behavior can inflate executives’ pay
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Managers: Motivating the employee willing to go the extra mile
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Working up a sweat: It could save your life
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Defender o Estado de direito é bestial

André Macedo escreve sobre uma dimensão da prisão de Sócrates – A justificação – que também me levou a planear um texto para este domingo. De facto, o argumento acerca da suposta desconfiança de Sócrates no sistema bancário para assim justificar as entregas em dinheiro através de terceiros até poderá ser verídico, quiçá por excelentes razões adentro da sua mónada existencial, mas ao chegar à praça pública torna-se excêntrico, primeiro, e, logo de seguida, fatalmente incorrecto para a generalidade dos seres dotados de inteligência dado o perfil da figura em causa e o seu papel na História de Portugal pelos cargos ocupados e decisões tomadas.

Isso significa que mesmo sem a formalização de uma acusação, ou com absolvição em eventual julgamento, há uma realidade que fica incontornável: o comportamento privado de Sócrates terá permitido o seu envolvimento num caso judicial que em muito ultrapassa a importância da sua pessoa enquanto vulgar cidadão – pois aquilo que lhe está a acontecer afecta o PS, e a própria qualidade da democracia por esta e outras correlações. Logo, estamos perante uma questão de regime.

Também será uma questão de regime avaliar a acção da Justiça neste caso, havendo neste momento questões graves em aberto sem que se saiba quando, ou se, terão esclarecimento. Porém, admitindo-se a hipótese de uma qualquer intenção política na origem da “Operação Marquês”, fosse por motivação partidária e/ou corporativa, ainda assim tal possibilidade não ilibaria Sócrates perante a sua responsabilidade, pelo contrário, pois seria sua obrigação prever que tal lhe pudesse acontecer por todos os factores e mais alguns.

Posto isto, haverá melhores ocasiões para fazer esse julgamento moral (no sentido em que a política é também uma prática moral) sobre as consequências do que aparece como uma deslealdade de Sócrates à cidade. Por agora, a bela batalha trava-se nas muralhas dela. De um lado estão as bestas do ódio, para quem só o linchamento daquele que mais temem conseguirá satisfazer a sua pulsão de morte. Do outro, uns poucos que defendem Sócrates como defenderiam as próprias bestas caso elas fossem vítimas de injustiça – aliás, caso se temesse que essas bestas viessem a ser vítimas de algum tipo de injustiça.

Falar verdade aos portugueses

A mariana pessoa publicou um excerto de Pedro Santos Guerreiro – A verdade e o azeite e tal – onde se pode ler o seguinte:

Cavaco Silva descobriu que lhe estavam a esconder a negociação de um PEC IV. Então, vingou-se por antecipação: dois dias antes da apresentação do plano, no discurso da tomada de posse para o seu segundo mandato como Presidente, disse que não havia espaço para mais austeridade.

Trata-se do parágrafo final da citação. Como não conheço o texto na sua totalidade, quero evitar ser injusto para com o autor. Porém, tratando-se de um parágrafo, vale como uma unidade argumentativa. É nessa abstracção que surge como surpreendente, denso e polémico – quiçá assustador.

De chofre:

– Cavaco Silva, ex-ministro das Finanças e ex-primeiro-ministro, que sempre se vangloriou (inclusive, ou sobretudo, em período eleitoral) de ser uma luminária em Economia, ignorava quais seriam as consequências do chumbo do PEC IV?

– O Governo tinha alguma obrigação institucional de partilhar com o Presidente o que estava a negociar com os parceiros europeus, de resto um acto de gestão executiva imposto pelo calendário, antes desse acordo estar fechado?

– O Governo, depois do que se tinha passado desde 2008, onde Cavaco assumiu protagonismo na liderança da oposição, e especialmente depois da “Inventona das Escutas”, tinha alguma condição para manter sequer módica confiança institucional no Presidente e na Presidência da República?

– Quais as consequências políticas que a comunidade deve tirar ao se concluir que um Presidente da República age por “vingança”, para mais numa matéria onde não tem legitimidade política (a governação), e ainda por cima com as consequências devastadoras para toda a população que tal comportamento promovia, ou até impunha?

Cada uma destas questões, e outras congéneres, chegaria e sobrava para ajuizar do essencial que estava em causa nesses idos de Março de 2011: havia uma alternativa à Troika, a qual foi recusada pela direita portuguesa com o único objectivo de alcançar o poder. Todos os discursos que apelavam à entrada do FMI, que bendiziam as opções do Memorando e que justificavam com os males endémicos a punição despejada com asco para cima de um País que tinha comprado a promessa do “fim dos sacrifícios” só encontram racionalidade nas suas contradições e antinomias se os lermos como uma retórica para borregos. Podia-se, e pode-se, dizer tudo e o seu contrário porque não há punição, nem mesmo mediática para inglês ver. É assim que pensa a nossa oligarquia, e prova mais uma vez ter razão pois está a ganhar em toda a linha, domina o Estado como nunca se viu antes em democracia.

Vou apenas estender a análise ao aspecto mais assustador na citação, esse de, aparentemente, PSG acreditar que “Cavaco Silva descobriu que lhe estavam a esconder a negociação de um PEC IV“. Esta questão não é secundária na tragédia que se viveu há 4 anos, pois Cavaco acabou por explorar até ao limite esse sofisma gadelhudo, tendo chegado a receber o apoio de figuras na área socialista que igualmente se tinham rendido ao interesse em correr com Sócrates. E quando, por fim, respondeu aos que rogavam por uma intervenção sua a favor do interesse nacional, a desculpa que usou, alegando que os partidos tinham sido rápidos demais a radicalizar posições pelo que ele não iria mexer uma palha, era a segunda parte da patranha.

Factos:

– A Troika é constituída pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo FMI.

– Durante o mês de Fevereiro de 2011, representantes dessas entidades estiveram reunidos várias vezes com membros do Governo português para elaborarem um acordo especialmente complexo dado o momento das crises soberanas e da falta de mecanismos europeus de resposta a elas, a que se juntava a circunstância da ausência de maioria parlamentar. O previsível sucesso dessa negociação levou o Expresso a antecipar o seu desfecho com uma célebre parangona saída a 5 de Fevereiro, a qual deixou os direitolas a espumar de raiva: “O FMI já não vem“. Atente-se, no fundo dessa página, à notícia “Assessor de Cavaco acusa Governo de provocação”. Vista retrospectivamente, estamos perante a criação de um ambiente de frontal hostilidade que iria desembocar no comício da tomada de posse e no caso da alegada recusa em informar Cavaco acerca do PEC IV.

– Também durante o mês de Fevereiro, Cavaco recebeu dezenas de responsáveis dos principais órgãos económicos e sociais do País.

– Na Comissão Europeia a chefia era de Durão Barroso, no BCE trabalhavam portugueses, e no FMI havia um tal de António Borges, talibã do empobrecimento a mata-cavalos, que era só o presidente do departamento europeu. A estas figuras, colhe ainda juntar as da imprensa e do corpo diplomático em países europeus que, por inerência, igualmente acompanhavam, fosse em que grau fosse, as movimentações a ocorrer na tentativa de evitar que Portugal se juntasse à Grécia e à Irlanda.

Temos então que o homem que conseguiu encontrar fundas suspeitas de ter o seu computador invadido por seres maléficos vestidos de cor-de-rosa é o mesmo homem que não conseguiu descobrir que o Governo de Portugal estava a suar as camisas e as gravatas para que se evitasse o mal maior. Dada a quantidade estapafúrdia de dirigentes, altos quadros, funcionários superiores, políticos e jornalistas portugueses e europeus que sabiam do que se passava, nem um vagido ter atravessado os muros do Palácio de Belém com a boa nova é a prova suprema de que um Presidente da República sério não tem ouvidos. Nem vergonha. Nem neurónios.

Se uma vedeta da elite jornalística como Pedro Santos Guerreiro não percebe o que é uma golpada presidencial quando ela lhe cai em cima, há que ter medo. Se percebe, e finge que não percebe, há que ter ainda mais medo.

A questão central na escolha de um candidato presidencial

Sampaio da Nóvoa desperta amplas, ou eclécticas, ou variegadas, simpatias na esquerda e no centro. Dentro da imprevisibilidade e frustração que marcam a liderança de António Costa até à data, poderá mesmo vir a ser o candidato presidencial apoiado pelo PS. Mas será a figura de que precisamos nesta altura?

Sirvo-me da estimável opinião do MCF – Enquanto há força, cantai rapazes, dançai raparigas, seremos muitos, seremos alguém – para olhar com mais atenção para o fenómeno da sua popularidade. O Marco disponibiliza e recomenda o seu discurso no 10 de Junho de 2012, garantindo estar ali uma prova de que o homem teve a coragem de dizer, na cara de Cavaco e Passos, o que precisava de ser dito. Ai, sim? Discordo.

O discurso é convencional na sua retórica, o que não tem qualquer mal, apresentando-se sectário na sua ideologia. A ideologia é a do primado do “conhecimento” sobre a “política”, sintetizado num peremptório dogma:

É este o nosso problema: a ligação entre a universidade e a sociedade. É esta a questão central do país: uma organização da sociedade com base na valorização do conhecimento.

Vista a partir da torre de marfim na universidade, sim, poderá ser essa a questão central do País. Para mais ninguém, contudo. Não para os pensionistas, não para os desempregados, não para os utentes dos serviços públicos, não para os que esperam e desesperam pela Justiça, não para quem quer trabalhar com dignidade e segurança, não para os que se assustam e entristecem com a decadente cultura da calúnia promovida pela elite nacional.

Dizer que há uma “questão central” na política que acaba por transcender a própria política é um dos pilares dos posicionamentos populistas. Onde outros apenas recorrem ao moralismo, seja porque se reclamam puros ou porque diabolizam os adversários, o fogoso reitor desfralda a bandeira de todos os iluminados e declara-se crente ingénuo naquilo que Platão deixou cifrado e tão-só para consumo individual.

Falar de sectarismo não me parece em nada excessivo quando listamos e detalhamos as mensagens que foram verbalizadas nesse 10 de Junho de há 3 anos. As denúncias que permitiram carimbar esse discurso como “opositor” são invariavelmente demasiado genéricas, afundando-se num registo metafórico que nem sequer ultrapassa o nível do cliché, surgindo embrulhadas em citações avulsas e politicamente correctas. Espremidas, são palavras que mal escondem uma preocupação narcísica, a procura de um efeito adequado ao tempo e ao lugar. Onde está nesse discurso, numa vírgula que seja, a obrigatória exaltação do Estado de direito? Que sortilégio explicará a oportunidade perdida de dizer a Cavaco e Passos que eles ofendem a República? Como se pode celebrar esse momento como manifestação de coragem se nem um espaço entre letras foi dedicado ao logro eleitoralista que nos afundou em 2011 ou ao emporcalhamento da Presidência em 2009? É preciso não gostar nada de política para desperdiçar uma ocasião literalmente soberana de a fazer.

Sampaio da Nóvoa daria um Presidente da República um gugol de vezes melhor do que Cavaco. Mas também com Fernando Mendes, do Preço Certo, teríamos uma melhoria dessa magnitude. Ou com a minha vizinha do 4º andar. Aqui para o meu palato, nenhum candidato presidencial que abdique do confronto com a “questão central” dos ataques ao Estado de direito, o qual nunca como com Passos e Cavaco foi tão desprezado e maltratado em democracia, ganhará o meu voto. Pelo menos, na 1ª volta.

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Generous welfare benefits make people more likely to want to work, not less
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Impact of domestic violence on women’s mental health
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New Book Explores Trolls in Our Culture
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Family income, parental education related to brain structure in children, adolescents
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Exercise can outweigh harmful effects of air pollution
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Eating green leafy vegetables keeps mental abilities sharp
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Internet Searches Create Illusion of Personal Knowledge, Research Finds
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Um Cristo da dissonância cognitiva

É sempre assim com teorias de conspiração. Dão voz aos medos e preconceitos do povo, são simples de explicar, populares e impossíveis de rebater – quem opta por acreditar no irrazoável não está disponível para aceitar a razão. Mas sendo inútil discuti-las, vale a pena destacar que estas acusações estão generalizadas no debate. Que não são excepção, são a regra. E que isso diz mais acerca do estado do país do que dezenas de estatísticas e relatórios internacionais.

Deixámos de distinguir um argumento sério de uma teoria da conspiração, já não estranhamos o que é estranho, tratamos de modo igual o que é diferente. Assim está o debate político – afastado do conteúdo das medidas, do impacto dos programas, das leis, do que é real, do que deve ser a busca pelo bem-comum. E assim está o debate público – formado por comentadores obedientes a narrativas partidárias e a radicalismos que valem likes e partilhas no facebook. Inevitavelmente, assim estamos nós. A economia pode crescer e o desemprego baixar, mas a única coisa que anima as hostes é que Passos Coelho quer aumentar a pobreza.

30 de Março

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Proença de Carvalho é livre de pensar e dizer o que quiser sobre o BES, sobre Sócrates e sobre a investigação que o conduziu à actual prisão preventiva. Mas, já que o faz com regularidade, convinha aclarar igualmente o contexto das suas afirmações e acusações.

É que, de facto, resistem várias dúvidas quanto a esse contexto. Qual a relação que Sócrates teria tido na compra da Controlinveste (DN, JN, TSF, O Jogo), da qual Proença é hoje chairman? Qual a influência que o ex-primeiro-ministro teria tido – como escutas publicadas indiciam que teve – na escolha do jornalista Afonso Camões para a direcção do JN? Por que razões não considera existir uma incompatibilidade ética entre ser chairman de um grupo de comunicação e, através desse grupo, defender pessoas que lhe estão profissionalmente associadas – como defendeu Sócrates na TSF, no seguimento da sua detenção e do motorista João Perna, que o seu escritório representou? E por que razão não vê implicações na coincidência de ser o mais reputado crítico do juiz Carlos Alexandre, quando este é responsável pela investigação ao ex-primeiro-ministro e ao banqueiro Ricardo Salgado, seu cliente?

16 Março

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More schools, more challenging assignments add up to higher IQ scores
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IQ of children in better-educated households is higher
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Exercise linked to improved erectile, sexual function in men
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Sleep loss tied to emotional reactions
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Zinc deficiency linked to immune system response, particularly in older adults
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The challenges for anthropologists when they’re the expert in the courtroom
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Study provides academic support for new Steve Jobs portrayal

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Parabéns

Nesta edição do Eixo do Mal conseguiu-se um raro momento de televisão. Aliás, único, irrepetível. Aconteceu no genérico final, no seguimento da bela homenagem a Herberto Helder servida pelo dizer de Fernando Alves, e também das admiráveis palavras do Daniel pedindo respeito pela memória do seu pai.

Na usual sequência de planos com que se encerram os programas, captando a descontracção da equipa em off, vimos desta vez o estado de silenciosa e profunda comoção de quase todos. Menos do Daniel. O realizador decidiu não nos deixar espreitar para o seu rosto, fosse lá o que fosse que estivesse a manifestar, se é que estava visível.

Então, aconteceu isto: em vez da obscenidade imbecil da pergunta “O que sente/sentiu?” com que invariavelmente os jornalistas violentam os entrevistados, especialmente em contextos de sofrimento, e que na ocasião estaria a ser feita pelo voyeurismo sobre o luto de um filho, aqui a televisão mostrou que sabe ser humana, que sabe amar.

Muito obrigado.