Do queijo ao chouriço

O episódio do elogio de Passos Coelho a Dias Loureiro não tem especial interesse desse ponto de vista onde o Pedro se deleita a gozar com a República. Essa será até uma faceta simpática do actual primeiro-ministro, exibindo-se como um certo impulso dadaísta que lhe molda o discurso trôpego, a gramática kitsch, o pseudo-liberalismo saloio e o atrevimento em registo Feira da Malveira. Não.

Ademais, Dias Loureiro, o porco-riquenho, nunca foi acusado de nada de nadinha de nada. Sim, mentiu ao Parlamento, mas, quer-se dizer, terá isso alguma importância? Ainda por cima sendo um ícone pop do laranjal e uma das traves mestras do cavaquismo? Pois.

O que realmente interessa no sapateado de Passos é o regresso dessa consciência de não haver fugas ao segredo de justiça na miríade de processos judiciais originados pela roubalheira do BPN – e já lá vão 7 anos. Dado o número exorbitante de agentes policiais e de Justiça envolvidos, tal quantidade desmente forçosamente a tese da disfunção sistémica na origem de algumas fugas. Como se constata, é possível manter processos altamente complexos, demorados e melindrosos sem o espectáculo dos assassinatos de carácter e da judicialização da política. Mas, porquê? Será por não haver mercado, dado não existirem órgãos de comunicação social especializados em chicana, calúnias e ódio na área do PS? Será apenas uma questão de falta de comprador, uma questão de dinheiro? Ou haverá nesta dinâmica das fugas selectivas, sempre com o mesmo alvo, um elemento estratégico e/ou passional?

Já li, numa direitola intensamente fanática, a ideia de que a nacionalização do BPN tinha sido decidida pelo Governo de Sócrates exclusivamente para assim os monstros poderem deitar a mão aos papeluchos que comprovavam a ligação umbilical de Cavaco ao banco do seu genial secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Aparentemente, porém, os xuxas não devem saber o que fazer com essa documentação, talvez por serem muito burros ou por não terem frequentado as mesmas escolas da rapaziada do PSD e do CDS. Seria maravilhoso ver o Pedro, com a sua fluência deslumbrada quando o tema é a probidade dos ricos, a explicar estas matérias ao nosso povo tão carente de ensino e comando. Talvez numa próxima ocasião, calhando visitar uma fábrica de chouriços.

11 thoughts on “Do queijo ao chouriço”

  1. ai que risota! e que riqueza de imagem. sabes, no ciclo produtivo do chouriço em ambiente industrial – espaço nauseabundo por natureza aos que não estão habituados à matança – são as partes piores dos porcos, aquelas que serviriam para nada, que são processadas para serem reinventadas. e assim nasce um elogio no mundo dos porcos: o chouriço. :-)

  2. Caro Val,
    ao princípio julguei que te tinhas enganado no título, e que este seria ‘o queijo do chouriço’, mas não. Mas porque te espantas que o Loureiro possa ter mentido no parlamento! Ali mente-se diariamente em doses industriais. Desde os residentes às visitas é um fartar. Mais intrigante é a ausência de fugas ao segredo de justiça, naquele processo. Uma que ía resultando era a fuga dos Mirós, mas parece que encravou. Será que os claviculários do dito processo são gente honesta e cumpridora das leis ou será que é por serem de uma agremiação de protecção aos amigos & correlativos do Oliveira e Costa

  3. Está tudo em modo de espera para ver se o Oliveira e Costa bate as botas. Logo a seguir haverá uma ataque ( epidémico e muito contagioso) de amnésia.

  4. o ciclo da coisa está ao contrário, deveria ser do chouriço ao queijo, começou por encher e agora tá na fase do esquecimento.

  5. A sabedoria linqueira travestida de mais um nick…como a caixa de costura, há sempre mais um…nome.

  6. O PSD primeiro, os eleitores depois, escolheram para PM um homem que se ri da “merda da democracia” e faz gala disso. Foram quatro anos a gozar com o zé povinho, assumindo como tarefa principal e única a ida ao pote dos seus compinchas de partido e respectivos amigos. Quem vier a seguir encontrará a admnistração do Estado entregue ao bando do pote. Junte-se a este facto o ódio dos magistrados a tudo o que cheire a militante ou simpatizante socialista.

  7. Lembrei-me de comparar o Dias Loureiro com o “44”. Sendo este ultimo muito mais refinado … :)

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