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Ventura, tens razão

«Se é fascismo querer que os corruptos não voltem ao poder, então somos fascistas.»

Fulano que Rui Rio, Manuela Ferreira Leite, Cavaco Silva e Passos Coelho aceitam como aliado do PSD

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Ventura já desfilou de braço no ar, já prometeu prender quem defenda o 25 de Abril e acaba de fazer da luta contra a corrupção uma bandeira do fascismo. «Though this be madness, yet there is method in’t» pois ele apenas leva às últimas consequências o que a direita partidária e presidencial começou a fazer desde 2004, e de forma estratégica e sistemática desde 2009: judicializar a política e politizar a Justiça – usar todos os instrumentos subterrâneos e criminosos para tentar causar danos no PS e obter ganhos eleitorais. A lógica desse caminho, ao violentar o Estado de direito democrático, é evidentemente a de explorar uma nostalgia e um aparato ditatoriais atraentes para uma juliana de indivíduos politicamente alienados.

Nunca saberemos como é que a esquerda iria reagir numa posição simétrica, estando na oposição com impérios de comunicação ao seu dispor, com uma ubíqua indústria da calúnia como arma de arremesso, e com um alvo icónico da direita na linha de fogo por ter cometido inegáveis erros morais e cívicos na sua esfera pessoal (no mínimo dos mínimos). Provavelmente, o discurso contra a corrupção continuaria presente no espaço público, teria era outro sentido e outros protagonistas, pois a política é animalesca nessa fúria de querer destruir os adversários recorrendo às figuras da culpa e da condenação. Porém, olhando para a forma como o PCP e o BE nunca quiseram ao longo da sua história fazer da corrupção um terreno de combate, é também provável que o PS jamais caísse na decadência de trocar o respeito pela Constituição – portanto, pelos valores liberais e da social-democracia tomada em espectro largo – pelo emporcalhamento e atrofio das responsabilidades institucionais e de representação soberana. A Ciência Política tem vasta literatura sobre as diferenças antropológicas e cognitivas na origem dessa diferença de atitude na concepção da moral entre a esquerda e a direita.

Quem usa a corrupção na procura de ganhos políticos nunca a trata com factos, dados, fontes de informação, estudos, objectividade. Pelo contrário, vão buscar as técnicas do sensacionalismo, do boato, da caricatura, da distorção, do apelo ao medo, da exploração da crendice ignara. Modo Octávio Machado, todos sabem do que eles estão a falar, e eles falam de Sócrates, falam do PS, falam do Diabo. Quem ouve, quem lê, também não pretende qualquer objectividade; pretende é foguetório calunioso, circo, autos-de-fé, linchamentos. Se o preço a pagar por esse espectáculo for o aplauso a quem se assuma como inimigo da democracia, dos direitos humanos e da liberdade – ou simplesmente a quem faça campanhas pela prisão de políticos por razões políticas ou com provas indirectas e penas exemplares – há um vasto público disponível para essa compra de impulso. As falhas cognitivas que alimentam as alucinações conspirativas e o ódio irracional são a ideologia neuronal desta turbamulta.

Ventura tem um modo de “fazer política” que foi aprendido no PSD de Passos Coelho, esse mítico líder que conseguiu afundar Portugal para ir com o seu sócio Relvas fazer negócios da China durante uma legislatura. Ventura tem também um acordo com a elite cavaquista e passista que lhe dará o que procura se a direita obtiver maioria no Parlamento. Todos os votos que recolher, nas presidenciais e nas legislativas, serão votos neste projecto. Um projecto que consiste em destruir a Constituição de Abril e em boicotar a racionalidade civilizacional.

Sim, pá, isso é uma boa beca parecido com o fascismo.
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O jornalista

O jornalista tinha despachado um tríptico sobre o tribalismo. Magnífico. Três sovas três na malvada esquerda. Culpada de tudo e, em especial, do triunfo de Trump e da erupção do Ventura. A esquerda, com o seu fanatismo religioso, reinventou a inquisição para castigar os deploráveis, noticiou o jornalista.

Depois desse homérico esforço, o jornalista sentiu falta de prestar um serviço à sua tribo. Pelo que foi a correr alistar-se na milícia que persegue a ministra da Justiça. Contradição? Nenhuma. Para ensinar o povo acerca dos malefícios do tribalismo dos outros é necessário ser-se especialista no tribalismo dos seus. E o jornalista teve engenho e arte para escolher o bom tribalismo, aquele que odeia o mau tribalismo. Numa feliz coincidência, o bom tribalismo tem bom dinheiro para gastar com caluniadores profissionais. Pelo que no dia 5 de Janeiro lá deu notícias frescas sobre o plano de Costa para meter a sua bandidagem a controlar a Justiça.

O dia 6 de Janeiro costuma seguir-se ao dia 5 do mesmo mês, e neste ano não foi diferente. Pois o jornalista passou grande parte desse tal dia 6 a olhar para o televisor. Havia cegada no Capitólio, vidros partidos e chatices. A consequência de a esquerda dizer coisas feias dirigidas aos deploráveis tinha provocado aquele sarilho, concluía o jornalista agastado. Que mais é que eles podiam fazer, coitados? Quem é que, sentindo-se perseguido pela esquerda e suas “palavras-cianeto”, não sente um irreprimível desejo de fazer 300 km para ir defecar num corredor da sede do poder democrático dos Estados Unidos da América? É que, enfim. Nisto, o jornalista olhou para o relógio e assustou-se. Já eram onze da noite e ainda não tinha enviado o texto para o jornal. Saltou para o computador e teclou furioso sobre o assunto mais importante do dia que estava prestes a acabar, um artigo de António Cluny.

Os dias continuaram a passar, numa monotonia implacável. Aquilo na América, causado “pelos autoproclamados progressistas” e a sua “obsessão pela pureza da alma”, continuou a entreter o Mundo e a dar conteúdo a historiadores. Nada que impressionasse o jornalista. Ele não tinha escolhido a heróica vocação jornalística para se deixar levar pelos diabólicos truques da esquerda, useira e vezeira na “sacralização de certos valores “. O jornalista faz como os deploráveis vítimas dos “justos” e da Hillary Clinton, igualmente caga nesses valores. Daí ter continuado impávido e valente a dar notícias preciosas a respeito dos temas da actualidade em que nos devemos concentrar. No dia 9 de Janeiro, cuidado com o Sócrates. No dia 12 de Janeiro, a culpa não é do Ventura. No dia 14 de Janeiro, não sei quê das vacinas.

Não é para qualquer um ser como o jornalista. É preciso estar disposto a radicais sacrifícios. E, como se vê, o jornalista não teme passar por marciano distraído. Alguém tem de denunciar os planos da esquerda que nos quer tiranizar, roubar as pratas e engravidar as filhas. Ainda não chegámos à América, informa o jornalista.

Marcelo infecto

«Confrontado com uma foto consigo no Bairro da Jamaica e várias pessoas negras, incluindo uma criança, sendo acusado de ter ali ido confraternizar com a "bandidagem", e ao não reagir à calúnia racista, assim como ao dizer que a sua direita não é a mesma do contendor sem no entanto definir essa direita como deve ser definida, Marcelo falhou na defesa dos valores essenciais da democracia e do Estado de direito. Falhou no que não podia falhar - e menos ainda quando do outro lado do Atlântico, naquele mesmo dia e àquela mesma hora, se tentava, em nome de um dos modelos daquele homem ali à sua frente, derrubar uma das democracias mais antigas do mundo.»


Quando lutas com um porco

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Qualquer um pode fazer a experiência, calhando estar esquecido do que viu ou não o tendo visto. A experiência de rever o debate entre Marcelo e Ventura para constatar como o segundo esteve sempre ao ataque e o primeiro nunca conseguiu sequer perturbar a empáfia da escolha de Deus para fundador da Quarta República Portuguesa. Na verdade, o contrário aconteceu, tendo Ventura tido sucesso no arrastar de Marcelo para o bate-boca feirante em que o ilustre Professor se deixou nivelar por baixo e acabou a perder o controlo da pose e das suas responsabilidades institucionais. Num dos casos, chegando ao ponto de violar o sigilo das audiências em Belém. Num outro caso, de uma gravidade distinta mas tão ou mais grave, ao ter concedido ao presidente do partido Chega o estatuto de líder da oposição. Fê-lo quando concordou com Ventura que a ministra da Justiça devia pedir a exoneração ou ser demitida. Repare-se na cena: o solitário deputado de um partido que congrega salazaristas, nazis, racistas, xenófobos e “portugueses de bem” consegue levar o Presidente da República, em cima do início da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, a fazer uma declaração pública de apoio à campanha do PSD para explorar o caso do Procurador Europeu até ao limite possível da chicana. Não foi Rio que obteve esse trunfo, foi Ventura.

No dia seguinte, António Costa acusou três passarões do PSD de estarem em campanha para conseguir chutar a inútil polémica para um palco europeu – portanto, acusou esse trio de pretender denegrir a imagem de Portugal, posto ser esse o único objectivo tangível das suas declarações e acções. Podemos ver nas palavras de Costa um erro político, ou um excesso retórico que devia ter evitado. Porém, prefiro vê-las como a resposta do primeiro-ministro à posição assumida na noite anterior pelo Presidente da República, o qual tinha optado por voltar a quebrar a lealdade institucional e emporcalhar a responsabilidade constitucional apoiando ataques políticos contra o Governo e interferindo com a autoridade do primeiro-ministro. Tudo isto numa questão simultaneamente escabrosa e pífia que apenas serviu para Rui Rio acabar com os seus “tweets” sobre sondagens e o aeroporto Humberto “Força nisso!” Delgado. Costa defendeu o prestígio de Portugal, sabendo que iria agitar o vespeiro, enquanto o inteligentíssimo e experienciadíssimo Marcelo se deixava manipular por um perigoso tachista que alimenta ódios e arregimenta ignorâncias e desesperos.

Saltemos para a visão pan-óptica, sem a qual a política é uma narrativa incoerente contada por um louco. A posição de força de Costa, e as reacções que tal provocou na direita, começam a compreender-se com o que Ângela Silva, uma jornalista do Expresso que não ambiciona ser mais do que um pé de microfone de Belém, escreveu um dia antes quando mergulhou de cabeça na infâmia de Marcelo com este estouvado título: O baile de Marcelo a Ventura: “Você nunca me disse em Belém que eu era manipulado pelo Governo”. Trago este exemplo para dar conta do maremoto de dissonâncias cognitivas que o império do militante nº 1 do PSD serviu ao público para salvar a imagem de Marcelo e fazer-lhe a papinha e a propaganda. As avaliações ao debate – O melhor Marcelo deixou Ventura KO. Eis as notas dos comentadores do Expresso e SIC – inevitavelmente provocam espasmos de riso logo no relance sobre a tabela da pontuação e ainda antes de lermos a primeira justificação. Tendo em conta que no júri se encontra o admirável Pedro Adão e Silva, vou admitir que não foi só o sectarismo, a hipocrisia e o cinismo a explicarem as avaliações, o asco também foi um factor a influenciar a cognição. O que pretendo realçar, contudo, é que o registo ditirâmbico é a prova mesma do fracasso de Marcelo frente a Ventura.

Espanto? Nenhum. Marcelo foi para o debate com Ventura na intenção de ficar no fundo do corte, devolvendo as bolas sem se mexer muito, sem se aproximar da rede, esperando que fosse o adversário a falhar as jogadas – precisamente ao contrário do que fez no debate com Ana Gomes, para o qual levou munição poderosa e com a qual foi implacável depois da cartada Salgado ter sido usada, não fazendo prisioneiros. Marcelo não queria desvitalizar Ventura e denunciá-lo como o oportunista abjecto que é porque Marcelo quer o mesmo que Rio, Passos e Cavaco: que o próximo Governo seja de direita. Para tal ser possível, o Chega vai ter necessariamente de entrar na equação, restando só saber com que peso. Ventura aparece nas presidenciais para isso mesmo, fazer crescer a sua fatia de mercado e depois negociar nas melhores condições possíveis os tachos à disposição. A actual direita decadente não tem medo nenhum do Ventura porque um aldrabão é um aldrabão, e nada mais, têm disso aos montes à sua volta (como lembrou Salgado, por exemplo). Ou seja, dali não vem qualquer surpresa, pelo que o deixam andar a criar o seu exército de lumpendireitolas na certeza de que o conseguem controlar, e mesmo destruir se ameaçar algum dos seus interesses. A isto esta direita chama “fazer política” e isso não passa da aplicação da ancestral cultura do poder pelo poder que se bebe desde o berço na oligarquia.

A Marcelo bastou dizer que a sua direita é diferente da do coiso para que a claque declarasse KO. Acontece que quem ficou KO foi a cultura democrática e o património republicano ao vermos o Presidente da República a recorrer à sua batina de católico para conseguir verbalizar uma oposição argumentativa contra a prisão perpétua. O mesmo nível indigente no plano intelectual e moral para responder à agenda subversiva e incendiária de quem se declara inimigo do regime nascido do 25 de Abril. Nem sequer, como regista acima a Fernanda Câncio, o momento histórico da invasão do Capitólio inspirou Marcelo para o serviço público de mostrar que Ventura, assumido epígono de Trump, ofende a causa do Estado de direito democrático e o ideal da liberdade.

Os tempos de antena do candidato Marcelo Rebelo de Sousa estão vazios. Ele alega que é para ser justo com os outros candidatos, por causa da sua intensa exposição mediática de 5 anos como Presidente da República e demais actos públicos até às eleições. Não temos de perder uma caloria a tentar encontrar qual seja o mérito ou a bondade do raciocínio porque não existe. Em vez de aproveitar essas ocasiões de comunicação para nos ajudar a lidar com os medos, os apelos ao ódio, as distorções e deturpações sociais, a iliteracia política, a confusão e a depressão que crescem imparavelmente, Marcelo caça no mesmo território do desprezo pelos políticos e pela política. Temos até de reconhecer, vencidos e banzos, que os seus tempos de antena são espectacularmente virais. É que uma pandemia nunca vem só, e Marcelo e Ventura partilham o mesmo vírus populista.

Bute criar um programa de televisão

Acabados os debates para as presidenciais (os do Porto Canal com o Tino são excedentários mesmo que tenham algum eventual mérito) está na altura de preparar o futuro da televisão em Portugal. E esse futuro ficaria enriquecido com um programa de debate político que continuasse uma das mais gratas descobertas da série que ontem terminou com um sacrifício colectivo: a química entre Marisa Matias e Tiago Mayan. A meia hora que eles tiveram deixou água na boca, se tivesse durado uma hora continuaria a parecer 15 minutos, sendo uma fortíssima candidatura à medalha de ouro do certame.

Como actual autor e também virtual produtor executivo desse programa, deixo o racional, conceito e nome do que me parece um inevitável sucesso.

RACIONAL

– Marisa e Tiago representam visões luminosamente diferentes, em muitos aspectos antagónicas, para as políticas públicas, para o desenvolvimento económico e para o modelo social. Estamos perante uma (ou até mais do que uma) polaridade.
– Tiago e Marisa são pedagógicos na exposição, falando com calma sem perderem a convicção e o entusiasmo. Mostram respeitar o interlocutor, sabendo ouvir sem terem (ou tendo muito menos do que o comum em debates políticos) o descontrolo emocional de querer reagir com interrupções avulsas a argumentação do adversário.
– Marisa tem uma experiência e uma personalidade política que estão abafadas pela actual liderança do seu partido, prometendo outros voos agora que acabou o seu ciclo como “simpática” para gasto em campanhas presidenciais. O Tiago começou o ciclo televisivo como anedota, erro de elenco, e transformou-se numa revelação aplaudida à direita e à esquerda. Embora a sua curva de crescimento tenha sido covídica, está ainda muito verde na preparação teórica, no traquejo político e na postura mediática. Porém, também ele promete outros voos, e este programa com a Marisa seria um palco propício para o seu crescimento ou para se descobrir que não passa de um bluff.

CONCEITO

– Ambos iriam discutir entre si assuntos da actualidade, uns, e da ideologia, outros; agora com mais tempo, mais preparação e acesso a fontes de informação que permitam rigorosa análise e frutuoso debate. Por exemplo, aquando da discussão sobre a TAP divergiram sobre a posição da empresa na lista dos exportadores nacionais. É um tópico interessante para quem se interessa, vai sem discussão, sendo igualmente interessante a existência dessa diferença de perspectiva. Ficou a faltar, então, o confronto com os dados e as interpretações mútuas respectivas (as quais não têm necessariamente de gerar um consenso ou uma capitulação, a ideia não é a de que tenha de ser um jogo de soma positiva ou nula).
– O programa teria, sem calendário nem aviso, um terceiro participante. A sua escolha resultaria das candidaturas espontâneas de políticos profissionais ou amadores, acabados de entrar na universidade ou na reforma, com bom ou mau feitio. Enfim, qualquer um poderia participar desde que enviasse uma candidatura onde expunha a sua motivação e as razões principais de discórdia com a parelha residente no programa neste ou naquele assunto. A dupla escolheria arbitrariamente, agora por consenso, com quem iriam debater.

NOME

“Bloco Liberal”

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Sócrates, primeiros dias de Janeiro de 2021

«Por lapso, apetece-me dizer que as sucessões de pormenores fazem um caso muito grave. Gravíssimo e vergonhoso. Por lapso, ainda, lembro-me que o procurador José Guerra trabalhou com o adjunto do gabinete da ministra, o procurador Lopes da Mota, que chegou a estar suspenso pelo CSMP, depois de ter pressionado outros procuradores a largarem o caso Sócrates. Por lapso, chego a pensar que isto anda tudo ligado.»

Henrique Monteiro, 6 Janeiro

Foi preciso chamar o fantasma de Sócrates para acordar Ana Gomes e Tiago Mayan – Visão, 7 Janeiro

Ana Gomes vs. Tiago Mayan. Duelo entre socialismo e liberalismo traz Sócrates, Orbán e subprime a debate – O Jornal Económico, 7 Janeiro

Do “gatarrão” à maoísta. “Aquele senhor” e “esta senhora” foram buscar Sócrates na luta pelo segundo lugar – Observador, 8 Janeiro

Tiago Mayan acusa Ana Gomes de apoiar Sócrates, mas a socialista diz que não sabia da missa a metade – SIC Notícias, 8 Janeiro

Convém que Costa não comece a falar como Sócrates – João Miguel Tavares, 9 Janeiro

PPP. Todas as suspeitas que o Ministério Público imputa a cinco ex-membros do Governo Sócrates – Observador, 10 Janeiro

Estado quer perdoar escritor-fantasma de Sócrates – CM, 10 Janeiro

Sócrates entre os casos mais mediáticos – Sol, 10 Janeiro

Desiludida, candidata presidencial Ana Gomes demarca-se de José Sócrates – Flash, 11 Janeiro

Como José Tavares aconselhou o Governo Sócrates – Observador, 11 Janeiro

André Ventura: um filho de José Sócrates – Henrique Raposo, 11 Janeiro

Começa a semana com isto

William H. McRaven ganhou fama na Internet com este discurso na Universidade do Texas, em 2014, a partir do qual viria a escrever um livro. Antes, a sua notoriedade pública estava relacionada com a captura de Bin Laden, dado ter sido ele o comandante que organizou e dirigiu a operação “Neptune Spear” levada a cabo no dia 1 de Maio de 2011.

Para além de ser um herói de guerra, no sentido em que deu o corpo ao manifesto como SEAL centenas ou milhares de vezes, e de ser considerado um dos maiores especialistas mundiais em Forças Especiais, McRaven é desde 2017 – leia-se, 2017 – um dos mais ferozes opositores a Trump, vindo desde aí a antecipar o que veio mesmo a acontecer. Uma das razões que o levou para esse conflito aberto foi, nada mais nada menos, o ataque de Trump ao jornalismo. Sim, ao jornalismo. Jornalismo.

Para se ficar com um sentimento do respeito, e agradecimento a tanger a reverência, que esta figura inspira, nada melhor do que ver o final da entrevista que o admirável David Axelrod aqui lhe faz: Conversation with Retired Special Ops Commander Admiral McRaven – 13 Novembro 2020

E ainda mais McRaven, porque é tudo bom e útil vindo de um genuíno conservador, patriota e guerreiro norte-americano:

What threatens democracy? Navy SEAL warns of Trump’s attacks on US institutions

Revolution through evolution

Frequent travel could make you 7% happier
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Looking forwards rather than backwards safeguards wellbeing during Covid-19 lockdowns
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Benefits of Different Types of Exercise for Longevity in the U.S.
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Danish and Chinese tongues taste broccoli and chocolate differently
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Seeing Multiple Forecasts in Verbal Rather than Numerical Form Causes People to Make More Confident Predictions of Outcome
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Why buying some conceptual art is like “owning nothingness”
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An Avalanche of Violence: New Analysis Reveals Predictable Patterns in Armed Conflicts
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Continuar a lerRevolution through evolution

Vergonha

Boa gente antecipou que estas eleições presidenciais seriam as mais emporcalhadas de sempre. Por causa do Ventura, o qual iria lançar sórdidos e desvairados ataques contra os restantes candidatos. Por exemplo, dava-se como inevitável que Marcelo seria alvo de insinuações descaradas a respeito dos seus laços pessoais com Salgado, assim aparecendo o caso BES como arma de arremesso sensacionalista e caluniosa contra si. Só que não, desse tema não há nem haverá o menor vestígio na comunicação de Ventura por ser tabu até para ele – se o violar, terá em Marcelo um inimigo mortal e todo o seu projecto de parasitar o PSD e a República vai para o galheiro. Em vez disso, no debate entre eles, trouxe uma fotografia tirada no bairro da Jamaica que é irrelevante do ponto de vista político e inócua eleitoralmente para Marcelo, apenas serviu para Ventura realçar aspectos já batidos da sua marca. O momento em que Marcelo perdeu o decoro e as responsabilidades de estadista, revelando o que não tinha o direito nem a moral para revelar, nasceu de uma crítica banal na direita ressabiada e rancorosa à sua postura de respeito institucional pelo Governo e de apoio à estabilidade política consoante as conjunturas. A ironia (e a gravidade do erro) não podia ser maior.

Desde Setembro, há quatro meses, que Ana Gomes sabia ir ser confrontada, num debate presidencial, com referências a Pedroso, à Casa Pia e à pedofilia. Se não podia adivinhar de que forma exactamente, já não podia duvidar que tal iria acontecer inevitavelmente. Pelo que se esperava que viesse preparada para a ocasião. Mentes mais criativas até poderiam ter planeado uma estratégia de debate centrada nessa evidência – por ser uma situação perfeita para apanhar Ventura desprevenido e levá-lo para a luz que o transforma em pó: a do humanismo, dos direitos humanos, do Estado de direito democrático. Em vez disso, quando o fatal futuro se transformou em violento presente, vimos outra coisa. Uma coisa inesperada, para mim, e inexplicável, para Ana Gomes. Vimos uma resposta de fuga e descontrolo emocional. Aparentemente, Ana Gomes acha que há alguma relação entre ser mãe e avó de sete netos com a defesa da honra de Paulo Pedroso e dos seus direitos cívicos e políticos ameaçados pela boca de um candidato presidencial, que é também deputado e líder partidário. Porque é disso que se trata, de uma ameaça feita à sua frente, e para também a atingir, ao bom nome e liberdade de Paulo Pedroso.

Ventura considerou que a matéria relativa ao caso Casa Pia era tão valiosa que tinha planeado encerrar o debate com ela para assim ter mais impacto. Antecipou o uso da cartada porque, no que é um padrão pulsional, recorre às provocações mais fortes quando se sente atingido. É a lógica da porrada, da cultura de violência onde é idolatrado pelos deploráveis à portuguesa. Mas não desistiu do plano inicial, acabando por duplicar a afronta. Em nenhuma das duas ocasiões houve resposta sequer mínima no plano da responsabilidade ética e política por parte de uma candidata presidencial que, também em Setembro, anunciava que pretendia “limpar o País” e acabou mediaticamente soterrada pelo lixo despejado por um crápula ignóbil.

A justificação para esta implosão de carácter pode ser encontrada revisitando uma outra parte do debate, aquela em que os dois candidatos jogaram ao “o teu Sócrates é pior do que o meu”. Assistir a Ventura ir buscar Sócrates causa menos estranheza do que registar o dia a suceder à noite. Sócrates continua a ser apaixonante para a direita decadente e para a indústria da calúnia, seria até estúpido que Ventura não utilizasse o Diabo em que continuamos a tropeçar constantemente no discurso político do PSD, no editorialismo e no comentariado. Esta direita do poder pelo poder e do fanatismo não tem mais nada que alimente a sua auto-estima, precisa de Sócrates para se levantar da cama e calçar as chinelas. O que fica como antropologicamente notável é a cena de vermos Ana Gomes a usar Sócrates para atacar André Ventura. E nesse momento desolador, vexante, está a chave para se compreender o resto: quem não está apaixonado pelo Estado de direito democrático não consegue lidar com um pulha.

Levarmos com Ana Gomes a sorrir, a rir, a mandar boquinhas sobre “piadas novas”, teatro e o Big Brother perante a exibição de um patife foi intensamente penoso. E depois vê-la a fazer uma pergunta infame e cosmicamente imbecil, aproveitando para si a falha institucional de Marcelo, levou-me a ponderar se aquele debate não teria como única finalidade obrigar-me a prestar contas cármicas por acções minhas e de antepassados meus até aos tempos da Reconquista cristã. Ter usado o seu momento final para misturar coelhos, gatarrões (!?) e a Le Pen obriga-me a recorrer a uma imagem futebolística para conseguir relatar a minha perplexidade. Aquilo foi equivalente a contemplar um guarda-redes, com a bola na mão, a chamar os avançados da equipa adversária até à sua pequena-área, depois colocar a bola aos seus pés, afastar-se três metros para o lado e começar a gritar “Marca! Marca! Marca!” E o coiso marcou.

Ventura saiu dos debates com os três candidatos da esquerda sem ter ouvido uma única vez a expressão “25 de Abril”. Vou repetir de outra maneira: depois de Ventura ter subido a um palanque na Praça do Município para prometer acabar com o regime democrático e ter ameaçado prender quem o defenda, nenhum dos candidatos presidenciais da esquerda achou curial perguntar a Ventura se era só bazófia para animar a sua malta ou se é fruta para o Ministério Público. Donde, temos de reconhecer que, nos debates com Ventura, quem melhor defendeu o 25 de Abril foi o improvável e desconcertante Tiago Mayan. O único a tratar Ventura como um tachista com quem não há alianças, não há cedências, não há complacência para quem ameaça os direitos humanos e a liberdade.

Enche-te de vergonha, esquerda portuguesa.

E sobre a vacina contra a calúnia e a irresponsabilidade?

Sr. Araújo – minuto 3

«É um prazer recebê-la [a Maria José Morgado] e queria aproveitar a oportunidade para me solidarizar com o seu drama pessoal. Ou seja, uma pessoa que resolveu dedicar grande parte da sua vida ao combate à corrupção logo por azar num país em que não há corrupção. É como querer ser marinheiro na Suíça.»

😂

Sr. Araújo – minuto 27

«Eu queria-lhe perguntar, a propósito daquilo que eu disse logo no início, é se a sotôra [Maria José Morgado] acha que há um determinado quadra... ou alguns quadrantes ideológicos que acham, bizarramente para mim, que falar da corrupção é nocivo. E que por isso deixam o tema da corrupção para outros quadrantes ideológicos que se servem dela com fins populistas...»

🤣

Ricardo Araújo Pereira sabe muito sobre a corrupção em Portugal. Não precisamos de saber como é que ficou a saber tanto sobre a matéria, basta que se mostre confiante a respeito. Daí, por saber tanto, não quis perder a oportunidade para dizer na TV umas verdades acerca disso, aproveitando a presença de uma outra concidadã que rivaliza com ele em conhecimento sobre a corrupção em Portugal.

E que ficámos nós a saber graças à sua sabedoria? Que o RAP identificou “quadrantes ideológicos” que “deixam” o tema da “corrupção” para “outros quadrantes ideológicos”. Infelizmente, não teve tempo para dar nome aos bois, o que se entende por estarmos em televisão e cada segundo ser muito caro. O RAP evita dar despesa à SIC, por ser um excelente rapaz, o que o leva a mostrar-se poupadinho nas explicações e a optar pelas meias palavras e pelo registo aforístico, gnómico (que tanto sucesso teve em Delfos há uns tempos, por exemplo). Tal obriga-nos a um esforço hermenêutico sob pena de acabarmos carimbados pelo grande RAP como bizarros.

Vou propor uma linha interpretativa. Peço a vossa paciência para a desconstrução e sua reconstrução.

DESCODIFICAÇÃO
quadrantes ideológicos” = PS corrupto
acham que falar da corrupção é nocivo” = PS corrupto
deixam o tema da corrupção” = PS corrupto
outros quadrantes ideológicos” = Ventura

MENSAGEM
Os corruptos do PS calam-se a respeito da corrupção porque o PS é corrupto. Por causa disso é que o pobre do Ventura anda para aí sozinho a ter de falar no assunto.

Creio que o código utilizado não ambiciona maior sofisticação. Os risos gerados nos restantes artistas presentes em estúdio selam a exegese com o lacre da merecida alarvidade. Altura de saltar para Maria José Morgado (honit soit e tal), a qual tinha proposto, precisamente, a criação da “vacina contra a corrupção”. A ideia tem mérito, especialmente quando se constata que é facílimo identificar corruptos – os quais, afinal, se contaminam uns aos outros através do mais ancestral veículo da peste, o Rato. Acontece que a senhora igualmente partilhou connosco que não pretende vacinar-se contra o coronavírus, dispensando a vacina que lhe calhar. E elaborou sobre o assunto para a posteridade:

Estou habituada aos riscos e aos perigos, e sei viver com eles. Toda a minha vida foi um risco. Aliás, a nossa vida é um risco, e somos todos cadáveres adiados, já dizia o outro.

Temendo que as revelações não fossem ainda suficientes para dar o melhor exemplo de responsabilidade comunitária à audiência do programa, ela que nada teme, sentiu então o imperativo moral de deixar um contributo epistemológico:

Eu não subestimo a ciência mas a ciência é muito mais complicada do que uma simples vacina, essa é que é a questão!

Assim, o círculo fecha-se. Não há só uma questão, há duas. E ter um televisor em casa, devidamente ligado à corrente, permite aceder ao que as pessoas mais inteligentes, mais sérias e mais engraçadas pensam sobre essas duas questões. Quem é que iria imaginar, sejamos honestos por favor, que se passava tamanha bandalheira com os quadrantes ideológicos nacionais calhando ter perdido esta emissão do programa? E há quanto tempo andamos todos dominados pela cruel ilusão de se achar que a ciência não é assim tão mais complicada do que uma simples vacina, ou mesmo du… três, prontos, três vacinas… das simples?! Pois.

Marcelo branqueia Ventura

Falar de Ventura sem falar de Passos é branqueamento. Não foi Ventura que obrigou Passos a aceitá-lo como candidato autárquico do PSD em 2017. Não foi Ventura que impôs a Passos o palco de Loures para se ensaiar, pela primeira vez em democracia, um discurso racista, xenófobo e securitário com a chancela de um partido que votou a Constituição e suas sucessivas revisões. Foi Passos quem decidiu, por estar na oposição e não aceitar esse resultado, que era oportuno deslocar o PSD para o discurso do ódio instrumental aos bodes expiatórios que servem de alvo para os ignorantes, os impotentes, os desesperados. Se resultasse em Loures, o seu PSD ganharia um braço armado que poderia ser usado noutros pontos do mapa onde os mesmos ingredientes populistas prometessem ganhos eleitorais.

Falar de Ventura sem falar de João Miguel Tavares é branqueamento. O discurso anti-sistema tem como racional a teoria da conspiração que faz da corrupção o mal supremo da Grei. O caluniador profissional que se iniciou na imprensa a escrever textos sobre filmes, e que assina as suas opiniões como “jornalista”, teve a sorte grande de ser processado por Sócrates como reacção a um exercício calunioso. A partir daí, especializou-se nesse filão por haver muito dinheiro a ganhar com o ódio tribal ao PS e com os assassinatos de carácter respectivos. A necessidade de manter o negócio e a obsessão alimentada nesse ecossistema financeiro e fanático levou-o progressivamente a expandir a teoria, tendo acabado por declarar repetidamente que a corrupção tinha como origem a Assembleia da República, onde se criam as leis que protegem os políticos corruptos, e como executantes dos crimes os governantes que sacam milhões, e ainda como cúmplices os Presidentes da República sucessivos que se limitam a assistir calados (por também estarem a meter no bolso algum, é a fatal inerência). Só se salvam alguns procuradores e alguns, raríssimos, juízes – aos quais aplaude que cometam crimes por ser necessário combater a corrupção dos políticos protegidos pelos deputados que fazem leis corruptas, restando só aos magistrados terem de violar as leis para denunciarem os bandidos. O módico bom senso – que digo, bastariam vestígios de senso comum – faria prever que esta personagem teria uma passagem meteórica pela comunicação social profissional. O contrário aconteceu pois a indústria da calúnia tem público e dinheiro para gastar com as suas vedetas – todas de direita ou ao seu serviço, fica a curiosidade. E depois veio o impensável, Marcelo usou a Presidência da República para dar honras de Estado exclusivíssimas a quem tinha no seu currículo apenas e só a perseguição a Sócrates e as calúnias que atingem toda a classe política. Este caldo dissoluto e alucinado, que se encontra em diferentes tipos e graus da Cofina à Clara Ferreira Alves, do Observador ao Manuel Carvalho, do José Rodrigues dos Santos ao “Governo Sombra”, já existia anos antes da entrada de Ventura no palco. Ele apenas lançou fogo à colossal lenha que outros amontoaram, e continuam a amontoar, à espera disso mesmo.

Falar de Ventura sem falar de Rio é branqueamento. Conviver com um presidente do PSD que prometeu “banhos de ética” e reposicionamento ao centro, e que na primeira oportunidade não só normaliza como se alia a quem ataca a democracia e os direitos humanos, obriga a tomar posição. Fingir que não está a acontecer, abafar, é antinómico tanto para jornalistas, como para comentadores, como para uma certa pessoa com o estatuto de antigo presidente do PSD, de actual Presidente da República e de candidato a um novo mandato. Esse facto novo de Rio ter sido tão volúvel perante um oportunista que congrega saudosos do salazarismo e do nazismo está inscrito na realidade política. Não se entende Ventura, então, sem compreender a tragédia de Rio.

Falar de Ventura sem falar de Cavaco é branqueamento. O apoio de Ferreira Leite, de Maria João Avillez e de Cavaco à aliança do PSD com o Chega expõe esta elite a uma luz que nunca a atingiu por terem estado protegidos, durante décadas, pelos impérios de comunicação e pela decência da esquerda. Assim iluminada, na evidência de olharem para Ventura e começarem a salivar com a tentação do poder, esta gente tão séria – mas tão séria que outros teriam de nascer duas vezes para serem honestos como eles – revela que na sua essência não passam de reles e imorais videirinhos.

Falar de Ventura sem falar de Trump é branqueamento. Ventura copia Trump e outros modelos de tiranetes com sucesso eleitoral em democracias ou à procura dele. Por sua vez, Trump vai ficar não só como o pior presidente dos EUA de sempre como, muito provavelmente, será julgado como traidor e rei louco. Se não for nos tribunais, se não for num hospício, será na História. Ventura decidiu vender a sua alma a esse ogre na lúbrica e fáustica cobiça de explorar indivíduos vítimas da alienação e perseguir indivíduos vítimas da miséria.

Falar com Ventura sendo-se Marcelo acabou em branqueamento. Não foi capaz de lhe dizer quão inaceitável, quão indecente, quão abjecto e quão perigoso Ventura é para todos os que comungam dos valores que Marcelo alega defender. Não foi sequer capaz de lhe dizer que, na sua opinião de católico, talvez Deus não esteja a achar muita graça a isso do Ventura reclamar ser um eleito divino com a missão de se tornar no próximo ditador de Portugal. Em vez disso, Marcelo violou o protocolo de Estado e a sua integridade como Presidente ao usar num debate eleitoral informações relativas às conversas sigilosas que manteve com o deputado Ventura no âmbito da autoridade regimental de que foi investido pelo voto soberano e pela Constituição. Isso fez de Marcelo um simétrico de Ventura: um Chefe de Estado que em privado, com cafezinhos e bolachinhas, tem a mais cordial das relações com o carrasco dos pretinhos que chegam à Europa com o último modelo de telemóvel na mão para nos roubarem os subsídios, e que em público é capaz do vale tudo para conseguir atingir um adversário e tentar safar-se de um ataque político fútil.

Para explicar o fenómeno Ventura é obrigatório não branquear a pessoa e o papel do Presidente Marcelo. Tristemente para a direita portuguesa, desgraçadamente para todos nós.

Surpresas da jornada

João Ferreira bem concentrado no marketing. Continua é a falhar na parte do domínio emocional, o que lhe tira charme liberal. E o seu posicionamento mais favorável é esse, o de parecer não sectário – caso queira, como parece querer, ter votos de quem não é militante do PCP.

Ana Gomes a confirmar que a necessidade (de parecer apoiante do PS) lhe aguça o engenho (de parecer apoiante do actual Governo), quando na verdade o projecto de Ana Gomes é pessoal (ela apenas apoia a sua carreira). Fez o mesmo com Sócrates, mantendo um discurso que alimentava as campanhas negras contra o seu próprio partido para explorar o populismo do tempo e demais ressentimentos pessoais, e aparecendo no período eleitoral para o Parlamento Europeu com os clichés de apoio mínimo ao Governo e PS de então. Carece de um acto heróico para provar que defende a cidade décadas depois do triunfo na causa timorense.

Tiago Mayan transformado de domingo para terça-feira na revelação política do ano. De alguém que bolçou uma barbaridade, e que andou aos papéis com Marcelo, deu um salto quântico para ser o primeiro político português a dizer na cara do Ventura que ele é indecente, é mentiroso, é arrivista. E fê-lo com convicção e estilo – a semente do carisma. Claro, estamos todos a sobrevalorizar a sua prestação por causa da baixa expectativa a seu respeito e movidos pelo desejo de humilhação, castigo, contra Ventura. Mesmo assim, abre-se uma nova expectativa que os próximos debates irão clarificar se se confirma ou desvanece. A jura de nunca se aliar ao Chega é relevante o suficiente para lhe marcar o destino político, para o melhor ou o pior, pois de caminho está a recusar todo o cavaquismo e todo o passismo que ainda dominam a direita partidária, mediática e fáctica.

André Ventura a mostrar que os seus limites retóricos são tão-só os que aplica nos chiqueiros do futebol e os que aprendeu na Feira da Malveira e na taberna (nada contra as tabernas, pelo contrário). Ir com ele para esse terreno é perder credibilidade ou perder tempo. A técnica a aplicar para quem o pretenda afrontar e denunciar, expor, é antes a da clarividência implacável a seu respeito assim que ele se cala.

Marisa Matias a confirmar que se meteu nisto com a solitária intenção de prestar um serviço ao BE, não entusiasma porque não está entusiasmada. É pena porque se trata de uma excelente presença política que assim deixa murchar o seu apelo.

Tino de Rans a confundir o comentariado que o trata como populista-simplista. Acontece que lhe serve melhor a categoria de “ruralista” pois ao que assistimos é a uma genuína exibição da sofisticada cultura folclórica que ainda é laço social tanto no interior como em camadas e bolsas urbanas – até por estar ligada com a desigualdade e a pobreza remediada ou extrema. A sua prestação frente a Ventura foi de uma densidade alegórica e subtextual que não temos memória de ver em debates políticos. Caso ele conseguisse limar arestas na sua aparência e prosódia, que são fonte de distração e incómodo, um renascimento da sua popularidade seria mais do que justo, era benéfico para a comunidade.

Portugal’s Got President

Este modelo de debates a dois impõe uma organização sequencial e um ritmo diário que lembra um torneio desportivo por grupos até chegarmos a dois finalistas. Cada confronto, tratado na imprensa e nas claques com a obsessão de se promulgar vitória, derrota ou empate, sofre então o efeito do “sorteio”, a ordem pela qual cada “equipa” (candidato nos holofotes+conselheiros na sombra) entra em estúdio. Por exemplo, o debate entre João Ferreira e André Ventura seria inevitavelmente muito diferente se ocorresse na próxima sexta-feira. Tal como o de Ana Gomes com Marcelo diferente seria tendo ocorrido no primeiro dia dos debates do que virá a ser ocorrendo no último. E nunca saberemos como, tal como não sabemos qual é a influência do calendário nos jogos de futebol do campeonato da Europa e do Mundo na fase de grupos. Sabemos é que a cada jornada todos os concorrentes retiram informações acerca dos seus adversários futuros e adaptam estratégias, antecipam tácticas.

Na realidade, a potencial 2ª volta das eleições presidenciais funciona como uma típica final donde se tem mesmo de sair com um vencedor. Desconheço mas imagino que ninguém concebeu a possibilidade de uma 3ª volta por empate na 2ª (ou de uma outra solução parecida com as grandes penalidades – por exemplo, séries de 5 perguntas lançadas pelos candidatos uns aos outros cujas respostas seriam votadas pelos eleitores). Talvez se pense que tal desfecho aconteça apenas uma vez a cada 100 milhões de anos, não valendo a pena perder tempo com o assunto. Mesmo assim, dado o entusiasmo popular que estas presidenciais estão a despertar como mero espectáculo televisivo, pois o leque dos protagonistas é mediaticamente diversificado e tarimbado e já se conhece o vencedor, podíamos imaginar um novo modelo de eleição presidencial onde os debates ocorressem ao longo de um ou dois meses com sucessivas eliminatórias. É mero delírio, pois sim, mas o resultado seria congénere aos programas de talentos que tanto prazer e envolvimento suscitam nas sociedades, permitindo um exaustivo estudo dos pretendentes ao trono republicano.

Temos uma natural apetência pelas competições porque elas são relevantes para a nossa sobrevivência. Não há nada de errado em ir para um estádio ver seres humanos a correr e a lançar o dardo apenas para conseguirem ser os ocasionais campeões. Tal como não há nada de errado em passar meses a acompanhar o destino de seres humanos que se consideram com capacidade superior à da ocasional concorrência para cantar, dançar ou fazer rir. O que é absolutamente bizarro, e vexante, é acharmos que, para se ocupar a Presidência da República, a exposição das propostas, valores, critérios e compromissos dos candidatos não mereça mais do que singulares debates televisivos de meia-hora cada onde ainda temos de aturar jornalistas que vão para ali a achar que também estão numa corrida lá deles para se ver qual é o mais entrópico.

Revolution through evolution

One psychedelic experience may lessen trauma of racial injustice
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5 Things You Must Do While You Wait for the COVID-19 Vaccine
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Study suggests link between word choices and extraverts
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Big bumblebees learn locations of best flowers
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New flower from 100 million years ago
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Primordial black holes and the search for dark matter from the multiverse
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As a year like no other draws to a close, the power of gratitude can bring healing

No princípio era o Logos não o povo

A democracia precisa da persuasão e suas técnicas. Nas monarquias, timocracias, oligarquias, tiranias e aristocracias a persuasão é secundária ou complementar. Nas democracias a persuasão é central para o seu pleno cumprimento como sistema político onde se pode escolher livremente entre diferentes candidatos com igual legitimidade política. Mas a persuasão continua a ser essencial depois de se conquistar o poder pois, se a democracia se continuar a cumprir como liberdade, as possibilidades políticas da comunidade vão sempre depender do diálogo entre os eleitos e os eleitores, entre os governantes e os cidadãos, entre os representantes do soberano e a comunidade soberana – ou seja, não vem da filosofia ou da ideologia mas da persuasão a relação entre os agentes políticos e a audiência, assim se estabelecendo retoricamente o que fica como a própria realidade política e seus possíveis tipos e modos de concretização.

Que vemos nos debates televisivos presidenciais? O mesmo que Aristóteles viu e tematizou dois mil e trezentos anos antes da invenção da televisão. Que no discurso persuasivo há três dimensões de eficácia: Logos, Ethos e Pathos – os argumentos, a personalidade do orador e as emoções da assistência. Qualquer das dimensões pode gerar um efeito de persuasão na audiência ou públicos-alvo. As incontáveis e aleatórias circunstâncias levam, ao longo da História das democracias, a que as fórmulas usadas pelos agentes políticos sejam ilimitadas misturas das três facetas do poder retórico ao dispor dos políticos. O que não muda, sequer numa civilização mediática e digitalizada como a nossa, é a evidência de que uma comunidade política se fundamenta na opinião. E em mais nada.

As nossas opiniões formam-se por mecanismos automáticos que não controlamos a não ser retrospectivamente. Podemos gostar de um político porque os nossos pais também gostam, porque parece mandão ou simpático, porque é da nossa idade ou género, porque é giro ou carismático, porque defende ideias que nos são queridas, porque é o mal menor, porque sim. Há políticos que nos tentam comunicar raciocínios a que dão muita importância, outros esforçam-se por mostrar que são mais sérios ou mais puros do que a concorrência, outros apenas querem ver a cidade a arder na fogueira dos afectos mesmo que estes sejam irracionalizantes, animalescos, fanáticos.

Embora estas três dimensões da persuasão pareçam equivalentes nisso de se poder atrair ou convencer alguém a partir de cada uma tomada na sua singularidade, há uma estrutura interna que se organiza hierarquicamente na tríade. A democracia é uma ideia altamente sofisticada que exige complexas abstracções prévias à sua aceitação política e social. O conceito decisivo na arquitectura do sistema democrático é o de “lei”, ao contrário do que os demagogos e populistas apregoam na sua retórica. Para as tiranias e oligarquias o poder vem da força, e a força fica como a “lei do mais forte”. A democracia nasce na Grécia quando o confronto entre os grupos sociais detentores da terra e os que ocupavam as cidades levou os legisladores a começarem o longo e sempre incompleto processo de colocar num exercício meramente intelectual toda a força política que estava nos braços e nas armas. É deste movimento tectónico que surge um modelo de convivência entre desiguais que reduz a potencial violência destruidora da comunidade ao instituir uma igualdade: a democracia, garante de que a lei passa a ser mais forte do que os mais fortes. Logo, primeiro é o Logos; também para os democratas de todos os cantos e calendários. A democracia estabelece na “polis” que o “povo” tem o poder mas não para que aqueles que calhem ocupar esse poder o usem para se considerarem superiores à lei. Isso tem outro nome, chama-se oclocracia.

Ontem vimos um debate com um candidato presidencial para quem primeiro é o Pathos. Toda a sua técnica retórica, copiada ao nanómetro de Trump, consiste em boicotar a racionalidade dos adversários recorrendo ao abuso das regras combinadas e à violação dos princípios do respeito pelos adversários e pela comunidade. Para os seus apoiantes, esse candidato venceu o debate com facilidade. Esses apoiantes estão igualmente blindados para ignorarem qualquer demonstração das incoerências, falhas morais e mesmo eventuais crimes do seu ídolo. Trump resumiu brilhantemente este efeito quando verbalizou na campanha de 2016 “I could stand in the middle of Fifth Avenue and shoot somebody and I wouldn’t lose voters“, pelo que a dimensão do Ethos não lhe fará perder qualquer apoio, digam e mostrem os adversários o que quiserem. Como debater com ele, então?

Como é de manual na persuasão, começa-se pelo produto. O produto, por si mesmo, impõe constrangimentos ao leque de estratégias e tácticas possíveis. Assim, o produto João Ferreira não pode defender o capitalismo, para dar um exemplo crasso. Todavia, esse candidato podia ter pensado na primeira pergunta inerente a um plano eficaz de persuasão: com quem quero falar? Fará sentido querer falar com os actuais apoiantes do coiso? Não será melhor falar para indecisos? Mas quem será essa gente que está indecisa face a quem se declara inimigo do 25 de Abril? Resolvida esta questão, vem de imediato a segunda: que quero dizer à audiência escolhida? A partir daqui, as estratégias e tácticas estão finalmente em condições de serem desenhadas. Ora, no seu debate com Ventura não foi possível descobrir uma coisa ou outra. A testosterona não foi devidamente canalizada para a prudência, resultando num favor a quem depende da política como patologia social. Esta é a mais valiosa lição do que se passou, podendo ser aplicada idiossincraticamente pelos restantes candidatos. Não está, pois, em causa encontrar uma panaceia universal para enfrentar a invenção de Passos Coelho e o mais recente amigalhaço de Rui Rio, este momento supremo da decadência da direita portuguesa. Há é que reler Aristóteles e agradecer ao destino ter a oportunidade de fazer algo verdadeiramente democrático: defender a liberdade e os direitos humanos contra um oclocrata.

Rui “Força nisso!” Rio

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2021 em funcionamento há mais de 24 horas e o desvairo acima apenso continua sem ser apagado. Provavelmente, continuará em exibição enquanto existir a conta. Isto porque Rui Rio não apaga “tweets” dado ser seríssimo e recusar dar o dito pelo não dito? Ou por ser um vero homem do Norte? Ou estará a explicação na sua passagem pela Deutsche Schule zu Porto, instituição onde colheu lições dos mestres que, in illo tempore, já proibiam com disciplina alemã que se apagassem quaisquer conteúdos uma vez publicados nas redes sociais? Nunca o saberemos, nem sequer quando sair o último volume das suas memórias.

O que sabemos é que quem assina tamanha alarvidade, e a mantém publicada, não tem condições para ser primeiro-ministro. Não tem, factual e indiscutivelmente, ponto final na conversa. E também não deveria ter condições mínimas para liderar a oposição. Porque é demasiado estúpido nisso onde a estupidez corresponde à incapacidade para se controlar, para ser decente e para se corrigir. Rui Rio não conseguiu perceber que estava a usar a memória de uma pessoa morta em condições trágicas e inumanas para se mostrar “engraçado”. Rui Rio não consegue entender que a existência desta inacreditável publicação é um bloco de cimento a puxá-lo para o fundo de um esgoto sem fundo. Rui Rio nunca irá compreender que havia um PSD, uma direita e um centro disponíveis – na verdade, desesperados – para acreditarem num líder que fizesse da política não uma arena de gladiadores e seus truques sujos mas antes uma ágora onde se compete pelas melhores ideias e onde as técnicas de persuasão nos elevam, acrescentam, libertam da ignorância e do medo.

Em vez disso, temos uma pessoa nascida em 1957, licenciada em Economia, actualmente na presidência do PSD, que exprime o desejo de “Mais uma morte no aeroporto“. A expressão é inequívoca, de interpretação literal, sendo ainda reforçada pela exclamação imperativa final. Quer dizer que o autor do texto quis – conotativa e denotativamente – apropriar-se do horror que matou Ihor Homeniuk para despachar um inane espasmo de chicana que conseguiu o singular feito de ter atingido em cheio o seu próprio carácter – ou falta dele, no caso. O bonequinho com que encerra o exercício, ali colocado para que possa dizer “Era na reinação, não liguem, é para rir”, fica como monumento à decadência moral e cognitiva deste tipo de vedetas deslumbradas consigo próprias.

Porém, contudo, todavia, ainda mais impressionante é a tolerância de tudo e de todos à sua volta. O líder da oposição viola os princípios mais básicos do respeito ético e cívico pela dignidade humana, mostrando evidentes sintomas de agudo destrambelhamento, e sistema político, imprensa e sociedade fingem que não viram, nem sequer se tropeça em manifestações de alarme ou mera indignação. Ficamos, portanto, à espera de um novo “tweet” de Rui Rio onde repita a lógica que o deixou tão bem-humorado. Por exemplo, para comentar a última sondagem TSF/JN/DN nada melhor do que umas graçolas com as mortes por Covid. Força nisso, Rio!

No final do melhor 2020 de sempre

Queridos amigos, chegados ao fim de um ano cujos nove meses finais provocaram um aumento anormal de mortos e de sofrimento generalizado, degradando a saúde física e mental de todos sem excepção, e também atingindo a segurança financeira de muitos até aí com rendimentos, há a dizer que podia ter sido pior.

Reconhecer que podia ter sido pior não nos traz quem perdemos nem o que perdemos. Nem evita que possa piorar o que já é mau. Faz antes outro serviço à nossa cognição e capacidade para agir: coloca-nos com os pés no chão da realidade. É nesse terreno que se pode fazer caminho. Dar passadas no ar, por mais vigorosas e rápidas que sejam, não nos fará avançar um milímetro.

Donde, olhando para o que nos rodeia, ouvindo quem nos fala, quem são os que nos ajudam a pôr os pés na realidade e a cabeça apontada ao horizonte do que é possível atingir? Quem são os que nos preferem nefelibatas?

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Abraços acetilsalicílicos
Júlio
Américo Costa
F Soares

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