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Marcelo terá concluído a catequese?

«Eu naquela altura disse exactamente o seguinte: que valia a pena pensar se quem, no plano da administração pública, exercia funções que tinham conduzido a certo resultado seriam indicadas, aquelas pessoas, para a mudança. Eu falei "administração pública", tive o cuidado de dizer isso, naquela altura! E a senhora ministra [Constança Urbano de Sousa] pediu a exoneração... [sobre Eduardo Cabrita] Eu usei até uma expressão que era paralela a essa, num plano diferente.»

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«É verdade, os portugueses foram enganados, de facto. [pela ministra da Saúde]»

Marcelo Rebelo de Sousa

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No comício de 17 de Outubro de 2017, em Oliveira do Hospital, Marcelo não usa uma única vez a palavra “administração“. E usou uma única vez a palavra “pública” mas para adjectivar o substantivo “manifestação“.

Na parte da declaração onde pede a cabeça da então ministra Constança Urbano de Sousa recorre a esta construção: “Pode e deve dizer que abrir um novo ciclo, inevitavelmente, obrigará o Governo a ponderar o quê, quem, como e quando, melhor serve esse ciclo.

Na parte onde chantageia o Governo e ameaça com a dissolução da Assembleia da República declara: “Pode e deve dizer, se na Assembleia da República há quem questione a capacidade do atual Governo para realizar estas mudanças que são indispensáveis e inadiáveis, então, nos termos da Constituição, esperemos que a mesma Assembleia clarifique se quer ou não manter o Governo.

Marcelo, Presidente e candidato, mente sobre o seu silêncio a respeito de Ihor Homeniúk com desplante teatral e mente à descarada numa matéria onde sabe melhor do que ninguém estar a violar a Constituição: os Presidentes da República Portuguesa não governam, muito menos demitem ministros. Mente com este à-vontade porque, como vimos nos dias seguintes, nem imprensa, nem partidos, nem sequer os restantes candidatos presidenciais se importam com as mentiras do Presidente da República. O Estado de direito democrático não é, definitivamente, uma paixão nacional. Se dúvidas houver, o que se lê em O contributo de Marcelo para segurar Cabrita no Governo é coisa para que as estátuas na fachada da Assembleia da República levem as mãos à cabeça.

Alguém com esta habilidade para desrespeitar a separação de poderes está em condições óptimas para lançar um ataque surpreendentemente sórdido e canalha contra Marta Temido. Depois de ter aproveitado para montar um número de campanha eleitoral ao se deixar vacinar para a fotografia em Outubro, e em ordem a fugir à sua responsabilidade directa na corrida às vacinas da gripe que promoveu – a qual teria sempre de causar excesso de procura pois a ideia nunca foi a de se vacinar o País inteiro – Marcelo faz da ministra o bode expiatório para lavar as suas mãos. Faz isto indiferente ao que a cidadã Marta Temido, liderando a resposta governativa na área mais crucial face à pandemia, tem conseguido gerir no meio de uma inaudita complexidade de novos problemas de gestão de recursos. Faz isto preferindo ignorar o que a pessoa Marta Temido, sob uma pressão inimaginável, vivencia por causa do traumático desgaste de estar obrigada a tomar decisões de guerra que não irão evitar milhares de doentes graves e de mortos mesmo que sejam as melhores decisões humanamente possíveis. Ao agarrar a deixa lançada pelo Miguel Sousa Tavares, o genial Professor Marcelo, cromo máximo da jurisprudência e do boneco televisivo, traiu todas as formas de lealdade institucional e cívica que se podem conceber ao ceder à pulsão política assassina.

É por isso que ao ouvi-lo reclamar-se católico temos de nos questionar se na infância, com a ânsia de ler coisas mais complicadas para vir mostrar aos brutos, não terá deixado abandonados a um canto aqueles livrinhos com bonecos foleiros e letras garrafais. Os da catequese.

Começa a semana com isto

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Todos nascemos inteligentes mas isso não impede que se possa aprender a ser inteligente. Kathleen Eisenhardt é tão inteligente a ensinar a inteligência dos inteligentes que quem chegar ao fim dos primeiros 5 minutos deste vídeo já está mais inteligente do que no estava nos 5 minutos antes. E continua-se a esse ritmo de crescimento nos 50 minutos seguintes.

São as regras, estúpido!

Revolution through evolution

In shaky times, focus on past successes, if overly anxious, depressed
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Difference in blood pressure between arms linked to greater early death risk
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Break Up Your Work Day with Healthy Stair Climbing Exercise Snacks
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New evidence that spices, fruits from Asia had reached the Mediterranean earlier than thought
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Psychologists and counselors offer tips to improve optimism, emotional balance and overall well-being
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Study reveals four ways to connect with and help grandkids
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Resolve to achieve healthy sleep in 2021

Psiquiatria política no Eixo do Mal

Pedro Marques Lopes - [sobre a acusação do MP a Rui Moreira com pedido de perda de mandato] Acho estranhíssimo que seja feito exactamente no ano eleitoral, acho muito estranho. E estas acusações que parecem fabricadas... Vou repetir, fabricadas... Que me dá a sensação que são feitas para dar uma espécie de... que há uma campanha contra os ricos e poderosos, é inacreditável [...]

Daniel Oliveira - Deixa-me só dizer uma frase sobre isto. Dizer que eu não sou fã de Rui Moreira, acredito na presunção de inocência do Ministério Público, o Ministério Público não é culpado até prova em contrário - este calendário é impensável... Isto começa a ficar demasiado repetitivo, começa a ficar demasiado repetitivo!... Começa a ser demais, começa a ser demais!

Luís Pedro Nunes - O Ministério Público parece que tem uma agendinha... Que é: agora este, check; agora este, check...


Eixo do Mal, a partir de 45:50

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Pedro Marques Lopes fez um pedido que qualquer cidadão lhe deve agradecer. Pediu para que, a propósito de um caso que o deixa indignado, partidos, Governo e Presidente da República investiguem, apurem, intuam se no Ministério Público há agendas políticas a condicionarem o nascimento, o conteúdo e/ou o calendário de certas acusações. É um pedido que vai ficar sem resposta porque a evidência recolhida desde, pelo menos, 2009 mostra que Presidentes da República, Governos e partidos com assento na Assembleia da República convivem adaptados com a realidade de existirem acusações cujos calendários, conteúdos e origens radicam ostensivamente nas agendas políticas dos procuradores responsáveis pelas mesmas – tudo legal, tudo dentro da sua críptica e inescrutável “autonomia”. A inimputabilidade é tal que quem quiser ver o Estado de direito democrático a ser respeitado na Procuradoria-Geral da República deve começar por fazer o testamento pois irá para uma batalha donde não regressará com futuro político viável. O poder das corporações da Justiça – e dos poderes políticos, económicos e fácticos que lucram com os crimes dos magistrados e dominam a paisagem mediática – de imediato esmagarão esses insanos atrevidos. Exagero? Não quando um fulano que promove as fugas ao segredo de justiça como necessária medida para atacar políticos cuja perseguição lhe enche os bolsos é coroado como símbolo vivo de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

O Pedro tem a admirável vantagem nestas matérias de ser coerente e muito corajoso; ou seja, de parecer íntegro. Contra o ódio político dos seus pares de filiação partidária, contra o ódio ideológico da direita a que pertence nem que seja para se diferenciar do PS, e contra o ódio da turbamulta vítima do populismo do tempo e de todos os tempos, ele sempre conseguiu verbalizar no espaço público que o inimigo nº 1 do País, Sócrates, tinha direito a um julgamento justo. Daí, ao falar de Rui Moreira, e apesar de se anunciar seu amigo, a sua honestidade intelectual e autoridade cívica permanecem intactas.

Igual não se ouve nem se lê nos seus dois companheiros de programa, acima citados, que são pagos para dizerem que a culpabilidade de Sócrates não carece de tribunais para ser concretizada. Basta-lhes a sua deslumbrante cachimónia. Daí que as declarações destes dois melros em Dezembro de 2020, subitamente alvoraçados com o mesmo que têm visto ser feito ao PS há mais de 10 anos para seu próprio gáudio comentadeiro e produção neuronal de sentenças transitadas em emporcalhado, mereça registo. É especialmente engraçado ver o Daniel Oliveira a exclamar que agora, com o Rui Moreira, se chegou ao limite. Até aí, palavras dele, estava tudo bem. Porém, se a ideia é que o PS deixe de ter o exclusivo da atenção dos carrascos do Ministério Público, então alto e pára o baile. É que este Daniel, quando não está a ensinar ao BE como descer nas sondagens e a fazer coro com os direitolas para o abate de ministros socialistas, é um vero herói do Estado de direito. Nem dorme a pensar nele.

Dois pesos e duas medidas, relativismo moral, ambiguidades identitárias, vieses cognitivos os mais variados, pois claro. Tudo isto é ancestralmente humano, inevitável na política e na política-espectáculo onde estes artistas se divertem e ganham o seu. Mas há uma figura no elenco que arrasta o programa para o campo psiquiátrico, a Clara Ferreira Alves:

«O Sócrates pôs o País com uma mão à frente e outra atrás. Toda a gente sabe que o Sócrates tinha um lado profundamente lunático. Pronto, mas isso já está adquirido.»
[silêncio de todos os outros participantes] – Minuto 8:20

Ora, eis que aqui temos num simpático programa de cavaqueira desopilante a tese do ódio a Sócrates no seu grau mais alto de pulhice. Não só Sócrates surge como o actor individual que se pode singularmente destacar e acusar pela entrada da Troika em Portugal, sem que para tal seja preciso indicar um único facto explicativo, como a causa é atribuída a uma patologia, o lado “profundamente lunático“. Isto significa que o emissor da mensagem não reconhece no seu sujeito enunciado a capacidade para se responsabilizar pelos seus actos, merecendo ser afastado da convivência normal com os restantes cidadãos dado estar a carecer de tratamento médico sob pena de voltar a causar os males do passado, esse “isso” que “já está adquirido“. O silêncio do pessoal circundante face ao enésimo acto de contrição que a Pluma Caprichosa exibe na pantalha, seviciando-se com esgares de dor por causa de uma entrevista que a irá atormentar até ao fim dos seus dias e mais umas eternidades além, é um incontornável momento psiquiátrico para todos os responsáveis pela emissão. É que, caso não saibam, quem despacha diagnósticos de loucura contra terceiros via TV está a precisar – e com urgência – de marcar uma consultazinha da especialidade.

O que eu queria no sapatinho

Que as luminárias que festejaram o Trump, o Bolsonaro e o Brexit como triunfos magníficos contra a esquerdalha, contra os corruptos do sistema corrupto e contra o centro que não é carne nem peixe, viessem dizer se estão satisfeitos com os resultados obtidos até agora ou se o problema consiste em ainda não se ter chegado à solução final.

Ana Gomes só terá uma oportunidade

A entrevista de Ana Gomes na RTP, ontem, serviu para mostrar não só a inutilidade como o erro desta candidatura – dito de forma mais clara, não só o erro como a inutilidade da sua candidatura. Por mim, não faço a menor ideia do que a esteja a motivar que se possa relacionar com o bem comum e o interesse nacional. Nesse sentido, parece-me uma intervenção política análoga à de Soares em 2006 e à de Alegre em 2011, exemplos de desvarios estratégicos crassos da esquerda, absurdos eleitorais nascidos daquilo que na política é tão-só humano e demasiado humano.

Infelizmente ou felizmente, não vejo como é que a sua campanha se poderá salvar porque, nesta altura do campeonato, a sua marca deu um nó cego a si mesma. Ignora-se o que representa para além de uma postura relativista, publicitária e circense “contra a corrupção” donde apenas se consegue perceber que aprova crimes desde que sejam contra uns tipos que ela não grama, e também que a investigação a Sócrates serviu para descobrirmos que o dinheiro que “se dizia” que era da mãe afinal não era, pelo que já deviam ter prendido o homem por qualquer coisa faz tempo, sugere enfastiada. O cenário é tão confuso e inane que ela estaria agora em melhor posição caso tivesse mergulhado de cabeça no populismo mais sensacionalista em vez de, como ontem vimos, andar a exibir-se num fato que não lhe serve: a de estadista que está em condições de ir jurar defender o regular funcionamento das instituições democráticas – ou seja, defender o Estado de direito democrático como mais alta magistrada da Nação.

Pelo que só dispõe de uma oportunidade para sair do actual posicionamento irrelevante e passar para a frente da notoriedade e das escolhas de uma larga fatia de cidadãos, um eleitorado transversal aos diferentes quadrantes ideológicos que não tem quem o compreenda. Uma e só uma oportunidade. Aquela que irá ocorrer numa sexta-feira do próximo Janeiro, daqui por 16 dias. Ali chegada, Ana Gomes tem de se sacrificar pelos mais altos valores em que calhar acreditar e transformar-se num kamikaze apontado ao porta-pulhas que navega a cada vez maior velocidade nas águas da direita decadente.

Como? Provavelmente, não terá ninguém ao seu lado para a orientar. Antecipo até que os conselhos dos seus generais e tenentes sejam para ir na direcção oposta, recusando o choque. Fugindo do combate. Fingindo que não ouve as provocações sórdidas do novíssimo delfim de Cavaco e Passos. Só para tentar dizer uma ou duas coisas “de esquerda”, da tal “esquerda pura e verdadeira” ao gosto dos seus apoiantes mais mediáticos, uma esquerda que até neste PS sempre à direita da revolução é uma raridade (é assim que ela pensa mas tudo aguentou, inclusive no tenebroso período socrático, em nome do heróico trabalho que deixou feito em Estrasburgo). Se for este o plano, Ventura sairá vencedor. Porque Ventura vai entrar vencedor, e vencedor estará ao longo de todo o debate. A menos que…

A menos que Ana Gomes decida fazer da aniquilação política, em duelo, desse seu adversário o singular objectivo da sua participação nestas presidenciais. Se entrar atingindo-o nos centros vitais da sua retórica fascistóide e desumana logo a partir da sua primeira intervenção, fazendo da humilhação moral de quem explora as fraquezas dos mais fracos o assumido propósito do confronto, e só se calando quando apagarem as luzes do estúdio e os seguranças a retirarem à força em braços, então algo decisivo para a defesa da cidade terá sido alcançado. E o debate com Marcelo, no dia seguinte, será um desfile triunfal.

Marcelo supera Cavaco

Marcelo não irá superar Mário Soares em resultados eleitorais mas, a partir da entrevista de ontem, é com vexame nacional que se tem de admitir que Marcelo superou Cavaco – em sonsaria.

Um feito que muitos, e bem sábios, garantiam ser absolutamente impossível dada a gramagem de sonsice do criador da Inventona de Belém.

Revolution through evolution

Empowering women could help address climate change
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The 16 facial expressions most common to emotional situations worldwide
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Lemony scents, light sounds could help promote better body image perceptions, health
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The power of validation in helping people stay positive
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Three pillars of mental health: Good sleep, exercise, raw fruits and veggies
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Better heart health scores in midlife linked to lower risk of late-life dementia
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Nine Nonobvious Ways to Have Deeper Conversations
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Continuar a lerRevolution through evolution

Ficamos a ganhar se pagarmos a quem lhe pagou

[…]

Talvez seja aqui que Eduardo Lourenço foi mais profundamente incompreendido, só por ter tido a bondade e a delicadeza de não nos desmentir quando lhe oferecemos o papel de intérprete da nossa portugalidade. E logo a ele, que sobretudo quisera abalar a insegurança da nossa identidade mítica. Com aquele sorriso de quem viveu muito e atravessou com o seu pensamento "selvas, mares, areias do deserto" (como dizia o seu querido Antero), Eduardo Lourenço deixou-se levar para essa imagem de áugure nacional, com a ironia de quem sabe até ao fim a funda irrisão de todas as imagens que deixamos.


Eduardo Lourenço, o ausente de si mesmo

Um “Communication Specialist” a precisar de ajuda

João Adelino Faria está a fazer um péssimo trabalho na série de entrevistas da RTP aos candidatos presidenciais. Não só as suas perguntas são destituídas de relevância, sequer de interesse avulso, como a sua atitude acaba por afundar no esquecimento o eventual valor das declarações dos candidatos por causa do frenesim com que pressiona os entrevistados para que eles lhe dêem as respostas que gostava de ouvir. Quando isso não acontece, e não acontece logo a partir da primeira, entra em modo de roer a canela e insiste, insiste e insiste como se existisse alguma alma na assistência com a sobre-humana capacidade de perceber aonde pretende chegar. Não existe, sendo penoso o espectáculo produzido por um jornalista que se auto-intitula “Communication Specialist” no LinkedIn. Em sua justiça, diga-se que não estamos perante uma novidade. Quem vê o “O Outro Lado”, na RTP3, tem de levar semanalmente com a sua bicefalia de moderador e opositor aos comentadores, particularmente ao Pedro Adão e Silva (porque será? será do Guaraná?).

A sua falta de profissionalismo e módico tino com André Ventura merece destaque, em duas dimensões: o que tal episódio revela acerca do jornalismo português, e o que nos permite pensar acerca do Ventura como desafio a esse mesmo jornalismo. Na primeira, o jornalismo português, aqui representado por um profissional maturo e prestigiado com o privilégio e a honra de servir o canal público de televisão, mostra-se dominado por indivíduos que se concebem como vedetas que só têm de prestar contas ao seu círculo de relações. Foi assim que o Faria apareceu em frente do Ventura, com o fácies moldado por um sentimento de intensa antipatia que se manteve e agravou ao longo da entrevista em que assediou às escâncaras o candidato presidencial. Do outro lado, esteve um entrevistado intuitivo que aproveitou para se vitimizar e passar as mensagens que quis e lhe apeteceu. Na segunda dimensão, e juntando-se aos conhecimentos adquiridos com Miguel Sousa Tavares nas duas ocasiões em que entrevistou Ventura e se mostrou escandalosamente inepto para a função, ficou evidente que é estulto pretender vencer um aldrabão recorrendo a aldrabices. A conduta do jornalista da RTP que entrevistou um perigoso inimigo da democracia e dos direitos humanos foi uma farsa do ponto de vista deontológico, o que teve como consequência branquear e blindar a sua degradante retórica num bastião de ressentimento e irracionalidade que atrai alienados, iletrados e néscios.

Paulo Moura, a respeito do mesmo, fez um sugestivo exercício reflexivo que merece leitura – Por que razão Ventura desarma os jornalistas – onde aponta para a necessidade de se ter de evitar ser Ventura com o Ventura caso a intenção seja fazer jornalismo ou política decente. No fundo, o mesmo arcano princípio, fonte da civilização em que queremos viver, que nos manda não usarmos o mal para combater o mal. Este princípio, contudo, não tem muita popularidade entre a direita partidária e os jornalistas portugueses (salvo as devidas excepções). As nossas vedetas da imprensa escrita e televisiva violam com indiferença calejada o Código Deontológico do Jornalista e o próprio Estado de direito, valendo-se da sua teia de cumplicidades políticas e sociais, e da incontornável ambiguidade dos textos normativos, para usufruírem de um estatuto de impunidade. Lembre-se, para dar só um exemplo que ilustra na plenitude o que está em causa, como o irmão do actual primeiro-ministro justificou a emissão de interrogatórios da Operação Marquês, no que ficou como uma exploração voyeurística bestial (pun intended). Esses conteúdos não tinham qualquer novidade informativa mas foram para o ar em nome do “interesse público” – leia-se, o interesse do público, que é afinal tão-só o das audiências para o negócio gerido pelo mano Costa. Tal qual como a Cofina justifica todas as suas cumplicidades criminosas com agentes da Justiça que geram a caudalosa violação de direitos dos alvos. Agarram-se ao bom povo que precisa com urgência de pão, circo e corruptos a serem apertados pelos nossos heróis no Ministério Público.

Ventura também fala em nome do povo, como tantos em todos os tempos e lugares. Segundo tem partilhado connosco, parece que o povo detesta ciganos, não-caucasianos e estrangeiros. O povo também não vai muito à bola com o Serviço Nacional de Saúde, a Constituição, os pedófilos e os ovários, e talvez tenha uma assolapada paixoneta por nazis infiltrados nas polícias e por empresários no ramo do armamento, vai-nos contando sempre que pode. Às tantas, o Adelino Faria terá ficado naturalmente zangado por ter de partilhar um estúdio de televisão com uma personagem muito mais sabedora do que ele a respeito do que o povo pensa e quer, e daí não ter resistido a mostrar-se agastado, mauzão. Acontece que tamanho descontrolo obteve precisamente o efeito contrário ao que (supomos) pretendia obter. Alguém, na RTP ou fora dela, tem de explicar a este “especialista em comunicação” que para lidar com o Ventura a partir de uma posição de superioridade interrogativa não há instrumento mais eficiente do que esta singular pergunta: “Como sabe?”. É que não adianta fantasiar que se vai convencer um único apoiante do Ventura recorrendo a argumentos racionais ou exibindo como troféus as suas contradições, aberrações e promessas de violência. Essa fatia da sociedade está perdida, é inútil querer dialogar com ela a partir do jornalismo (mas não o será a partir da política, outros os processos mentais à disposição).

O que precisamos que o jornalismo faça na cara dos populistas é que se cumpra como jornalismo – isto é, que seja metodologicamente empático, profundamente analítico e implacavelmente curioso.

O estúpido não tem tempo para a inteligência

É lamentável que a ARTV não permita saber quantas visualizações têm os seus vídeos. Por exemplo, quantos mamíferos já viram a Audição do Ministro da Administração Interna do dia 15 do corrente? E dos que viram, quantos foram até ao fim, quantos até ao meio e quantos não passaram dos 5 minutos iniciais? Não faço, portanto, a mínima ideia mas arrisco os 10 euros que tenho no bolso em como o número dos que assistiram na integralidade a essa audição é inferior em 10 ordens de grandeza ao número dos que já foram para a janela pedir a demissão do ministro ou que desenvolveram sólidas convicções a partir de resumos de 30 segundos sobre uma conferência de imprensa onde o mesmo ministro disse coisas mesmo fixes para um gajo gozar, pá. Agora, estar duas horas a ouvir pessoas com tempo para falarem sem serem interrompidas, algo que torna muito mais provável conseguirem transmitir informações e raciocínios, isso já não dá, pá. A inteligência é demasiado secante, temos é de abandalhar e pichar a cidade.

Para além de podermos constatar como a escolha de Joacine Katar Moreira foi um erro também por causa da sua aflitiva gaguez (a causa da integração de pessoas com deficiência não colhe e fica mal servida porque tal patologia, naquele grau, compromete a plena realização da sua função como oradora e introduz sofrimento inútil na assistência), para além de vermos como a retórica da direita é igual à daquela esquerda que imita a direita decadente na exploração do caso só para tentar atingir o ministro e o Governo, para além de assistirmos ao nó cego que António Filipe (PCP) deu a José Magalhães (PS) quando lembrou que não havia lugar para choradinhos de arrependimento posto que aquela comissão parlamentar tinha cumprido o seu dever com rigor democrático ao longo dos meses e em coordenação com o ministro da Administração Interna, quem continuar na ignorância do que ali foi dito – e que esta entrevista complementa e detalha – vai continuar a preferir a estupidez à inteligência.

Aqueles que fazem coro pela demissão de Eduardo Cabrita não têm nenhuma razão para o fazer, posto que o ministro cumpriu com os deveres que lhe foram confiados pelo Estado e obteve resultados meritórios no que ao episódio da morte de Ihor Homeniuk diz respeito. Como não têm razão, ou porque essa razão nasce apenas da motivação antagonista e não da honestidade intelectual, os que berram contra o homem têm de aparecer muito zangados no palco e a misturar assuntos demagogicamente, têm de fazer teatro. Isso é transparente nas actividades diárias de todos os parlamentos em qualquer parte do Mundo onde existam democracias, é inerente ao folclore de ser oposição. Só que ser oposição não obriga ninguém a ser estúpido, tal como ser comentador profissional com a ambição de vir a ser alguém num partido a definhar ou continuar a influenciar o antigo partido por quem o coração ainda bate não é uma condenação à estupidez. Estes amigos estão a ser estúpidos só porque acham que há algo a ganhar nisso – e porque a soberba irresponsável é embriagante.

A ideia de que se deve castigar um ministro com a demissão para dar um exemplo é o sonho molhado dos Marques Mendes que, se pudessem, demitiam definitivamente o PS da política nacional. Compreende-se a agonia. Mas há algo também de estupidamente português em não permitir que se aprenda com o erro. Em castigar e ostracizar quem errou, condenando-o à vergonha. Isto, que talvez tenha raiz católica no célebre páreo com a ética protestante, é especialmente imbecil neste caso do escândalo no SEF quando nos chega ao conhecimento o filme dos acontecimentos e a complexidade política e administrativa do que está em causa. Neste sentido, até o facto de a directora do SEF não se ter demitido nem ter sido demitida precisa de ser ponderado à luz dos detalhes de todo o processo, começando logo (como lembra Cabrita na entrevista ao Público e Renascença) por se registar que o SEF colaborou com a Judiciária assim que a suspeita de crime foi estabelecida por elementos do próprio SEF. O mesmo para os tempos da decisão sobre a indemnização, recordando a demora no caso dos militares mortos no Curso de Comandos há quatro anos e como tal é conforme ao próprio Estado de direito.

O ministro da Administração Interna poderá ter vários erros no bornal, por actos, palavras e/ou omissões. Nesta e noutras matérias. É até possível que estejamos perante um ser humano. Apesar disso, e para quem o considera um “cadáver político” e um “zombie político” (les beaux esprits se rencontrent), vai sair reforçado desta crise. Porque fez bem o que tinha para fazer com o seu poder. E porque o que está estruturalmente em causa no SEF, pese estar relacionado com o trágico e inumano fim de vida de um cidadão ucraniano, não se resolve com a irresponsabilidade dos comentadores profissionais nem com os oportunistas partidários. Vai é ser preciso recorrer à inteligência para o admitir.

Quando o Zé entrevistou o Pedro

A entrevista feita na SIC a Pedro Nuno Santos foi mais um prego no caixão daquela direita que passa as horas a congeminar campanhas negras e golpadas por se saber fatalmente inferior na comparação com o PS. Sabem que se as eleições fossem um puro confronto de ideias para governar a coisa pública jamais chegariam ao poder pois acontece-lhes terem alergia à actividade intelectual e nojo da decência. Pelo que recorrem ao ancestral e vastíssimo arsenal de cavilações e chicana já com gasto desde o nascimento da democracia na Grécia clássica.

Existe algum José Gomes Ferreira mediático que se possa associar ao PS, ou a algum tipo de esquerda? Não existe. Tal como não existe nenhuma SIC a trabalhar para o PS. Não existe nenhum Correio da Manhã simpatizante do Largo do Rato. Não existe um único órgão de comunicação social que possamos posicionar como próximo de políticas ditas socialistas ou que seja visto como apoiante de decisões ao actual Governo, quanto mais um “grupo de comunicação” pintado de rosa. Melhor, porque mais de acordo com o método: não existe um único órgão de comunicação social cuja sistémica estratégia editorial seja o ataque ao PSD e suas figuras dirigentes ou mais populares. Mas existe um Zé pago pelo Balsemão para, fingindo ser jornalista, combater ideologicamente e com fanatismo o PS e o ideário de esquerda. Um sectário deslumbrado consigo próprio que chegou ao desplante de publicar um livro intitulado “O Meu Programa de Governo”. E um pulha retinto que no passado mês de Outubro usou a SIC para espalhar a calúnia de estarem António Costa e Francisca Van Dunem a manipularem a Judiciária “para que depois, quem controla os negócios de Estado, dar aos amigos, como já vimos.” Como acharam que era pouco, foram buscar outro fanático do ódio ao PS chamado João Vieira Pereira. Este infeliz, quando termina de escrever os panfletos semanais no Expresso, tem de ir logo a correr enfiar a cabeça num balde de bicarbonato de sódio tamanha a indisposição que sente por causa dos malvados socialistas e suas socialistas maldades.

A entrevista impressionou especialmente os direitolas por causa dos minutos iniciais. E o que mais importa aconteceu entre o minuto 3 e o 5. O que se vê é o Zé a interromper o entrevistado com provocações e, na resposta, o entrevistado a desmontar o artifício e a ganhar moralmente o confronto, ficando a partir daí com uma autoridade sobre o provocador que não voltou a perder (veja-se, como ilustração do que é passar a ter um Zé amestrado, o minuto 40); inclusive tendo-lhe dado presença de espírito para ser acintoso sem perder a razão ou a estética (minuto 11). Foi uma exibição de genuína virilidade que tocou no goto do povo de direita que sonha com líderes fortes e carismáticos e, em vez dessa fruta, o que lhes sai na rifa é o Rio, o Chicão e o Ventura. Percebe-se o temor, entende-se o tremor desta gente abandonada por uma elite que não tem nível para competir com o escol. No PS está esse escol, como mostrou Pedro Nuno Santos ao ter deixado uma exuberante candidatura a secretário-geral do PS a partir de atributos positivos e eleitoralmente relevantes. Mas o PS, dado o seu tamanho e a longa experiência de governação, tem outros candidatos igualmente viáveis para vencer eleições – de que Medina é apenas o mais falado – enquanto no PSD e no CDS a paisagem é desoladora e, para qualquer democrata, mesmo assustadora. O único líder com algum potencial eleitoral que a direita conseguiu criar depois de Passos Coelho é o miserável fascistóide que anda a debochar com a República. Chamar decadente a esta situação passa por usar um eufemismo.

O Zé não entrevista, faz debates. E leva na cabeça com regularidade quando resolve marrar com socialistas que saibam para o que vão. Como foi agora o caso, como já foi com António Costa, como foi inesquecivelmente com o Paulo Campos. Não se trata de uma actividade ilegal, ele apenas tenta servir o melhor possível o seu patrão. O sucesso do seu trabalho mede-se pela capacidade de boicotar e denegrir os alvos a coberto da assimetria de poder que o estúdio de televisão lhe dá. Não há qualquer intenção de servir um interesse público a partir das mensagens dos entrevistados, tão-só o de repetir as suas próprias mensagens e fazê-lo de um modo que simule ter os argumentos vencedores. Daí ser tão eficaz, para este efeito, poder interromper os entrevistados assim que eles começam a transmitir argumentação contrária à sua agenda e de imediato despejar munição emocional ou desviar a conversa para outro assunto que conceba como mais favorável. A noção cultivada como mandamento sagrado é a de que as entrevistas servem para tudo menos para deixar os convidados exporem o seu pensamento. Quando isso acontece, o Zé, o seu chefe e os amanuenses na redação da SIC sabem que foi um mau dia. Que o militante nº 1 do PSD não merecia tal desfeita depois de tanto dinheiro investido. O dia 11 de Dezembro de 2020, portanto, foi um péssimo dia para esta rapaziada.

Podiam ter perguntado, né?

Presidente da República - E mais, digo-lho: o mais espantoso é que falei da matéria numa primeira saída ainda vigorava o estado de emergência, em Maio, e depois, sucessivamente, nunca nenhum jornalista me perguntou sobre a matéria. Podiam ter perguntado. Em Junho, em Julho, em Agosto, em Setembro, em Outubro, até Novembro...

Director-geral de informação do Grupo Impresa + palhaço que saltou de andar de microfone na mão a tentar entalar o Sócrates com inanidades para especialista em política - Ai, ai, ai... Blá, blá, blá... Então a culpa é dos jornais!... Ó Senhor Presidente, eu mostro-lhe aqui vários artigos...

Presidente da República - Não, a culpa não é dos jornais...

Director-geral de Informação do Grupo Impresa - O Público e o Diário de Notícias estiveram sempre em cima deste caso, sempre.

Presidente da República - Eu sei, o Público e o Diário de Notícias foram a excepção.

Director-geral de informação do Grupo Impresa - Pronto! Não são pequenas excepções, não são...


Entrevista

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Impresa é o maior grupo de comunicação social português, atuando em três áreas de negócio — edição impressa, digital e televisão“, assim abre o artigo na Wikipédia a respeito do império criado pelo militante nº 1 do PSD. Curiosamente, e seguramente devido ao tempo diário que gasta a mandar “gifs” animados para o Bernardo Ferrão a insistência deste, o mano Costa ainda não teve oportunidade para ir à Wiki descobrir o que é, realmente, isso da IMPRESA e não sei quê. Pelo que foi para uma entrevista a uma pessoa muito conhecida da televisão, a qual acumula com um cargo qualquer no Estado e não sei quê, e deu por si a ter de defender a imprensa – isto é, aquela que realmente dá notícias e tenta formar opiniões. Ihor Homenyuk, um ucraniano que parece que morreu no aeroporto e não sei quê, teve sempre dois jornais a falarem dele, exclamou indignado o director-geral do grupo Impresa para a vedeta televisiva a fazer-se de parva à sua frente. É que se há assunto que o mano Costa domina é esse mesmo da comunicação social e não sei quê, tenham juizinho, pelo que não ia aceitar que lhe dissessem na cara que o não sei quantos de não sei donde foi esquecido pelos jornais, pelas televisões, pelas rádios e pelo digital. Não, isso é coisa para deixar o mano Costa à beira de um ataque de jornalismo.

Este diálogo é inacreditável, em sentido literal. Vemos, ouvimos, podemos ler a transcrição e continuamos a não acreditar no que os nossos neurónios repetidamente garantem ter sido dito. Ninguém nos preparou para termos um Presidente da República que regride moralmente para a idade dos 7 anos. Um Chefe de Estado que mente à descarada e justifica a sua antinomia culpando a assistência, dizendo que a culpa de não ter mostrado em público mais preocupação com o homicídio às mãos do SEF ou sequer enviado as condolências para a família de um ser humano cuja morte ocorre sob a responsabilidade do Estado português é, afinal, da comunidade que não lhe perguntou nada. Eis a doutrina marcelista da lógica da batota. E por mais que nos preparássemos, continuaria a ser impossível resistir a ficar banzo quando um bacano que tem centenas de jornalistas sob a sua alçada editorial, alguns com a responsabilidade agravada de serem pagos para preencher os conteúdos de um semanário outrora famoso por influenciar a sociedade, tem de dar exemplos da concorrência para salvar a honra dos titulares da carteira profissional disso do “relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade“. Contudo, talvez a origem da derrelicção exibida pelo brilhante director-geral da cena seja prosaica: ninguém ainda ter ido oferecer ao mano Costa vídeos fixes de interrogatórios à malandragem com o selo Ministério Publico TV ou lhe ter enviado relatórios das secretas inventados à maluca com avisos sobre a Turquia e a Ucrânia. E não sei quê.

Fernanda Câncio, Valentina Marcelino e Joana Gorjão Henriques foram justamente reconhecidas como jornalistas que, através dos seus artigos, elevaram a sua profissão ao estatuto de missão ao relatarem, destacarem e questionarem as autoridades, especialmente o Governo, sobre todas as questões policiais, humanas e políticas relativas ao que se ia conhecendo dos factos desde o final de Março. O silêncio que constatavam à sua volta, porém, não pode ser dissociado da circunstância de estar a decorrer uma investigação do Ministério Público e um inquérito do IGAI. Foram estes dois processos que acabaram por moldar o calendário da indignação e da exploração política, à medida que se iam consolidando e divulgando os resultados e demais parafernália de acções e reacções dos envolvidos – Isabel Moreira também poderá ter sido gatilho da explosão emocional de Dezembro ao sintetizar de forma lapidar o que estava em causa: “É o mais grave atentado ao Estado de direito no pós-25 de Abril.

As declarações de má consciência de tanta gente respeitável e admirável com tribuna na comunicação social ficaram embrulhadas com exemplos de cínicos e sonsos acabados, como os três pavões citados acima, para mal dos nossos pecados. Pecados esses que não colocaria no plano do rasgar das vestes ou da ocupação das ruas, muito menos nos badalhocos pedidos de demissão do ministro que levou um soco no estômago, antes na constatação vexante de que a Assembleia da República não quer saber do que se passa nas cabeças dos agentes policiais e elementos militares que nos fazem mal.

Começa a semana com isto

Robert Sutton on Good Leaders vs. Bad Leaders

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– É pacóvio achar que só em Portugal há maus patrões, chefes incompetentes. Eles estão distribuídos por todo o Planeta. Mas é estúpido, e perigoso, ignorar que há razões endémicas, seculares, para o tecido empresarial português gerar tantos patrões broncos e tantos chefes canalhas.

– Robert Sutton é um divertido, animado e muito nosso amigo especialista em lidar com as disfunções relacionais que existem em todas as organizações. Todas. Porque sim. Porque humanos.

– Talvez o mais valioso conselho que ele deixa, muito pouco atraente para a dificuldade de ser português num país igual a Portugal, seja o de irmos embora de uma empresa quando nos estão a fazer mal. Esta sabedoria não se aplicará necessariamente a quem tenha protecção de um sindicato, regra geral, sendo mais apropriada para os outros tantos e tantos não sindicalizados que, de repente, se podem ver isolados a lidar com chefias e colegas em quem não podem confiar e que estão organizados para prejudicar e expulsar os alvos. Isto chama-se assédio moral e, depois do triunfo do movimento contra o assédio sexual, devia merecer a atenção das forças políticas pois há muitos votos para ganhar neste território de ubíqua e diária violência – cuja dinâmica tem várias relações com a violência doméstica. É também um fenómeno que está ligado à baixa produtividade ao castigar o mérito e premiar a cumplicidade na discriminação e seus graves danos para as vítimas.

– O nosso Bob usa com mestria os clichés, pois eles transmitem experiência prática e científica acumulada, de que deixo dois exemplos iluminativos: “My shit is stuff, your stuff is shit” + “That was great until it wasn’t” – o primeiro descreve o egocentrismo fatal que boicota a colaboração num grupo e destrói a geração da inteligência colectiva; o segundo aponta à cristalização das fórmulas e soluções, impedindo a adaptação a novos problemas (que são na maior parte dos casos os antigos mas numa versão alterada).

– Finalmente, o seu convite para deixarmos de nos avaliar como estando a fracassar ou a ter sucesso, a errar ou a acertar, e antes começarmos a procurar o que estaremos a aprender numa dada situação, concebendo-nos em permanente crescimento, é uma verdadeira – e tão salubre, alegre – filosofia de vida.

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