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Coisas do Carvalho

«A responsabilização política exige mais. Garante-se com demissões. A nossa vergonha colectiva, como aqui a descrevemos, não se repara com estados de alma.

Dizer que falou e fez antes de todos neste caso do SEF, lembrar feitos nos incêndios ou na criminalidade para cimentar a sua glória não ilude a situação frágil em que Eduardo Cabrita se encontra. Boa parte do que fez, fê-lo a reboque dos acontecimentos ou através de cortinas de fumo com botões de pânico. Só agiu quando percebeu que não podia continuar a varrer o lixo para debaixo do tapete. Só deixou cair a ex-directora do SEF quando sentiu o fogo aproximar-se da pele.»


Manuel Carvalho

«Falei com o primeiro-ministro inúmeras vezes disso. Não trago a público as conversas com o primeiro-ministro. Posso lembrar que havia um problema pendente que era a reforma global do SEF. Vinha de trás mas era uma ideia do Governo.»


Presidente da República

🗯️

Fazer editoriais a pedir a cabeça de ministros tem de ser um dos mais viciantes prazeres do pessoal que é – supostamente – pago (e muito bem pago) para fazer jornalismo (ou deixar que se faça). Não há mistério nem enigma na coisa, quem está de fora a assistir precisa de assobiar, apupar, urrar. É um atestado de importância, uma prova de vida, que oferecem a si mesmos. E ainda recolhem a aprovação das tribos que calharem estar na oposição e dos taralhoucos do bota-abaixo. O que leva a perguntar: o pior para um ministro, ou qualquer outro responsável público no centro de escândalos ou polémicas, é ser demitido na primeira oportunidade ou quando os decibéis da algazarra à sua volta ultrapassam certos níveis?

Só para os burros do Carvalho como este Manuel acima citado. A ideia de que a “responsabilização política” se garante com demissões é asinina e exactamente contrária aos interesses da República. Quase sempre, as demissões de ministros são arbitrárias, fortuitas e meramente catárticas, uma disfunção que tende a criar bodes expiatórios para não ter de resolver questões demasiado complexas ou com altos custos eleitorais – quando o oposto, mantendo os visados em condições de prestar contas adentro da sua autoridade institucional e se poder aferir as responsabilidades de todos e de tudo o que relevasse, é que serviria o interesse nacional. Por exemplo, as demissões de Jorge Coelho, António Vitorino e Manuel Pinho não se traduziram em qualquer ganho fosse de que ordem fosse. Não estabeleceram exemplo, não fizeram escola, não se relacionam com algum benefício tangível. Foram meramente contextuais e, ao limite, causadas por lógicas subjectivas. Isto é, poderiam não ter acontecido; e, se tal veio a ocorrer num universo paralelo, a única diferença foi apenas o prolongamento do gozo e da raiva dos que viam nesses alvos brechas na muralha que queriam derrubar.

Quanto à demissão de Constança Urbano de Sousa, forçada por Marcelo numa chantagem pública comicieira, a ter tido alguma consequência desejada por quem a forçou, então terá sido o inevitavelmente excelente trabalho de Eduardo Cabrita dadas as premissas e as juras marcelistas. Daí ter toda a legitimidade e oportunidade para o lembrar o actual ministro da Administração Interna, de repente vendo-se na mira de Marcelo cujo instinto de caçador é mais forte do que o sentido de Estado e a defesa do bem comum. Porém, contudo, todavia, dita o módico realismo que caso Urbano de Sousa tivesse permanecido no cargo fosse altamente provável que os resultados da prevenção e combate aos incêndios florestais nos anos seguintes acabassem por ser precisamente os mesmos que registamos com Cabrita.

Manuel Carvalho faz fogo de barragem sobre um gajo do PS e protege um gajo do PSD. É disto que a casa gasta. Felizmente para ele, nunca ninguém lhe irá pedir para comentar a passagem da entrevista onde o actual Presidente da República explica aos jornalistas que ocupar as posições cimeiras do Estado é assim uma beca diferente de já só ter de escolher onde se vai comer o bife depois de fechar a edição no pasquim.

Marcelo também é do PSD

«Nós respeitamos muito o PSD. Eu próprio fui do PSD. Aliás, a maior parte dos dirigentes do Chega foram do PSD.»


André Ventura

🍊

Ventura é uma invenção de Passos Coelho. O Chega é um braço armado do PSD. Visão excessiva, deturpada? São os próprios, os do Chega e os do PSD, que o assumem, que o gravam na pedra. A rapidez com que Rui Rio se abraçou a Ventura estilhaçou as mais pessimistas previsões dos mais pessimistas acerca desse cenário degradante. O facto de Morais Sarmento, Manuela Ferreira Leite e a totalidade dos dirigentes locais do partido terem declarado o seu apoio, com palavras ou silêncios, à aliança com um partido que agrega e entusiasma inimigos da democracia e dos direitos humanos deixou em estado de choque quem à direita ainda se respeita a si próprio como cidadão de um Estado de direito democrático pertencente à União Europeia.

Contudo, nada há de ilógico no aparecimento de Ventura quando se constata que o seu caminho foi aberto pela elite do PSD e do CDS desde 2004, e a outrance desde 2008. No balanço desses 12 a 16 anos, e mais se poderiam acrescentar, ninguém é capaz de indicar uma singular figura da direita partidária portuguesa que tenha ganhado a mínima notoriedade como paladino das causas dos direitos humanos e do Estado de direito. Se ela existe, rogo penhorado que me corrijam com urgência. E ao apostar que não existe ninguém com esses predicados, com esse currículo, estou a incluir a mole de jornalistas que servem a direita portuguesa, do Grupo Impresa à Cofina, passando pela Grupo Renascença, pela Público, pelo Observador, pela TVI do casal Moniz, pelo DN de outros tempos, pelos cromos direitolas da RTP, e por tantos exemplos ao sabor das mudanças de poder nas administrações e redacções dos órgãos de comunicação social. Ricardo Costa, Manuel Carvalho, José Manuel Fernandes, José Gomes Ferreira, para dar exemplos cabeçudos, revelam nas suas caudalosas opiniões estarem preocupados com o Estado de direito e os direitos humanos? A gargalhada é homérica.

A direita portuguesa é populista desde que Durão Barroso, o homem que jurou em campanha eleitoral ter nascido para ser primeiro-ministro, fugiu para um cargo delirantemente mais apetitoso do que o seu propalado destino de servidor da Pátria. O populismo do tempo e neste nosso lugar, com o seu cortejo de afrontas contra a classe política e contra grupos de humanos tomados como inimigos, não passa de um maníaco processo de diabolização que visa envenenar o espaço público, boicotar a discussão política racional, reduzir a política à moral e com esta criminalizar os adversários. É por isso que Passos é o herói mítico que vai voltar numa manhã de nevoeiro, porque só ele conseguiu aprisionar o dragão que ameaçava o povo. É por isso que Carlos Alexandre e Joana Marques Vidal são vedetas com romarias e serviços de relações públicas em permanente funcionamento. A corrupção dos malvados socialistas que lhes ganham as eleições, e que tiveram artes para lhes ganharem o parlamento com a medalha de prata, tem consumido a duvidosa inteligência e a abundante pulhice da direita partidária portuguesa.

Marcelo Rebelo de Sousa, em cinco anos de exibicionismo presidencial, igualmente não se mostrou campeão do Estado de direito e dos direitos humanos. Preferiu brincar aos palácios e a um populismo de brandos costumes para a fotografia. Daí ter dado a uma figura sórdida como João Miguel Tavares, alguém que despreza e ofende a República, honras de Estado exclusivíssimas. Daí ter esperado nove meses para falar da morte de um ser humano num aeroporto português por obra e desgraça de representantes do Estado português. Aquele que é, actualmente, o político mais prestigiado da direita portuguesa aparenta ter gozo em ser um estadista com um dos pés no chinelo da indecência.

Donde, Ventura talvez não tenha culpa do que anda para aí a dizer e a prometer. Aconteceu-lhe foi ter entrado para o PSD, num dia de funesta memória. Coitado.

Das coisas estranhas e das outras que não causam estranheza

Luís Pedro Nunes - Estive uma única vez com António Mexia para lançar um livro que consegui a custo que a EDP patrocinasse. Meia hora se tanto. Mas acho estranho que ninguém tenha achado estranho o que se passou esta semana. Eu estive a ler sobre isto antes de vir para aqui porque não é uma posição fácil. António Mexia foi constituído arguido em 2017, não está em fase de investigação, passou por três juízes que não acharam que fosse preciso medidas de coacção. Assim que caiu nas mãos de Carlos Alexandre, se disse logo imediatamente "Bom, este Mexia é o último dos poderosos e este juiz é o tomba-poderosos, portanto alguma coisa vai acontecer..." E assim aconteceu. Onde nenhum outro juiz tinha visto nada, Carlos Alexandre arranjou umas medidas de coacção, que toda a gente achou que eram absurdas, de António Mexia e Neto Manso não poderem entrar na empresa, nem falarem com o segurança, coisa que coincidiu com o fim de mandato, o que fez com que Mexia não se possa recandidatar a presidente da empresa. Sendo que não há uma acusação, é apenas arguido, não se sabe se vai a julgamento e, se for a julgamento, não sabe se vai ser condenado. As pessoas acham que a energia está cara em Portugal por causa dele, não é verdade. E quero dizer que já foi condenado, já teve uma pena [...]

Daniel Oliveira - Só quero dizer que eu tenho a pior opinião possível sobre António Mexia e concordo com tudo o que o Luís Pedro disse.


Eixo do Mal – minuto 44:30

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Não é a primeira vez, embora seja um espectáculo recente, que Luís Pedro Nunes faz críticas à Justiça portuguesa, particularmente ao juiz Carlos Alexandre, que posso assinar por baixo. Neste caso, e para alguém que declarou ter estado a ler sobre o assunto, só é pena que não tenha dado mais atenção ao que o próprio António Mexia escreveu na sua carta de despedida. Nesta, o autor alerta para a curiosidade de o processo dos CMECs ser uma “investigação artificialmente arrastada“. Já conta com 8 anos de existência, tendo nascido em 2012 a partir de “insinuações e especulações” com base em recortes de jornais, e a recente alteração das medidas de coacção para alguns arguidos não resultou da descoberta de qualquer facto novo, tão-só da chegada de Carlos Alexandre ao palco – o que levou o Ministério Público a finalmente interrogar os arguidos há três anos à espera de serem ouvidos. Trata-se de um arbítrio, portanto, que obriga a concluir que a Justiça é uma roleta russa. Outro aspecto do caso que podia ter ocupado parte dos neurónios do Luís Pedro, dada a sua altíssima relevância, diz respeito ao facto de António Mexia e João Manso Neto serem gestores de uma empresa privada.

Que outros processos foram, e continuam a ser, “artificialmente arrastados”? Em que outros processos a distinção entre esfera pública e privada foi anulada pelos procuradores e juízes para se conseguirem ou tentarem condenações de corrupção e prisão efectiva nunca antes vistas, exorbitantes face à jurisprudência respectiva, e publicitadas como exemplares? Porquê e para quê? E como se permite tal? Responder a estas questões parece muitíssimo menos importante do que pedir a cabeça de ministros quando morrem pessoas em incêndios, se furta armamento ao Exército ou se tortura um homem sob a responsabilidade do Estado português causando a sua morte. No entanto, e para aumentar a ironia do espanto acima confessado pelo artista do Eixo do Mal, igualmente ninguém parece achar estranho que a Justiça, tanto na área da investigação como do julgamento, se comporte como se fosse tacitamente consensual no regime e na sociedade considerar que todos os actos governativos dos Executivos socialistas entre 2005 e 2011 são suspeitos de ilegalidade até prova em contrário. Daí vindo uma permissão, mesmo uma missão ou cruzada, para abrir processos a partir de qualquer pretexto – podem ser parcerias público-privadas, cartões de crédito oficiais, compra de livros, escrever em blogues – e passar a gerir de acordo com esconsas motivações e crípticas agendas os calendários dos actos processuais, a recolha de informação sobre a privacidade dos suspeitos e arguidos, e a sua divulgação oficial ou criminosa ao público.

Felizmente, podemos recorrer ao bom do Luís Pedro para termos umas luzes sobre tamanho fenómeno do Entroncamento. É que este bravo, capaz de se chegar à frente para resgatar a honra de um antigo patrono, move-se pela simpatia e não pela capacidade de abstracção. Assim, ele simpatiza com o Mexia. Porque o Mexia começou por simpatizar com ele ao lhe passar um cheque, vamos arriscar. Estas circunstâncias financeiras favoráveis terão então criado as também favoráveis condições cognitivas para que o co-autor da obra A Energia da Amazónia ficasse disponível para avaliar os imbróglios judiciais do ilustre cidadão na berlinda. Excelente casamento de interesses, digo-o sem bosão de cinismo, pois todos não seremos de mais para denunciar a menor violação do Estado de direito (seguindo o perspicaz remoque de Lucas 16:10). E calhando estar em causa as decisões de um juiz que já cagou d’alto na presunção de inocência de um cidadão sob a sua responsabilidade constitucional e deontológica, assim contribuindo de forma supinamente caluniosa para a sua condenação pública e quiçá condenação institucional, o mesmo juiz que lançou em público ameaças contra outros juízes e que em público lançou a suspeita de que todo o aparelho de Justiça conspirou para o privar de continuar a perseguir um ex-primeiro-ministro cuja culpabilidade não lhe oferece a menor dúvida, diria que não é concebível maior dano aos pilares civilizacionais em que queremos viver do que não poder confiar na Justiça. Todas as suspeitas e todas as condenações transitadas em julgado de corrupção que envolvam políticos, banqueiros e empresários, a soma das que a cornadura se consiga lembrar, não passam de uma suave brisa primaveril comparadas com o terramoto comunitário de termos um juiz justiceiro que se sabe inimputável e impunível. Porque se assim é – e é – resulta que a perversão constitucional está entranhada da cúpula à base.

O acrescento do Daniel Oliveira acaba por ser a metade da senha secreta que nos faltava para entrar nos meandros desta diversidade radicalmente assimétrica de pesos e medidas que as estrelas mediáticas, políticos e comentadores, nos servem desvairadamente. Porque é regular e começou muito antes de haver acusação, tanto no Eixo do Mal como noutros poisos onde deixa o seu dinâmico pensamento, a cena em que o Sr. Oliveira declara a sua convicção a respeito de termos um super-corrupto à espera de condenação que dá pelo nome de José Sócrates. Pedindo ajuda às citáveis palavras do Luís Pedro Nunes, eis que Sócrates mereceu e merece arder em auto-de-fé opinativo “sendo que não há uma acusação, é apenas arguido, não se sabe se vai a julgamento e, se for a julgamento, não sabe se vai ser condenado.” Podemos fantasiar que ambos, o Nunes e o Oliveira, simpatizam com o Mexia e não gramam o Sócrates? Óbvia e obviamente. Mas será por causa do reles dinheiro, que um deu e o outro não? Que nada, pá. Foda-se, pá. O que se passa é que não existem militantes do PS, ou que fossem amigos do tal super-corrupto, com jornais e estações de televisão. Não há, azarex, o que depois leva quem queira trabalhar honestamente na indústria da calúnia a ter de usar com muita parcimónia a sua decência. Pois esta, como qualquer outro recurso precioso, não dá para tudo. Há que fazer escolhas quando se têm bocas em casa para alimentar ou programas de férias para realizar. É a vida, mano, o romantismo não puxa carroça.

Mexia ou Sócrates, qual deles merece ser tratado como se ainda tivéssemos de esperar pela chatice dos julgamentos e por aquela chachada toda dos advogados e suas tangas? Daniel Oliveira e Luís Pedro Nunes, sem qualquer estranheza, já escolheram faz tempo.

Vamos lá a saber

O caso da morte de Ihor Homenyuk por suspeita de homicídio qualificado devido a agressões de três inspectores do SEF justifica a demissão de Eduardo Cabrita 9 meses depois? E se sim, como justificar a posição do primeiro-ministro para decidir ou aceitar tal sem o próprio igualmente apresentar a sua demissão?

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Estado da direita: a chungaria tomou conta da barraca

Ljubomir

«[para o Chicão] Se voltares a falar de um partido vou ter de te pedir para saíres. Não há partidos, querido. Estamos aqui humanamente, acredita. Por favor, respeita-nos como cidadãos. Votámos na Assembleia, é nossa, e nós estamos com fome, fracos, por isso não conseguimos ouvir falar dos partidos. É que ninguém está a apoiar-nos. Eu nem sei de que partido tu és, sinceramente, porque já estou a ver-te trocado.»

Ventura

«A nível nacional ouvi o dr. Rui Rio dizer: comigo o Chega não entrará no Governo. Então, se o Chega não entrará no Governo do dr. Rui Rio - eu quero dizer isto aqui, deixar muito claro - o dr. Rui Rio nunca será primeiro-ministro de Portugal, nunca.»

Pedro Mexia, homem da cultura mas não do cultivo

«Há uns meses, consultando o arquivo Eduardo Lourenço para organizar uma antologia temática que sairá em breve, fiquei impressionado com “a vida do espírito” que aqueles papéis documentam. Uma divisão inteira da Biblioteca Nacional com centenas de pastas de correspondência, fotografias, fotocópias, recortes de imprensa, manuscritos e dactiloscritos, ínfimas agendas totalmente preenchidas de anotações, lembretes, aforismos, esboços, diários, pequenos ensaios. Um espólio atento, interrogativo, inquieto, a gaveta igual à obra, a obra igual ao homem.

O Prof. Eduardo Lourenço ensinou-nos o que ficou nos livros, o que fica dos livros. Mas com o seu exemplo aprendemos que é possível que a inteligência não degrade as virtudes antigas, como aquela comum decência que, segundo Camus, vem antes de qualquer ideia abstracta, por mais que essas ideias nos confortem e nos transformem.»


Pedro Mexia

🎓

Transmite imediata simpatia, ou então ausência de antipatia. Os seus modos contidos, sóbrios, estão em perfeita harmonia com o berço aristocrático e o estatuto de intelectual. E como intelectual tímido, armado em dandy que não aceita armar-se em dandy, move-se nos corredores alcatifados da elite ocupando diversos cargos de alto prestígio; de que o menor não é ser o actual consultor para a cultura da Casa Civil do Presidência da República. Trata-se, pois, de um rapaz que não deixará ninguém ficar mal se o levarmos a uma reunião de família ou aparecermos ao seu lado num foyer, numa vernissage ou numa sessão da Cinemateca.

Embora também tenha molhado os pés na política partidária em regime salta-pocinhas (por exemplo, ajudou em 2019 a Dra. Assunção Cristas a terminar mais cedo a sua carreira política), ninguém saberia quem era o fulano para além dos maluquinhos que lêem, vêem e ouvem as secções de cultura na comunicação social não fora a sua presença no elenco do “Governo Sombra”. Foi lá parar depois de recusar continuar no “Eixo do Mal”, para onde tinha ido a pensar que a função consistia só em mostrar erudição avulsa e em doses homeopáticas. Assim que percebeu que se esperava dele trabalho político e energias bélicas para fazer frente à esquerdalha, saltou logo fora. Já o “Governo Sombra” tinha o irresistível apelo de não ter essa exigência, antes prometendo ser uma infantilóide sátira aos programas de comentário político para públicos que queriam rir com o famoso Ricardo fedorento. “É mesmo aqui que eu quero estar, é disto que a minha carreira precisa, risota e vedetismo para polvilhar por cima do árduo e solitário caminho de subir aos cumes da “vida do espírito” e daí contemplar os abismos da existência”, pensou o ensaísta e poeta Mexia quando lhe disseram que havia bom dinheiro para lhe pagar e tudo.

Feita a introdução, vamos às interrogações. Como é que uma inteligência brilhante, a sua, que consegue relacionar as “virtudes antigas” (sejam elas quais forem, que há para todos os gostos) com a “comum decência” em Camus (seja lá o que isso for, desconfiando que nunca o apanharemos a explanar), aceita passar por hipócrita no acto mesmo de homenagear quem alega ser seu mestre exemplar? É que este melro não é apenas um leitor de livros difíceis (difíceis para o vulgo ignaro, claro) escritos por antiquíssimos gregos e romanos, ele também se licenciou em Direito. E se há algo que podemos legitimamente acalentar a respeito dessa gente que passa anos a estudar as leis é que, no final do processo, o diploma signifique que conseguiram adquirir algumas luzes, por mais fracas e à beira de se apagar em que se encontrem, acerca do que seja um Estado de direito democrático. Será pedir muito?

Ora, o que Mexia faz no “Governo Sombra” é algo que jamais Eduardo Lourenço aceitaria fazer, podemos começar por concordar. Isto porque não há memória de alguma vez se ter visto Eduardo Lourenço a ter em público um qualquer comportamento, dito ou gesto que se possa associar ao conceito de indecência na sua elástica semântica. Acontece que não estamos perante um caso único, uma ave rara, pois seria possível reunir milhares, até milhões, de outros portugueses, cidadãos, seres humanos, que igualmente passaram os seus dias comportando-se decentemente e esperando que os outros lhes correspondessem com uma comum decência que não precisa da caução de Camus nem de uma genealogia da moral.

Sim, pá, despachar eulogias faz-se na boa mas tu sabes, e melhor do que nós, que o espantado e trágico Eduardo Lourenço jamais teria dito isto que se segue, nem que lhe prometessem fortunas, tronos e impérios:

«Acho que, a partir do momento em que elas estão no espaço público [as escutas a Sócrates], parece estranho fingir que elas não estão. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar escutas. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo estão no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é... Qualquer pessoa que a ouça, não é? Quando ouves aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo dele é que não fica com aquela convicção.»

Sabes, não sabes? Ou estarás a precisar de reler o Camus, desta vez com um explicador ao lado?

Variações em mete dó maior

Começa a semana com isto

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James Fadiman é, sem margem para dúvidas, o maior bacano presentemente de visita a este planeta. Já aqui o trouxe e volto à carga porque esta conversa com um ilustre anónimo nos dá a ver a sua capacidade de atenção e o cuidado com que alimenta a auto-estima de um aprendiz em terapias psicadélicas.

A sua humildade, generosidade, inteligência, experiência, sapiência, humor, abertura à alteridade, são uma trip para as melhores partes do que somos.

A oração, que acontece logo ao princípio, é imperdível e revela o essencial da sua pessoa.

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Do contágio

Ninguém estava preocupado com o Congresso do PCP por questões relativas à pandemia. O verdadeiro problema, como as palavras de Jerónimo de Sousa consagraram no discurso de encerramento, é outro: o PCP deixou de ser sectário. Isto é um problema para a direita, por estabelecer um polo para uma governação à esquerda com o PS que deixou de ser apenas reactivo, como em 2015, e que passa a ser estratégico, no que pode ser visto como autenticamente revolucionário para a identidade da Soeiro Pereira Gomes; e é um problema para a esquerda, porque deixa o BE isolado no seu calculismo megalómano que não augura noites eleitorais sorridentes, a avaliar pela reacção que a recusa em chegar a acordo com o PS para o OE do próximo ano gerou entre os seus apoiantes (a maior parte do eleitorado do BE veio do PS, não do PCP – e um ex-comunista dá com muito maior facilidade o seu voto ao PS do que ao BE, e isso nunca irá mudar).

À série


Baron noir_Eric Benzekri-Jean-Baptiste Delafon (1ª e 2ª temporadas)_2016-18-20

Já passou na RTP e encontra-se na HBO. Está cheia de méritos. E, sendo o que parece, não parece o que é.

Começando pelos defeitos, há demasiada vaidade dos autores. Eles caem no exibicionismo de quererem obsessivamente mostrarem-se mestres da táctica política, levando a que haja diálogos excessivos na exposição narrativa e na extensão temporal das cenas, por um lado, e ainda diálogos que empapam algumas personagens numa mistela onde elas perdem distinção por se fazerem iguais câmaras de eco da voz dos argumentistas, por outro. O resultado pode ser frequentemente um estado de confusão para o espectador médio, por não conseguirmos assimilar tanta informação de rajada.

E saltando logo para as virtudes, dizer que estamos perante mais um curso de política através de uma excelente obra de ficção televisiva, o qual complementa na perfeição o que já terá sido aprendido com outras séries, de The West Wing ao Borgen, passando pelo House of Cards. O conceito simula ser sobre o lado obscuro, secreto, maquiavélico e até ilegal da práxis política onde quer que ocorra – daí o título, o qual em mercados de língua inglesa passou a Republican Gangsters. Só que essa sugestão não segue os caminhos patológicos e criminosos do casal Underwood, seres demoníacos, antes nos dá a ver a realista “realidade da política”.

A inventada realidade do Baron Noir é o que há de mais parecido com a realidade que preenche o fluxo noticioso real, para nossa surpresa e sentimento de descoberta, de reconhecimento. Tirando a mudança de alguns nomes, as linhas narrativas são exactos análogos de acontecimentos, personalidades, entidades e situações relativas à actualidade política francesa. A Europa também fica muito bem no retrato, aparecendo como cenário de fundo que, pela raridade do seu tratamento ficcionado, ganha um precioso valor pedagógico para ajudar públicos incultos a iniciarem-se na literacia política europeia acerca das suas instituições e dos seus agentes. Este olhar transnacional, unificado pela existência política de uma Europa enquanto projecto comum (também motivo de ódio de outros), faz-nos muita falta em ordem a finalmente assumirmos, para o bem e para o mal, sermos cidadãos europeus com um especial poder cívico e político daí decorrente. Como ilustração anedótica desta dimensão da série, assinale-se que até o nosso Bloco de Esquerda tem direito a uma piadola enrolada com o Podemos. Donde, a colagem às histórias da História é que fica como a verdadeira chave interpretativa para o onírico mundo onde os autores são deuses e as personagens seres trágicos, condenadas a elipses e epílogos para cumprimento de contratos e calendários.

O que nos é dado ver, com uma qualidade de produção e realização que nos garante logo de entrada confiança e conforto diegéticos, diz respeito à fatal ambiguidade do exercício do poder político, ambiguidade tão mais lancinante e dilacerante quão mais elevados forem os ideais fonte da identidade. Assim, a personagem Philippe Rickwaert leva-nos para um espaço de intimidade onde convivemos com um genuíno socialista a ter de transgredir face à lei para manter vivo o sonho de poder cumprir a sua missão: unir a esquerda contra a extrema-direita, primeiro, e ter a esquerda a governar à esquerda, por fim. O arco narrativo, que parece ter ficado pendurado num final de terceira temporada que não esgotou o potencial da personagem, conduz Rickwaert para o confronto com o populismo do tempo, saindo vencedor e herói da racionalidade construtiva contra a impulsividade destruidora. Ligando as extremidades, aquele que ao começo parecia ser apenas um manipulador sem escrúpulos e um monstro egóico acaba como arquitecto, engenheiro e mestre-de-obras da arte de sermos cidade.

Há muitos paralelos com a política portuguesa, do presente e do passado. Do passado no presente. E ainda do presente ameaçado pelo futuro. Quem for de esquerda, especialmente os de cepa romântica, vai desfrutar com mais intensidade e largueza, quiçá com notas de nostalgia, das mãos sujas de liberdade do inesquecível Philippe Rickwaert – vindo à luz no corpo e instinto do magnífico Kad Merad.