À série


Baron noir_Eric Benzekri-Jean-Baptiste Delafon (1ª e 2ª temporadas)_2016-18-20

Já passou na RTP e encontra-se na HBO. Está cheia de méritos. E, sendo o que parece, não parece o que é.

Começando pelos defeitos, há demasiada vaidade dos autores. Eles caem no exibicionismo de quererem obsessivamente mostrarem-se mestres da táctica política, levando a que haja diálogos excessivos na exposição narrativa e na extensão temporal das cenas, por um lado, e ainda diálogos que empapam algumas personagens numa mistela onde elas perdem distinção por se fazerem iguais câmaras de eco da voz dos argumentistas, por outro. O resultado pode ser frequentemente um estado de confusão para o espectador médio, por não conseguirmos assimilar tanta informação de rajada.

E saltando logo para as virtudes, dizer que estamos perante mais um curso de política através de uma excelente obra de ficção televisiva, o qual complementa na perfeição o que já terá sido aprendido com outras séries, de The West Wing ao Borgen, passando pelo House of Cards. O conceito simula ser sobre o lado obscuro, secreto, maquiavélico e até ilegal da práxis política onde quer que ocorra – daí o título, o qual em mercados de língua inglesa passou a Republican Gangsters. Só que essa sugestão não segue os caminhos patológicos e criminosos do casal Underwood, seres demoníacos, antes nos dá a ver a realista “realidade da política”.

A inventada realidade do Baron Noir é o que há de mais parecido com a realidade que preenche o fluxo noticioso real, para nossa surpresa e sentimento de descoberta, de reconhecimento. Tirando a mudança de alguns nomes, as linhas narrativas são exactos análogos de acontecimentos, personalidades, entidades e situações relativas à actualidade política francesa. A Europa também fica muito bem no retrato, aparecendo como cenário de fundo que, pela raridade do seu tratamento ficcionado, ganha um precioso valor pedagógico para ajudar públicos incultos a iniciarem-se na literacia política europeia acerca das suas instituições e dos seus agentes. Este olhar transnacional, unificado pela existência política de uma Europa enquanto projecto comum (também motivo de ódio de outros), faz-nos muita falta em ordem a finalmente assumirmos, para o bem e para o mal, sermos cidadãos europeus com um especial poder cívico e político daí decorrente. Como ilustração anedótica desta dimensão da série, assinale-se que até o nosso Bloco de Esquerda tem direito a uma piadola enrolada com o Podemos. Donde, a colagem às histórias da História é que fica como a verdadeira chave interpretativa para o onírico mundo onde os autores são deuses e as personagens seres trágicos, condenadas a elipses e epílogos para cumprimento de contratos e calendários.

O que nos é dado ver, com uma qualidade de produção e realização que nos garante logo de entrada confiança e conforto diegéticos, diz respeito à fatal ambiguidade do exercício do poder político, ambiguidade tão mais lancinante e dilacerante quão mais elevados forem os ideais fonte da identidade. Assim, a personagem Philippe Rickwaert leva-nos para um espaço de intimidade onde convivemos com um genuíno socialista a ter de transgredir face à lei para manter vivo o sonho de poder cumprir a sua missão: unir a esquerda contra a extrema-direita, primeiro, e ter a esquerda a governar à esquerda, por fim. O arco narrativo, que parece ter ficado pendurado num final de terceira temporada que não esgotou o potencial da personagem, conduz Rickwaert para o confronto com o populismo do tempo, saindo vencedor e herói da racionalidade construtiva contra a impulsividade destruidora. Ligando as extremidades, aquele que ao começo parecia ser apenas um manipulador sem escrúpulos e um monstro egóico acaba como arquitecto, engenheiro e mestre-de-obras da arte de sermos cidade.

Há muitos paralelos com a política portuguesa, do presente e do passado. Do passado no presente. E ainda do presente ameaçado pelo futuro. Quem for de esquerda, especialmente os de cepa romântica, vai desfrutar com mais intensidade e largueza, quiçá com notas de nostalgia, das mãos sujas de liberdade do inesquecível Philippe Rickwaert – vindo à luz no corpo e instinto do magnífico Kad Merad.

3 thoughts on “À série”

  1. Valupi quer (des)conversa? Então, lá vai. Começando e acabando pelos defeitos dos seus arrazoados politico-filosóficos, porque qualidades têm poucas, proponho o seguinte exercício: peguemos no 2 parágrafo deste post, troquemos “autores” e “argumentistas” por “Valupi”, “diálogos” por “monólogos”, “personagens” por “teorias” e, finalmente, “informação” por “treta”. Fica fiel, não?

  2. Belíssima série que retrata os principais personagens da actual politica francesa e das suas entroncadas jogadas e tácticas políticas para a conquista e exercício do poder. Só espero que o actual presidente Macron não venha a ter um final de carreira política idêntico ao da última Presidente da República da última série.

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