Todos os artigos de Luis Rainha

Migrantes

Antigamente viviam na província. Em Almendra, no Mazouco, em Freixo-de-Espada-à-Cinta. Onde batia o sol numa encosta, onde houvesse um pombal num outeiro. Desenhavam vertigens pelo céu, e catavam sementes no restolho, e bichos nas aradas.
Hoje habitam as praças da cidade, que acharam devolutas. E logradouros que os arquitectos riscam, quando encerram os projectos à pressa. Nos Poveiros já cobriram o sol. Na Batalha espanejam-se nos fios, e ameaçam de gripe os transeuntes.
As viúvas de coração instável são-lhes a divina providência. O seu maná é o pão que restou da semana e uns saquitos de milho. Um poeta chamou-lhes parasitas.
A fama deste estado social já chegou ao mar alto e atraiu as gaivotas. Ralham-me toda a tarde no telhado, cortejam-se ao serão, e andam num rodopio o dia todo, a engordar a criação.
Não sei que hei-de fazer. Ou entrar nos mercados de armamento, ou voltar à choupana em Carrazeda.

Jorge Carvalheira

Estação terminal [actualização]

O nosso TT achou-o um texto à Valupi. Não se podendo negá-lo, tem de reconhecer-se-lhe grande classe. Apareceu num comentário ao post anterior e foi modestamente assinado por «Zé das Couves». Merece estar aqui. Título da minha responsabilidade.

Não existe nada mais triste do que uma estação terminal. A beleza de uma linha férrea é a sua continuidade, o padrão interminável, madeira sim, madeira não, a estender-se para um lugar que os olhos não vêem mas o coração adivinha. Fico de pé, junto ao carril, e imagino aquela força que passa sem se deter, o delicioso impacto do vento que me empurra para trás sem me tirar do lugar; o som, depois o som perdendo-se enquanto galga os espaço de uma descoberta constante, lado a lado com o adolescente que nos olha do banco de trás de um carro. Uma revista aberta, um sono em recuperação, um olhar para o horizonte sem sincronia possível com o pensamento.
Uma estação terminal é um lugar triste. Uma parede que é um nada. Há-de haver um. Há-de haver um dia um comboio que, com a sua pesada vontade, não se deterá. Há sempre um. Por cada comboio que passou vem sempre outro a caminho.

«Zé das Couves»

Actualização
Pois é. Indirectamente alertado, fui dar com este texto no blogue A Origem do Amor de Miguel Tomar Nogueira. Estamos agora informados do seu autor. Sirva a oportunidade para sublinhar de novo a qualidade do texto. E para se nos permitir guardá-lo, já agora, também aqui
.

Passeio bloguítico

Não é que eu tenha – e, a meu pesar, não tenho – tempo de mais para estas coisas. Mas acontece-me. Pego em mim, e vou por essa bloguítica portuguesa afora, debico aqui, debico ali. Há sítios de passagem já crónica, diária, maníaca. E há outros, esses ao calhas, fortuitos, para onde o vento soprar. Não vou revelar quais uns e quais outros. Este não é um blogue confessional (digo-o, repito-o, mas também já começo a duvidar).

O passeio de hoje leva-me à Floresta do Sul. É o blogue de António Manuel Venda, jornalista (é director da revista Pessoal, onde tem a rubrica «Os dias do blogue») e ficcionista (romance e conto, volume mais recente «O Amor Por Entre os Dedos»). Desvio ameno e instrutivo, este. Fico a saber muita coisa: que o anterior ministro das finanças amou sempre a legalidade, que ainda há confiança em Scolari (against all odds, e eles são tantos), que Salazar, e isto nem há muito tempo, entrevistou um Vermelho, enfim, que nem o George, o nosso, o tal, está livre de se ecoar a si mesmo.

Depois, passo pelos Canhões de Navarone, criação de Rui Ângelo Araújo, que até há pouco dirigiu essa agora para sempre chorada revista Periférica. Ali prossegue o Rui a sua sina de despertar-nos, sempre sério, sempre divertido, mas abandonou as railleries com que nos falava, no papel da revista. Cada médium o seu tom? Quem saberá dizê-lo? Está, de resto, na melhor companhia, a de J. Rentes de Carvalho, um dos maiores estilistas vivos do nosso idioma, segredo que não é de hoje, e não serei eu a revelá-lo. Passem por ali e verifiquem.

Os links? Para quê! Eles estão aqui mesmo à direita. Já estavam, aliás. Você é que, apressado, não reparou.

Bestas de apocalipse

O viajante ouve dizer que o fogo começou na Póvoa e já comeu metade da serra do Feital. Ouvem-se roncar uns aviões por trás dos cerros das Terras Grandes, andam a combater o incêndio, mas o fumo já se espalhou no céu inteiro. E ele está tão descrente destes combates perdidos, e tão descoroçoado do calor, que nem quer ouvir falar do fogo. Mergulha na sombra do café, decidido a não voltar à rua enquanto o pior não passar. Matou a sede, aproveitou para almoçar, e só depois da partida dos barulhentos pedreiros é que voltou a si. O hospedeiro, um homem de bigodes e de poucas palavras, anda azafamado atrás do seu balcão. O viajante quer pagar a conta.
– Arderam quando, as Terras Grandes?
O homem dos bigodes encara o viajante e fica a concentrar-se na memória. Levanta a mão como quem vai responder, mas finalmente abre uma gaveta e pesca lá de dentro um livreco sebento. Descobre nele uma página e estende-a à frente do viajante.
– Está tudo aqui! O senhor sabe ler?
O viajante, que esperava tudo menos esta resposta, fica encantado com a oferta e volta a sentar-se à mesa. O que tem à sua frente é uma crónica do incêndio, num velho almanaque regional.
«A primeira vez terá sido por culpa dum brasileiro, duma terra qualquer. Ninguém o conhecia, nem soube dar notícia dele, mas a voz correu à solta. O homem chegou aí comido de saudades, peregrinou por terras e caminhos, e acabou um dia a assar sardinhas à beira do giestal, ali nos outeiros da quinta do Forcas. Era o dia 20 de Setembro de 1982 e a tarde estava soalheira. Mas à hora a que o vento se levantou do sul e se pôs a trotar sobre o espinhaço dos montes, o inepto cozinheiro imaginou-se nas vastidões do Mato Grosso e perdeu a mão às labaredas, ateadas ali no meio da rodeira.
«No que restou do dia, e durante a noite inteira, viveu-se uma hecatombe. Os montes estavam saturados de carga térmica, se não é mais adequado dizer que estavam cobertos de arbustos e ramagens, de troncos abatidos e matorral sequíssimo, o desleixo e o abandono já por então faziam norma. Ora tudo isso ardia como paus de fósforo, era o final do verão.
«O fogo correu altíssimo pelos giestais das Poisadas e os matos de Castaíde, entrou a galopar nos morros da quinta dos Cavalos e nos pinheirais de Golfar, atacou, era já noite, os carvalhais do Zaragata e da quinta do Boco, sitiou bocas de minas e valadões do volfrâmio nos cerros do Montrangão, varreu restolhos velhos na Perqueixada e restos de matas no Vale Ferreiro, lambeu pela madrugada os junçais do Safrial e da Laja da Seara, abrasou num ai os pinheirais dos Crespos, galgou o ribeiro das Águas-Vivas e avançou para a Sobreposta, e só veio a morrer no final da manhã, aos pés do castro de Casteição, porque o malvado vento quis descansar.
«Cegas de pânico, as lebres tropeçavam nos lagartos azuis que abriam bocas desesperadas e fugiam alucinados pelas rodeiras do Ribeiro de Pau. E os corvos, num voo sem norte, largavam pragas pelo céu negro, ao chocar em carvões incandescentes, por entre a poalha de fuligens que lhes queimava as asas e os forçava a cerrar os olhos.Os caminhos estavam cheios do silvar agudo das cobras, ouvia-se a lamúria dos ratos do campo que protestavam contra a insânia do mundo, e os vultos dos homens impotentes tossiam, de enxada ao ombro, afogados na fumarada, por entre o estralejar dos gafanhotos que rebentavam como panchões da China. Os uivos aflitos da carne da terra chegavam à estrada da Castanheira, e o ronco surdo das combustões desenfreadas enchia de pavor todo o vale. Acabaram em cinzas quinze quilómetros de matagal entre a ribeira Teja e a estrada da Meda, nunca assim se vira tão desenfreada a besta do apocalipse.
«A réplica da hecatombe havia de chegar oito anos depois, em inverso sentido. Por razões tão criminosas como fúteis, um marginal paisano resolveu incendiar o pinhal dum vizinho, no sítio das Raposas, lá para a Castelhana, ao tempo não havia ainda o grande charco da barragem cobrindo as várzeas. Era meia noite e o povo andava batendo os matos incendiados com giestas negrais e pazadas de areia, quando entrou a soprar um vento ligeiro que subia do Douro. O fogo aproveitou uns restos de seara para escapar ao castigo e galgar a ribeira, alimentou-se nos matos rasteiros que haviam tomado o lugar dos pinheirais antigos, e na tarde seguinte acabava a morrer nas colinas da quinta do Forcas, no mesmo exacto ponto em que o brasileiro andara certo dia assando as sardinhas. Desta vez havia de cruzar a estrada da Meda, e por lá andou vitimando as matas que do alto das Sete Pipas se debruçam para a terra quente e os lameiros que vertem para a corda do Senhor da Pedra. Veio até a chamuscar as barbas inquietas dos castanheiros de Soito Maior e da Aldeia de Santo Inácio.
«Das sementes que tinham escapado ao incêndio primeiro, milhares de plantas haviam germinado, lutavam por viver entre tojos e matos, e eram a salvação do monte. Mas nem uma resistiu à renovada selvajaria. A paisagem mudou, e agora nem sete gerações bastarão para que volte nela a frescura das sombras antigas, as flautas de Pã do vento nas agulhas, o verde longínquo dos pinheirais da infância.
«O mundo tornou-se outro, se não é o mesmo que morrendo vai. Pasmam, confusos, os aldeãos a quem se paga para deixarem abandonada a terra. Pasmam, desertos, os campos, saudosos do trilhar dos gados e do rude gesto bíblico dos homens. Talvez possam os deuses evitar, pasmando assim os homens, que outras bestas apocalípticas venham um dia destes por aí. Mas isso ninguém o pode garantir, passado que está o tempo dos milagres.»
O viajante fica impressionado como relato, não esperava tanto quando fez a pergunta. Desfaz-se em agradecimentos ao estalajadeiro e decide referescar-se com mais uma cerveja, enquanto saboreia uma nova leitura. O homem acaba a oferecer-lhe o almanaque. E, quando o viajante se despede, parece até que vai reconciliado com o mundo.

Jorge Carvalheira

Parábola com bandeira

Era uma vez um país que tinha uma bandeira e um viajante que viajava nele. No país. Um dia o viajante passou numa estrada e encontrou a bandeira do país a ondular, no coruto dum pinheiro. No meio dum pinhal, ao lado duma aldeia.

O viajante sabia que andava a viajar num país de marinheiros, pois conhecia a história e já ouvira dizer que se haviam feito barcos dos pinheirais do país. Que atravessaram o mar, e fizeram conquistas, e plantaram padrões de pedra nas dunas longínquas. Para tornar grande o país, que era pequeno e pobre.

O viajante, cultor das primeiras causas, lembrou-se disso tudo, quando a bandeira, a ondular ali no pinheiral, o surpreendeu. E ou bem que havia naquela aldeia um marinheiro velho, saudoso dos antigos padrões que deixara nas dunas, e dos feitos antigos… ou era um novo marinheiro, orgulhoso da história, que também quisera agora plantar padrões. A alguma conquista nova, do país pequeno e pobre. Seria um padrão moderno, a bandeira a ondular, concluiu o viajante.

Os meses passaram, e também o viajante muitas vezes passou. Na estrada, ao lado duma aldeia, onde a bandeira continuava a ondular. Primeiro perdeu as cores, que o tempo foi comendo. Depois caíram-lhe as pontas, mordidas pelo vento. Por fim ficou um trapo, no coruto dum pinheiro, cansada de ondular.

Os antigos padrões, comidos da maresia, esfarelaram-se nas dunas. Este, que era moderno, picaram-no as gralhas. Destinos semelhantes, a feitos tão parecidos.

Jorge Carvalheira

Litígios e litigâncias

Há ocasiões em que a gente lê e não acredita. Volta a ler, e volta a não acreditar. E depois pasma.
Aconteceu-me há dias, quando levei para casa o Couves e Alforrecas, de João Pedro George. Decidido a tirar a limpo umas dúvidas íntimas. Tenho na literatura um prado de estimação, onde rumino, às vezes, conhecimento e prazeres. Insubstituíveis, que o verão já passou por mim. Adiante.
Havia uma senhora que vende muitos livros, havia um crítico a explicar porquê, e daí nascera uma providência cautelar, de efeitos, finalmente, conhecidos. Nenhuns. Assim à vista desarmada. Para aumentar esta perplexidade de leitor, aparecera depois, no fio do horizonte, uma outra voz de crítico, a voz entre as mais vozes, por uma vez directa e terminante. O crítico inicial era um débil mental.
Só havia que levar para casa o livrinho (50 páginas) com o seu lastro de acções feias. Uma delas era querer fazer dinheiro à custa da propriedade industrial alheia. Nem mais.
Ora o que nele se lê é um exercício de legítima crítica, feito por autor com obra no meio. E que já apelidaram de bulldozer, mas se comporta aqui do modo mais urbano e civil. O seu encontrão às normas será a trabalheira que tudo aquilo deu. É aquela minúcia de formiga, a que nem todos estão para se entregar. Claro que não deixa pedra sobre pedra, do “edifício literário” da senhora. Que eu não cito em voz alta, para não fazer dinheiro.
O assunto ficou-me, em parte, resolvido. Autora e editor saberão que é livre o negócio do gato, se tão esforçadamente o vão mercadejando. Mas não gostam de ver alguém a sublinhar-nos, a nós que pagamos o produto, que uma boa lebre é coisa distinta. E avançou a providência cautelar.
Em que país vivemos?
Então é com faenas tais que se atulha um tribunal e se ocupa o tempo dum juiz?
Então entretém-se o apertado universo das nossas cabeças pensantes, durante semanas, com jogos de sombras?
Quem é que estes senhores tomam por parvos?
Ou quererão amedrontar alguém?

Jorge Carvalheira

Longe de Manaus, o prémio

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Francisco José Viegas anda há bem quinze anos a escrever romances. Alguns foram do melhor que, no ano deles, se escreveu. Agora, finalmente, surge o prémio, o reconhecimento (modesto, eu sei) dum autor que a crítica mainstream sempre olhou de alto. Porque ele nunca alinhou em snobismos? Vá-se lá saber. E nem interessa agora muito.

Longe de Manaus acaba de receber o grande prémio da APE. Acerca do romance escrevi, a 20.08.2005, um apontamento no Expresso. Aqui vai o final.

«No mundo de Viegas, há a ambiência de tranquilas épocas. Isto condiz com a imagem insistente de Portugal nos seus romances, sempre muito insular e interior norte, ou pacatamente portuense, banhando num “azedume triste, português”.

«O contraste com o buliçoso, cheiroso, sonoro Brasil é quase pungente, acentuado pela gramática e pelo boleio frásico brasileiros em que as narrações além-oceano saem redigidas. Depois de experiências de Almeida Faria e de Agualusa, temos agora um romance em que se revezam, extensamente, as duas variedades do idioma. E é facto: Viegas domina a sintaxe e a fraseologia brasileiras, ao ponto de usar giros (‘assistindo televisão’, ‘a faculdade lhe espera’) que, fraternamente, os gramáticos desaconselham.

«Esse vivo alerta linguístico produz excelentes diálogos. Naturais, chistosos, percucientes. Admire-se a tranquila cena do pequeno-almoço de Ramos [investigador da polícia portuense], num hotel de Manaus, com o colega local Osmar Santos. É um topo de elegância e virtuosismo. É também, para o inspector português, o apaziguamente merecido, para mais em pleno Brasil, essa “galeria de malandros simpáticos com quem não queria viver para não lhes aturar a alegria excessiva”. Jaime Ramos dirá mais tarde, já em Amarante: “Tenho uma forma muito estranha de ganhar a vida”. Nisso já havíamos reparado.»

TUGAS!

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Na Guiné, em 73, nós, a eles, chamávamos-lhes turras. Era um modo abreviado de lhes chamarmos terroristas. Sorrateiro. E às vezes tímido. Porque não acreditávamos que o fossem. Sentíamos que o não eram. Sentíamos que eles eram, como nós, marionetas duma feira. Juntos todos num grande cul-de-sac. A esbracejar.

A certo ponto começaram eles a chamar-nos tugas. Contrapondo, abreviando portugas. Havia para eles portugueses e portugas. Os portugas eram a tropa portuguesa, que andava ali a chateá-los. E que eles aterrorizavam. E massacravam. Com artilharia que nós não tínhamos. Com armamento melhor que o nosso. Quando chegavam os aviões de alerta ( única coisa que ainda ali mexia) recebiam-nos com mísseis de infra-vermelhos, que levavam ao ombro. Calavam-se durante um quarto de hora e chamavam-nos tugas com escárnio, porque tinham perdido o respeito por nós.

Não sei quem foi o português que pôs este nome à selecção nacional, esse elixir de delírios. Não sei se é o mesmo que mandou pôr as bandeiras na guilhotina das janelas. Sei que é um terrorista que também perdeu o respeito por nós. E por si, o que não seria grave. Sei que é um onagro mentecapto, que se diverte a gozar com coisas sérias. Sei que nós aceitamos, alguns babando-se de tanto gozo.

Cá por mim, como dizia o Campos, “De um modo completo, de um modo total, de um modo integral: MERDA!”.

Jorge Carvalheira

Respeitemos o código

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Dan Brown é um honesto e esforçado rapaz. É claro que teve sorte, pois não há fórmulas para sucessos da grandeza deste, mas o seu livro vem recordar-nos duas verdades que importa divulgar em Portugal:

a) O capitalismo é bom, o capitalismo é culto: permite enriquecer a escrever livros. Esse facto, servido como está de desvairados exemplos, incluindo casos nacionais, deveria moldar os programas de aprendizagem da Língua logo a partir do Ensino Básico.

b) As religiões estão a saque. Depois de milhares de anos a saquearem-se umas às outras, as religiões são agora as vítimas do laicismo. Qualquer espertalhão que mande para o ar uma acusação estilosa contra as religiões, ou se divirta a imaginar versões alternativas das suas histórias, tem a certeza de pôr a funcionar uma caixa-de-ressonância que lhe faz o trabalho de promoção. Mais eficaz do que o selo de qualidade da Rainha e sem gastar um tostão.

Para uma reflexão descontraída e saudável do fenómeno, leia-se esta investigadora de Cultura Pop.

Estimada e leda MUSA

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No Verão de 2003, três alfacinhas de férias na Zambujeira do Mar, cercados por fogos de dimensão histórica, incendiaram-se num projecto: organizar, editar e publicar, com distribuição internacional, um livro exclusivamente só com peças de design gráfico de artistas portugueses. Na Primavera de 2006, conseguiram-no.

MUSABOOK foi o nome escolhido; e desse projecto nasceram outras actividades preparatórias, complementares e divergentes, reunidas sob a marca Musa. A editora é a IDN, de Hong-Kong, uma das maiores e mais reputadas editoras mundiais em design gráfico.

O feito é tanto de realçar quanto em Portugal, como indulgente e auto-intitulado “país de poetas”, não existe cultura visual. Essa iliteracia estética está patente na feia paisagem urbana, na modéstia da pintura, na pobreza da ilustração, no deserto do cinema. Mesmo assim, e até por isso, o espírito que animou o projecto tinha um cunho decisivamente nacional e geracional.

Este vosso humilde escriba assina, com outro criptónimo, um dos textos introdutórios no livro, mas não faz parte do trio fundador, sequer partilha as mesmas disciplinas. Acontece, apenas, haver uma coincidência de olhares. Consequentemente, o que atrás fica escrito não tem um único caractere imparcial.

Domingueiros

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Ao domingo o PÚBLICO é um festim de inteligência. Botam discurso alguns concidadãos que, por díspares esteios convergindo num mesmo desígnio, nos tentam aproximar uns dos outros. Por ordem de paginação:

António Barreto
Analisa com detalhe, diagnostica com rigor. A sociedade aparece-lhe decadente e incorrigível. A salvação nacional está na friável dependência de um jacarandá sito no cruzamento das ruas do Salitre e Rodrigo da Fonseca, Lisboa. Ou de outros florescimentos bem mais improváveis.

Frei Bento Domingues, O. P.
Abre portas, janelas e clarabóias no claustro Católico. A luz fere pupilas habituadas à escuridão, a corrente de ar constipa os desagasalhados. O sermão deste domingo tem leituras de Julia Kristeva. Mas muito piores do que os cegos que não querem ver, dentro da Igreja, são os cegos que não querem pensar, fora dela.

João Bénard da Costa
Uma voz apaixonada. Que se dá em lusco-fusco, sombreando evidências, iluminando mistérios. Escreve como um escultor. E, como um escultor, dá forma à nossa memória colectiva. Cinzelada com golpes de erudição. Entalhada na pedra macia de uma vida que se projecta, bem realizada.

Francisco Teixeira da Mota
Colunista discreto, por estar confinado a uma só temática. Da sua leitura nasce uma perplexidade lateral: a quem interessa que o povo não se interesse pela aplicação do Direito? A Justiça é mais importante do que as Obras Públicas, a Economia, a Saúde, a Educação. Eis mais uma coisa que não nos ensinam na escola.

Vasco Pulido Valente
O “vate português valente”, cantor dos dias do fim de uma Nação moribunda. Os que se limitam, com desdém ou acinte, a apontar o seu pessimismo, como se fosse uma falha de etiqueta no banquete da ilusão ou um estrupido a afligir o sono já sem sonhos, são cúmplices da desgraça.

Cooperação estratégica

Teve lugar ontem, no Palácio de Belém, o primeiro dos encontros semanais entre o novo Presidente e o primeiro-ministro. Toda a gente notou a mudança de cenário: em vez dos habituais sofás, uma mesinha redonda e austera; duas cadeiras com torcidos. Mas o punctum da cena, se me permitem, estava no material de trabalho, em que se espelham de forma claríssima todas as diferenças de estilo entre os dois políticos. Enquanto Sócrates trouxe para a reunião um discreto moleskine preto, Cavaco esperava-o com um caderno escolar dos antigos: capa azul, argolas e (quase que aposto) papel quadriculado para melhor fazer as contas.

Deixem-me rir

Ao Diário de Notícias, Paulo Portas afirmou que o seu novo espaço de comentário político (“O Estado da Arte”, estreia hoje, às 23h00, na SIC Notícias) pretende contrariar a «overdose de esquerda e de esquerdismo» instalada em Portugal. Uma overdose que chega a ser ostensiva no caso das televisões, acrescento eu. Veja-se o que acontece nesses espaços similares de análise “a solo” que a RTP concede, todas as semanas, ao esquerdista Marcelo Rebelo de Sousa e ao esquerdista António Vitorino.