Passeio bloguítico

Não é que eu tenha – e, a meu pesar, não tenho – tempo de mais para estas coisas. Mas acontece-me. Pego em mim, e vou por essa bloguítica portuguesa afora, debico aqui, debico ali. Há sítios de passagem já crónica, diária, maníaca. E há outros, esses ao calhas, fortuitos, para onde o vento soprar. Não vou revelar quais uns e quais outros. Este não é um blogue confessional (digo-o, repito-o, mas também já começo a duvidar).

O passeio de hoje leva-me à Floresta do Sul. É o blogue de António Manuel Venda, jornalista (é director da revista Pessoal, onde tem a rubrica «Os dias do blogue») e ficcionista (romance e conto, volume mais recente «O Amor Por Entre os Dedos»). Desvio ameno e instrutivo, este. Fico a saber muita coisa: que o anterior ministro das finanças amou sempre a legalidade, que ainda há confiança em Scolari (against all odds, e eles são tantos), que Salazar, e isto nem há muito tempo, entrevistou um Vermelho, enfim, que nem o George, o nosso, o tal, está livre de se ecoar a si mesmo.

Depois, passo pelos Canhões de Navarone, criação de Rui Ângelo Araújo, que até há pouco dirigiu essa agora para sempre chorada revista Periférica. Ali prossegue o Rui a sua sina de despertar-nos, sempre sério, sempre divertido, mas abandonou as railleries com que nos falava, no papel da revista. Cada médium o seu tom? Quem saberá dizê-lo? Está, de resto, na melhor companhia, a de J. Rentes de Carvalho, um dos maiores estilistas vivos do nosso idioma, segredo que não é de hoje, e não serei eu a revelá-lo. Passem por ali e verifiquem.

Os links? Para quê! Eles estão aqui mesmo à direita. Já estavam, aliás. Você é que, apressado, não reparou.

11 thoughts on “Passeio bloguítico”

  1. Nas minhas leituras recentes, deparei-me com um conceito que me mereceu alguma reflexão adicional. Trata-se da serenidade, na leitura de Heidegger em ensaio com esse nome.

    Não me interessando, para já, explorar essa serenidade ontologicamente, desculpem-me a transposição da mesma para a nosa realidade política e social.

    O homem tem mundo, o que significa que não pode ser pensado fora do seu mundo e que todas as possibilidades desse ser a que chamamos de homem integram esse mesmo mundo. O mundo humano é, portanto, o mundo das possibilidades do humano, originalmente constituído por relações que estabelecemos com as coisas que nos rodeiam. Nesse mundo emerge a polis, a cidade, como feixe de relações entre o humano e o mundo disponível. A polis constitui-se, pois, na medida em que o mundo do humano é disponível para a relação.

    Abandonando este início complicado, o que pretendo dizer é pura e simplesmente isto: a cidade, no sentido social e político, é a relação institucionalizada entre o homem e o mundo visto como algo de disponível para estar em relação com. Na cidade, os homens trocam bens como outros homens, adquirem coisas, procuram aquilo que não têm, o que necessariamente implica uma regulamentação, uma medida, quanto à posição dos homens entre si e entre os homens e as coisas.

    O debate político mais frequente na blogosfera nacional nasce, precisamente, da necessidade de determinação da relação e da medida, nomeadamente, na extensão da propriedade e do conteúdo do respectivo direito, ou do Estado enquanto poder de regulamentação institucionalizado na polis.

    É precisamente aqui que intervém a serenidade, a que eu atribuiu o título de virtude axial da aristocracia, dos melhores para o exercício do poder.

    Não verificamos serenidade naqueles que rejeitam qualquer relação entre os homens e as coisas (caso de alguns ecologistas), na medida em que a serenidade não corresponde a um abandono do mundo.

    Não encontramos serenidade naqueles que desconfiam da possibilidade da relação individual entre homens e coisas (casos do Bloco de Esquerda ou do Partido Comunista), na medida em que a relação entre o homem e o seu mundo é necessariamente solitária.

    Não reconhecemos serenidade naqueles que pretendem a funcionalização da relação entre os homens e as coisas (casos da social-democracia e do socialismo de gaveta), pois esvaziam aquela relação entre homens e coisas do seu sentido mais originário e constituinte da natureza do ser humano.

    Finalmente, não vislumbramos qualquer serenidade naqueles que apregoam uma relação entre homens e coisas de sentido único, em que o ser destas é, somente, o ser objecto de domínio absoluto do dono.

    A serenidade é, apenas, possível, no envolvimento com as coisas, no deixar as coisas serem o que são num acto intencional que simultaneamente nos transforma. Há relação entre homens e coisas porque também o homem é afectado, condicionado, pelo que o rodeia. Mas a serenidade também só é possível se admitirmos uma relação natural de proximidade entre os homens e a coisas – a posse, a detenção, a vontade de apropriação ou mesmo de caça –, que faz, afinal, emergir a polis.

    O aristocrata é, por conseguinte, aquele que, intencionalmente, e sem provocação, se deixa afectar pelas coisas – sendo, nesse sentido um ecologista intencional -, mas que com elas mantém uma relação de proximidade e de intimidade, o que faz dele, ainda, um possuidor saudável.

    É por isso que um solar de família é distinto de um latifúndio adquirido em hasta pública.

  2. Não existe nada mais triste do que uma estação terminal. A beleza de uma linha férrea é a sua continuidade, o padrão interminável, madeira sim, madeira não, a estender-se para um lugar que os olhos não vêem mas o coração adivinha. Fico de pé, junto ao carril, e imagino aquela força que passa sem se deter, o delicioso impacto do vento que me empurra para trás sem me tirar do lugar; o som, depois o som perdendo-se enquanto galga os espaço de uma descoberta constante, lado a lado com o adolescente que nos olha do banco de trás de um carro. Uma revista aberta, um sono em recuperação, um olhar para o horizonte sem sincronia possível com o pensamento.
    Uma estação terminal é um lugar triste. Uma parede que é um nada. Há-de haver um. Há-de haver um dia um comboio que, com a sua pesada vontade, não se deterá. Há sempre um. Por cada comboio que passou vem sempre outro a caminho.

  3. Se eu fosse…
    Se eu fosse um mês, seria Maio
    Se eu fosse um dia da semana, seria Sexta-Feira
    Se eu fosse uma hora do dia, seria 17h
    Se eu fosse um planeta ou astro, seria Vénus
    Se eu fosse uma direcção, seria Sul
    Se eu fosse um móvel, seria uma cama
    Se eu fosse um líquido, seria chá
    Se eu fosse um pecado, seria a gula
    Se eu fosse uma pedra, seria uma safira
    Se eu fosse uma árvore, seria uma amendoeira em flor
    Se eu fosse uma fruta, seria um morango
    Se eu fosse uma flor, seria uma margarida
    Se eu fosse um clima, seria tropical
    Se eu fosse um instrumento musical, seria um piano
    Se eu fosse um elemento, seria ar
    Se eu fosse uma cor, seria azul
    Se eu fosse um bicho, seria um pinguim
    Se eu fosse um som, seria o som do mar
    Se eu fosse uma música, seria “ I´m singing in the rain”
    Se eu fosse um estilo musical, seria um ritmo latino
    Se eu fosse um sentimento, seria paz
    Se eu fosse um livro, seria “Vai onde te leva o coração”
    Se eu fosse uma comida, seria Pizza
    Se eu fosse um lugar, seria sempre algum que não conheço
    Se eu fosse um gosto, saberia a baunilha
    Se eu fosse um cheiro, seria o cheiro de roupa acabada de lavar
    Se eu fosse uma palavra, seria amor
    Se eu fosse um verbo, seria confiar
    Se eu fosse um objecto, seria uma máquina fotográfica
    Se eu fosse uma peça de roupa, seria uma gabardine preta
    Se eu fosse uma parte do corpo, seria a boca
    Se eu fosse uma expressão facial, estaria a sorrir
    Se eu fosse um personagem de desenho animado, seria a Mafalda
    Se eu fosse um filme, seria “ A vida é bela”
    Se eu fosse uma forma, seria um círculo
    Se eu fosse um número, seria o 2
    Se eu fosse uma estação, seria Primavera
    Se eu fosse uma frase , seria “ Há males que chegam por bem !”

  4. Fernando,

    Adorei esse passeio pelas partes que te comovem. Só tenho pena é de não ter sentido o calor da tua mão guiante e nada perversa. E queres crer que nunca me contaram, nem nunca li, nada do Rentes Carvalho. Vou já lá dar uma volta para ver como é.

    À laia de PS, constato uma influência aterradora da filosofia valupiana no escrito dum dos Zés aí em cima. Não te parece? Pobre de mim, sou a única alminha que ninguém gosta de imitar.

    TT

  5. Rui Almeida,

    Tem razão. E eu devia não ter tido essa distracção, leitor que sou da revista de Pedro Teixeira Neves.

    A seu respeito, leia-se isto, em criticaartistica.blogspot.com/2006/02/magazine-artes.html:

    «A qualidade da revista Magazine Artes reside em dois elementos muito simples. Por um lado, na quantidade de assuntos e temas e géneros de referência que aborda e, por outro, na imparcialidade». E ainda: «Numa bem conseguida mistura entre a necessidade de divulgar o que é português, e a óbvia obrigação de mostrar o que de melhor se faz lá por fora. Na Magazine Artes podemos ler participações de Jorge Reis-Sá, Gonçalo M. Tavares, Jorge Silva Melo ou António Manuel Venda, enquanto desfolhamos a actualidade das Artes Plásticas, Cinema, Teatro, Música e Literatura».

    Tadeu,

    Sim, o «Zé das Couves» escreveu uma coisa linda de matar. Valupiana? Se tu o dizes!

    Quanto a ti: alguém um dia haverá de imitar-te. E ninguém há-de sabê-lo. Nem eu, nem tu, nem esse mesmo. Mas, enquanto chega e não chega, vais educando as massas.

  6. Fernando,

    Excelente passeio, excelentes sugestões e excelente porra de comunicação que já me comeu umas linhas que tinha escrito com muito mais piada que estas. Em resumo: nunca tinha ouvido falar do estilista Rentes. Tenho que ir la dar uma volta, senão qualquer dia perguntam-me e faço cara de parvo.

    À laia de PS. Vejo suor bem trabalhado da filosofia valupiana num dos escritos dos zés aí em cima. Cheira-me a trama, cheira, cheira…

    TT

  7. T, estás vendo, nada se perde. Chegam as coisas com piada e as que se julgavam dela desprovidas. E pronto, não é só o Valupi que escreve com jeito, arre.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.