39 thoughts on “Johnny Bénard da Costa”

  1. “O hábito do poder

    Tomem a tentativa falhada de substituição de Bénard da Costa à frente da Cinemateca Portuguesa como um exemplo do que se passa neste país há três décadas. Bénard da Costa foi um funcionário público exemplar e a Cinemateca deve-lhe muito. Ainda assim, a ministra da Cultura teve a ousadia – já se arrependeu – de lhe endereçar uma guia de marcha por “razões administrativas”. Passou a idade obrigatória de reforma. Bénard da Costa, com 71 anos, está na Cinemateca há 26 e dirigia-a há mais de 15. Não é preciso ser um génio da gestão para saber que há um limite de validade em todas as lideranças a partir do qual a rotina se instala e as instituições passam a ser projectos pessoais. Normal seria que Bénard saísse pelo seu pé. Não foi o caso. E mal o Estado quis fazer cumprir regras universais, logo uma legião de notáveis veio em auxílio de Bénard, reivindicando em petição um estatuto de excepção e mandando às urtigas a sempre exigida renovação de dirigentes. O caso dos nossos amigos é sempre muito diferente dos outros casos.
    Muitos discordarão deste movimento de solidariedade geracional. Mas o meio é pequeno e o fim imprevisível. O silêncio é o melhor conselheiro. Apenas um jovem, o responsável pelo mais interessante e bem-sucedido festival de cinema português, o Indie Lisboa, foi a mosca na sopa do consenso. Disse que não seria mau refrescar a Cinemateca. Só pode ser doido! Não saberá que, em Portugal, há três décadas que uma geração tem a política e a cultura como propriedade sua? Que todos têm que esperar com respeitinho, que decidam partir por vontade própria e que escolham os seus sucessores? Claro que muitos terão o fim que não mereciam. Apenas porque não aprenderam uma velha lição: quem não quer largar a cadeira do poder acaba sempre por cair dela.”

    Texto de Daniel Oliveira, publicado no “Expresso” de 29/04/06

  2. “A cadeira do presidente

    A já célebre frase de João Bénard da Costa sobre o realizador Richard Fleischer («E não acredito que haja nunca um ciclo Fleischer, porque o único que o podia organizar – modéstia à parte, ou não desfazendo, como preferirem – está a três meses de ser abatido ao activo, em tempo que a faca e o queijo se juntaram em boas mãos») é bem significativa de uma atitude que Augusto M. Seabra define hoje, no Público, como «après lui, le déluge». Para lá dos méritos de quem a profira, uma tal declaração é também uma afirmação de desconfiança absoluta na capacidade alheia, que só pode ler lida, pela projecção no futuro que pressupõe, como um sinal de enquistamento mental ou de megalomania faraónica. É assim que se compreendem os comportamentos centralizadores da Cinemateca Portuguesa, rigorosamente descritos no texto de Seabra. Com a devida vénia, passo a citar: «Se será sempre muito difícil suceder a tão carismática personalidade, a dificuldade foi acrescida pelo modo como ele semeou o deserto à sua volta. Desde Maio de 2003 que não há responsável do departamento de Programação (é o próprio Bénard quem exerce o pelouro), e em Outubro passado, depois de não se ter efectivado em Maio a substituição que era das regras, a Cinemateca ficou mesmo sem vice¬ presidentes, pela demissão de José Manuel Costa e pela reforma antecipada de Rui Santana Brito». E continua, com mais gravidade: «Que a instituição se chame Cinemateca Portuguesa é mesmo ficcional. Protocolos com instituições não são cumpridos, cineclubes e outros bem podem pedir cópias, e qualquer governante que tenha tido a tutela sabe que o obstáculo intransponível a uma programação no Porto, na Casa das Artes, tem sido o próprio presidente Bénard.»
    Não continuo. É preciso ler o texto na íntegra. E rejeitar claramente o argumento de que, com a cessação da licença especial, se está a impedir alguém de realizar o trabalho para o qual está talhado. Isso só seria válido se o Estado, por absurdo (como poderia acontecer num Estado totalitário), impedisse um realizador de filmar. Porque, quando cessar a sua licença especial, Bénard da Costa não será impedido de continuar ligado ao cinema. O que está em causa é outra coisa, é o desempenho de um cargo público, à frente de uma instituição, que tem de afirmar a sua vitalidade, para lá de qualquer funcionário.
    Assim sendo, pouco se entende do comportamento do Ministério da Cultura, que já veio dizer, pela voz da sua mais alta responsável, que tem «a intenção de o convidar a ficar», depois de ter sido afirmado, há cerca de duas semanas, que não havia indicação de que viesse a existir «nova licença especial». Entretanto, é claro, surgiu a tal petição, com algumas assinaturas falsas (segundo notícia lida hoje no Público), a favor da manutenção de Bénard. Em que ficamos? É tudo uma questão de assinaturas?”

    João Paulo Sousa – http://www.daliteratura.blogspot.com – 26/04/06

  3. “Desgraça

    Compreendo que possa ser desgraça grande essa, afinal, a de as pessoas se reformarem!
    Mas maior desgraça será a de, por cada vez que alguém se deva afastar de um cargo, organizar um baixo-assinado catita para instrumentalizar o sistema para satisfação de uma qualquer gula de poder.
    Vivo muito longe da Cinemateca, e o mais que usufruo dela passa pela conservação das películas que, por vezes, tem a bondade de ceder para projecção cá em cima. Gosto de imaginar que a Cinemateca pode desempenhar um papel maior, organizando ou envolvendo-se decisivamente em mostras que me permitam de facto a comparência, sem o sacrifício de percorrer os mais de 300km da A1, suportando os custos que isso implica (ir ao cinema por 150 euros, no mínimo, ainda que para ver Richard Fleisher, convenhamos que não é para todos os dias).
    Posso acreditar que, por esta distância, tenha visto menos o esplendor do trabalho do actual director. Posso acreditar que tenha tido um excelente desempenho, mas acredito mais ainda que não saber passar a pasta, ajuizar o fim do mundo depois da perda do poder que nos foi temporariamente atribuído, retira a excelência a qualquer um.
    Se um baixo-assinado funciona para que alguém não saia de um cargo, será que funciona para que se atribua um cargo a quem não o tem? É que fiz uns quantos amigos importantes e, como não tenho onde cair morto, estou seguro de conseguir umas quantas assinaturas eloquentes propondo um lugar bem escolhido para a minha pessoa. Com jeito, não arranjo niguém dos repugnantes Óscares, mas posso conseguir alguém dos igualmente repugnantes Grammys.
    Eduardo, estou contigo nesta e não abro.”

    valter hugo mãe – http://www.daliteratura.blogspot.com – 28/04/06

  4. Falando da Cinemateca

    (…)
    2. Falando de Cinemateca, é impossível ignorar a questão directiva em aberto.
    Se todas as questões estritamente personalizadas podem sempre ser redutoras, senão mesmo armadilhadas, esta então, pelas características da pessoa de João Bénard da Costa, ainda mais o é – por se tratar de um alto dignitário do Estado, ainda há pouco reconfirmado pelo Presidente Cavaco como presidente da comissão organizadora do Dia de Portugal, e porque indiscutivelmente é a pessoa que, pelo seu saber, escrita e capacidade de transmitir a paixão por filmes, é o epítome público da “cinefilia”. Para mais, as circunstâncias, com desastrosos governantes da cultura e nomeações indigentes, são de molde aos mais justificados receios.
    Tudo isto recordado, também há a dizer que a montagem de um “affaire Bénard”, qual decalque do “affaire Langlois” que em Março de 1968 foi o prelúdio do Maio francês, é ridícula. Se é incontornável a questão pessoal, é também porque há a discutir a permanência de um modelo de cinemateca que estritamente identifica uma pessoa com a instituição.
    João Bénard da Costa ainda teve o privilégio e a capacidade de contar com o apoio de Henri Langlois, o fundador da Cinemateca Francesa. “O homem da cinemateca”, na imagem clássica de Langlois, era o guardião dos arquivos e o transmissor do amor pelos filmes, a cinemateca sendo um lugar de peregrinação e culto. Esta concepção não pode resistir a um entendimento pelas políticas culturais públicas e democráticas do que é e deve ser uma instituição estatal.
    Eu frequento a Cinemateca e tenho tentado seguir com atenção crítica a sua programação, bem como os seus perfis públicos; não iria agora escamotear que entendo que não se afastou basicamente do que há de mais conservador, nostálgico e necrófilo no modelo tradicional desse tipo de instituições. E seria incoerente não me manifestar perante uma “excepção” a regras para as instituições culturais públicas, e de reservas perante o designado mesmo “regime excepcional”, além do limite geral de idade em cargos públicos, reservas que já manifestei quando Fraústo da Silva era presidente do CCB – não posso aceitar que se sustente que um qualquer cargo público é “vitalício”.
    João Bénard fez crer que aprés lui, le déluge. Se será sempre muito difícil suceder a tão carismática personalidade, a dificuldade foi acrescida pelo modo como ele semeou o deserto à sua volta. Desde Maio de 2003 que não há responsável do departamento de Programação (é o próprio Bénard quem exerce o pelouro), e em Outubro passado, depois de não se ter efectivado em Maio a substituição que era das regras, a Cinemateca ficou mesmo durante meses sem vice-presidentes, pela demissão de José Manuel Costa e pela reforma antecipada de Rui Santana Brito.
    Que a instituição se chame Cinemateca Portuguesa é mesmo ficcional. Protocolos com instituições não são cumpridos, cineclubes e outros bem podem pedir cópias, e qualquer governante que já tenha tido a tutela sabe que o obstáculo intransponível a uma programação no Porto, na Casa das Artes, tem sido o próprio presidente Bénard. Mais: há anos a Cinemateca adquiriu direitos de uma importante colecção à Hollywood Classics, que permitia ter um acervo considerável de cópias susceptível de circulação pelo país, e que afinal ficaram na gaveta, num acto lesivo do interesse público, financeiramente inclusive.
    Do mesmo modo, quando a Cinemateca reabriu nas suas instalações (horrorosamente renovadas numa “apropriada” revisitação de “uma casa portuguesa”), em Janeiro de 2003, foi prometido que em breve haveria também novidades para a sala do Palácio Foz, aos Restauradores, onde tinha estado transitoriamente sediada – e continua-se à espera, o argumento tendo servido para, na posse dessa sala, o presidente Bénard a manter fechada, inviabilizando outros projectos que, cioso, viu como “concorrenciais”.
    Se compreendo algumas das emoções que a eventual saída de João Bénard suscitou e tenho noção do seu reconhecimento internacional, também verifico que muitas dessas “emoções” provêm de quem manifestamente nunca põe os pés, ou os olhos, na Cinemateca.”

    Augusto M. Seabra, Público, 27 de Abril de 2006

  5. E andava eu à procura, à procura, onde é que tinha lido aquilo… Afinal, era do João Paulo Sousa, no Da Literatura. Obrigado, Inês.

    (Mas dê o endereço correcto: daliteratura.blogspot.com)

  6. Já agora, fiquem com uma resposta a Daniel Oliveira, de Eduardo Prado Coelho: “devo dizer que João Bénard da Costa já usufruía um estatuto de excepção, e uma das coisas que me parece que se justificava era precisamente esse estatuto. A democracia não é propriamente estabelecer regras universais para todas as pessoas, segundo aquele véu de ignorância que Rawls consagrou, mas dar a cada um o estatuto de especificidade que permite que exista justiça igual para todos.”

  7. Escreve EPC:

    «Tenho tido a atenção suficiente às gerações mais novas para reconhecer e tentar consagrar autores como Gonçalo M. Tavares ou José Luís Peixoto […]»

    «TENTAR CONSAGRAR»… Luís, tu tens a certeza de que o inimigo não meteu a cizânia no teu link?

  8. Fernando,
    Estive mesmo para dar destaque a esse exercício de pujante modéstia. Mas lá ia começar a malta a reclamar que ando sempre a denegrir o pobre EPC…

  9. Há quem chame funcionário público ao João Benard da Costa, pretendendo que ele é funcionário e é público. Ora, público, ainda vá, funcionário será o senhor esteves das finanças de alfaralhão, ou o raio que o parta! E pretender reformar o JBC seria o mesmo que querer reformar o johnny guitar, coisa assaz absurda! Como diria o mordomo do grupo de teatro do grandella: ó ignominia! Ó infelicidade!

  10. Protesto. Há dez boas, e justas, maneiras de criticar o bonzo literário Eduardo Prado Coelho. Nelas não se contam alusões físicas. Eu tenho o nariz grande e não sou bonito. Respeitem-me.

  11. As motivações do senhor Fernando Venâncio são muito mais de ordem moral que metafísica. Ele define-se, antes de mais, pelo temor de um líder antropomórfico, obrigado por um determinismo intemporal e, por conseguinte, como o próprio Fernando, senhor a cada instante dos seus actos e das suas respostas. O senhor Fernando sofre, porque está disvirtuado pelo uso excessivo do verbo, e já não consegue obter a adesão dos leitores. O seu pensamento está constantemente voltado para uma exasperação moralista da noção de certo, levando-o a uma desconfiança profunda não só em relação ao mundo, como a si próprio. É, literalmente, um pobre de espírito!

  12. Luís,

    Claro que não. Mas é tudo o que a minha fantasia consegue produzir como intento de humilhação. Apagar também era alternativa. Mas, como é críptico, não me sinto propriamente ofendido. Deixamos estar?

    Inês,

    A malta do Da Literatura pode ser deprimente nas suas opções literárias, mas a sua avaliação da cena cultural parece-me lúcida. Mais um obrigado.

  13. Fernando,

    Julgo de elementar bom senso reservar a quem nos declara definíveis “pelo temor de um líder antropomórfico” uma pequena dose de muda admiração.
    Mas olha que não é boa ideia dar muito troco a esses “provetas” ou “riapas”, ou lá como se chamam hoje em dia. É deixar a coisa ficar por aqui, à laia de espantalho para gralhas mais vorazes.

  14. Estava com o nariz enfiado nos meus blogs e não dei conta da algazarra sobre o cargo não vitalício do J.B. da Costa. Uma petição assinada por gente de “prestígio” para parar o processo normal de aposentação dum funcionário, com muito mérito, talvez seja indiscutível, mas indiscutivelmente ultrapassado, certamente. Não frequento a Cinemateca de LISBOA, porque estou, como o outro amigo, longe, mesmo que não tão longe como ele. Depois, já não me trás nada, tal instituição, depois de ter durante muitos anos, ter frequentado a Cinem. de Paris, os action Christine, o St. André des Arts, ou, o action République, entre outros. É uma verdade, a Cinem. de LISBOA, está “armada” em Torre do Tombo do Cinema. Então, se nada se pode fazer, porque as tais “notáveis personagens” fizeram um abaixo assinado, deveríamos, todos os “ilustres” anónimos e todos os menos ilustres, claro, sou pela democracia participativa, das caixas de comentários da blogosfera, lançar um abaixo assinado, para acabar com esta palhaçada. Sugiram ao B. da Costa, que vá para casa fazer um blogue sobre cinema…

  15. Quanto à sua continuação, sou a favor. João Bénard é uma figura carismática, das poucas que Portugal tem (ou das poucas que têm exposição mediática, fica a ressalva) e num tempo de carismas artificiais e efémeros. Por carisma entenda-se, neste caso, o facto de ser um sábio que comunica e transmite a sua paixão, não o reconhecimento internacional ou vasto currículo.

    A democracia não gosta de velhos, sabemo-lo desde a Grécia. Por isso os descarta à primeira oportunidade. É estúpido, somos muito estúpidos.

    Quanto à Cinemateca, só elogios — mesmo que haja críticas negativas sempre legítimas, como sempre haveria fosse quem fosse que lá estivesse. Irónico é a dita programação “conservadora” ser a que melhor promove as vanguardas. Quem não compreende esses “nexus”, nem sequer entende o “plexus” que invoca. De resto, gostaria de assistir ao debate relativo à famigerada programação, tomando conhecimento das opções concorrentes e sua fundamentação. Mas a Cinemateca não é só a escolha inevitavelmente comprometida com um inevitável critério artístico, é também o investimento no restauro de filmes, as edições livrescas, as peças e canais informativos, as instalações e serviços. Toda essa actividade pede avaliação, mas será preciso perder um símbolo e memória viva do cinema em Portugal para intervir no que aparecer como relevante e exequível?

    O rosário de disparates acumula-se, com o Augusto M. Seabra a contradizer-se em poucas linhas e a preferir a razão de Estado ao estado da Razão, o Daniel Oliveira a despejar irrelevâncias e cinismo, o Eduardo Pitta e “entourage” a cuspirem veneno, e até o Nuno Sena a mostrar-se caquéctico, sugerindo nivelar por baixo, e fragmentar, um centro de divulgação único; o qual até cria públicos (e criadores…) para as complementares ofertas de que o Nuno é também um dos dinamizadores.

    É preciso, de facto, não ser frequentador da Cinemateca para se querer mandar embora o Bénard. A Cinemateca é um museu, pois sim, e o melhor que há em Portugal. Todos os dias se enche de musas.

  16. é verdade Valupi.
    o ciclo sobre Pasolini p/e foi exemplar, as sessões estiveram sempre esgotadas, na frequência prevaleceram sempre os jovens e o catálogo está simplesmente fabuloso.

  17. Ó valupi, figuras carismáticas é o que nunca nos faltou. Quando faltar a cortiça, podiamos começar a exportar carismáticos. Agora a sério, não chamem carismático ao João Benard. Ninguém merece isso.

  18. Sim, senhor, valupi. Ao contrário do que dizes, sempre tivemos muitas figuras carismáticas, pessoas tocadas pela graça do divino, à maneira dos loucos de deus do tempo do rasputine. A começar pelos maluquinhos de aldeia, e acabar em outros menos inofensivos. Podiamos exportar para paises como a Holanda e a Suiça, que manifestamente têm falta deles, embora não tenham falta de cinematecas. O João Benard, não sei se é carismático. Sei que é muito culto, e escreve muito bem sobre muita coisa. E também não sei se o seu trabalho na cinemateca é bom, ou não é. Mas quando justificam a permanência de alguém em algum lugar, com o carisma, fico desconfiado. O próprio JB preferiria que elogiassem o seu trabalho. Digo eu. Eu, por exemplo, nem sequer sei se a directora do museu de arte antiga é, ou não, carismática. Como sou um chato não carismático, prefiro que faça um bom trabalho.

  19. Valupi

    Ninguém pode retirar o mérito ao Bernard da costa, nem à programação da cinemateca, mas não haverá também outras pessoas com competências e capacidades para exercer as funções, e até com ideias novas e melhores? Cá para mim a cinemateca é como o ICAM a distribuir subsidios, sempre para os mesmos, e para os amigos, um pequeno grupo, que ás vezes até é “cooperativo”… tem velcro a cadeira do poder e muita atracção pelos amiguismos!

  20. Tens razão, Cagamelo. Mas não a razão toda.

    O carisma, no contexto da pessoa e situação aqui em causa, inclui o “bom trabalho”. Bom trabalho de gestão, dinamização, divulgação e promoção. Essa qualidades estão em relação directa com a personalidade pública que se expõe pessoalmente. É esse o carisma que me interessa realçar, a sugestão de uma transparência que inspira.

    Só que, como com todos, o valor do seu “bom trabalho” é relativo aos pressupostos da avaliação. Havendo várias cabeças, haverá várias opiniões. Para alguns, ele faz um “mau trabalho”, e estranho seria se a sua actuação recolhesse aplauso unânime. Essas unanimidades só acontecem quando se nivela por baixo, se passa num apagamento acabrunhado ou se muda de rumo consoante a direcção do vento. Porém, até esses, que agora o querem expulsar, lhe reconhecem carisma; facto que, por si só, dá conta da importância dessa dimensão para a comunidade.

  21. O JBdaCosta é carismático e a cinemateca de LISBOA é um verdadeiro museu. E o Santana Lopes não é carismático? ou, vejamos lá, talvez, a Bárbara Gimarães. Gente carismática é o que não falta. Portanto o argumento do carisma não cola.
    Agora o museu… é o que mais se tem feito em prol da cultura, neste país. Um dia destes, haverá mais museus que visitantes. O cinema é como as outras artes, também precisa de se aproximar da rua. Nalguns países europeus, criavam-se pequenas cinematecas de bairro aonde o público jovem e menos pedante, descobria filmes, que hoje, nem sequer passam nos nossos canais televisivos que nos inundam, os olhos e ouvidos, com a tirania da bosta espectacular made in W.L.A. US, há já mais de 50 anos (ditaduras duráveis). Participei directamente nesses ciclos de cinema, onde, entre outros, projectei filmes de Manoel de Oliveira e João César Monteiro, Vincent Gallo, que lealizou alguns filmes depois de ter desempenhado muitos papeis e que até teve um segundo papel num filme de Robert Kramer rodado em Lisboa, no hospital de St.José, Lars Von Trier, ou Wim Wenders, quando ainda não eram muito conhecidos. Não é com museus que acabaremos com o baixo nível cultural desta projecção ibérica improvável…

  22. Zellig

    Também tu tens razão, sem a ter toda. Primeiro, porque muito mal estaríamos se não tivéssemos mais ninguém para ocupar o lugar. Há muitos na fila de espera, com certeza. Depois, porque não se trata de consagrar João Bénard como figura providencial. Trata-se, isso sim, de reconhecer que a sua idade não é o critério principal para a decisão.

    A Lei permite a extensão do mandato, haverá outras razões para o destituir que possam ser apresentadas? Pois que se apresentem e se discutam. Mas que se ponderem as vantagens da troca, o que implica conhecer o que seja isso de “ideias novas e melhores”.

    Outro aspecto relevante no que escreves diz respeito ao ICAM. De facto, é uma teia de favores, como em outras áreas da nossa cultura financiada pelo Estado. Até por isso, a presença do Bénard à frente da Cinemateca é um saudável equilíbrio ideológico.

    Quanto ao “poder”, essa é uma condição antropológica — quem tem poder, procura conservá-lo. Acontece a todos sem excepção. O mesmo para os favores aos amigos, os antigos e os que assim se fazem. Mas não vejo onde essa questão se relaciona com a actividade da Cinemateca.

  23. E-konoklasta

    O teu comentário tem, para mim, um gosto especial. Para além dos disparates relativos ao carisma (que não estás a utilizar com propriedade, antes como análogo de popularidade), também revelas ter uma concepção do que seja, e possa ser, um museu que ficou cristalizada algures nos meados do século passado. Mas tudo isso é tremoço quando comparado com a tua experiência pessoal que fizeste o favor de partilhar.

    Assim, tens caminho andado e corrido nestas lides do cinema. Pelas referências, suponho que essa actividade das cinematecas de bairro tenha acontecido nos anos 70 e 80; tu o confirmarás. Ora, os tempos são outros, meu caro. Pura e simplesmente, já não se justifica a organização de cinematecas de bairro e projecções para o povão. O cinema deixou de ser veículo ideológico, pela Esquerda, e perdeu protagonismo sociológico no mercado do lazer. A multiplicação e dispersão de canais mediáticos, juntamente com a qualidade tecnológica da televisão (incluindo nela o vídeo e o DVD), alteraram as regras do jogo e criaram novos jogos.

    Atalhando conversa num tema demasiado vasto para o que aqui nos entretém, estamos hoje, mais do que nunca, carenciados de locais que conservem a tradição e a disponibilizem sem entraves. É, precisamente e com brilho, o que faz a Cinemateca. É um museu que cumpre a função como mais nenhum outro, pois o que exibe é réplica fiel da experiência original; isto é, o que recebemos e como recebemos é em tudo conforme à intenção performativa da obra.

    Essa do público pedante é um tiro ao lado, quiçá no pé. O problema não está no objecto museu, antes no que se faz com ele. É que continua a ser verdade que “original é aquilo que está perto da origem”.

  24. Valupi

    Realmente não se trata de consagrar João Bénard como figura providencial, e, sim… concordo contigo quando dizes que a idade não deve ser o critério principal para a decisão, mas também acredito que a decisão não toma em consideração o outro lado do “espectro” etário, tal como em muitas outras. Por isso concordo contigo, a idade não é, nem deve ser a razão da sua destituição pode-se dizer que acho a renovação um acto saudável de democracia e, como acredito existirem mais pessoas capazes para o lugar, sou contra esta “monarquização” sistemática (que infelizmente não é caso único, se não houvesse outros capazes de tal, isto na minha opinião, estaria de acordo com a sua continuidade).

    Relativamente a ideias melhores novas e melhores, acho que a cinemateca devia “trazer-se” para fora dela, devia ter mais acção noutros locais onde não alcança, e relativemente à programação por muito que goste da normalmente apresentada, acho que outra e outros tipos de ciclos, seriam benvindos, nem que seja para mostrar outra maneiras de ver, e de viver cinema.

    Relativamente ao ICAM acho que é dificil não concordar com o seu mau funcionamento, mesmo quem do tacho come, consegue ver a injustiça das suas acções e, a ridicularidade do organismo e da própria contituição dos seus juris ( um electricista e um eng. agrónomo a avaliarem argumentos é realmente genial, tal como certas respostas nas recusas de financiamento, isto só nalgumas que vieram a público tal como “…o aborto é um assunto demasiado actual e que as pessoas vêem, lêem, e ouvem todos os dias…” entre outras obras primas da avaliação de argumentos para cinema, qual a relevência para um bom e um mau projecto, realmente ainda não sei).Essa do equilibrio ideológico cinemateca vs ICAM, também não acredito muito, eles os há que pensam de maneira diferente do Bérnard da Costa, e não podem trazer os seus ciclos à cinemateca e a sua maneira de pensar… isto faz-me lembrar a discussão dos filmes de autores, e os comerciais que achei completamente ridicula, um meio termo seria preferivel, sem deixar nenhuma das sensibilidades de fora ( não estou a falar de telefilmes nem de brujessos que tais, nem de financiamentos à la Lionel Vieira).

    Quem tem poder realmente tenta conservá-lo, e para que tal não aconteça, nem se tenha dissabores de futuro, porque isto funciona para os dois lados, se temos outras pessoas capazes vamos pô-las a trabalhar também, e isto porque somente porque se defendo certas normas de funcionamento para umas instituições defendo-as para outras, não gosto de ver cargos vitalicios…

  25. Ó Valupi,
    poupa-me dessa dos disparates no que diz respeito ao carisma, foi uma pequenina provocação…E se por um lado, não é justo mandar para casa o Benard por causa da idade, concordo, também não é justo que pessoas competentes e com sangue na guelra, tenham de estar à espera que o homem morra. Há regras, cumpram-se. Não há regras, criem-se. Mas essa de cargos vitalícios, parece-me má política… seja para quem for.
    Não é muito dificil adivinhar, mais ou menos, a época em que estive por dentro da questão do cinema e das cinematecas, sempre em paralelo com outras artes, e a prova em como a minha mente evoluiu está no facto de aqui estar a comentar, nesta caixa de comentários, neste blogue, portanto na blogosfera, mesmo se o Venâncio diz que ela não representaria um progresso, ideias! Quanto à questão dos museus, meu amigo, mesmo aí tenho pergaminhos e sei como eles não funcionam neste país, tirando algumas excepções, desminta-me

  26. e-konoklasta escreve: «[…] na blogosfera, mesmo se o Venâncio diz que ela não representaria um progresso».

    O Venâncio tinha escrito: «Será a blogosfera, então, um índice de subdesenvolvimento? Acho-me longe de supô-lo».

    Moral da história: o que quer que a gente escreva, têm que nos achar parvos.

  27. Quem é que começou essa de querer achar-me lourpa ? dizendo-me, muito condescendentemente, “veja se percebe” . Agora começa a perceber o que eu quis dizer com “tenho a pele e os ossos duros”.
    Ao menos já sabe com que “madeira me aqueço” tradução do francês “de quel bois je me chauffe”.
    Mas sem rancor.

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