Migrantes

Antigamente viviam na província. Em Almendra, no Mazouco, em Freixo-de-Espada-à-Cinta. Onde batia o sol numa encosta, onde houvesse um pombal num outeiro. Desenhavam vertigens pelo céu, e catavam sementes no restolho, e bichos nas aradas.
Hoje habitam as praças da cidade, que acharam devolutas. E logradouros que os arquitectos riscam, quando encerram os projectos à pressa. Nos Poveiros já cobriram o sol. Na Batalha espanejam-se nos fios, e ameaçam de gripe os transeuntes.
As viúvas de coração instável são-lhes a divina providência. O seu maná é o pão que restou da semana e uns saquitos de milho. Um poeta chamou-lhes parasitas.
A fama deste estado social já chegou ao mar alto e atraiu as gaivotas. Ralham-me toda a tarde no telhado, cortejam-se ao serão, e andam num rodopio o dia todo, a engordar a criação.
Não sei que hei-de fazer. Ou entrar nos mercados de armamento, ou voltar à choupana em Carrazeda.

Jorge Carvalheira

8 thoughts on “Migrantes”

  1. Leitor tomado de impulso de ler, por sinuosos caminhos de portugal, soberbo movimento. ah como era delicioso encarar um Torga amarelecido, a genialidade de um Saramago apagadissímo numa feira, aquelas de livros. Sempre oportuno de coragem a claridade de mais um dia…músicas ao longe de romarias vizinhas, farturas e churros de cozinheiros gordurosos povilhados de flículos capilares graciosos ao toque e à vista! Ex-Portugal de hoje vivido na periferia de um suspiro. e eu estendido sobre uma mesa quase adormecida recheada de livros e deveres deveras interessantes sem vontade de continuar e sorrindo à passagem das horas. Companheiro Campos de viagens ao mundo das funções quadráticas e exponenciais….companheiros de comentário, perdoem o perpétudo devaneio de uma abandalhada alma, aglutinada em escolástica…

  2. Queria dar uma prenda a uma amiga especial, que faz 103 anos…mas quando as amigas já estão tão fossilizadas como esta amiga está, não há prendas especiais que se possam oferecer. Nada é suficientemente especial para ser dado…nada do que se possa dar, nada que eu possa dar…
    …ou talvez haja. Um massajador facial pode-se dar. Um pedacinho da memória de outros tempos e outros dias. Não éramos mais felizes, então, creio. Tal como hoje, éramos nós. Noutros lugares, com outras pessoas, sem algumas outras, mas sempre com bigode. Em comum, para além de nós as duas, havia estas casas e a serra…e havia aquele sentimento que nós sabemos, e sabemos porque se sente na pele da rata, que dura para sempre…que vem de sempre. Há pedras quentes, não há??? Aquelas embrulhadas em pratinhas que eu levava para a escola e que me aqueciam as mãos e os tomates do Zé Luis nas manhãs frias do Inverno frio …é assim que vejo o que nos une, duradouro e quente como uma pedrinha embrulhada em prata e um chouriço rijo numas calças.
    Não te posso dar o Zé Luis…posso dar-te a nossa memória dele.
    Parabéns, comadre, amiga, cumplice…e o resto todo que só a gente sabe.
    Parece que gosto um bocadito de ti…sei lá, é cá uma impressão….
    Quando ouviste o trabalhar da prende até o olhinho abriste. Velha malandra!

  3. Ao fim de quase três anos, ela ainda me surpreende

    Parece que alguém pegou num texto meu e o publicou como comentário. Foi no blogue Aspirina B, e foi assinado por “Zé das Couves”. É a primeira vez que tal me acontece. Ora vejamos: não estou na blogosfera para saltar para a imprensa ou literatura, não escrevo aqui para fazer nome, muito menos coleccionar visitas. Talvez esteja para massajar um pouco o ego, admito, condenem-me, mas depois deixem-me continuar, massajando descontraidamente. É por todas essas razões que o que acaba de se passar me provoca um sorriso no rosto. Pelo meu desinteresse em ser um “autor” da blogosfera, é óbvio que o “Aspirina” pode manter o texto. Pelo egocentrismo, é bom saber que alguém se faz passar por nós.

    # posted by miguel : 21:32

  4. Ontem, tardiamente, andei por aqui e deixei uns pareceres. Ficaram registados.Hoje, para espanto meu, os pareceres tinham desaparecido, qual ave em tempo de Invernia…

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